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2025

mr. king

martin luther king jr. virou santo de calendário cívico. daqueles que cabem em cartaz de escola, em post de linkedin, em discurso hipócrita de político que nunca leu uma linha além do “i have a dream” e mesmo esse trecho só até onde não começa a ficar desconfortável. king hoje é um jpeg domesticado. um filtro instagram de consciência tranquila. mas o king real? esse não cabe em moldura. esse suja a toalha de mesa.

o que quase ninguém gosta de lembrar é que king não era unanimidade nem entre os seus. ele era visto como incômodo, obsessivo, paranoico, moralista demais para uns, radical demais para outros. um homem permanentemente cansado, com depressões profundas e crises de dúvida. king não era feito de mármore. era feito de carne, culpa, fé teimosa e uma noção perigosa de que dizer a verdade importa mais do que ser amado.

martin luther king jr. vivia sob vigilância constante do fbi. grampos, dossiês, chantagem emocional. j. edgar hoover o tratava como ameaça à segurança nacional, não por violência, mas por algo muito mais subversivo, a capacidade de ligar moralidade a política externa. o sistema até tolera protesto por direitos civis quando ele pode ser empacotado como “questão interna”. o problema começa quando alguém aponta que o império está nu, sujo de sangue e bancado com o dinheiro dos pobres.

pouco se fala que, no fim da vida, king já não estava focado apenas em integração racial. isso era pequeno demais. ele estava obcecado pela pobreza estrutural. pela ideia radical de que o capitalismo americano precisava ser confrontado. o projeto da poor people’s campaign era um pesadelo logístico e simbólico, levar pobres de todas as raças para acampar em washington e exigir redistribuição real de riqueza. não caridade. não esmola. justiça econômica. imagine o pânico nos corredores do poder.

quando king atacou a guerra do vietnã, ele sabia exatamente o que estava fazendo. sabia que perderia apoio. sabia que financiadores iriam embora. sabia que o acesso à casa branca acabaria. e foi mesmo. lyndon johnson, antes aliado, virou porta fechada. porque falar de guerra era mexer no nervo exposto do projeto americano, a crença de que matar longe de casa é aceitável desde que gere estabilidade, lucro ou a ilusão de grandeza.

o discurso “beyond vietnam” não foi um desvio de rota. foi o ponto final lógico. king chamando os estados unidos de “o maior propagador de violência no mundo hoje”. frase que ainda hoje faria editoriais espumarem. ele entendeu algo que seguimos fingindo não entender, não existe justiça racial sustentável num país que constrói sua identidade em cima de guerras intermináveis. a violência externa sempre volta para casa. volta em forma de polícia militarizada, escolas sucateadas, hospitais sem verba e uma sociedade anestesiada.

e não, king não foi morto no auge de uma era romântica. foi assassinado quando sua popularidade estava em queda livre. quando jornais diziam que ele havia ido longe demais. quando líderes negros mais palatáveis eram apresentados como alternativa “responsável”. ele morreu em memphis apoiando uma greve de trabalhadores do saneamento. homens invisíveis. lixo humano aos olhos do sistema. morrer por eles não rende feriado bonito. rende silêncio constrangido.

hoje, citar king virou ato automático. um ctrl+c moral. donald trump invoca o sonho enquanto desmonta qualquer política que cheire a equidade. é a versão política de pendurar um quadro do che guevara no escritório de um banco. estética sem risco. memória sem ameaça. king reduzido a slogan, enquanto tudo o que ele denunciou segue funcionando a pleno vapor.

o mais obsceno é que king falava exatamente para agora. orçamento militar inflado como culto religioso. cortes para os pobres tratados como necessidade técnica. intervenções estrangeiras vendidas como inevitáveis. e uma legião de comentaristas explicando o procedimento errado, nunca a imoralidade do ato. king desprezava essa covardia elegante. ele não queria saber se a guerra era legal. queria saber se era justa. spoiler, não era.

king nunca pediu para ser confortável. pediu para ser ouvido. pediu para que a paz fosse vista como trabalho ativo, não como ausência momentânea de conflito. pediu para que parássemos de confundir patriotismo com obediência. e por isso foi vigiado, atacado, isolado e, finalmente, silenciado.

transformá-lo em santo foi a última violência. porque santos não exigem nada. king exigia tudo. exigia que escolhêssemos entre bombas e escolas. entre império e humanidade. entre o aplauso fácil e a consciência pesada. e essa escolha, seis décadas depois, continua sendo evitada com a mesma habilidade cínica de sempre.

o sonho de king não morreu. ele foi convenientemente ignorado. e isso diz muito menos sobre ele e tudo sobre nós.

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2025

panteras negras

esse assunto nunca foi neutro e nunca vai ser. quem tenta tratar isso como capítulo distante de livro escolar está mentindo ou se protegendo. eu não tenho esse luxo. os black panther party não surgiram de um surto ideológico coletivo nem de um delírio revolucionário romântico. eles surgiram porque o estado falhou. falhou de forma sistemática, violenta e deliberada.

em 1966, em oakland, huey p. newton e bobby seale não estavam interessados em slogans bonitos nem em convencer a américa branca de que eram “bons cidadãos”. isso é leitura posterior, higienizada. o que eles entenderam foi simples e brutal, a polícia operava como força de ocupação em bairros negros, e ninguém iria intervir. então eles decidiram observar, confrontar e expor. armados. legalmente. estudando cada vírgula da lei da califórnia melhor do que os próprios policiais. isso não era teatro. era inteligência política aplicada ao medo.

o detalhe que sempre incomodou mais não foram as armas. foram os livros. foram os programas. os panteras tinham um programa político claro, marxista, antirracista, anti-imperialista. falavam de exploração econômica, de encarceramento em massa antes mesmo de o termo virar moda acadêmica. criaram estruturas paralelas porque sabiam que esperar do estado era aceitar a violência como rotina. clínicas comunitárias, educação política, apoio jurídico. isso desmonta qualquer narrativa fácil de “grupo extremista sem causa”. extremismo, naquele contexto, era sobreviver.

o estado respondeu como sempre responde quando alguém expõe sua incompetência moral… com repressão total. o fbi, sob j. edgar hoover, decidiu que os panteras eram a maior ameaça interna do país. não os nazistas. não a ku klux klan. jovens negros organizados. o programa cointelpro foi usado como arma silenciosa, infiltração, desinformação, paranoia fabricada, brigas internas estimuladas artificialmente. líderes presos por acusações frágeis. outros assassinados. fred hampton foi morto enquanto dormia, numa operação policial que o estado tentou vender como confronto. não foi. foi execução política.

o que me provoca não é só o que foi feito com os panteras, mas o esforço quase desesperado de transformar tudo isso em passado encerrado. como se fosse um erro histórico isolado, uma febre dos anos 60. como se as condições que criaram o movimento tivessem desaparecido. não desapareceram. só mudaram de uniforme e vocabulário.

quando olho para os estados unidos sob trump, vejo a mesma lógica operando com nova embalagem. o medo como política pública. o inimigo interno reciclado. antes, negros organizados. agora, imigrantes. o ice se tornou o símbolo mais visível dessa continuidade… batidas em comunidades, prisões arbitrárias, famílias separadas, tudo legitimado por um discurso burocrático de “lei e ordem”. a mesma frase. sempre a mesma frase.

os protestos contra o ice não surgem do nada. surgem do mesmo lugar que os panteras surgiram, da percepção de que o estado não protege, persegue. de que a lei não é neutra, é seletiva. quando pessoas bloqueiam carros do ice, quando se organizam em redes comunitárias para avisar sobre batidas, quando se recusam a cooperar com a máquina, a reação é imediata. chamam de radicalismo. de anarquia. de ameaça à democracia. exatamente os mesmos rótulos usados contra os panteras.

a diferença é que hoje fingimos surpresa. fingimos que não entendemos de onde vem a raiva. fingimos que protesto deve ser educado, silencioso, inofensivo. os panteras nunca acreditaram nisso. eles sabiam que protesto que não incomoda é decoração urbana. e talvez seja isso que mais assuste até hoje, a clareza.

eu não romantizo os panteras. eles erraram. tinham conflitos internos, machismo, disputas de poder, decisões ruins. isso não os invalida. isso os humaniza. o que invalida a narrativa oficial é fingir que o estado agiu por excesso e não por método. a repressão foi racional, calculada e eficiente. e funcionou. mas não matou a ideia.

o que conecta os panteras negras às ruas contra o ice não é estética, nem palavra de ordem, nem nostalgia revolucionária. é a compreensão profunda de que direitos só existem enquanto são exercidos. de que organização comunitária sempre será vista como ameaça quando expõe a falência moral do poder. de que o medo do estado nunca é do caos, é do controle escapando pelas frestas.

os panteras negras não pertencem ao passado. pertencem a toda vez que alguém decide não pedir permissão para existir. e isso continua sendo, para os estados unidos, o pecado original que nunca foi perdoado.

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2025

vício

acordo com a garganta colada, gosto químico na boca, uma lata de coca-cola zero esquecida na mesa de cabeceira como se fosse um animal de estimação fiel. morta. quente. inútil. tomo mesmo assim. não porque seja boa. porque é previsível. e previsibilidade, numa certa idade, vale mais do que prazer.

na geladeira, uma coleção obscena de queijos. fedidos, arrogantes, lindos. alguns caros demais pra alguém que finge ter autocontrole. outros tão fortes que parecem um erro moral deliberado. exatamente como deveria ser. queijo é isso, leite que decidiu não obedecer. tempo, bactéria, paciência e uma completa falta de interesse em agradar.

isso não é ritual. não é manifesto. não é resistência. é só o jeito como as coisas continuam andando quando você para de tentar ser alguém melhor. repetir não cansa quando você aceita a repetição. cansa quando você finge que ela é temporária, que um dia vai “mudar tudo”. ninguém muda tudo. no máximo troca de vício e chama isso de evolução.

a coca-cola zero não promete nada. não evoca infância, não fala de origem, não conta história bonita. entra fria, sai rápido, não deixa saudade. funcional como uma ferramenta mal desenhada que ainda assim resolve o problema. existe algo profundamente relaxante nisso. nenhuma metáfora. nenhuma transcendência. só efeito imediato.

o queijo é o contrário. exige tempo. insiste. fica ali ocupando espaço, cheirando mais a cada dia, lembrando que algumas coisas só melhoram quando você para de interferir. não tem pressa. não tem marketing. não pede compreensão. se você não aguenta, o problema é seu.

em algum ponto da vida, você percebe que não está mais procurando experiências. está procurando constância. algo que não te surpreenda, não te eduque, não te prometa versão futura de si mesmo. só algo que esteja lá amanhã. e depois. e depois.

li charles bukowski escrever “find what you love and let it kill you.” e senti reconhecimento, não porque a frase seja profunda, mas porque ela é embaraçosamente prática. nada ali fala de grandeza. fala de desgaste. de atrito. de aceitar que alguma coisa vai te moer aos poucos e decidir, conscientemente, não trocar isso por algo mais apresentável.

o erro coletivo foi transformar essa ideia numa coisa bonita. ninguém quer admitir que é consumido por algo pequeno. todo mundo prefere dizer que é movido por paixão, propósito, missão. palavrinhas limpas, prontas pra perfil profissional. ninguém quer dizer “eu funciono à base disso aqui” quando isso aqui é banal, repetitivo e pouco inspirador.

mas é assim que a coisa acontece de verdade. não são grandes decisões que moldam o dia. são gestos automáticos. abrir a geladeira sem pensar. pegar sempre o mesmo pedaço. estalar a mesma lata. seguir em frente. não tem catarse, não tem arco narrativo. tem insistência.

o mundo gosta de vício desde que ele venha com embalagem elegante. chama de disciplina quando parece produtivo. chama de ritual quando dá pra postar. chama de lifestyle quando vende alguma coisa. quando não dá pra romantizar, aí vira problema. eu sempre achei curioso como as pessoas aceitam ser consumidas por planilhas, agendas e reuniões intermináveis, mas se chocam quando alguém escolhe algo com gosto, cheiro e textura.

ser consumido por rotina é inevitável. a única decisão real é qual rotina. e não, não precisa ser nobre. não precisa justificar nada. algumas coisas só precisam funcionar tempo suficiente pra você atravessar o dia sem virar um estranho pra si mesmo.

não tem heroísmo nisso. tem economia. energia poupada por não fingir. tempo ganho por não negociar com a própria natureza. isso incomoda porque revela uma verdade pouco glamourosa: a maioria das pessoas não é movida por sonhos, é empurrada por hábitos. a diferença é que quase ninguém assume os seus.

continuo repetindo porque repetir me ancora. continuo escolhendo o mesmo porque variar só pra provar alguma coisa sempre me pareceu um desperdício de energia. não estou procurando evolução. estou procurando tração. algo que me mantenha andando mesmo quando não há entusiasmo nenhum disponível.

e talvez seja isso que realmente irrite nessa frase. não é o “let it kill you”. é o “find what you love”. porque isso exige olhar com honestidade praquilo que você já faz quando ninguém está olhando. não o que você admira. não o que você gostaria de gostar. mas o que você repete sem aplauso, sem plateia, sem narrativa.

no meu caso, não dá pra transformar isso em lição. não dá pra vender. não dá pra ensinar. só dá pra continuar.

e continuar, descobri, já é bastante provocativo por si só.


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2025

army

existe um tipo muito específico de gente que realmente acredita que o exército dos eua é tipo uma cruz vermelha com fuzil. uma ong musculosa, altruísta, que atravessa oceanos movida por um impulso quase maternal de “vamos salvar esse povo que nem pediu ajuda, coitados”. é uma ingenuidade tão pura que chega a dar inveja. viver assim deve ser leve. confortável. acolchoado. uma vida sem ler o rodapé do contrato.
porque, veja bem, ninguém cruza meio planeta com porta-aviões, drones e marines por amor ao próximo. isso não é solidariedade, é logística. não é compaixão, é investimento. e investimento não entra em lugar nenhum sem fazer conta, projeção, análise de risco e, claro, sem olhar pro subsolo. sempre pro subsolo.
a democracia, nesse cardápio, é só o molho. bonito, fotogênico, fácil de vender. mas o prato principal nunca muda. petróleo, influência geopolítica, controle regional, uma bandeirinha fincada no mapa dizendo “isso aqui agora interessa”. o resto é discurso de aeroporto, daqueles que soam bem no jornal da noite e evaporam assim que as câmeras desligam.
e a metáfora da imobiliária é perfeita, porque é exatamente isso, chegam dizendo que vão reformar o bairro, prometem segurança, progresso, valorização do imóvel… e quando você percebe, já te expulsaram da própria casa, trocaram a fechadura e estão alugando o terreno pra uma multinacional. tudo dentro da lei, claro. a lei deles.
o mais irônico é que quem compra essa narrativa ainda se sente moralmente superior. “não, mas veja bem, eles estão levando liberdade”. liberdade pra quem? em qual embalagem? com quais juros? porque, curiosamente, essa liberdade sempre vem acompanhada de caos, inflação, instabilidade e um monte de gente morta que vira estatística conveniente.
no fim das contas, acreditar que guerra é sobre valores é como acreditar que salsicha é feita por fadas veganas. é reconfortante, mas só funciona enquanto você não entra na fábrica. e quando entra… bem, depois disso não tem como fingir que não viu o sangue no chão, o cheiro metálico no ar e o gerente dizendo, com um sorriso corporativo… “relaxa, isso aqui é pelo bem de todos”.
bon appétit.

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2025

o último livro que li em 2025

esse livro tem a delicadeza de alguém que te deixa terminar a frase errada só pra não interromper. você está lá, confortável, achando que sabe como histórias desse tipo funcionam, achando que no fundo tudo ainda gira em torno da gente… nossas emoções, nossos dilemas, nossa maldita necessidade de fazer sentido. ele não discute. ele anota mentalmente. e continua andando como se você fosse um ruído ambiental.
o que torna tudo tão bom é que nada ali parece interessado em ser memorável. não há cena construída pra virar citação, não há momento escrito pra provocar catarse. o texto opera num tom funcional, quase burocrático, como se estivesse descrevendo algo inevitável. e é justamente aí que mora o veneno. porque quando você percebe, já aceitou coisas que, em qualquer outro livro, pareceriam absurdas demais pra engolir sem protesto. aqui, você engole. seco. e segue lendo.
a humanidade apresentada não é heroica, nem decadente. é utilitária. pessoas são moldadas, adaptadas, reduzidas, especializadas. não porque alguém é mau, mas porque isso funciona melhor. empatia vira custo. sensibilidade vira instabilidade. identidade vira uma peça que pode ser removida sem comprometer o desempenho geral. ninguém celebra isso. ninguém lamenta. simplesmente acontece. e quanto mais natural isso parece dentro da história, mais artificial começa a parecer a sua própria resistência a essas ideias.
há algo profundamente ofensivo e deliciosamente honesto na forma como o livro trata a consciência. não como milagre, não como bênção, mas como barulho. como aquele som constante que você só percebe quando para. a sensação é a de estar lendo um relatório muito bem escrito sobre por que você não é tão necessário quanto gostaria. não há crueldade nisso. há indiferença. e indiferença é sempre mais difícil de engolir.
o contato com o outro não vem carregado de mistério poético ou ameaça explícita. vem carregado de incompatibilidade. não há troca simbólica, não há terreno comum, não há drama compartilhável. existe ação respondendo a estímulo, ponto final. tentar entender vira erro de categoria. insistir em diálogo vira perda de tempo. projetar humanidade vira fraqueza estratégica. e o livro deixa isso claro sem precisar levantar o tom, como quem explica algo óbvio demais pra ser emocionante.
o mais perturbador é perceber que os momentos de maior eficiência surgem justamente quando a narrativa humana se cala. menos reflexão, menos hesitação, menos ego tentando se afirmar. o livro não chama isso de sacrifício. chama isso de ajuste. e isso machuca porque desmonta aquela historinha confortável de que sofrer pelo sentido das coisas nos torna especiais. talvez só nos torne lentos.
a leitura avança com aquela sensação incômoda de estar concordando com algo que você não deveria concordar. você se pega admirando soluções frias, decisões desumanizadas, caminhos que ignoram completamente o que você aprendeu a valorizar. e o texto não te julga por isso. não precisa. você faz esse trabalho sozinho, em silêncio.
quando termina, não sobra entusiasmo. sobra uma limpeza estranha. menos ilusão, menos apego, menos certeza inflada. o livro não te dá uma visão melhor do futuro. te dá uma visão mais honesta do presente e isso é infinitamente mais desconfortável. e mais valioso.
sabe, ele não quis me convencer de nada. não quis me acolher. não quis me educar. só mostrou um mundo funcionando perfeitamente bem sem se importar com o que eu sinto a respeito. e qualquer livro que tenha coragem de fazer isso, sem pedir desculpa, sem piscar pro leitor, sem se explicar demais, merece ser lido agora. antes que você volte a achar que pensar sobre si mesmo é o centro de tudo.

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2025

planos

dezembro chega de mansinho, com aquele bafo morno de promessas vencidas, e de repente tá todo mundo surtando em grupo, se entupindo de lentilha, listinha na mão, olhar esperançoso de golden retriever… e uma certeza delirante de que agora vai. vai porra nenhuma.
eu observo tudo isso como quem assiste a um acidente em câmera lenta. as academias ficam cheias por duas semanas, os cadernos novos são comprados com a empolgação de um virgem numa orgia, os cursos online bombam com promessas de “nova carreira”, “nova mente”, “nova versão de mim”. nova porra nenhuma. no fundo, é todo mundo repetindo o mesmo roteiro, esperando um final diferente.
spoiler: não vai mudar. mas tudo bem. o povo adora ensaiar o mesmo papel todo dezembro. só muda o figurino.
e lá está você, no meio desse balé tragicômico, tomando seu terceiro espumante quente em pé na varanda da tia, olhando pro céu e pensando nas “metas do ano que vem”. ah, as metas. aquela lista feita entre uma uva e outra, enquanto alguém grita “pula com o pé direito” e você finge que acredita. ok falar de pé direito ou esquerdo anda mais polêmico que eu…
a lista que já nasce morta, mas com letra bonita.
“beber mais água.”
“fazer terapia.”
“ler vinte livros.”
meu favorito… “ser a minha melhor versão”.
o que caralhos isso quer dizer? quem inventou isso? onde vive? o que come? em que planeta vive essa melhor versão de você, e o que ela tem contra você do jeito que você é agora, de chinelo (ok perceberam que estou transitando em território perigoso, mas não falei havaianas) e comendo resto de rabanada na madrugada?
ninguém escreve o plano real. ninguém escreve… “repetir tudo de novo, mas com mais cinismo.”
ninguém coloca “provavelmente manter o mesmo emprego meia-boca por medo de falir emocionalmente.”
ou “seguir em piloto automático até a próxima crise existencial.”
esse seria um plano honesto. realista. quase bonito de tão triste.
mas honestidade não fica bem em lista.
o plano precisa parecer épico.
precisa ser bonito o suficiente pra caber num story com emoji.
precisa parecer que você tem alguma noção do que está fazendo.
só que você não tem.
ninguém tem.
eu não tenho.
e mesmo assim, seguimos montando esses projetos de vida como quem monta uma lasanha de micro-ondas achando que tá fazendo culinária molecular.
até que, claro, tudo começa a sair do eixo.
a vida escorrega, tropeça, cai de cara no asfalto e lá está você, ainda tentando seguir o maldito plano.
como se ele fosse uma tábua de salvação.
como se ele fosse te salvar do absurdo de ser gente.
e é nesse ponto que tenho um pensamento que ninguém quer ouvir quando ainda tá empolgado com o novo planner colorido…
“planos devem ser efêmeros, e você precisa estar pronto pra abandoná-los.”
não adaptar.
não “ajustar conforme o contexto”.
abandonar. jogar fora. acender um cigarro, olhar pro horizonte e dizer “foda-se, isso não faz mais sentido.”
porque o plano, no fundo, é só um disfarce.
uma desculpa pra não lidar com o imprevisível.
um cabide de expectativas onde você pendura suas frustrações e finge que tá tudo indo bem.
mas você sabe que não tá indo.
porque aquele plano que você fez em dezembro não sobrevive nem até o carnaval.
e o pior, ele não morre de morte natural.
ele morre porque você mudou.
porque o mundo mudou.
porque a vida é imprevisível, resolveu virar à esquerda quando você já tava com a seta piscando pra direita fazia três meses.
e é aí que você tem duas opções…
seguir fingindo que ainda faz sentido ou sair do teatro e ir viver alguma coisa que preste.
eu sempre escolho a segunda opção.
não porque sou sábio, mas porque já testei a primeira.
e deu no quê?
em eu, trancado num plano que não era mais meu, tentando encaixar minha vida real dentro de um quebra-cabeça que já não batia.
plano ruim é apego burro.
hoje, eu trato plano como convite de festa estranha… pode ser bom, pode ser uma merda. vou, dou uma olhada, como um petisco, e se tiver chato, vou embora.
sem drama.
sem precisar explicar.
sem precisar justificar pra ninguém.
então sim… vai em frente, escreva seus planos. se isso te diverte, ótimo. compre a agenda cara, compre a caneta importada, monte seu vision board com recortes de revista de decoração minimalista com planta que ninguém sabe cuidar.
mas saiba disso…
você não é o seu plano. você é quem continua existindo quando ele fracassa.
e, com sorte, com ironia, e um senso de humor minimamente saudável, você ainda vai rir disso tudo em março.
enquanto risca a meta de “dormir cedo” com uma caneta vermelha e pensa:
“bom, pelo menos tentei.”
e depois pensa:
“que sorte que não deu certo.”
e brinda com uma coca (zero) morna às maravilhas de não estar mais preso num plano idiota.
fim do plano.
início da vida.
com o caos no banco do carona, e você dirigindo sem gps, sem waze e com uma playlist boa.
essa sim, foi uma decisão acertada.

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2025

etiópia

a etiópia. só de ouvir o nome, você já imagina uma criança esquelética com moscas no rosto e olhos pedindo clemência a deus, ou à câmera da bbc. é automático. hollywood, o teleton da miséria africana, enfiou isso na tua cabeça com a delicadeza de um chute no estômago. mas… surpresa! a etiópia não é o playground da caridade internacional que você acha que é. e não, não foi colonizada como a maior parte do continente. ou seja, enquanto o resto da áfrica estava sendo servido no jantar imperialista europeu, com garfo e faca, a etiópia chutava a mesa e dava uma voadora nos dentes dos italianos.
sim, os italianos. aqueles mesmos que te venderam vinho barato e massas com nomes impronunciáveis. em 1896, esses senhores tentaram fazer da etiópia mais uma iguaria do seu buffet colonial. resultado? levaram uma surra homérica na batalha de adwa. uma surra tão humilhante que até hoje o orgulho nacional italiano treme quando alguém fala em etiópia. foi tipo um império romano remixado tomando um pau de um povo que usava escudos de couro e espadas tradicionais… ah e fazia café melhor que o seu barista metido da esquina.
mas, claro, você não aprende isso na escola. não, senhor. na escola te ensinam que a áfrica é um continente de desgraça, fome, guerra e leões. um grande safári de sofrimento. e aí você cresce achando que a etiópia é só o endereço oficial da desnutrição. quando, na real, estamos falando de uma das civilizações mais antigas do planeta. o império de aksum já ouviu falar? não, né? estava lá com comércio rolando a mil, moedas próprias e contato direto com o império romano, enquanto a europa ainda estava se limpando com folhas e rezando pra não pegar peste bubônica.
e sim, a etiópia também é o berço do café. isso mesmo, aquele líquido sagrado que você (e eu) idolatra como se fosse sangue de unicórnio orgânico. pois é, o coffe arabica nasceu nas montanhas etíopes. os pastores perceberam que as cabras ficavam doidonas com umas frutinhas vermelhas e boom… nasceu o café. e você aí pagando 25 reais num cold brew achando que está fazendo parte de uma revolução hipster. parabéns.
a religião? etiópia tem uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo. não, não aquelas versões enlatadas do cristianismo importadas dos eua com pastores de terno e jatinho particular. aqui é cristianismo raiz, com igreja entalhada na pedra, no meio do nada, onde os monges cantam em ge’ez, uma língua que faz o latim parecer gíria de shopping.
e a comida? meu amigo… se você acha que etíope só come mingau de emergência da onu, você merece viver à base de miojo. estamos falando de injera, aquela panqueca esponjosa de teff (um grão milenar que faz a quinoa parecer arroz agulhinha), acompanhada de ensopados apimentados, lentilhas, carne cozida, tudo com as mãos, do jeito que deus ou algum chef decente mandou.
mas claro, falar disso tudo não dá ibope. não rende curtida, não atrai doação. miséria vende. criança com barriga inchada, com mosca pousada no olho, isso sim mobiliza. é pornografia humanitária. uma forma elegante de manter o complexo de salvador branco bem alimentado. o ocidente adora a etiópia… desde que ela continue cabendo na sua narrativa de coitadismo exótico.
e no meio disso tudo, você aí, achando que a etiópia é só mais um lugar na lista negra do globo. quando, na real, ela é a pátria de haile selassie, o imperador que virou deus pra milhares de rastafáris na jamaica. o cara que recebeu malcolm x, que botou a onu pra ouvir desaforo, que foi capa da TIME como o último leão de judá. mas, né, você só conhece leão de judá como nome de igreja evangélica na quebrada.
então da próxima vez que ouvir “etiópia”, faz um favor pra humanidade e fecha o netflix. abre um livro. ou melhor, abre a cabeça. porque a etiópia não precisa da sua pena, da sua hashtag ou da sua arrogância pós-colonial disfarçada de compaixão. ela sobreviveu a impérios, a fomes, a guerras e ainda assim segue firme, com mais dignidade do que muito país que finge ser civilizado.
e sabe o mais incrível? ela faz tudo isso tomando café melhor que o seu.

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2025

deportação

deportação em massa. puta que pariu. só de pronunciar isso em voz alta eu já sinto o gosto metálico do fracasso humano, tipo café requentado numa lanchonete de rodoviária às quatro da manhã, servido por um cara que também tá a um passo de ser deportado porque ficou três dias a mais do que o visto permitia. três dias. tempo suficiente pra você assistir uma série ruim da netflix, mas o suficiente pro estado te enfiar num avião de volta pro caos.
porque, veja bem, nesse nosso maravilhoso mundo moderno… cheio de tecnologia, inteligência artificial e gente fingindo que medita, morar no “lugar errado” agora é crime. viver, respirar, pagar aluguel e tentar sobreviver do lado errado da linha imaginária desenhada por colonizadores bêbados no século XIX é motivo suficiente pra te algemar e te jogar pra fora como se fosse lixo reciclável com o adesivo vencido.
e é sempre essa a narrativa, né? “invasores”, “ilegais”, “ameaça à soberania”. ah, claro, porque nada destrói um país mais rápido do que uma senhora boliviana vendendo empanada na esquina. é o verdadeiro terror. cancela os mísseis, fecha os bancos, esquece os bilionários sonegadores, o verdadeiro apocalipse é um guatemalteco tentando limpar seu pára-brisa por uma moeda.
mas a beleza grotesca disso tudo tá na coreografia. é balé estatal. helicóptero no céu, carros blindados na rua, homens engravatados dando entrevista sobre “ações coordenadas”. parece filme. só que não tem final feliz. só tem a criança de oito anos chorando num canto de aeroporto, com uma etiqueta pendurada no pescoço como se fosse bagagem extraviada.
e no meio disso tudo, a porra da “lei”. a palavra mágica. o abracadabra do escroto. “é a lei”. porque se tem algo que a humanidade aprendeu a fazer bem, é usar a burocracia como desculpa pra atrocidade. é assinar papéis, carimbar, sorrir pra câmera e dizer: “não é pessoal, é só protocolo.” o tipo de frase que você espera ouvir de um assassino de aluguel ou de um gerente de rh.
sabe, fico lembrando de um cara idealista e chapado de utopia que um dia ousou cantar “imagine there’s no countries”. lindo, né? só que hoje, se o lennon aparecesse com essa ideia num fórum da união europeia, era deportado em menos de 24 horas. “subversivo”, “desestabilizador”, “perigo à ordem pública”. e o pior é que ele seria preso antes do refrão.
mas a real é que imaginar um mundo sem fronteiras virou piada. virou camiseta de festival de música indie. virou bio de instagram com bandeirinhas e discurso de paz, paz, paz, desde que o cara “do outro país” não venha morar na sua rua. aí fudeu. aí vira questão de segurança.
e vamos ser sinceros aqui, entre um trago e outro, esse mundo não tem medo de imigrante. ele tem nojo. e o nojo é seletivo. porque se o cara vem da noruega, de mochila nas costas, dizendo “i’m here to find myself”, ele é bem-vindo. agora se ele vem do sudão, dizendo “i’m here to not fucking die”, ele é deportado.
essa é a verdade. crua, suja e malpassada. um mundo onde o passaporte vale mais que caráter. onde o lugar onde você nasceu decide se você pode viver com dignidade ou se vai ser escoltado até o portão de embarque como se fosse contrabando humano.
e o mais insuportável é a falsa compaixão. o tweet choroso, a nota oficial, o discurso com lágrimas ensaiadas. “lamentamos profundamente”, “foi uma decisão difícil”, “respeitamos os direitos humanos”. tudo isso enquanto apertam o botão que manda mais um ser humano pro olho do furacão. é como colocar ketchup numa ferida aberta e chamar de cura.
então sim, meus amigos, isso aqui não é só uma política pública. é um espetáculo de indiferença. é a arte fina de transformar dor em dado estatístico. é o retrato perfeito de um mundo que se acha civilizado mas ainda usa arame farpado pra decidir quem merece respirar.
e eu? eu continuo aqui, comendo comida de rua, cruzando fronteiras que ainda me deixam entrar, ouvindo histórias que não cabem em relatório da imigração. continuo sentado ao lado do cara que fugiu da fome e foi parar lavando prato num restaurante de luxo onde ninguém sabe o nome dele. mas ele sabe o nome de todos os clientes. porque tem que saber. é isso ou deportação.
imagine all the people, living for today?
não dá, john. tem gente que tá só tentando viver até amanhã sem ser tratado como uma falha no sistema.
e isso, meu caro, é a maior merda de todas.

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2025

ser bom hoje em dia

sabe o que me irrita profundamente? tipo… no osso, na alma, no nervo exposto da existência? essa merda de sensação constante de que ser uma boa pessoa virou uma aberração social. um erro de sistema. uma falha de caráter. eu acordo todo dia com essa ideia fixa martelando na cabeça… por que caralhos é tão difícil simplesmente não ser um babaca? não deveria ser fácil? não deveria ser a porra do padrão mínimo? mas não. é como se o mundo tivesse entrado num pacto coletivo de “vamos todos fingir que empatia é opcional e caráter é coisa de trouxa”.
e olha, eu não tô falando de ser santo, não. não tô me candidatando a mártir do século. eu tenho minhas merdas, meus rancores, minha lista de gente que eu gostaria de ver tropeçando de cara num lego. mas mesmo assim, mesmo com o caos diário, eu insisto em não querer ser um escroto. e isso, hoje, já é pedir demais.
porque ser bom agora virou um tipo de resistência. virou subversão. virou quase crime. se você é honesto, te chamam de ingênuo. se é gentil, te acham manipulador. se mostra vulnerabilidade, parece que abriu a temporada de caça. e o pior, se você tenta manter uma integridade básica, as pessoas olham pra você como se tivesse saído de um museu, uma peça de arqueologia emocional.
e nem adianta tentar se adaptar, porque o jogo tá viciado. a regra é clara… ou você pisa ou é pisado. e quem tenta não pisar em ninguém, quem tenta andar com algum senso de direção moral, acaba sendo atropelado por uma manada de egos inflados, sorrisos falsos e frases motivacionais coladas com cuspe. é isso. a humanidade trocou o manual de ética por um carrossel de frases do pinterest.
e aí, claro, vem aquela voz interior me perguntando: “pra quê continuar tentando, então?” e a resposta é simples, porém desconfortável, porque eu me recuso a me tornar mais um pedaço da merda disfarçada de gente que anda por aí fingindo que é normal agir como um sociopata funcional. não dá. eu vejo isso nos olhos dos outros. esse vazio operante. esse desespero disfarçado de autoconfiança. esse ego mastigando qualquer traço de bondade como se fosse sinal de fraqueza.
e sabe qual é a ironia? ninguém quer admitir que sente falta disso. falta de alguém que escuta sem esperar a vez de falar. de alguém que ajuda sem postar. de alguém que discorda sem desejar sua morte. mas tá todo mundo com medo. medo de parecer humano. medo de não ter o cinismo necessário pra ser aceito no clube dos desgraçados que decoram mantras de autoestima mas não sabem olhar nos olhos de verdade.
eu olho em volta e tudo parece uma simulação mal feita. a gentileza é medida em likes. o arrependimento é escrito com legenda. a compaixão tem prazo de validade… 24 horas no stories. o altruísmo vem com qr code pra doação. e a verdade? a verdade virou uma velha chata que ninguém mais convida pra festa.
então não, eu não sou uma boa pessoa no sentido comercial do termo. eu não fico sorrindo pra todo mundo. não compro curso de empatia. não sigo guru de chakras digitais. mas também não piso em ninguém pra subir. e só isso, nesse mundo doente que valoriza quem grita mais alto e engana melhor, já me coloca na categoria de “boa pessoa”. o que é, por si só, trágico pra caralho.
então eu continuo. não porque acredito que vou mudar o mundo. mas porque me recuso a me tornar aquilo que eu mais desprezo… gente que confunde frieza com força. gente que acha que sensibilidade é defeito de fabricação. gente que se olha no espelho e só enxerga o próprio marketing.
ser bom hoje é isso. andar desarmado num campo minado e ainda ter que sorrir quando explodem do seu lado. é perder mais do que ganhar. é sair sujo, ferido, cansado… mas inteiro. e olha, nessa merda de mundo, sair inteiro já é milagre o suficiente.

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hot takes

a gente vive cercado de gente com opinião pronta e experiência nenhuma. pessoas que nunca ficaram tempo suficiente em lugar nenhum pra aprender o cheiro das coisas, mas que explicam o mundo como se tivessem inventado o mapa. hot take é isso… turismo emocional. passa rápido, tira foto, dá veredito e vai embora se sentindo profundo.
todo mundo hoje quer pular direto pro julgamento. o processo é chato demais. observar exige humildade. escutar exige estômago. e ficar confuso, esse crime hediondo, exige coragem. muito mais fácil sacar uma frase curta, afiada, com aquela confiança plástica de quem nunca pagou o preço de estar errado.
e não é coincidência que todo hot take soe igual. mesma entonação moral, mesmas palavras da semana, mesma urgência fabricada. parece cardápio de aeroporto, tudo “internacional”, tudo sem gosto, tudo feito pra ninguém reclamar. discordar virou ameaça, nuance virou suspeita, ambiguidade virou falha de caráter.
as pessoas não querem mais conversas, querem vitórias. querem sair por cima, sair citáveis, sair printáveis. diálogo virou esporte de combate, só que sem suor, sem sangue, sem consequência real. você bate, coleta aprovação e vai dormir achando que cresceu. não cresceu. só se ouviu ecoando.
o mais perverso é que isso cria a ilusão de profundidade. como se dizer algo rápido fosse sinal de inteligência. como se complexidade fosse fraqueza. como se o mundo, esse lugar caótico, contraditório, cheio de exceções nojentas, pudesse caber numa frase de efeito digitada enquanto você espera o elevador.
e sabe, no meio disso tudo, a gente vai perdendo o tato humano. o olhar sustentado. a pausa desconfortável. a conversa que não sabe onde vai dar. aquela troca lenta, meio torta, onde ninguém ganha, mas alguém aprende alguma coisa. isso não tem palco. não tem corte. não tem legenda espirituosa.
ninguém mais quer ficar tempo suficiente pra ser mudado. todo mundo quer entrar, falar, sair ileso. opinião virou colete à prova de dúvida. e dúvida, hoje, é vista como fraqueza, quando na verdade é a única coisa que presta.
antigamente você aprendia ouvindo gente que sabia mais que você. hoje você aprende performando pra gente que sabe o mesmo ou menos. é um círculo fechado de certezas recicladas, um rodízio infinito de frases prontas passando por bocas diferentes.
e aí alguém diz: “talvez a gente devesse falar menos”. heresia.
“talvez ouvir mais.” escândalo.
“talvez não ter uma resposta imediata.” imperdoável.
mas é exatamente aí que mora a única coisa ainda viva. no intervalo. no silêncio. no desconforto. na conversa que não vira conteúdo. na experiência que não vira opinião. na noite que não termina com conclusão nenhuma.
porque viver nunca foi sobre chegar no ponto final. isso é coisa de gente com pressa de parecer sábia.
viver é ficar no meio do caminho tempo suficiente pra se sujar.