
ouvi outro dia que o cinema estava morrendo, e quer saber, eu discordo totalmente disso. o cinema não está morrendo. a gente é que ficou pequeno demais pra ele.
eu penso nisso quando lembro de taxi driver. aquela câmera parada no rosto do robert de niro, o silêncio desconfortável, o tempo que ele leva pra virar aquilo que ele vira. hoje metade das pessoas já teria pegado o celular antes da terceira cena. não porque o filme é lento, porque a gente ficou incapaz de esperar alguma coisa acontecer sem ser recompensado imediatamente.
ou 2001, a space odyssey. aquilo não te explica nada. não segura sua mão. não pede desculpa. o stanley kubrick simplesmente te joga ali e você que se vire. hoje iam chamar de “confuso”, “parado”, “difícil”. na verdade, só exige presença, coisa que virou luxo.
e pensa no maior de todos, the godfather. o ritmo, os silêncios, os olhares. não tem corte a cada três segundos, não tem frase explicando tudo, não tem urgência. é gente olhando, pensando, esperando. hoje alguém ia perguntar “quando começa de verdade?”. já começou faz tempo. você que não entrou.
e quer saber, cinema sempre foi isso e sobre isso… tempo. tempo que você não controla. tempo que você aguenta ou não. quando o francis ford coppola segura uma cena mais do que o confortável, ele não está errando… ele está confiando que você não é um idiota apressado.
até pulp fiction, que todo mundo acha “dinâmico”, brinca com tempo de um jeito que exige atenção. você precisa montar aquilo. não é entregue pronto. não é algoritmo te explicando o que sentir. é você trabalhando um pouco… e isso virou quase ofensivo.
eu tô aqui refletindo… o problema nunca foi o cinema. o problema é que a gente virou gente que não aguenta silêncio, não aguenta ritmo, não aguenta não entender tudo na hora. a gente precisa de explicação, de velocidade, de estímulo constante. a gente precisa ser tratado como consumidor, não como espectador.
vhs e dvd ainda seguravam um pouco dessa experiência. você colocava fight club e ficava. você não ficava testando outras opções no meio. não tinha cem abas abertas na sua cabeça. você assistia. simples assim. meio tosco, meio limitado, mas honesto.
o streaming acabou com isso. não porque é ruim, mas porque deu poder demais pra gente que não sabe usar. agora você pode parar tudo, trocar tudo, abandonar tudo. e você faz isso, eu mesmo já fiz isso por mais vezes que quero assumir. o tempo todo. não por necessidade, por hábito. virou reflexo. qualquer momento de silêncio, qualquer cena que demora um pouco mais, já ativa a vontade de escapar.
e aí você vai no cinema, aquele lugar que ainda te obriga a ficar… e o que acontece? alguém acende o celular ou responde o whatsapp. aquela luz ridícula no meio da sala. alguém que não consegue ficar duas horas sem verificar nada. o filme está acontecendo, gente como martin scorsese passou anos construindo aquilo… e a pessoa prefere olhar uma notificação idiota.
é quase simbólico demais pra ser coincidência.
então não, cinema não está morrendo. você ainda pode sentar e ver apocalypse now e sair diferente. ainda pode assistir blade runner e ficar com aquilo dias na cabeça. isso não foi embora.
o que foi embora é a nossa capacidade de estar ali inteiro.
cinema não morreu. ele só parou de competir com distração barata.
e, sinceramente, talvez seja por isso que ele ainda vale a pena.