não foi uma decisão planejada, nem uma grande epifania. um dia, simplesmente, percebi que os tênis que usava todos os dias não faziam mais sentido. olhei pra eles – aqueles pedaços de espuma e tecido, gastando o último resquício de dignidade – e senti uma mistura de tédio e vergonha. tênis são fáceis, convenientes, leves… e absolutamente desprovidos de qualquer personalidade. percebi que tava andando por aí com algo que poderia ser de qualquer um. genérico, previsível, descartável. era como estar preso numa dieta de nuggets congelados e achar que tava tudo bem. foi aí que abandonei os tênis e comecei a viver de botas de couro.
botas são outra coisa. são peso, compromisso, uma declaração silenciosa de que você não tá aqui pra brincar. elas não gritam tendências, não tentam ser o sapato do momento. botas são feitas pra durar, e, nesse mundo onde tudo é projetado pra quebrar, isso já é quase um ato de rebeldia. um tênis novo é o melhor que ele vai ser. o couro de uma bota, por outro lado, só fica mais interessante com o tempo. a cada arranhão, a cada dobra, ela carrega mais de você. é como um diário nos pés – cada marca uma história, cada vinca um lugar por onde você passou. tênis? tênis morrem jovens, anônimos, sem deixar nenhum legado.
e tem a durabilidade. vamos ser honestos, tênis não foram feitos pra durar. foram feitos pra vender. usou algumas vezes? solado descolando. pegou um pouco de chuva? o tecido já tá parecendo um guardanapo molhado. botas, por outro lado, encaram qualquer coisa. lama, chuva, pedra, poeira. não importa. elas são feitas pra resistir. botas não pedem permissão pra existir. não imploram cuidado. elas só seguem, firmes, enquanto o mundo ao redor tenta desmoronar.
e sabe o que é melhor? botas funcionam em qualquer lugar. enquanto tênis precisam de desculpas – “ah, é só pra academia”, “é só pra um passeio rápido” – as botas vão com você pra qualquer lugar. elas não se intimidam. podem pisar na terra, atravessar uma cidade inteira, entrar numa reunião, ou até caminhar pela calçada sem parecer que você tá indo pra uma corrida que nunca vai acontecer. elas têm essa versatilidade que só vem de algo atemporal. não precisam de validação. não precisam de você justificando.
hoje, meus tênis estão relegados ao que realmente foram feitos pra fazer: aparecer na academia, quando eu decido fingir que ainda me importo com aquilo. fora isso? nem pensar. minhas botas de couro tomaram o lugar que sempre foi delas. não só porque duram mais, ou porque carregam história, mas porque elas simplesmente fazem mais sentido. são sólidas, confiáveis, e não precisam de espuma ou marketing pra provar isso. elas não só aguentam o mundo – elas enfrentam ele. e, usando elas, eu também.
o mundo corporativo é a maior piada mal contada do nosso tempo. uma ópera de mediocridade cheia de gente que finge que sabe o que está fazendo enquanto troca e-mails com palavras como “alinhamento”, “sinergia” e “pivotar”. mas a verdadeira comédia – o humor negro que só quem já viveu esse inferno refrigerado entende – é que todo mundo ali está fingindo. ninguém, absolutamente ninguém, tem ideia do que está fazendo.
primeiro, você precisa passar pela humilhação pública conhecida como entrevista de emprego. ah, o teatro de desespero. você veste sua roupa mais desconfortável, decora frases feitas sobre “trabalho em equipe” e “adaptação a novos desafios” e entra na sala com aquele sorriso que grita “eu faço qualquer coisa por um salário fixo”. o entrevistador? ele está ali pra julgar cada vírgula que você diz enquanto pergunta coisas como “qual sua maior fraqueza?”. eu deveria ter respondido “essa entrevista”, mas claro, falei algo genérico como “sou perfeccionista demais”. todo mundo fala isso. eles sabem que é mentira, mas escrevem no caderninho mesmo assim.
e quando você finalmente consegue o emprego, é como abrir a porta do paraíso… e descobrir que é só mais um cubículo com cheiro de café velho e desodorante vencido. eles te entregam um computador que parece um pedaço de sucata e um crachá com sua foto tirada no pior ângulo possível. “bem-vindo à equipe!”, dizem, enquanto você tenta entender como o sistema interno da empresa ainda funciona no windows xp.
o primeiro dia é sempre uma obra-prima do caos. ninguém sabe direito o que você deveria estar fazendo, então jogam você no “treinamento de integração”. basicamente, é um powerpoint com 157 slides sobre a “missão” e “valores” da empresa – que ninguém na sala segue, mas que todo mundo finge acreditar. “aqui valorizamos o bem-estar dos funcionários”, eles dizem, enquanto te empurram metas impossíveis e uma vaga sensação de que você nunca vai sair daquele lugar vivo.
e aí vem o dia a dia. sabe o que significa trabalhar numa empresa? reuniões. um tsunami de reuniões. elas acontecem de manhã, à tarde, às vezes até no horário de almoço – porque, claro, ninguém precisa comer, certo? e todas são igualmente inúteis. uma vez, passei 90 minutos numa reunião sobre como otimizar o uso do papel toalha no banheiro do escritório. eu saí mais burro do que entrei, mas, aparentemente, a empresa economizou R$ 7,35 no mês seguinte.
e não vamos esquecer os e-mails. eles começam inocentes: “bom dia, equipe, segue o relatório.” mas logo você descobre que o inferno tem uma caixa de entrada. tem sempre um colega que responde a tudo com “obrigado” – só pra mostrar que ele leu, mesmo que ninguém tenha perguntado. ou o chefe que adora copiar todo mundo em mensagens que deveriam ser privadas. nada como receber um e-mail às 22h com o assunto “urgente”, só pra abrir e descobrir que era sobre a cor da apresentação da próxima reunião.
e claro, tem o famigerado happy hour. o único momento em que todos os funcionários são obrigados a fingir que gostam uns dos outros fora do horário de trabalho. a empresa paga a primeira rodada, depois é cada um por si. o chefe tenta ser “descolado”, pedindo caipirinha e fazendo piadas que ninguém acha engraçadas. tem sempre um que bebe demais e fala coisas que deveria guardar pra terapia, e no dia seguinte todo mundo finge que nada aconteceu.
mas o grande show é a avaliação de desempenho. eles dizem que é pra “reconhecer seu esforço” e “ajudar no seu desenvolvimento profissional”. mentira. é uma desculpa pra te dizer que você trabalha bem, mas não o suficiente pra receber um aumento. “você está indo muito bem, mas queremos ver mais liderança da sua parte.” liderança? eu mal consigo liderar minha vida pessoal, e agora tenho que liderar o quê?
e no meio disso tudo, tem o mito da meritocracia. a ideia de que, se você trabalhar mais, será recompensado. aham, claro. sabe quem é promovido? o cara que entrega o café pro chefe, ri das piadas mais sem graça e sempre concorda com tudo. já vi pessoas brilhantes passarem anos apagando incêndios enquanto o puxa-saco da sala ao lado recebia um cargo novo e uma sala com vista.
o mundo corporativo também adora criar ilusões. como a ideia de que trabalhar muito é sinônimo de sucesso. é por isso que tem gente mandando e-mails às 2h da manhã ou entrando no escritório aos sábados. eles não estão sendo produtivos. eles estão sendo vistos. porque, no fim das contas, o mundo corporativo é só isso: um desfile de vaidades onde a aparência de eficiência vale mais do que o trabalho real.
mas o pior de tudo é que a gente se acostuma. o café horrível, as piadas sem graça, o chefe que fala sobre “pensar fora da caixa” enquanto só aceita ideias seguras. tudo isso vira rotina. e antes que você perceba, está contando os dias pra sexta-feira e rezando pra próxima demissão ser voluntária.
o mundo corporativo não é feito pra ser suportado. é feito pra te drenar, te desgastar e, no final, te convencer de que tudo valeu a pena porque você tem um plano odontológico que cobre metade do tratamento. mas, ei, pelo menos tem bolo no seu aniversário. seco, de abacaxi com creme, mas ainda assim, um bolo.
ok, vamos realmente descascar essa cebola apodrecida que é a obsessão moderna por produtividade. esse culto ao “faça mais, seja mais, alcance mais” que transformou até as horas de sono em uma maldita competição. porque claro, dormir 8 horas como um ser humano normal agora é coisa de fracassado. o mantra é “trabalhe enquanto eles dormem”. aham, claro. trabalhe até a exaustão, vire um zumbi funcional, mas lembre-se de usar um aplicativo de mindfulness no intervalo entre uma reunião inútil e outra para fingir que está tudo sob controle.
e o mais insuportável é essa propaganda de que ser produtivo é o ápice da realização pessoal. como se a vida fosse uma corrida interminável onde o prêmio é o direito de postar no linkedin que você “superou todas as metas do trimestre”. e aí vem o famigerado guru de internet — aquele mesmo que vende ebooks e cursos sobre “como ser a melhor versão de si mesmo”. eles te convencem de que a vida perfeita começa com um banho gelado às 5 da manhã, seguido por 30 minutos de yoga, um suco verde que parece vômito de alface e um diário de gratidão que você escreve só para provar que está se esforçando para ser grato por essa prisão autoimposta.
mas vamos encarar a verdade: ninguém sabe por que estamos nessa corrida. dinheiro? status? medo de ficar para trás? ou é só que ninguém quer encarar a realidade nua e crua de que talvez a vida seja, no fundo, incrivelmente banal? sim, banal. com sorte, você vai comer algo decente, ter um bom sexo ocasional, e passar as noites vendo reprises de uma série que perdeu a graça depois da terceira temporada. mas admitir isso seria blasfêmia no reino da alta performance. então você finge. finge que aquele planner caro vai mudar sua vida, finge que ler mais um livro de autoajuda vai finalmente “desbloquear seu potencial”. spoiler: não vai.
e sabe o que é pior? toda essa ladainha da produtividade só te deixa mais ansioso. no final do dia, você não está mais rico, mais feliz ou mais satisfeito. está exausto, paranoico e com a sensação persistente de que não fez o suficiente. porque o suficiente não existe. é uma cenoura pendurada na sua frente, mas o bastão é infinito. e é aí que entra a grande verdade que ninguém quer admitir: às vezes, a coisa mais produtiva que você pode fazer é absolutamente nada. ficar na cama até tarde, comer uma porcaria qualquer, assistir um filme idiota e não mover um músculo a mais do que o necessário. isso não vai te fazer mais rico, mais magro ou mais influente no instagram, mas, adivinha só? também não vai te matar.
então aqui está meu conselho: esqueça o banho gelado. desligue o alarme das 5 da manhã. deixe o planner pegar poeira. sente-se, respire e aprecie o glorioso nada. porque, no final das contas, a produtividade nunca vai preencher o vazio. e talvez, só talvez, o vazio seja exatamente onde você precisa estar.
essas coisas não são só objetos. são pedaços de quem sou, da minha rotina, das escolhas que faço todos os dias. a quintessência não é só o que funciona – é o que fica. o que resiste ao tempo, às mudanças, e às minhas tentativas de me livrar de tudo que não importa.
1. mochila ou sling bag de couro a mochila é onde tudo começa. couro preto, grosso, com marcas que não estão ali pra contar histórias – elas só existem, como cicatrizes de alguém que sobreviveu sem se gabar disso. ela já carregou tudo: cadernos que eu juro que vou preencher, cabos que nunca vou usar, roupas que sempre parecem erradas pra ocasião. já foi jogada em esteiras de aeroporto e atirada no chão de cafés lotados, mas nunca falhou comigo. é prática, pesada, e irritantemente indispensável. a sling bag, por outro lado, é minimalismo forçado. só o necessário: caderno, canivete, fones, talvez um isqueiro. quando eu não quero parecer alguém que está fugindo de casa, é ela quem vai comigo. pequena, discreta, e mais útil do que eu gostaria de admitir.
2. canivete suíço o canivete não é heroico, e é exatamente isso que eu gosto nele. ele não vai salvar ninguém, mas já me salvou de algumas situações irritantes – abrir pacotes selados como se fossem um cofre do banco central, cortar pedaços de barbante que teimam em fazer minha paciência parecer insuficiente, ou abrir tampas e lacres que foram projetados por sádicos. ele não é imponente, mas está sempre lá, pronto pra resolver o tipo de problema que você não espera, mas que sempre aparece.
3. isqueiro não precisa ser um zippo. não precisa ser bonito. só precisa funcionar – e o meu sempre funciona. nunca fumei, mas carrego porque, de alguma forma, um isqueiro é como um amuleto: um pequeno lembrete de que você pode criar algo do nada. ele já acendeu velas em noites que não mereciam ser lembradas, ressuscitou fogueiras que duraram menos do que deveriam, e, uma vez, foi usado pra selar a ponta de um fio que insistia em desfiar. ele não pede nada, mas entrega sempre. isso é quintessência.
4. botas de couro são minha aquisição mais recente. depois de anos usando tênis – leves, confortáveis, práticos, mas completamente sem alma – percebi que algo estava errado. tênis são passageiros, descartáveis, projetados pra serem substituídos antes mesmo de você se apegar. as botas, por outro lado, são o oposto: pesadas, resistentes, cheias de caráter. cada arranhão, cada marca, é um lembrete de que elas estão comigo, não contra mim. já enfrentaram calçadas rachadas, pisos molhados e aquele tipo de sujeira que só parece existir em aeroportos. abandonei os tênis porque, sinceramente, queria algo que durasse – algo que envelhecesse comigo, em vez de ser jogado fora na próxima estação.
5. caderno de capa dura não é um espaço para poemas ou pensamentos brilhantes – e é exatamente por isso que gosto dele. meu caderno é preenchido com listas que nunca completo, ideias que perdem o sentido antes de virarem algo real, e rabiscos que eu provavelmente fiz só pra matar o tempo. ele está ali, esperando. é o tipo de coisa que não exige nada de você, mas está sempre disponível quando o caos precisa ser colocado no papel.
6. caneta tinteiro ela mancha os dedos, a mochila, e uma vez quase arruinou meu bolso. e ainda assim, é indispensável. escrever com uma caneta tinteiro é um exercício de atenção. ela te obriga a pensar antes de agir, porque tinta não perdoa erros. é imperfeita, teimosa, mas de alguma forma transforma até uma lista de supermercado em algo que parece ter importância.
7. ipod classic + fone original ainda uso um ipod porque, francamente, ele faz o que precisa e só isso. ele não tenta me vender nada, não me interrompe com anúncios ou notificações, e nunca me força a atualizar algo que já funciona. os fones originais? são ruins, mas têm alma. ouvir música no ipod é como revisitar uma época em que as coisas eram simples, imperfeitas e, de alguma forma, melhores.
8. óculos escuros de acetato/grau eles não são só óculos – são uma barreira. sofro de fobia social, aquela sensação desconfortável de que o mundo está te olhando mais do que deveria. os óculos escuros me protegem disso. eles deixam o mundo mais distante, mais tolerável. colocá-los é como dizer: “hoje não, mundo. tente amanhã.” não saio de casa sem eles porque, sem eles, o mundo parece maior do que realmente é.
9. relógio mecânico é um velho Rolex da década de 50. ele atrasa. todo santo dia. precisa de corda, como uma criatura teimosa que exige atenção pra continuar funcionando. e, ainda assim, ele é perfeito. ele não vibra, não manda notificações, não tenta competir com o meu smartphone. é só um tique-taque constante, um lembrete de que o tempo não para, mesmo quando você esquece de cuidar dele.
10. smartphone do momento não sou fã de nenhuma marca. um dia é apple, no outro android – o que estiver funcionando no momento. troco de smartphone como quem troca de humor: rapidamente, sem muita explicação. mas ele está sempre lá, porque, no fim, você precisa de algo que conecte você ao mundo – mesmo que seja só pra te lembrar de que o mundo está muito ocupado pra te notar.
11. carteira de couro da goyard não é de uma marca qualquer, e nem daquelas óbvias que vêm à cabeça quando você pensa em luxo. é uma carteira da goyard, um presente que recebi da própria marca em uma visita de trabalho à sede deles. ela é elegante sem gritar, funcional sem ser monótona. já guarda meus cartões há mais de 10 anos – e, honestamente, vai continuar comigo enquanto durar.
12. airpods pro gen 1 não são os melhores, mas fazem o trabalho. bloqueiam o mundo lá fora, abafam as conversas que eu prefiro não ouvir, e deixam a música ser a única coisa que importa. é isso ou lidar com o caos em volta, e, sinceramente, sei qual das duas opções prefiro.
13. fujifilm x100f ela passa facilmente por uma câmera de filme – o que só aumenta seu charme. não é nova, mas não precisa ser. a fujifilm x100f é como uma velha amiga: confiável, discreta, mas com o poder de transformar algo completamente banal em uma história que vale a pena contar. cada clique é um lembrete de que, mesmo quando tudo parece igual, há sempre uma nova maneira de enxergar o mundo.
ninguém te conta que quando seu filho está prestes a fazer 4 anos, você não tem mais um bebê — você tem um ser humano com opiniões, argumentos e um radar infalível para todas as suas fraquezas. ele sabe exatamente quando te pedir algo, como te desarmar com um sorriso torto e a frase “mas, papai, eu te amo tanto”. e pronto: você se tornou a marionete de um pequeno mestre da manipulação emocional.
ninguém te prepara para a fase dos “porquês”. você achou que sabia algumas coisas sobre a vida, né? achou errado. “por que o céu é azul?” você até tenta responder. mas aí vem: “e por que as nuvens não caem?” ou “por que eu não posso comer sorvete no café da manhã?” você percebe, no terceiro “por quê?”, que está perdido. você não é tão esperto quanto pensava. e ele sabe disso.
ninguém te conta que as birras ficam mais sofisticadas. antes era só choro e gritaria. agora é drama shakespeareano, com diálogos cheios de emoção e pausas dramáticas. ele não quer só um brinquedo. ele precisa do brinquedo porque o mundo depende disso. você assiste à performance com uma mistura de exaustão e admiração. esse pequeno lunático pode ser um gênio do teatro.
ninguém te avisa que, ao mesmo tempo, ele vai começar a ter flashes de uma sabedoria que te desmonta. ele solta uma frase como: “papai, eu acho que você está triste porque o dia foi muito difícil. quer brincar comigo para melhorar?” e você fica ali, com o coração partido e remendado ao mesmo tempo, pensando: “como ele sabe? como ele entende?”
ninguém te diz que as pequenas coisas vão começar a parecer enormes. um desenho rabiscado numa folha de papel vira uma obra-prima digna do louvre. a forma como ele conta uma história, misturando fatos e fantasia, faz você repensar o conceito de narrativa. e quando ele pronuncia alguma palavra errada — como “calabeta” para cabriolé ou algo assim — você secretamente torce para ele nunca corrigir.
ninguém te conta que, aos quase 4 anos, ele vai olhar pra você e dizer que você é o melhor pai do mundo. e mesmo sabendo que, no fundo, ele só está tentando garantir aquele sorvete depois do jantar, você acredita. porque no universo dele, por mais caótico que seja, você realmente é. e é isso que ninguém te conta: que, no meio do cansaço, das dúvidas, das perguntas sem fim e dos pequenos dramas diários, ser o melhor pai do mundo para ele é a coisa mais importante que você já foi.
jonestown massacre. claro que é a minha banda favorita. e por que não seria? eles não têm a menor intenção de te conquistar, muito menos de te agradar. e é exatamente isso que me atrai. eles são a essência do “que se dane” transformada em som, a banda que nunca quis ser nada além de uma expressão desleixada de caos e autenticidade. eles não estão interessados no seu respeito ou na sua aprovação. eles mal parecem interessados neles mesmos. é como se cada faixa fosse cuspida no mundo com a preguiça amarga de quem sabe que a humanidade já fracassou e a música, na melhor das hipóteses, é só mais um grão de areia no deserto. e isso, meu amigo, é o que os torna tão insuportavelmente bons.
e aí vem “anemone”, essa obra-prima desgrenhada de 1996. se você não conhece, é melhor nem ouvir. porque não é uma música pra qualquer um. não é uma daquelas canções fáceis que você coloca no carro enquanto vai ao supermercado. “anemone” exige algo de você. ela te desafia a ouvir, a sentir, a encarar. é como um quarto enfumaçado onde você sabe que não deveria entrar, mas algo – curiosidade, autodestruição, talvez só desespero – te puxa pra dentro. e quando você está lá, a música começa. devagar, preguiçosa, como alguém que acabou de acordar de um sonho ruim e ainda não decidiu se vale a pena levantar. aquele riff de guitarra em reverb? é uma lâmina fina cortando o silêncio, lenta o suficiente pra você sentir cada milímetro. os vocais? eles não te chamam, não te convidam. eles simplesmente existem. uma voz soterrada, cansada, que não tá nem aí se você está ouvindo ou não.
e aí está o gênio da coisa. “anemone” não precisa de você. não tá tentando ser trilha sonora da sua vida, nem te confortar no meio do seu melodrama pessoal. ela é maior do que isso. é um lembrete cruel e indiferente de que o mundo segue em frente, com ou sem você. a dor, a solidão, a bagunça – tudo isso é tão normal quanto o nascer do sol. e, ao mesmo tempo, há algo incrivelmente bonito nisso. porque a música não é só sobre desistir; é sobre encontrar beleza no lugar mais improvável. é o som de alguém que parou de lutar, mas ainda não está morto. uma linha tênue entre a ruína e a aceitação.
o álbum de 1996 inteiro é um manifesto de desleixo e genialidade. parece ter sido gravado num porão, com cabos em curto, instrumentos desafinados, e uma urgência quase desesperada pra capturar o momento antes que ele desmoronasse. e é isso que faz jonestown massacre ser diferente de todas essas bandas de hoje em dia que gastam mais tempo polindo suas redes sociais do que escrevendo uma música decente. eles não se importam. e porque não se importam, você acaba se importando demais. você sente cada nota, cada palavra, como se fossem destinadas exclusivamente a você, mesmo sabendo que elas nunca foram feitas pra ninguém.
volto pra “anemone” toda vez que preciso lembrar que a música – a verdadeira música – não é sobre perfeição. é sobre imperfeição. é sobre criar algo que parece tão humano, tão vulnerável, que chega a doer. “anemone” é um espelho sujo que você prefere evitar, mas não consegue. porque no fundo, você sabe que ela te entende de um jeito que nenhuma outra música entende. ela não tenta te salvar. ela não promete que tudo vai ficar bem. ela só está lá, como um companheiro silencioso no pior dos seus dias. e isso, pra mim, é a definição de arte.
se você ouve jonestown massacre e não sente nada, o problema não é com eles. é com você. porque não é uma banda pra preencher espaço vazio ou colorir os momentos bonitos. é uma banda pra quem sabe que a vida, na maior parte do tempo, é um amontoado de erros e arrependimentos. e, ainda assim, há beleza nisso. não uma beleza óbvia, mas uma beleza crua, suja, que só aparece quando você para de procurar. e “anemone” é o coração dessa bagunça. a música que te joga no chão, te puxa pra baixo e te deixa lá, mas de alguma forma faz tudo isso valer a pena.
vou ser direto: o que está acontecendo com a jaguar é mais do que um rebranding mal pensado – é um reflexo de um problema maior, uma epidemia de marcas que decidiram abrir mão de tudo que as tornava únicas pra seguir uma cartilha genérica de “modernidade”. e sabe o que é isso, no fim das contas? medo. medo de não ser relevante. medo de alienar um público que nunca foi o seu. e o resultado é esse: legados sendo esmagados em nome de logotipos minimalistas e slogans vazios que ninguém vai lembrar.
vamos falar sério: jaguar era uma marca com pedigree, com alma, com uma história tão poderosa que só o nome já carregava um peso. era luxo britânico, mas com atitude. elegância com dentes. você comprava um jaguar porque queria algo que o resto do mundo não podia ter, algo que fazia o ronco do motor soar como uma declaração de guerra contra a mediocridade. e agora? agora você olha pra esse “modernismo exuberante” e vê o quê? um desespero. uma tentativa patética de parecer “jovem” e “clean”, como se isso fosse suficiente pra compensar a perda de identidade.
mas jaguar não está sozinha nessa bagunça. olha ao redor. burberry fez a mesma coisa quando decidiu diluir seu icônico xadrez pra se tornar “cool”. gap tentou simplificar o logo e foi tão massacrada que voltou atrás em menos de uma semana. até marcas que deveriam ser inabaláveis, como a bmw, meteram os pés pelas mãos ao transformar seu logo num design digital que parece mais uma fintech. e por quê? porque todo mundo quer ser “moderno”, mas ninguém quer ser corajoso.
essa febre de minimalismo – quem foi que decidiu que tudo precisa ser “clean”? quem foi que declarou guerra contra o design que tem personalidade? jaguar tinha o maldito jaguar saltando, um logotipo que não era só visualmente impressionante, mas que transmitia movimento, força, energia. agora temos letras finas que podiam estar no rótulo de uma marca de água com gás. minimalista? sim. memorável? nem de longe.
e não é só o design. é a mensagem. “copy nothing”? o que isso significa, exatamente? porque parece que o que fizeram foi copiar todos os erros que outras marcas já cometeram ao tentar apagar sua história. jaguar não precisava de um rebranding. precisava de confiança. precisava de uma reafirmação do que ela é. mas o que fez? foi pelo caminho mais fácil: abandonou o que a fazia especial pra tentar ser algo que nunca foi.
e aqui está a ironia: as marcas que resistem a essa onda de homogeneização são as que continuam no topo. ferrari não mudou. rolls-royce não mudou. até a porsche, que lançou um SUV e um carro elétrico, conseguiu fazer isso sem perder a essência. porque essas marcas entendem algo que a jaguar claramente esqueceu: o luxo não é sobre agradar a todo mundo. é sobre ser exclusivo. é sobre ser fiel a si mesmo, mesmo que isso signifique alienar uma parte do público.
mas o problema é maior do que isso. estamos vivendo numa era em que as marcas estão aterrorizadas com a ideia de não serem “relevantes”. elas sacrificam tradição, história e identidade pra seguir tendências passageiras que vão desaparecer antes do próximo ciclo de marketing. e o que sobra? um mar de logotipos genéricos, mensagens genéricas, produtos genéricos. jaguar só é a vítima mais recente dessa doença.
sabe o que realmente irrita? o público que entende o valor de uma jaguar – o cliente que sabia que estava comprando algo com alma, algo com peso – esse público está sendo deixado de lado. e pra quê? pra tentar conquistar um consumidor que nem entende o que é herança, que acha que um carro é só um gadget grande. é a mesma história com a harley-davidson quando tentou vender motos elétricas como se fosse um brinquedo de luxo. o público leal virou as costas, e o novo público? nunca veio.
no fim das contas, o que estamos vendo não é só a morte da identidade de marcas como jaguar. é a morte da ousadia. da coragem de ser diferente. as marcas que antes lideravam, que ditavam as regras, agora estão correndo atrás do rabo tentando ser tudo pra todo mundo. e o resultado? elas se tornam nada. porque quando você abre mão do que te torna único, o que sobra?
jaguar podia ter liderado. podia ter mostrado ao mundo que modernizar não significa esquecer suas raízes. mas, em vez disso, ela escolheu o caminho mais fácil: apagar sua própria essência e esperar que ninguém percebesse. e isso, pra mim, é o maior fracasso de todos. não só pra jaguar, mas pra toda essa nova geração de marcas que parecem mais preocupadas em agradar algoritmos do que pessoas.
a grande piada cósmica das “coisas simples” é que elas são a maior farsa já vendida para a humanidade. “é fácil, é só fazer!” dizem os gurus, os coaches, os seus amigos irritantemente otimistas que parecem viver em um comercial de margarina. mas sabe o que é a verdade? simples é o nome bonitinho que deram para as coisas que vão te fazer parecer um completo imbecil enquanto tenta fingir que tem algum controle sobre a própria vida.
veja o exemplo clássico: “é só ser você mesmo.” ah, claro. porque ser você mesmo não é um exercício diário de terapia, auto-sabotagem e arrependimento profundo por decisões tomadas às três da manhã. ser você mesmo é simples até o momento em que percebe que nem você sabe quem é, mas todos à sua volta têm opiniões muito fortes sobre o que deveria ser. e aí você entra naquele loop existencial tentando agradar meio mundo enquanto secretamente odeia todos.
ou, que tal o conceito insuportavelmente hipócrita de “relaxe, viva o momento”? quem inventou isso claramente nunca esteve em um aeroporto às seis da manhã com fila de segurança se arrastando e uma criança chorando no seu ouvido. simples viver o momento? no mundo real, o “momento” geralmente é uma bagunça suada, mal-cheirosa e cheia de notificações pendentes no celular. relaxe? até parece.
ah, e não me faça começar com “coisas simples” como manter sua casa arrumada. você acha que vai ser só dobrar algumas roupas, lavar a louça e pronto, tudo perfeito. mas cinco minutos depois você está limpando um filtro de aspirador de pó que mais parece um pequeno habitat de vida alienígena, perguntando a si mesmo como é possível que algo tão pequeno gere tanto caos. porque sim, até a poeira tem uma agenda secreta contra você.
e o grande trunfo das coisas simples? elas te fazem questionar se todo mundo ao seu redor sabe algo que você não sabe. porque sempre tem aquele amigo que diz, com desdém: “é só fazer assim.” como se fosse uma equação de segundo grau que você deveria ter aprendido no ensino fundamental. simples, claro. porque para ele, o universo conspira a favor. para você, o universo conspira para te jogar numa maratona emocional de falhas públicas e privadas.
coisas simples são complexas porque a vida, no fundo, é um jogo sarcástico, uma espécie de reality show cósmico onde o objetivo é te humilhar enquanto você tenta manter as aparências. e sabe qual é a melhor parte? ninguém ganha. a simplicidade é só um mito que contamos para não explodir. mas ei, continue tentando. aparentemente é simples, não é?
lembro de uma conversa numa sala qualquer, em algum ponto da minha vida onde eu deveria estar mais interessado no que estava acontecendo, mas não estava. um conhecido – daqueles tipos que parecem viver com um manual de instruções escondido no bolso – estava despejando verdades universais como se fossem confetes em um desfile. cada frase era uma martelada de certeza, uma declaração empolgada de como ele tinha descoberto o jeito certo de viver, de pensar, de existir. e ali, naquele momento, algo dentro de mim simplesmente desligou.
não foi raiva. não foi desprezo. foi mais como aquela sensação que você tem quando percebe que está no lugar errado, ouvindo algo que não só não faz sentido pra você, mas que nunca vai fazer. porque, para mim, a certeza – essa fé inabalável de que se está certo – sempre teve o cheiro azedo de comida que passou do ponto. algo que parece bom à primeira vista, mas que você sabe que vai te fazer mal.
o problema da certeza é que ela te fecha. ela te amarra e te joga dentro de uma caixa onde as coisas são previsíveis, organizadas, e completamente sem graça. e devoção? devoção é o próximo estágio desse veneno. é quando você não só acredita na sua própria história, mas começa a insistir que todo mundo deveria acreditar também. conheço gente assim. você conhece gente assim. o mundo está cheio deles. eles sorriem, entregam as respostas prontas, e te olham como se você fosse um tolo por não pegar o pacote completo.
mas o que essas pessoas nunca entendem – o que eu nunca consegui entender nelas – é como alguém pode achar que está absolutamente certo sobre qualquer coisa. como você acorda de manhã, olha no espelho e diz: “sim, eu tenho todas as respostas”? porque, se tem uma coisa que aprendi, é que as melhores partes da vida vêm de não saber. do erro, da dúvida, do desconforto constante de se perguntar se você não está apenas ferrando tudo o tempo todo.
é aí que eu vivo. nesse espaço confuso, onde as perguntas nunca param de chegar e as respostas, quando aparecem, são quase sempre temporárias e incompletas. e sabe o que mais? eu gosto disso. gosto de não saber. gosto de me questionar. gosto de olhar para algo que parece sólido e pensar: será mesmo? porque é nesse questionamento que as coisas ficam interessantes. é onde você encontra as nuances, as contradições, o que realmente vale a pena.
eu já vi o que a devoção faz com as pessoas. ela tira delas a capacidade de rir, de duvidar, de admitir que talvez – só talvez – elas estejam erradas. porque, no fundo, devoção é só medo com uma boa maquiagem. é o medo de olhar para o vazio e admitir que ele está lá. e, honestamente? eu prefiro o vazio. prefiro o desconforto. prefiro encarar o caos de frente e dizer: “tudo bem, eu não sei o que estou fazendo, mas pelo menos não estou fingindo que sei.”
então, não. não quero respostas prontas. não quero a segurança da certeza ou o calor falso da devoção. quero as dúvidas. quero as falhas. quero me perder e errar, e talvez nunca encontrar o caminho certo. porque, no final, é isso que torna tudo suportável: a ideia de que não existe um manual, e está tudo bem não saber o que vem depois…
viajar nunca foi, e nunca será, sobre comprar coisas. pelo menos, não pra mim. quem sai pelo mundo com o único objetivo de voltar com a mala cheia de tranqueiras e roupas que “ninguém vai ter igual” está simplesmente fazendo turismo de má fé. é quase um crime contra a viagem em si, contra o ato sagrado de se perder e se encontrar no desconhecido.
eu não cruzo oceanos pra brigar com vendedores de lembrancinhas por um desconto de dois dólares num chaveiro horroroso ou pra fingir que aquele lenço barato comprado na praça central de marrakech é um item cultural e não algo que foi fabricado em massa na china. essas coisas, no final, não carregam história, não carregam alma. carregam, no máximo, a vergonha de ter cedido ao consumismo sem propósito.
minha forma de viajar é outra. eu vou atrás do incômodo, do inesperado, do desconfortável. quero aquele cheiro indecifrável que invade os mercados de rua, uma mistura entre especiarias, suor humano e alguma coisa que parece estar apodrecendo há semanas. quero entrar em um restaurante onde ninguém fala minha língua e o menu é um código indecifrável, escrito à mão e manchado de gordura. quero sentar num banquinho de plástico que provavelmente vai quebrar em algum beco qualquer, pedir algo apontando pra panela e torcer pra que não seja fígado cru ou olhos de peixe. mas, mesmo que seja, tudo bem. é parte do jogo.
não me interessa gastar horas dentro de shoppings brilhantes ou lojas de marca, como se estivesse vivendo uma versão exótica do meu dia a dia enfadonho. e menos ainda me interessa trazer de volta qualquer coisa que não possa ser comida, bebida ou sentida. porque, convenhamos, a verdadeira riqueza de uma viagem é aquilo que você não consegue embalar pra presente. é o gosto, o cheiro, a sensação de estar vivo em um lugar onde nada faz sentido — e isso, amigo, você não encontra na prateleira.
então, sim, pode ficar com sua mala cheia de bugigangas e sua listinha de “o que comprar em bangkok”. eu fico com as noites em que me perco em cidades que nunca dormem, com os sabores que ficam grudados na memória e com as histórias que conto anos depois, enquanto as suas bugigangas viram poeira no fundo do armário. viajar, pra mim, é abraçar o mundo sem carregar nada. é sair leve e voltar pesado de experiências.