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2024

pensar?

pensar. esse hábito antiquado, quase um desvio de conduta nos dias de hoje. lembro de um tempo em que refletir antes de abrir a boca era considerado uma virtude, uma qualidade mínima para evitar parecer um completo idiota. mas claro, esse tempo passou. agora, a regra é falar primeiro, pensar nunca, e se alguém te chamar de burro, gritar mais alto.

e eu? eu olho ao redor e só vejo um exército de idiotas com megafones, cada um mais convicto da própria estupidez do que o outro. antes, as pessoas pelo menos tinham um leve senso de vergonha quando falavam merda. um olhar desviado, uma risadinha nervosa, um “ah, foi mal, viajei aqui”. hoje? hoje não. hoje a ignorância vem sem freios, sem filtros, sem um mísero pingo de constrangimento. é um festival de absurdos proclamados com a confiança de um professor de harvard, só que sem o detalhe incômodo do conhecimento.

o mais fascinante é que ninguém quer saber a verdade. a verdade dói. a verdade incomoda. a verdade exige pensar. e pensar é cansativo. então pra quê? por que fazer esse esforço desnecessário quando se pode simplesmente repetir frases prontas, cuspir qualquer besteira e ainda sair como vencedor? porque é isso que se faz hoje: quem grita mais, ganha. quem questiona, perde.

eu entro num café e vejo alguém defendendo uma teoria absurda com a certeza absoluta de um messias. um imbecil qualquer, sem qualquer experiência, explicando para um médico como medicina funciona. um idiota com dois neurônios e um wi-fi discutindo ciência com um pesquisador que dedicou 30 anos da vida ao assunto. e o pior? ele sai da conversa convencido de que venceu. porque no mundo de hoje, ter opinião virou sinônimo de estar certo.

a ignorância virou uma escolha consciente, um clube exclusivo para quem rejeita o desconforto do conhecimento. antes, a gente chamava isso de burrice. agora, chamamos de “autenticidade”. um bando de adultos infantilizados, orgulhosos de saber menos do que deveriam, prontos para atacar qualquer um que ameace o frágil castelo de cartas de suas certezas vazias.

eu me sinto cada vez mais um dinossauro, um fóssil ambulante num mundo onde o cérebro é peça decorativa. não que eu me importe. eu ainda penso, ainda questiono, ainda me dou ao trabalho de enxergar nuances onde os outros só veem preto e branco. mas sei que isso me torna uma espécie em extinção. o mundo não quer pensadores. quer repetidores. quer gente dócil, previsível, manipulável. quer um cardume de peixes nadando na mesma direção, felizes e inconscientes, rumo ao anzol.

pensar morreu e ninguém nem apareceu no enterro. ninguém mandou flores, ninguém fez discurso emocionado, ninguém derramou uma lágrima sequer. porque pensar dá trabalho. exige esforço. exige encarar o fato incômodo de que talvez, só talvez, você esteja errado. e quem, em sã consciência, quer lidar com isso?

é muito mais fácil seguir o fluxo, repetir qualquer merda que aparece na tela do celular, absorver manchetes como se fossem evangelhos. virou um grande concurso de quem fala a maior estupidez com a maior convicção. e o pior? os competidores estão cada vez melhores. gente que nunca abriu um livro, nunca estudou um tema a fundo, nunca passou uma madrugada mergulhado em dúvida, mas fala como se fosse dono da verdade absoluta.

opinião virou moeda de troca. e não qualquer opinião… mas a mais barulhenta, a mais inflamável, a que rende mais cliques, mais compartilhamentos, mais treta. dane-se se é verdade. dane-se se tem base. dane-se se é uma completa aberração lógica. o importante é parecer que se tem razão. e nesse jogo, quanto mais ignorante, mais confiante. quanto menos se sabe, mais se grita.

desafiar a estupidez virou crime. apontar que alguém está falando besteira virou ataque pessoal. quem tenta argumentar é “arrogante”, “elitista”, “sabe-tudo”. o novo herói moderno é o burro teimoso, o ignorante que se recusa a aprender, aquele que bate no peito e grita: “essa é a minha opinião e ninguém muda isso!”. porque admitir que pode estar errado dói. e as pessoas hoje em dia têm alergia a qualquer coisa que cause o menor desconforto intelectual.

o mundo não pertence mais aos inteligentes, aos curiosos, aos que se dão ao trabalho de entender. pertence aos que berram mais alto, aos que repetem frases feitas sem questionar, aos que preferem a ignorância confortável à verdade incômoda. e assim seguimos, nessa procissão triunfal da burrice, cada um carregando sua tocha acesa de desinformação, felizes em sua certeza inabalável, rumo ao abismo.

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2024

aspirina

o mundo corporativo é uma grande máquina de lavar cérebros, um espetáculo cuidadosamente coreografado de acenos de cabeça e concordâncias forçadas, onde a autenticidade vai para morrer e a mediocridade veste terno e gravata. ninguém aqui quer a verdade. ninguém quer questionamentos. ninguém quer a pedra no sapato, o grão de areia na engrenagem, o sujeito que enxerga que por trás das palavras bonitas,sinergia, inovação, propósito, existe apenas um grande vazio embalado em powerpoints coloridos. e para garantir que você não veja isso, eles te dão a aspirina.

não a pílula literal, claro. mas algo muito pior: a anestesia comportamental, o condicionamento, a dose diária de conformidade disfarçada de “cultura organizacional”. eles te vendem a ilusão de pertencimento, te enfiam em dinâmicas de equipe forçadas, te convencem de que a meta absurda que te deram é, na verdade, uma “oportunidade de crescimento”. porque, veja bem, não basta apenas explorar seu tempo, sua paciência e sua sanidade, é preciso que você sorria enquanto isso acontece. é preciso que você engula tudo sem mastigar, sem questionar, sem perceber o quão doentio é se convencer de que um aumento de 3% ao ano é gratidão suficiente por ter sacrificado sua vida em reuniões intermináveis.

a aspirina está na forma como eles te ensinam a não questionar. a se calar quando o chefe diz algo estúpido. a engolir seco quando um incompetente é promovido enquanto você continua ali, apagando incêndios e recebendo palmadinhas nas costas. está no e-mail corporativo que chega às 22h, mas é acompanhado de um “só amanhã, sem pressa” que todo mundo sabe que é mentira. está nos feedbacks vagos, na gestão que se diz “horizontal” mas ainda obedece cegamente meia dúzia de engravatados que não fazem ideia do que você faz. a aspirina não serve para aliviar a dor. serve para te impedir de percebê-la.

e quem se recusa a tomá-la? ah, esse não dura. esse se torna o estranho. o “difícil de lidar”. o que “não tem espírito de equipe”. o que olha em volta e percebe que ninguém está realmente vivo ali dentro, apenas existindo, cumprindo tabela, marcando o ponto, aceitando tudo porque pensar na alternativa, que talvez tudo isso seja uma perda de tempo monumental, dá vertigem. e então, meu amigo, vem o momento decisivo: ou você engole a aspirina, silencia a voz na sua cabeça e aceita seu lugar no teatro, ou cospe fora, levanta e descobre o preço real de ver as coisas como elas são.

e esse preço não é barato. porque cuspir a aspirina, rejeitar a anestesia, significa ser expulso do clube. significa ver os olhares trocados quando você fala. significa receber aquele sorrisinho condescendente quando você questiona uma decisão absurda na reunião de equipe. significa que, cedo ou tarde, alguém vai te chamar para uma conversa “informal”… aquele papo amistoso, aquela “troca de ideias”, onde um chefe bem treinado vai, com a voz mais calma do mundo, te perguntar se está tudo bem, se você “está feliz aqui”. a tradução real disso? você está incomodando. você está estragando o jogo. você está se tornando um problema.

porque ninguém gosta do sujeito que enxerga a farsa. ninguém quer sentar ao lado dele no almoço. ninguém quer ser lembrado, o tempo todo, de que aquele entusiasmo forçado nas reuniões semanais é apenas um mecanismo de defesa para não enlouquecer. e é por isso que os que não tomam a aspirina acabam saindo… por conta própria ou empurrados para fora, disfarçadamente, como quem acena um adeus amigável a um colega que “optou por novos desafios” (porque ninguém nunca é demitido, ninguém nunca é sufocado até pedir para sair, eles só “seguem novos caminhos”, certo?).

e o que acontece com quem fica? eles dobram a dose. aceitam mais metas ridículas, participam de mais workshops vazios, decoram mais frases de efeito sobre “pensar fora da caixa” enquanto continuam perfeitamente encaixados na caixa que lhes deram. assistem, sem reação, à chegada de mais um chefe novo, mais um salvador corporativo que vai prometer revolução e entregar apenas mais reuniões. e seguem assim, cada vez mais imersos, cada vez mais incapazes de imaginar um mundo fora desse, até que um dia percebem que passaram 10, 15, 20 anos aqui dentro e que já não sabem mais quem eram antes disso tudo começar.

e no final? bom, no final a empresa manda um e-mail bonito quando você sai. um agradecimento protocolar. um convite para um café que nunca vai acontecer. um reconhecimento falso pelo tempo que você dedicou. e então, num piscar de olhos, o seu nome some do sistema, sua foto desaparece do organograma, e a cadeira onde você sentava já tem outro ocupante, mastigando a mesma aspirina, pronto para repetir o ciclo.

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2024

a divina comédia

ler a divina comédia hoje em dia é quase um ato de resistência. um gesto de pura teimosia intelectual em um mundo que se entrega à superficialidade com o entusiasmo de um turista embriagado em cancún. enquanto tudo ao redor se dissolve em tiktok de dez segundos e análises políticas do tamanho de um tweet, dante nos convida a uma jornada que exige paciência, estômago e um leve desprezo pela gratificação instantânea.

vamos ser honestos: poucos têm coragem. a maioria se contenta com resumos vagabundos ou alguma thread pretensiosa no twitter explicando como o inferno é só uma grande metáfora para a opressão do sistema. dante, coitado, se revira no túmulo toda vez que alguém reduz sua obra-prima a um post de instagram com uma citação mal traduzida.

mas eis o motivo pelo qual essa leitura é mais do que essencial hoje: vivemos tempos infernais. só que, ao contrário do inferno de dante, nosso submundo contemporâneo não tem estrutura, lógica ou uma hierarquia bem definida de punições. o que temos é um pandemônio caótico onde influencers vendem criptomoedas duvidosas enquanto políticos falam em nome de deus para justificar atrocidades. se dante vivesse hoje, o décimo círculo do inferno seria reservado para negacionistas, coachs motivacionais e vendedores de cursos online que prometem riqueza em três meses.

e o purgatório? bom, essa talvez seja a parte mais atual da obra. um lugar onde as almas penam para se livrar de seus pecados e evoluir espiritualmente. soa familiar? o purgatório é basicamente o que chamamos de “desconstrução” nos tempos modernos. uma jornada dolorosa, cheia de culpa e autoflagelação, onde todos tentam provar que são pessoas melhores do que foram ontem. só que, ao contrário do que dante imaginou, nossa sociedade não permite redenção de verdade… só linchamento público e cancelamento seletivo.

e por fim, o paraíso. será que ele ainda existe? ou será que o sonho de um mundo justo, belo e equilibrado foi sequestrado por gurus de autoajuda e palestrantes que dizem que a felicidade é só uma questão de mindset? se o inferno é caótico e o purgatório um tribunal moral perpétuo, talvez o paraíso moderno seja um condomínio fechado para os privilegiados, onde ninguém se preocupa com a fome, a desigualdade ou as catástrofes climáticas, desde que haja um bom sinal de wi-fi.

no fim, ler a divina comédia hoje é um exercício de sanidade. é um lembrete de que o mundo sempre foi cruel, absurdo e recheado de hipocrisia. dante nos deu um mapa do inferno, mas pelo menos nos deixou claro que o sofrimento pode ter poesia, que a jornada pode valer a pena e que, no final, talvez, só talvez, haja alguma luz esperando por nós. nem que seja só a luz de um abajur velho, enquanto terminamos o último canto e percebemos que, de todas as coisas infernais do nosso tempo, a pior delas é viver sem tentar entender um pouco mais.

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2024

cortesia

a cortesia. essa coisa empoeirada, ultrapassada, jogada num canto escuro junto com o respeito, a paciência e a capacidade de ouvir sem ficar esperando a sua vez de falar. nos dias de hoje, ser educado… educado de verdade, não essa gentileza performática de instagram, é quase um desvio de caráter. é estranho, suspeito. porque estamos cercados de gente que acredita que grosseria é autenticidade, que arrogância é sofisticação e que tratar os outros como figurantes é uma prerrogativa dos “vencedores”.

e aí entra essa fauna fascinante: os que usam o luxo como camuflagem. os que se enfeitam com grifes, jóias e relógios que custam o PIB de países pequenos, achando que isso os transforma automaticamente em seres superiores. os que viajam de primeira classe, mas tratam a comissária de bordo como se ela fosse uma máquina de servir champanhe. os que frequentam restaurantes estrelados não pelo prazer da comida, mas pelo prazer de olhar ao redor e saber que estão cercados apenas de “gente do mesmo nível”. essas pessoas não são sofisticadas. são fantasias ambulantes, personagens inseguros se agarrando a símbolos de status para esconder o fato de que, no fundo, não têm nada a oferecer além de um saldo bancário inflado.

e do outro lado, os verdadeiramente grandes. os que já viram de tudo, provaram de tudo, tiveram acesso a tudo e, justamente por isso, não precisam provar nada. os que seguram a porta para os outros, os que agradecem ao garçom pelo serviço, os que não tratam cortesia como um favor, mas como um reflexo do próprio caráter. porque eles entenderam uma coisa que os medíocres nunca vão entender: classe de verdade não é sobre o que você veste, onde você janta ou em que hotel você se hospeda, é sobre a maneira como você existe no mundo.

o que me leva ao ponto principal: se você precisa humilhar alguém para se sentir importante, você já perdeu. se seu valor depende do carro que você dirige, do champanhe que você ostenta ou da quantidade de zeros na sua conta, então parabéns, você é apenas mais um personagem previsível nesse teatro de egos frágeis. e se, além de tudo isso, você ainda acha que cortesia é sinal de fraqueza, então sinto muito, meu amigo, mas você falhou espetacularmente no teste mais básico da humanidade. e o pior? provavelmente vai morrer sem perceber.

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2024

o que aconteceu com o jornalismo?

o que aconteceu com as notícias? sério, me expliquem. porque o que as notícias costumavam ser, e aqui estou me referindo à era pré-internet, quando jornalistas ainda cheiravam a tinta de impressão e tinham orgulho de chamar o que faziam de “informação”, era direto, sem baboseira, sem floreios literários. algo aconteceu, algo explodiu, algo desabou, e lá estavam os fatos, entregues como um chute nos dentes. você não tinha que mastigar três parágrafos de poesia barata sobre o vento soprando no deserto antes de finalmente chegar ao que realmente importava: uma bomba explodiu. pessoas morreram. ponto final. mas agora? agora somos tratados como idiotas sentimentais que precisam de uma introdução melosa para digerir o óbvio.

quer um exemplo? pegue qualquer artigo do new york times. eu desafio você. cada história começa com uma cena cinematográfica. “em uma estrada rochosa no afeganistão, enquanto o sol cruel perfurava o horizonte…” ah, por favor. eu não ligo para o sol. me diga logo: o que aconteceu? uma bomba, certo? porque é disso que estamos falando. a bomba é a notícia. o resto? o resto é um teatro literário para um público que aparentemente não tem capacidade de lidar com fatos crus. e antes que você diga: “ah, mas as pessoas querem contexto”, vamos ser honestos. as pessoas não querem contexto. elas querem drama. querem um parágrafo que as faça sentir como se estivessem lá, com a poeira nos olhos e o cheiro de pólvora nas narinas. porque só o fato? só o fato não vende.

e aqui vem o soco no estômago: ninguém mais está interessado em fatos. fatos são entediantes. sabe o que vende? opiniões. não importa de quem. qualquer imbecil com um microfone ou uma conta no twitter pode dar sua opinião, e as pessoas vão comer aquilo como se fosse caviar. ligue a tv. vá em frente. o que você vai ver? uma fila interminável de “especialistas” debatendo, gritando, te dizendo o que você deve pensar. porque é isso que a maioria quer: um script para repetir como papagaio no próximo jantar em família. e aí você percebe que notícias, aquelas de verdade, imparciais, morreram. e nem tiveram direito a um obituário.

e quer saber o que mais me deixa com raiva? o falso engajamento. porque agora, além de vomitar opiniões em vez de fatos, os jornalistas querem saber o que você pensa. “nos diga sua opinião!” eles dizem. “aqui está nosso twitter! nos diga o que você acha!” sério? eu? o que diabos isso importa? não é pra isso que vocês estão aqui? vocês, os jornalistas, são pagos para investigar, para reportar, para trazer algo com substância. mas não, agora vocês querem minha opinião, como se isso fosse um reality show onde o público tem que votar. e sabe o que mais? a maior parte das pessoas não tem uma opinião. elas têm reflexos condicionados, regurgitando o que ouviram cinco minutos atrás naquele mesmo programa.

é patético. o que costumava ser um serviço público virou uma vitrine de egos, uma disputa de quem grita mais alto, um concurso de beleza intelectual. quer se informar? boa sorte. você vai ter que peneirar toneladas de lixo opinativo até encontrar um único fato, enterrado lá no meio, como uma relíquia arqueológica. na dúvida, vá direto para os obituários. pelo menos lá você ainda encontra a verdade: alguém morreu. não há como torcer isso em um debate. ainda.

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2024

uma mera criança

“uma mera criança.” ah, como eu amo esse termo. essa condescendência casual, essa superioridade mal disfarçada. como se a presença de uma criança fosse algo a ser tolerado, um inconveniente passageiro. deixe-me dizer uma coisa: se existe algo mais insuportável do que a ideia de “uma mera criança”, é um mero adulto. sabe do que estou falando. aquele ser humano cansado, previsível e lamentavelmente entediante. porque, ao contrário de uma criança, honesta, direta, e deliciosamente cruel, o adulto é um mestre da arte do fingimento. sorrisos falsos, opiniões recicladas, egos frágeis escondidos atrás de títulos e currículos. deus me livre.

crianças, por outro lado, são um espetáculo. caóticas? absolutamente. barulhentas? sem dúvida. mas pelo menos elas vivem sem medo de serem elas mesmas. uma criança vai olhar para você e dizer que seu cabelo está ridículo. vai perguntar por que você está sempre tão cansado ou por que sua comida “cheira estranho”. e sabe o que é isso? verdade. crua, direta, libertadora. enquanto isso, um adulto provavelmente diria algo do tipo: “uau, você parece… bem!”, o que, traduzindo, significa: “você está um desastre ambulante, mas eu não tenho coragem de admitir.”

a companhia de uma criança tem algo de purificante, como um banho gelado depois de horas no calor sufocante da mediocridade adulta. as perguntas delas, por mais absurdas que pareçam, têm mais profundidade e curiosidade genuína do que qualquer conversa que já tive em um coquetel corporativo. “por que o céu é azul?”, “os peixes dormem?”, “você acredita em dinossauros?”, são perguntas de quem ainda não desistiu de questionar o mundo. agora compare isso com um adulto, que provavelmente vai querer te contar sobre o novo regime de low carb que ele está seguindo ou como ele finalmente encontrou a cafeteira perfeita. me mate agora, por favor.

então, quando alguém tenta desdenhar, soltando um “é só uma mera criança”, tudo que consigo pensar é: e você, adulto? o que exatamente você está trazendo para a mesa? um arsenal de clichês, inseguranças e papos furados? por favor. se me derem a escolha entre a brutalidade sincera de uma criança e o peso morto emocional de um adulto, vou escolher a criança. todos os dias. sem hesitar.

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2024

microgerenciamento

eu aprendi a odiar microgerenciamento da pior maneira possível: sendo vítima dele. e, em um momento de pura hipocrisia, também sendo o carrasco. sim, eu já fui aquele babaca que achava que sabia melhor que todo mundo, que acreditava que, se eu não estivesse no controle, tudo iria desmoronar. spoiler: tudo desmoronou mesmo. e eu mereci cada pedaço desse colapso.

quando você é microgerenciado, é como se alguém estivesse o tempo todo cutucando sua costela com um garfo. você não consegue respirar, não consegue pensar, não consegue fazer nada sem que alguém esteja ali, em cima de você, dizendo como você deveria fazer. e o pior? você começa a acreditar que talvez eles estejam certos. talvez você seja realmente incompetente. talvez você precise de alguém para te dizer como respirar, como andar, como existir. é uma merda. e eu sei disso porque já estive dos dois lados dessa equação podre.

mas vamos falar sobre quando você é o microgerenciador. ah, sim, eu já fui esse cara. eu já fui aquele chefe insuportável que achava que sabia tudo, que acreditava que, se eu não estivesse no controle, o mundo iria acabar. e adivinha? o mundo não acabou. mas a minha sanidade quase foi pro saco. porque microgerenciar não é só desgastante, é também incrivelmente ineficiente. você gasta tanto tempo tentando controlar cada detalhe que acaba perdendo o foco no que realmente importa. e, no final, tudo desmorona, porque sempre desmorona, e você fica lá, olhando para o caos que criou, se perguntando: “onde foi que eu errei?”

a resposta é simples: você errou em achar que poderia controlar tudo. porque a verdade é que você não pode. ninguém pode. a vida é caótica, imprevisível e cheia de variáveis que estão completamente fora do seu controle. e tentar microgerenciar é como tentar domar um furacão com uma rede de pesca. não só é impossível, mas também te deixa com a sensação de que você é um completo idiota por ter tentado.

e, no entanto, nós continuamos tentando. porque, no fundo, nós somos criaturas de hábitos, e microgerenciar é um hábito difícil de quebrar. é como fumar, só que pior, porque em vez de destruir só o seu pulmão, você destrói também a paciência de todo mundo ao seu redor. mas, ei, pelo menos você pode dizer que tentou, certo? ou melhor, que falhou gloriosamente. e no fim das contas, não é disso que a vida se trata? falhar, aprender na dor e, com sorte, não repetir o mesmo erro no dia seguinte.

então, aqui vai o meu conselho, vindo de alguém que já foi microgerenciado e já tentou microgerenciar: não faça isso. não seja aquele chefe chato, aquele colega insuportável, aquele controlador de merda. confie nas pessoas ao seu redor. delegue. deixe as coisas fluírem. porque, no final do dia, o mundo não vai acabar se algo der errado. e, se acabar, bem, pelo menos você não vai ser o único culpado.

e se você ainda está pensando em microgerenciar, aqui vai um exercício mental: imagine que você está em um bar, tomando uma cerveja gelada, e alguém chega do seu lado e começa a te dizer exatamente como você deve beber. “não beba tão rápido!” “cuidado com o golinho!” “não esquece de olhar a espuma!” como você se sentiria? provavelmente, você mandaria essa pessoa ir tomar no cu. e, no entanto, é exatamente isso que você faz quando microgerencia. você é aquele cara chato do bar, só que no ambiente de trabalho. e, acredite, ninguém gosta daquele cara chato do bar.

então, pare. respire. solte as rédeas. porque, no final das contas, a vida é muito curta para ser gasta tentando controlar cada mínimo detalhe. e, se você ainda não aprendeu isso, bem, talvez você precise de mais algumas doses de dor para entender. mas, ei, pelo menos você vai ter uma boa história para contar. ou, pelo menos, uma desculpa para tomar mais uma dose daquela bebida forte que você tanto gosta.

bon appétit, meu amigo. e boa sorte. você vai precisar.

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2024

segredo da vida

ah, o segredo da vida. sempre tem alguém tentando empacotar isso numa frase bonita de almanaque, como se a vida fosse uma aula de meditação guiada ou uma planilha do excel. mas quer saber? o segredo da vida é ridiculamente simples: desperdiçar o seu tempo da maneira que você gosta. é isso. não é um destino, não é uma missão, nem sequer um plano. é só isso. um desperdício. glorioso, delicioso, egoísta, totalmente seu.

veja bem, eu não estou falando de “carpe diem” ou de fazer cada segundo contar. não estou falando de produtividade disfarçada de filosofia de vida. estou falando de se entregar ao inútil. o profundamente inútil. aquele tipo de passatempo que faria qualquer coach de produtividade ranger os dentes de ódio. passar uma tarde inteira cozinhando algo que pode dar errado. ficar horas olhando o mar sem escrever uma única linha no seu diário porque, adivinhe só, você não tem um diário. perder horas num bar qualquer conversando com um desconhecido sobre absolutamente nada. isso é viver. o resto é power point.

e eu sei, vai aparecer aquele amigo que sempre tem uma opinião não solicitada, falando que “tempo é dinheiro” ou que você deveria estar “investindo em si mesmo”. por favor. como se a vida fosse uma startup e eu estivesse na busca infinita por capital emocional. meu tempo não é dinheiro. meu tempo é meu. e eu vou gastá-lo como quiser, mesmo que isso signifique ficar sentado, bebendo vinho barato e ouvindo a mesma música dez vezes seguidas.

porque, no fim das contas, viver não é sobre colecionar conquistas ou dar sentido a tudo. às vezes, é só sobre gastar tempo de um jeito que faz você sorrir. o resto é marketing.

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2024

vivendo no limite

eu estava voltando de nova york quando assisti vivendo no limite, e honestamente, não poderia haver filme mais apropriado para encerrar aquela experiência. ali estava eu, exausto, meio irritado, ainda com o cheiro da cidade impregnado em mim, aquela mistura de comida de rua, lixo úmido e asfalto quente. meu corpo já estava no avião, mas minha cabeça ainda estava lá, naquela bagunça incessante de vozes e luzes. e aí, entra scorsese, como quem diz: “deixa eu te mostrar o que você realmente viu”.

porque vivendo no limite não é só um filme, é como a ressaca emocional de nova york colocada em celuloide. frank pierce, o paramédico desgraçado vivido pelo cage, era como uma extensão do que eu sentia. ele não dorme, não pensa direito, só reage, é empurrado por uma cidade que nunca desliga, que nunca deixa ninguém respirar. nova york tem esse talento especial de te sugar a energia e ainda assim te viciar nela. e vendo frank correndo por aquelas ruas, eu conseguia quase sentir o peso da mochila, o cheiro de sangue, o desespero de quem só quer um momento de silêncio, mas não consegue desligar o ruído interno.

o que realmente me pegou foi como aquele caos parecia, de algum jeito, fazer sentido depois de dias na cidade. sabe quando você caminha por horas, passa por milhares de rostos, histórias, tragédias que nem são suas, mas que, de alguma forma, você carrega mesmo assim? é isso que frank vive, e é isso que nova york faz com você. te joga no meio do turbilhão e te desafia a encontrar qualquer coisa remotamente parecida com paz. no fundo, talvez seja isso que faz a cidade ser tão fascinante.

e assistindo ao filme, com aquela trilha sonora melancólica e os flashes de neon passando pela janela da ambulância, foi impossível não conectar. as sirenes do filme me lembravam as sirenes que ouvi nas noites lá, cortando o ar pesado. o cansaço nos olhos de frank era o mesmo cansaço que via nas pessoas ao meu redor, nos garçons, nos motoristas de táxi, até mesmo nos turistas que estavam claramente fingindo que ainda estavam se divertindo.

assistir vivendo no limite no voo de volta não foi sobre encontrar respostas ou um senso de “significado” naquela bagunça toda. foi sobre reconhecer o caos e, de certa forma, fazer as pazes com ele. porque, na real, nova york não se importa com você. nem o filme. nem scorsese. nem frank pierce. e é aí que está a beleza disso tudo: nada disso precisa fazer sentido.

saí do avião com a sensação de que havia sobrevivido a alguma coisa. como frank saindo de mais um turno, sem dormir, sem pensar, só sobrevivendo. não foi um sentimento de alívio ou conquista, foi mais como uma aceitação de que o mundo é isso mesmo: barulhento, confuso, exaustivo. mas, por algum motivo, você continua. não porque espera alguma recompensa divina, mas porque, de alguma forma, é tudo o que dá para fazer.

talvez seja por isso que vivendo no limite bateu tão forte. porque, no final, frank não é um herói. ele não se redime. ele só continua. e naquela cabine apertada do avião, com as luzes fracas e o ronco de algum idiota na poltrona da frente, percebi que eu também só estava continuando. não porque a vida é linda, mas porque a bagunça, o cansaço, o barulho, tudo isso, de alguma forma, é a prova de que ainda estamos vivos. e, às vezes, isso é o suficiente.

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2024

guia definitivo contra babacas

ser crédulo é quase um rito de passagem. você começa a vida confiando que o mundo é feito de gente que sabe o que está fazendo. acredita nas certezas ditas com autoridade, nos conselhos mastigados e cuspidos como se fossem a bíblia. “beba dois litros de água por dia e sua vida será perfeita”, “ninguém falha se trabalhar duro”, “é só acreditar em si mesmo que o universo conspira”. parece fácil. parece lógico. e você engole. porque, no fundo, é mais confortável acreditar que existe um manual, que alguém já desvendou o quebra-cabeça e tá te entregando as respostas de graça.

o problema é que o tempo passa, a conta não fecha e as “verdades” começam a feder. você percebe que a maioria dessas máximas vem de gente que ou nunca testou o que prega ou, pior, testou, fracassou e agora tá só inventando desculpa pra não lidar com a própria mediocridade. esses babacas adoram ouvir o som da própria voz. aquele cara que tem opinião sobre tudo, que tá sempre pronto pra te explicar como a vida funciona, mas que nunca conseguiu resolver os próprios problemas. ele usa palavras como se fossem armas e joga verdades como se fossem granadas, sem nunca olhar no espelho pra ver o quanto tá perdido.

é aí que o filtro começa a nascer. não é algo que você decide conscientemente, mas uma defesa natural. você aprende a detectar o tom, aquele tom de quem fala como se tivesse descoberto o sentido da vida numa xícara de café frio. começa a notar os padrões: a confiança desproporcional, as frases feitas, as generalizações. o filtro é o resultado de anos ouvindo discursos vazios de pessoas que se levam a sério demais.

mas não é só sobre perceber o quão babacas os outros podem ser. é também sobre perceber o quão babaca você já foi por acreditar neles. porque, sejamos honestos, tem algo de confortável em seguir regras alheias. é fácil deixar alguém te dizer o que fazer. difícil é admitir que você tá sozinho nesse caos, sem guia, sem manual, sem resposta pronta. o filtro, então, não é só uma barreira contra a estupidez dos outros. é também um lembrete de que você tem que pensar por si mesmo. e pensar por si mesmo é, no mínimo, assustador.

o ser babaca que insiste em gritar certezas existe porque a insegurança de admitir a própria ignorância é insuportável pra maioria das pessoas. ninguém quer ser o cara que diz “eu não sei”. ninguém quer se olhar no espelho e ver um idiota confuso encarando de volta. é muito mais fácil vestir o figurino de especialista, dar conselhos não solicitados e se sentir superior por cinco minutos. porque, no fundo, eles também estão perdidos, mas ao invés de lidar com isso, preferem fingir que têm as respostas. o filtro é o que te permite enxergar isso: que a maioria das pessoas tá só fingindo. e que, às vezes, você também tá.

então, quando alguém aparece com mais uma dessas pérolas universais, eu escuto. mas escuto como quem vê um mágico de rua tirando moedas da orelha. sei que tem truque. sei que tem ilusão. e sei que, no final, não tem nada ali além de fumaça e reflexos. o filtro me protege, mas também me lembra que a única coisa que faz sentido nessa bagunça é aprender a conviver com o fato de que ninguém sabe absolutamente nada.