
às vezes eu fico pensando que a gente inventou uma complicação absurda pra algo que, no fundo, é tão simples quanto respirar. viver virou esse projeto de engenharia, cheio de planilhas emocionais, gráficos de produtividade e frases motivacionais pregadas na geladeira como se fossem a chave de uma caverna secreta. e eu olho pra isso tudo e penso… porra, sério? será que a gente esqueceu como é só estar presente, sentir o agora sem precisar embrulhar em papel dourado?
eu me sinto meio louco porque eu gosto das coisas cruas, sem filtro. gosto de olhar pro céu sem transformar em legenda de instagram, gosto de ouvir o barulho do vento como se fosse uma canção suja, gosto de ver a água do café esfriando só pra perceber que o tempo passou e eu estava ali, inteiro, vivendo aquele instante microscópico que não volta nunca mais. não preciso transformar isso em lição de vida, em workshop, em filosofia de almanaque. eu só quero o gosto do momento.
o problema é que parece que a humanidade tem pavor do silêncio. silêncio incomoda, porque nele não tem aplauso, não tem distração, não tem justificativa. então a solução que inventaram foi poluir a vida com barulho… barulho de notificações, barulho de metas, barulho de pensamentos que repetem como discos arranhados. todo mundo se entupindo de tarefas, de objetivos, de sentido comprado em embalagem plástica, como se isso fosse salvar do vazio. mas o vazio não é o inimigo. o vazio é só o lembrete de que a vida não precisa ser um espetáculo.
eu acho engraçado ver como todo mundo corre atrás de respostas como se fossem medalhas olímpicas. querem saber o propósito, o destino, a explicação final, como se estivessem num jogo que precisa de final boss. e eu, na minha suposta loucura, prefiro aceitar que não tem final boss nenhum. é só andar, sentir, provar, rir e chorar. é viver o presente com a intensidade de quem sabe que não vai ter reprise. porque não vai. e quanto mais cedo a gente engole essa verdade, mais leve fica.
eu vejo essa obsessão moderna de “buscar sentido” como uma piada ruim. é como pedir pro cozinheiro explicar cada ingrediente do prato em vez de simplesmente comer. a vida não precisa ser decifrada, precisa ser devorada. de boca cheia, sem etiqueta, sem manual. quando você para de buscar o “sentido”, ele aparece sozinho. não como revelação divina, mas como um gole de coca zero gelada num dia quente. simples, direta, sem discurso.
talvez eu seja louco porque acho que a beleza tá justamente no óbvio, estar aqui. agora. nesse segundo que não vai voltar. sem prometer nada, sem garantir nada, sem precisar ser “útil”. e eu rio quando vejo como as pessoas se torturam pra transformar a vida numa tese acadêmica, enquanto ignoram o fato de que a maior riqueza é sentir a própria respiração, o gosto de um tomate bem maduro, o cheiro da rua depois da chuva. coisas que não cabem em livros de autoajuda, mas que carregam mais sentido do que qualquer merda escrita por um coach.
eu não quero respostas, não quero mapas, não quero porta de saída dourada. eu quero o agora, cru, imperfeito, sem propaganda. quero a lucidez de saber que tudo pode acabar a qualquer momento e que é justamente essa finitude que torna cada instante precioso. e no fim, se isso é loucura, então que me internem… desde que me deixem levar o silêncio, o sarcasmo e um prato de comida honesta. porque, sinceramente, nada mais faz sentido do que simplesmente viver.