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2024

cinema

sabe, eu nunca fui um grande fã de religião, mas se existe um templo onde aprendi a orar, onde fui moldado como um pedaço de argila barata nas mãos de um deus debochado e irônico, esse templo foi o cinema. a sala escura, o feixe de luz cortando a poeira no ar, o cheiro rançoso de pipoca murcha e refrigerante derramado… aquilo era sagrado. ali, sentado em poltronas desconfortáveis, aprendi o que significava ser cool, o que era amor, o que era aventura, o que esperar do mundo e, principalmente, o quão brutalmente decepcionante seria perceber que a vida real ignorava solenemente todas essas lições.

o cinema não foi apenas um passatempo. foi um manual, um evangelho. de um jeito ou de outro, cada diretor, cada ator, cada roteiro que passou diante dos meus olhos deixou uma marca, um traço no meu código genético, como se minha identidade tivesse sido escrita não pelo acaso, mas pelas decisões criativas de gente como scorsese, tarantino, fellini, godard, kubrick, lynch, coppola, kurosawa, hitchcock. cada um deles me moldou, me ensinou algo… algumas lições úteis, outras desgraçadamente erradas.

quando criança, vivi no mundo de spielberg. ele me fez acreditar que a aventura estava em toda parte, que o ordinário podia, a qualquer momento, se transformar no extraordinário. e.t., os goonies, indiana jones… esses filmes me ensinaram que o mundo era grande, cheio de mistérios, de descobertas esperando por um olhar curioso. passei anos procurando mapas do tesouro escondidos, esperando que um alienígena aparecesse na minha janela, achando que bastava querer muito algo para que a magia acontecesse.

então, a adolescência chegou e, com ela, a constatação de que a vida não era uma produção de spielberg, mas sim um longa desconfortável de john hughes. a diferença é que, ao contrário de clube dos cinco, ninguém parecia tão espirituoso, tão engraçado, tão iconicamente problemático. ninguém resolvia suas crises existenciais em um sábado de detenção. ninguém tinha uma trilha sonora perfeitamente sincronizada com seus dilemas internos. a adolescência real era só acne, insegurança e um tédio esmagador.

foi aí que tarantino entrou na minha vida, com sua metralhadora de referências pop, diálogos cortantes e violência coreografada com uma precisão quase musical. assistir cães de aluguel e pulp fiction foi como uma revelação… o mundo podia ser estiloso, mesmo quando era sujo. cada fala importava, cada cena tinha um peso visual, cada personagem parecia existir além do tempo e espaço. tentei replicar isso, claro. tentei falar como se estivesse em um roteiro de tarantino, enfiando monólogos sobre cultura pop em conversas banais. o resultado? olhares vazios e a dolorosa percepção de que diálogos cinematográficos só funcionam quando alguém os escreve.

e então veio scorsese, com sua brutalidade elegante, seus mafiosos cheios de classe e tragédia. os bons companheiros, cassino, touro indomável, filmes que me ensinaram que o fracasso podia ser belo, que o crime podia ser sedutor, que a ascensão e queda eram partes inseparáveis do jogo. scorsese me fez acreditar que a vida deveria ter um arco narrativo, uma introdução poderosa, um clímax intenso, uma queda inevitável. mas ninguém me avisou que, na vida real, às vezes você só cai e fica por lá. sem trilha sonora, sem fade out estiloso, sem lição final.

kubrick me ensinou o terror da perfeição. o iluminado, laranja mecânica, 2001 uma odisseia no espaço, todos eles me mostraram que a estética pode ser tão perturbadora quanto a própria história. que o silêncio pode ser mais aterrorizante que um grito. que o controle absoluto sobre cada detalhe pode transformar um filme, e uma vida, em algo sufocante. tentei levar isso para mim, tentei controlar cada aspecto da minha narrativa pessoal. o problema? kubrick era um gênio obsessivo. eu era só um cara tentando fazer a vida parecer um plano-sequência calculado.

e então, veio fellini, com suas festas intermináveis, seus excessos, seus personagens que pareciam dançar à beira do caos. la dolce vita me fez querer a vida como um desfile de momentos grandiosos, de encontros inesperados, de noites que nunca terminam. fui para bares esperando que a decadência fosse cinematográfica, que cada gole de vinho viesse acompanhado de uma epifania. o que descobri? a ressaca chega. a conta vem. e, diferentemente dos filmes, você não pode simplesmente dar um fade to black quando as coisas ficam insuportáveis.

lynch me mostrou que a realidade sempre tem algo de surreal, que por trás das fachadas limpas sempre há algo podre. quando assisti cidade dos sonhos, pela primeira vez, fiquei obcecado. não porque entendi, porque ninguém realmente entende lynch, mas porque senti que a vida real se parecia mais com aquilo do que qualquer outra coisa que eu já tinha visto. às vezes, tudo parece fazer sentido, mas então a câmera gira, a luz muda, e o que antes parecia real se revela um teatrobarato, uma farsa mal costurada.

godard me fez querer ser intelectual. kurosawa me fez querer ser um guerreiro. hitchcock me fez desconfiar de tudo. david lynch me fez duvidar da sanidade do universo.

e então, hoje me pego assistindo aos clássicos que me moldaram, como um velho mafioso revendo os álbuns de fotos da família, só que minha família é composta por rostos projetados em celuloide, e cada um deles me ensinou algo que eu nunca pedi para aprender.

revisito o poderoso chefão e percebo que coppola me deu mais noções de lealdade e traição do que qualquer aula de ética. me ensinou que a família nem sempre é a que você nasce, mas a que você escolhe… e que, no fim, sempre tem um fredo esperando para ferrar tudo.

volto a pulp fiction e lembro de quando queria falar como os personagens de tarantino… rápido, sagaz, afiado como uma lâmina. queria que cada conversa fosse um duelo verbal, um jogo de xadrez de referências pop e sarcasmo. mas a vida real tem muito mais pausas constrangedoras e muito menos trilha sonora de dick dale.

assisto a taxi driver e vejo que scorsese já sabia, todo mundo é um pouco travis bickle, navegando pelas ruas sujas da cidade com uma raiva silenciosa, esperando por um grande momento de redenção que talvez nunca chegue. e então coloco os bons companheiros e sorrio, porque, no fundo, todos nós queremos ser henry hill, mas a maioria de nós acaba sendo apenas mais um figurante na multidão, assistindo os outros comerem o melhor da vida enquanto ficamos com as sobras.

revivo la dolce vita e percebo que fellini tinha razão desde o início… a vida é um desfile caótico de personagens absurdos, festas grandiosas e ressacas existenciais. tentamos encontrar significado entre um gole de vinho e outro, entre um encontro apaixonado e um silêncio constrangedor. e, no fim, talvez não haja significado algum. talvez seja tudo uma grande ópera sem roteiro, e nosso papel seja apenas continuar cantando mesmo sem saber a letra.

hoje, entendo melhor o cinema, e talvez, por isso, entenda um pouco mais sobre a vida. entendo que hitchcock sempre soube que a paranoia não é um exagero, é uma ferramenta de sobrevivência. que kurosawa me mostrou que a honra é só uma questão de perspectiva. que lynch me ensinou que a realidade sempre tem algo de errado, como um quadro torto que ninguém nota até ser tarde demais.

mas, acima de tudo, entendo que, apesar de todas as mentiras que o cinema me contou, ele também me deu algo raro e valioso… a capacidade de ver beleza no meio do caos. de encontrar poesia num prato de macarrão fumegante, num letreiro de neon piscando na madrugada, numa conversa aleatória que, por algum motivo, soa como um diálogo bem escrito.

e então, dou play em mais um clássico. porque, no fim, talvez a grande mentira do cinema não seja nos fazer acreditar que a vida tem um roteiro, e sim nos fazer esquecer, ainda que por um instante, que ela não tem.