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2024

como funciona meu cérebro

meu processo criativo é uma bagunça, mas não aquele tipo de bagunça charmosa que você vê em filmes franceses, com pilhas de livros estrategicamente desarrumadas e uma xícara de café esfriando numa mesa de madeira rústica. não. é uma bagunça visceral, selvagem, quase grotesca, como um porão cheio de fios desencapados prestes a causar um curto-circuito. meu cérebro nunca, nunca para. é uma máquina de destruição criativa que não obedece a botão de desligar. um caos incessante que, se eu não encontrar uma maneira de escoar, explode – e geralmente, explode em palavras.

quando estou no hyperfoco, não sou humano. sou um ser possuído, uma espécie de aberração de laboratório que não dorme, não come, mal respira. é como se o universo inteiro fosse sugado por um buraco negro que eu criei na minha própria mente. nada mais importa. compromissos? relações humanas? necessidades básicas? ridículo. o mundo exterior é um eco distante que mal registro. eu me torno um animal movido a pura obsessão. enquanto as pessoas normais tentam “encontrar o equilíbrio”, eu desço em queda livre no desequilíbrio e começo a cavar mais fundo. não existe outro jeito de funcionar. cada palavra que escrevo, cada ideia que transformo em algo tangível, é como arrancar um pedaço de mim e jogá-lo no papel. é um processo violento e exaustivo, mas absolutamente necessário.

e quando não estou nesse estado de febre criativa? o ócio. o glorioso e subestimado ócio. enquanto o mundo prega a produtividade incessante, eu dou risada e me recosto, deixando a mente vagar como um cachorro solto em um campo cheio de esquilos. porque aqui está o segredo que ninguém quer admitir: o ócio não é perda de tempo. é pré-produção. é o terreno fértil onde as ideias crescem antes de serem arrancadas e transformadas em algo mais. enquanto os outros se afogam em listas de tarefas e cursos de como “hackear” a criatividade, eu me dedico à deliciosa arte de não fazer nada. mas, veja bem, meu cérebro não sabe o que significa “nada”. até no ócio ele trabalha. ele pega fragmentos de pensamentos e começa a juntá-los, como uma criança hiperativa brincando com peças de lego, montando castelos e depois destruindo tudo só pelo prazer de começar de novo.

é por isso que escrevo tanto, até mesmo aqui. não é porque eu quero. é porque eu preciso. escrever é o único jeito de descomprimir meu cérebro antes que ele me engula vivo. cada texto que sai de mim é uma válvula de escape, uma tentativa desesperada de domar o caos. e mesmo assim, nunca é o suficiente. é como tentar esvaziar um oceano com um balde furado. mas eu continuo. porque o que mais eu posso fazer? parar? ha. se eu parasse, minha mente entraria em combustão espontânea, e você provavelmente veria meu nome estampado num jornal ao lado de uma manchete sensacionalista.

o fato é que meu processo criativo não é bonito. não é organizado. não é algo que você encontraria num curso motivacional com powerpoints coloridos e frases inspiradoras. é bruto. é exaustivo. é um inferno particular que, de alguma forma, gera algo que vale a pena compartilhar. e no final do dia, por mais caótico e insano que seja, eu aceito. porque essa é a minha arma. o caos é o meu combustível, e o ócio, meu campo de treino. então, enquanto os outros procuram a fórmula mágica da produtividade, eu estou aqui, no meu próprio pequeno apocalipse, criando coisas que talvez não precisassem existir, mas que, de alguma forma, sempre encontram uma razão para estar.

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2024

meus livros do ano

se você quer entender como as pessoas pensam, comece por aquilo que elas leem — ou, talvez mais importante, o que elas não leem. em tempos onde todo mundo está obcecado por parecer produtivo, acumulando livros de autoajuda que prometem “libertação” e “propósito” (mas só entregam frases de efeito prontas para posts no instagram), eu decidi seguir um caminho oposto. meus livros desse ano não são guias para ser “melhor”, “mais rápido” ou “mais eficiente”. aliás, se você quer motivação, sugiro um bom café ou um soco na cara da realidade, não livros.

o que eu busquei — e encontrei — foram histórias que incomodam, ideias que fazem pensar, e, claro, textos que sangram humanidade. aqui você não vai encontrar nenhuma daquelas porcarias motivacionais ou romances açucarados vendidos como “obra do ano”. o que você vai ver é uma lista que fede a vida real: gente quebrada, ideias fora do lugar, beleza desconfortável e um convite para pensar. porque ler, de verdade, nunca foi sobre se tornar uma versão melhor de si mesmo. é sobre entender o mundo, ou, pelo menos, perceber que ele é muito maior do que a sua bolha.

esses foram os livros que me acompanharam. alguns são velhos como o tempo, outros carregam um frescor ácido. todos me desafiaram, e nenhum deles está preocupado em te agradar.

1. “tortilla flat” – john steinbeck

uma ode à vagabundagem e ao hedonismo despretensioso. é sobre beber vinho barato e se perder no calor da califórnia. uma novela que diz “foda-se” para a ambição capitalista e ainda faz você rir disso.

2. “o ensaio sobre a cegueira” – josé saramago

basicamente: o apocalipse não precisa de zumbis, só de gente normal o suficiente para ser assustadora. uma metáfora brilhante sobre como somos cegos, mesmo vendo. pesado, mas delicioso.

3. “os detetives selvagens” – roberto bolaño

poetas desajustados, amores ruins, obsessões loucas e um bocado de drogas. uma mistura entre beatnik e novela de formação, mas sem a dose insuportável de pretensão. arte crua.

4. “o inferno” – dante alighieri

se você acha que inferno é enfrentar fila no supermercado, dante vai te mostrar o que é dor de verdade. poesia épica com pitadas de sadismo, imaginação e uma boa dose de vingança literária.

5. “under the volcano” – malcolm lowry

a experiência de um alcoólatra no méxico que mistura agonia e beleza com a precisão de quem já se embebedou no inferno. é denso. é sombrio. é gloriosamente humano.

6. “misto quente” – charles bukowski

sim, o velho sujo está na lista porque ninguém escreve sobre a miséria e a poesia do ordinário como ele. se não gosta, talvez não entenda a magia de transformar nada em algo visceral.

7. “meditações” – marco aurélio

um imperador romano fazendo um diário pessoal sobre como a vida é ridícula e ao mesmo tempo sublime. filosofia estoica que não tem nada a ver com os “coaches de estoicismo” de hoje.

8. “stiff: the curious lives of human cadavers” – mary roach

sabe aquele papo sobre o que acontece com nossos corpos depois que morremos? é perturbador, engraçado e muito mais interessante do que qualquer reunião de condomínio que você já foi.

9. “as veias abertas da américa latina” – eduardo galeano

história, política e denúncia em formato de poesia que machuca. um tapa na cara de quem acha que sabe alguma coisa sobre colonialismo.

10. “o estrangeiro” – albert camus

nada mais clássico do que a indiferença absurda de meursault. a sensação de que nada importa, mas de um jeito que importa tanto que você não consegue parar de pensar nisso.

11. “pátria” – fernando aramburu

uma narrativa sobre o terrorismo do eta na espanha, mas que, na real, fala sobre como rancores e memórias destroem famílias. brilhantemente doloroso.

12. “o som e a fúria” – william faulkner

não é leitura fácil. mas quem disse que coisas boas vêm fáceis? uma exploração surreal da decadência, da família e da passagem do tempo.

13. “o livro do desassossego” – fernando pessoa (ou bernardo soares, sei lá)

melancolia destilada em frases tão bem escritas que vão te dar vontade de beber absinto em silêncio. um hino à inquietação existencial.

14. “décameron” – giovanni boccaccio

antes de netflix e memes, as pessoas sobreviviam à peste negra contando histórias cheias de sacanagem, ironia e inteligência. boccaccio te mostra que humanidade é isso: rir na beira do abismo.

15. “a morte de ivan ilitch” – leão tolstói

uma aula sobre como somos patéticos ao ignorar a morte até que ela nos encara de frente. pequeno, direto, esmagador.

16. “a piada” – milan kundera

ironia e vingança em um cenário comunista. é sobre como piadas podem destruir vidas, mas também é sobre tudo que é humano e fodidamente irônico.

17. “medo e delírio em las vegas” – hunter s. thompson

uma bad trip tão literária quanto real. se hunter não estivesse drogado escrevendo, você certamente vai ficar só lendo.

18. “o mestre e margarida” – mikhail bulgakov

diabo em moscou, gatos que falam e doses absurdas de sarcasmo. é como um circo literário de primeira classe.

19. “os lusíadas” – luís de camões

o épico português, porque às vezes precisamos de um lembrete de que a ambição humana já foi sobre desbravar mares, não apenas ganhar likes.

20. “o coração das trevas” – joseph conrad

leitura obrigatória se você quer entender como a alma humana pode ser podre e gloriosa ao mesmo tempo. curto e brutal como uma facada.

então é isso. esses foram os livros que me fizeram companhia, que me provocaram, que às vezes me deixaram com raiva ou me fizeram rir alto no meio do nada. não tem fórmula mágica aqui, não tem “segredos para o sucesso” ou qualquer porcaria que promete te salvar de você mesmo. só histórias que cutucam, ideias que desafiam, gente escrevendo porque, de alguma forma, o caos da vida precisa sair de dentro da cabeça e virar palavras.

e sabe o que é melhor? nenhum deles quer te ensinar nada. porque a literatura de verdade não vem com moral da história nem com propósito pré-embalado. ela te deixa perdido, desconfortável, cheio de perguntas. se isso não é um bom motivo para abrir um livro, não sei o que é. mas, se não gostou da lista, tudo bem também. talvez você só precise mesmo daquele seu best-seller de capa azul prometendo “revolucionar sua manhã”. boa sorte com isso. eu fico aqui com a bagunça, o sarcasmo e o estranho prazer de não ter todas as respostas.

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2024

4 anos

meu filho fez 4 anos hoje. quatro anos de puro dinamite emocional embalado num corpinho que mal alcança a mesa da cozinha. é engraçado pensar que, há tão pouco tempo, ele era esse pequeno ser que só comia, chorava e dormia (muito menos do que deveria). agora, ele é uma explosão de personalidade. quatro anos. como foi que chegamos aqui tão rápido?

ele acordou hoje como se soubesse que era o dia dele. olhos brilhando, cheio de exigências: bolo, balões, um mundo inteiro pra chamar de seu. e quem sou eu pra negar? ele merece. ele conquistou cada pedaço desses 4 anos com risadas, birras e uma teimosia que faria qualquer político parecer flexível. cada dia com ele é uma mistura de stand-up comedy, debate filosófico e treino de sobrevivência.

o que mais me impressiona é a coragem. ele encara o mundo como se nada pudesse detê-lo. cai, levanta, pergunta o porquê de tudo, desafia cada regra que invento. e, na maioria das vezes, ele vence. porque, afinal, como você argumenta com uma lógica de 4 anos? “por que eu não posso comer bolo no café da manhã? o bolo não tem ovo? o ovo não é café da manhã?” ele tem um ponto. e, sinceramente, às vezes eu só deixo passar. é o aniversário dele, afinal.

hoje, ele me fez lembrar que a vida, apesar de todas as suas complicações, pode ser simples. ele vive no agora, nesse instante, sem medo do que vem depois. e talvez seja isso que eu mais amo nele. ele não só faz quatro anos; ele é quatro anos. puro, descomplicado, cheio de sonhos e energia que eu nunca mais vou ter, mas que fico feliz de ver nele.

então, hoje, é sobre ele. sobre o sorriso desdentado que me desmonta, sobre as histórias inventadas na hora, sobre as batalhas de travesseiro e as conversas absurdas que têm mais sentido do que parecem. ele fez 4 anos hoje. e eu? eu só agradeço por estar aqui, pra ver de perto o espetáculo que ele é.

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2024

espiritualidade

espiritualidade na minha vida? olha, se você acha que vou te vender uma história edificante sobre “encontrar a luz” ou descobrir um propósito divino, sinto muito. mas a verdade é que, sim, existe um tipo de espiritualidade no meu dia a dia. não a versão instagramável, com fontes de água zen e ânforas de aroma cítrico, mas algo mais cru, mais próximo da realidade – aquela que cheira a café derramado na pia e às vezes tem gosto de derrota, mas ainda assim insiste em me dar um empurrão.

eu não sou o tipo que faz ioga ao nascer do sol ou que decora o nome de todos os deuses de todas as religiões. também não vou fingir que tenho as respostas – longe disso. mas tem algo. algo que pulsa em meio ao caos. algo que aparece nas brechas, quando eu menos espero. espiritualidade, na minha vida, é como aquele amigo que chega sem avisar, com um sorriso maroto, e diz: “vai, levanta, ainda tem jogo.”

é aquele momento em que você, mesmo depois de um dia desgraçado, olha para o céu (sim, o clichê do céu, porque às vezes ele é mais do que um pano de fundo azul) e sente alguma coisa. um fio de conexão. um lembrete de que você faz parte de algo maior. ou menor. ou igual. tanto faz, porque naquele instante, nada mais importa além do fato de que você está ali. respirando. existindo.

espiritualidade pra mim é mais prática do que mística. está em detalhes que ninguém ensina a valorizar porque não são bonitos o suficiente para caber em um discurso motivacional. é na sensação de lavar o rosto com água fria depois de uma noite mal dormida. é no silêncio de quando tudo finalmente para, e você ouve o som do nada – um nada que, de repente, parece cheio de sentido. é no toque de quem você ama, no riso inesperado, na certeza de que mesmo o dia mais caótico tem um lado de beleza, por menor que seja.

não vou te enganar dizendo que vivo em um estado constante de gratidão. não, eu reclamo, me irrito, quero jogar tudo pro alto como qualquer pessoa normal. mas espiritualidade na minha vida é o que me faz voltar ao eixo. não um eixo fixo, daqueles que você amarra no chão, mas um que balança, que desvia, que se adapta. é aquele lembrete interno que sussurra: “cara, você ainda está aqui. aproveita enquanto dá.”

talvez seja isso, no final. espiritualidade é aprender a apreciar o caminho – o feio, o bonito, o absurdo e o inesperado. é deixar o mundo bagunçado ser o que ele é, enquanto você encontra pequenas formas de beleza, de sentido, de respiro. não porque você tem que, mas porque, no fundo, você quer. e isso, pra mim, já é milagre suficiente.

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2024

parando de complicar feito um idiota

a humanidade tem uma habilidade impressionante: transformar a vida, que deveria ser um jazz improvisado, num balé russo de passos meticulosamente dolorosos. me incluo nisso, claro. passamos anos achando que a felicidade está escondida dentro de uma planilha do excel, ou talvez numa dieta sem glúten, sem lactose, sem alegria. acreditamos piamente que, se conseguirmos controlar todas as variáveis, de alguma forma vamos hackear a existência. e o que ganhamos? gastrite nervosa e a insônia como companheira fiel.

mas aí, num dia qualquer – tipo aquele em que você está atolado no trânsito, ouvindo um locutor de rádio com a voz irritante tentando te vender um colchão ortopédico – a epifania chega. “porra, talvez eu esteja complicando tudo.” é como ser atingido por um raio de sanidade enquanto o resto do mundo insiste em explodir.

de repente, o óbvio te dá um tapa na cara: por que, diabos, transformar a vida num checklist interminável? por que a obsessão em transformar tudo num maldito projeto de engenharia? talvez, só talvez, não seja necessário desidratar emocionalmente para fazer uma escolha trivial, tipo que sabor de sorvete pedir.

descobrir que as coisas podem ser mais leves é quase insultante de tão simples. você percebe que passou anos empilhando camadas de complicação como se fosse construir um bolo de sete andares, quando tudo o que precisava era de um pão com manteiga e um café preto. então, você olha pro passado – pros cronogramas, pras conversas que não precisavam ter existido, pras noites em que ficou acordado revisando mentalmente diálogos que ninguém mais lembrava – e só consegue pensar: “puta merda, que perda de tempo.”

e, claro, há uma resistência. porque o ser humano tem um fetiche absurdo por sofrimento autoprovocado. adoramos a ideia de que quanto mais complicada a vida, mais épica nossa jornada. como se estar atolado até o pescoço em burocracia emocional fosse algum tipo de mérito. mas, sinceramente, quem disse que viver precisa ser uma ópera trágica? talvez a vida seja mais punk rock: direto, cru, sem firulas. três acordes e pronto.

a real é que desapegar da complicação é um ato de terrorismo pessoal. é olhar pra bagunça e decidir que, hoje, você não vai resolver porra nenhuma. e, sabe do que mais? o mundo segue girando. ninguém morre porque você decidiu que não precisa justificar sua existência com cada escolha. na verdade, eles nem percebem.

não estou dizendo que você vai acordar iluminado, flutuando sobre o sofá, livre de todas as amarras. mas talvez, só talvez, você perceba que a vida pode ser algo mais próximo de um almoço preguiçoso do que um banquete de gala. e, convenhamos, quem prefere usar smoking pra comer?

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2024

sobre paris e canetas

paris não se importa com você. ela nunca se importou e nunca vai. é uma cidade que sobreviveu a séculos de reis, revoluções e turistas que acham que croissant é sobremesa. você é só mais um idiota sentado num café, fingindo que vai fazer algo grande, como se a sua presença ali, com um caderno e uma caneta, significasse alguma coisa. a verdade? não significa.

eu estava ali, num desses cafés parisienses que parecem ter saído direto de um filme – cadeiras de vime, mesas de mármore, garçons com aquela atitude que oscila entre arrogância e indiferença. o café chegou, pequeno, preto, e tão forte que parecia um desafio. o tipo de coisa que te faz pensar: “é isso, agora vai.” puxei o caderno, saquei a caneta e, claro, ela falhou. porque, é claro, ela tinha que falhar.

não foi uma falha rápida e limpa, do tipo que te permite seguir em frente. foi lenta, humilhante. rabisquei no canto da página, sacudi, até bati a ponta contra a mesa – e tudo o que consegui foi um traço pálido, esfarelado, como se a caneta estivesse morrendo na minha mão só pra me fazer sentir ainda mais inútil. o garçom passou, me lançou um olhar que dizia: “se você for chorar por causa de uma caneta, faça isso depois de pedir outra bebida.” típico.

e enquanto eu lutava com aquele pedaço inútil de plástico, me veio a clareza brutal de que a vida é exatamente assim. você faz tudo certo – senta no lugar certo, no momento certo, com a ferramenta certa – e, no final, ela te joga uma falha dessas. como quando você trabalha semanas pra um projeto no emprego e na hora de apresentar, o powerpoint não abre. ou aquela vez que você ensaiou um discurso perfeito pra dizer a alguém que ama, mas as palavras travaram na sua garganta, e o momento passou. a caneta, o powerpoint, sua própria língua – todos cúmplices no crime de te fazer parecer um idiota.

paris não liga. a cidade continua. o casal na mesa ao lado discute arte como se fossem críticos do louvre. um senhor acende seu cigarro com a precisão de quem já fez isso cinquenta mil vezes e vai continuar até o pulmão implorar por socorro. ninguém tá nem aí pra você, pra sua caneta, ou pra sua ideia brilhante que acabou de evaporar.

e é isso. a vida não te dá ferramentas perfeitas. ela te dá canetas que falham, momentos que se esfarelam, e um garçom que não vai te perguntar se tá tudo bem. e o que você faz? você senta ali, encara o café, pede um vinho. talvez largue a caneta, talvez encontre outra, ou talvez perceba que, no fim das contas, o que você precisava mesmo era aceitar que nada funciona do jeito que deveria. nem canetas, nem a vida.

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2024

fobia social

engraçado como o palco – esse espaço onde todo mundo acha que você tá sendo dissecado por mil olhos críticos – é, na verdade, o único lugar onde eu me sinto realmente no controle. me dá um microfone, acende as luzes, e lá vou eu. as pessoas podem até me fazer perguntas – e claro que algumas vão ser idiotas, sempre tem uma alma que quer ser esperta demais –, mas eu ainda mando no jogo. sou eu quem decide como responder, se é com sarcasmo, provocação ou uma anedota inventada na hora. no palco, tudo gira em torno de mim. é um terreno que conheço bem. ali, eu domino o show.

mas tira o palco, o público, o microfone, e me joga numa situação simples, corriqueira, como estar num táxi sozinho, e a coisa muda de figura. não é sobre o motorista. eles só estão fazendo o trabalho deles, girando o volante, indo de um ponto a outro. é sobre o ambiente, a sensação de estar preso num cubículo em movimento com outra pessoa – um estranho, pra piorar. a intimidade desconfortável de compartilhar aquele espaço fechado onde o som da respiração, do piscar dos olhos e do ronco do motor parece ensurdecedor. a qualquer momento, pode vir uma pergunta. qualquer pergunta. e é sempre a pior coisa: “pra onde vai?”, “choveu hoje?”, “você trabalha com o quê?”. algo inofensivo, mas que se transforma em um teste de sobrevivência social. porque agora sou eu, sem a proteção do palco, sem holofotes pra apagar os rostos. só um cara, sentado ali, tentando parecer normal enquanto minha mente grita: “só me deixa existir em paz”.

é por isso que meu ipod e meus óculos escuros são mais do que acessórios. são ferramentas. estratégias de fuga. os fones me isolam, criam um universo paralelo onde não existem perguntas, nem respostas, nem olhares. e os óculos? minha barreira contra o contato visual – essa invenção humana que parece tão simples, mas que carrega toda a carga de “me nota, me entende, me enfrenta”. com eles, eu me torno algo distante, quase intocável. porque sem esses escudos, eu fico exposto. e o táxi, de repente, vira um palco invertido onde eu sou o único a ser observado.

e na rua? a rua é outro inferno disfarçado de normalidade. andar entre estranhos, sem um destino claro, é como nadar em águas infestadas de tubarões que só existem na sua cabeça. os olhares não são reais, mas, ao mesmo tempo, são. cada rosto que passa parece me escanear, me pesar, me medir. é como uma performance contínua, sem aplausos, sem fim. e eu não baixo a cabeça. não desvio. mas não porque sou confiante – é puro ato, uma máscara que coloco pra passar por aquilo sem que ninguém perceba que dentro de mim tá tudo desmoronando. os fones e os óculos me ajudam a fingir que não dou a mínima, que tô num mundo só meu. e talvez até esteja.

a academia, então? o teatro do ridículo. um lugar onde o som de pesos caindo e máquinas rangendo se mistura com o esforço coletivo de todo mundo fingir que tá ali só pra ser saudável. ninguém tá. todos estamos ali pra evitar a decadência, física ou social, mas sem nunca admitir isso. e claro, sempre tem alguém que quer falar. “quantos quilos você tá levantando?”, “tá focado na dieta, hein?”, “qual teu objetivo de treino?”. qual meu objetivo? não surtar. não ter um colapso no meio de uma série porque alguém resolveu que academia é lugar de socializar. mas não posso dizer isso, então sorrio, murmuro algo genérico, e volto pra minha bolha mental, planejando sair dali o mais rápido possível.

no fim, o palco é fácil porque é meu. ali, eu decido quem entra, quem fala, quem cala. mas na vida real, meu controle é emprestado, precário, dependente de dois pedaços de plástico: óculos escuros e um ipod. eles são meu escudo, meu sinal universal de não me foda, minha última linha de defesa contra o mundo. mas mesmo com eles, o mundo insiste. ele fura a barreira, ignora os sinais, força uma interação, um olhar, uma pergunta idiota. e é aí que a verdade dói: meu controle é só isso – um par de óculos e um pouco de música. tira isso, e eu tô à mercê de tudo o que tento desesperadamente evitar.

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2024

mortalidade

a mortalidade. ah, sim, o grande equalizador. o final inevitável. mas vamos ser honestos: quando você tem 20 anos, ela é tão real quanto unicórnios ou políticos honestos. é algo que acontece com os outros – pessoas em filmes, idosos que você mal conhece, ou aquela história vaga sobre um cara que “foi cedo demais”. aos 20, você se sente como uma aberração biológica, invencível e infinito. você pode devorar um kebab duvidoso às três da manhã, lavar com cerveja barata e acordar algumas horas depois como se tivesse dormido em lençóis de algodão egípcio. você se acha um super-herói. spoiler: você não é.

aos 20, a vida é só excesso. você vive como se fosse o dono de um cartão de crédito sem limite emocional, enchendo o carrinho com aventuras idiotas e escolhas questionáveis porque, no fundo, você acredita que sempre haverá mais. mais tempo. mais chances. mais corpo. a morte? ela é um conceito tão distante que poderia muito bem estar vivendo em outro planeta. e, francamente, você nem acha que merece pensar sobre ela. mortalidade é para os fracos, para os outros. nunca para você.

e então você chega perto dos 50. e, meu amigo, a piada finalmente faz sentido. seu corpo, esse cúmplice silencioso que nunca reclamou antes, começa a mandar bilhetes nada sutis. uma dorzinha no ombro que nunca vai embora. uma escada que de repente parece um desafio de alpinismo. aquela pizza que costumava ser um abraço calórico agora é um míssil direto para o seu estômago. e o relógio – aquele que você jurava que nem existia – começa a fazer barulho. alto. irritante. impossível de ignorar.

mas sabe o que é mais cruel? aos 50, você tem clareza. a grande ironia da vida é que, justo quando você começa a entender o jogo, o tempo para jogá-lo começa a acabar. e não, não é o medo de morrer que te corrói. é o medo de perceber que você viveu de forma medíocre. que você seguiu as regras, comeu a salada, foi para a cama cedo, e, no final, a única coisa que você tem para mostrar é uma lápide sem graça e uma lista de arrependimentos.

e é aí que entra o sarcasmo da mortalidade. ela te cutuca, te desafia, te joga contra a parede e diz: “então, o que você vai fazer com o pouco tempo que resta?” vai continuar economizando aquele vinho bom para uma ocasião especial que nunca chega? vai continuar dizendo “não” porque tem medo de parecer estúpido? ou vai começar a viver como se tivesse algo a perder – porque, cara, você tem. você tem o agora.

então, sim, a mortalidade é impiedosa. mas também é o melhor lembrete de que a vida é curta demais para ser vivida com moderação. você vai morrer. isso é garantido. mas enquanto isso, coma o maldito bacon, pegue o voo mais barato para o lugar mais estranho, beba o uísque antes do meio-dia e conte as histórias mais absurdas que puder. porque a única coisa pior do que morrer é perceber, no último segundo, que você nunca viveu.

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2024

botas

não foi uma decisão planejada, nem uma grande epifania. um dia, simplesmente, percebi que os tênis que usava todos os dias não faziam mais sentido. olhei pra eles – aqueles pedaços de espuma e tecido, gastando o último resquício de dignidade – e senti uma mistura de tédio e vergonha. tênis são fáceis, convenientes, leves… e absolutamente desprovidos de qualquer personalidade. percebi que tava andando por aí com algo que poderia ser de qualquer um. genérico, previsível, descartável. era como estar preso numa dieta de nuggets congelados e achar que tava tudo bem. foi aí que abandonei os tênis e comecei a viver de botas de couro.

botas são outra coisa. são peso, compromisso, uma declaração silenciosa de que você não tá aqui pra brincar. elas não gritam tendências, não tentam ser o sapato do momento. botas são feitas pra durar, e, nesse mundo onde tudo é projetado pra quebrar, isso já é quase um ato de rebeldia. um tênis novo é o melhor que ele vai ser. o couro de uma bota, por outro lado, só fica mais interessante com o tempo. a cada arranhão, a cada dobra, ela carrega mais de você. é como um diário nos pés – cada marca uma história, cada vinca um lugar por onde você passou. tênis? tênis morrem jovens, anônimos, sem deixar nenhum legado.

e tem a durabilidade. vamos ser honestos, tênis não foram feitos pra durar. foram feitos pra vender. usou algumas vezes? solado descolando. pegou um pouco de chuva? o tecido já tá parecendo um guardanapo molhado. botas, por outro lado, encaram qualquer coisa. lama, chuva, pedra, poeira. não importa. elas são feitas pra resistir. botas não pedem permissão pra existir. não imploram cuidado. elas só seguem, firmes, enquanto o mundo ao redor tenta desmoronar.

e sabe o que é melhor? botas funcionam em qualquer lugar. enquanto tênis precisam de desculpas – “ah, é só pra academia”, “é só pra um passeio rápido” – as botas vão com você pra qualquer lugar. elas não se intimidam. podem pisar na terra, atravessar uma cidade inteira, entrar numa reunião, ou até caminhar pela calçada sem parecer que você tá indo pra uma corrida que nunca vai acontecer. elas têm essa versatilidade que só vem de algo atemporal. não precisam de validação. não precisam de você justificando.

hoje, meus tênis estão relegados ao que realmente foram feitos pra fazer: aparecer na academia, quando eu decido fingir que ainda me importo com aquilo. fora isso? nem pensar. minhas botas de couro tomaram o lugar que sempre foi delas. não só porque duram mais, ou porque carregam história, mas porque elas simplesmente fazem mais sentido. são sólidas, confiáveis, e não precisam de espuma ou marketing pra provar isso. elas não só aguentam o mundo – elas enfrentam ele. e, usando elas, eu também.

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2024

o mundo corporativo

o mundo corporativo é a maior piada mal contada do nosso tempo. uma ópera de mediocridade cheia de gente que finge que sabe o que está fazendo enquanto troca e-mails com palavras como “alinhamento”, “sinergia” e “pivotar”. mas a verdadeira comédia – o humor negro que só quem já viveu esse inferno refrigerado entende – é que todo mundo ali está fingindo. ninguém, absolutamente ninguém, tem ideia do que está fazendo.

primeiro, você precisa passar pela humilhação pública conhecida como entrevista de emprego. ah, o teatro de desespero. você veste sua roupa mais desconfortável, decora frases feitas sobre “trabalho em equipe” e “adaptação a novos desafios” e entra na sala com aquele sorriso que grita “eu faço qualquer coisa por um salário fixo”. o entrevistador? ele está ali pra julgar cada vírgula que você diz enquanto pergunta coisas como “qual sua maior fraqueza?”. eu deveria ter respondido “essa entrevista”, mas claro, falei algo genérico como “sou perfeccionista demais”. todo mundo fala isso. eles sabem que é mentira, mas escrevem no caderninho mesmo assim.

e quando você finalmente consegue o emprego, é como abrir a porta do paraíso… e descobrir que é só mais um cubículo com cheiro de café velho e desodorante vencido. eles te entregam um computador que parece um pedaço de sucata e um crachá com sua foto tirada no pior ângulo possível. “bem-vindo à equipe!”, dizem, enquanto você tenta entender como o sistema interno da empresa ainda funciona no windows xp.

o primeiro dia é sempre uma obra-prima do caos. ninguém sabe direito o que você deveria estar fazendo, então jogam você no “treinamento de integração”. basicamente, é um powerpoint com 157 slides sobre a “missão” e “valores” da empresa – que ninguém na sala segue, mas que todo mundo finge acreditar. “aqui valorizamos o bem-estar dos funcionários”, eles dizem, enquanto te empurram metas impossíveis e uma vaga sensação de que você nunca vai sair daquele lugar vivo.

e aí vem o dia a dia. sabe o que significa trabalhar numa empresa? reuniões. um tsunami de reuniões. elas acontecem de manhã, à tarde, às vezes até no horário de almoço – porque, claro, ninguém precisa comer, certo? e todas são igualmente inúteis. uma vez, passei 90 minutos numa reunião sobre como otimizar o uso do papel toalha no banheiro do escritório. eu saí mais burro do que entrei, mas, aparentemente, a empresa economizou R$ 7,35 no mês seguinte.

e não vamos esquecer os e-mails. eles começam inocentes: “bom dia, equipe, segue o relatório.” mas logo você descobre que o inferno tem uma caixa de entrada. tem sempre um colega que responde a tudo com “obrigado” – só pra mostrar que ele leu, mesmo que ninguém tenha perguntado. ou o chefe que adora copiar todo mundo em mensagens que deveriam ser privadas. nada como receber um e-mail às 22h com o assunto “urgente”, só pra abrir e descobrir que era sobre a cor da apresentação da próxima reunião.

e claro, tem o famigerado happy hour. o único momento em que todos os funcionários são obrigados a fingir que gostam uns dos outros fora do horário de trabalho. a empresa paga a primeira rodada, depois é cada um por si. o chefe tenta ser “descolado”, pedindo caipirinha e fazendo piadas que ninguém acha engraçadas. tem sempre um que bebe demais e fala coisas que deveria guardar pra terapia, e no dia seguinte todo mundo finge que nada aconteceu.

mas o grande show é a avaliação de desempenho. eles dizem que é pra “reconhecer seu esforço” e “ajudar no seu desenvolvimento profissional”. mentira. é uma desculpa pra te dizer que você trabalha bem, mas não o suficiente pra receber um aumento. “você está indo muito bem, mas queremos ver mais liderança da sua parte.” liderança? eu mal consigo liderar minha vida pessoal, e agora tenho que liderar o quê?

e no meio disso tudo, tem o mito da meritocracia. a ideia de que, se você trabalhar mais, será recompensado. aham, claro. sabe quem é promovido? o cara que entrega o café pro chefe, ri das piadas mais sem graça e sempre concorda com tudo. já vi pessoas brilhantes passarem anos apagando incêndios enquanto o puxa-saco da sala ao lado recebia um cargo novo e uma sala com vista.

o mundo corporativo também adora criar ilusões. como a ideia de que trabalhar muito é sinônimo de sucesso. é por isso que tem gente mandando e-mails às 2h da manhã ou entrando no escritório aos sábados. eles não estão sendo produtivos. eles estão sendo vistos. porque, no fim das contas, o mundo corporativo é só isso: um desfile de vaidades onde a aparência de eficiência vale mais do que o trabalho real.

mas o pior de tudo é que a gente se acostuma. o café horrível, as piadas sem graça, o chefe que fala sobre “pensar fora da caixa” enquanto só aceita ideias seguras. tudo isso vira rotina. e antes que você perceba, está contando os dias pra sexta-feira e rezando pra próxima demissão ser voluntária.

o mundo corporativo não é feito pra ser suportado. é feito pra te drenar, te desgastar e, no final, te convencer de que tudo valeu a pena porque você tem um plano odontológico que cobre metade do tratamento. mas, ei, pelo menos tem bolo no seu aniversário. seco, de abacaxi com creme, mas ainda assim, um bolo.