
aos 45 eu comecei a perceber que a maior parte da minha vida foi passada tentando evitar parecer ridículo.
o que é engraçado.
porque olhando agora eu claramente parecia ridículo mesmo assim.
só que com mais esforço, mais agenda, mais pose, mais vocabulário cuidadosamente escolhido e uma quantidade absurda de energia gasta tentando parecer uma pessoa que sabia exatamente o que estava fazendo. eu não sabia.
ninguém sabe.
algumas pessoas só improvisam com blazer melhor.
e acho que foi isso que mudou.
eu perdi o interesse em parecer uma pessoa muito coerente.
coerência demais me dá desconfiança.
parece gente que ensaiou a própria personalidade em frente ao espelho e agora está presa naquela versão pelo resto da temporada.
eu passei muito tempo achando que maturidade era virar aquele homem seguro, linear, perfeitamente alinhado consigo mesmo, cheio de respostas, dono de uma calma quase criminosa.
que fantasia maravilhosa.
quase uma ficção científica de classe média.
a verdade é que eu só fiquei melhor em lidar com o fato de que a vida não vem com roteiro, não respeita planejamento e claramente sente prazer em destruir cronograma de gente confiante.
e talvez isso seja liberdade.
não essa liberdade de propaganda com gente olhando horizonte como se tivesse descoberto a própria alma numa terça-feira.
liberdade real.
a liberdade meio suja, meio desconfortável, meio perigosa de poder fazer do meu jeito e entender que, quando você tem essa liberdade, a pior coisa que pode fazer é ficar preguiçoso, entediado e previsível.
porque aí é imperdoável.
se eu posso escolher, se eu posso criar, se eu posso tentar algo diferente, se eu posso errar sem pedir licença pra um comitê imaginário dentro da minha cabeça, então por que diabos eu escolheria fazer o correto, o seguro, o aceitável, o bem comportado?
eu prefiro falhar tentando alguma coisa com pulso do que acertar fazendo algo morno.
morno é uma ofensa.
morno é a morte usando camisa passada.
eu não tenho mais paciência pra vida sem risco nenhum.
não risco idiota, não pose, não coragem de linkedin.
risco de verdade.
o risco de parecer exagerado. o risco de ser mal interpretado. o risco de alguém não gostar. o risco de tentar algo que talvez dê errado, mas pelo menos não pareça produzido por um departamento de bom senso com medo de respirar alto.
porque existe um tipo de fracasso que eu respeito.
o fracasso de quem tentou fazer algo difícil.
de quem tentou sair da fórmula.
de quem olhou pra um caminho previsível e pensou… “não. por aqui eu já sei onde termina. e justamente por isso eu não quero.”
isso eu respeito.
agora acertar fazendo o óbvio?
parabéns.
você conseguiu estacionar perfeitamente numa vaga vazia.
comovente.
também comecei a entender que não ter um plano rígido talvez seja uma forma de inteligência.
não estou falando de virar irresponsável, esse personagem patético que acha que caos é profundidade.
eu gosto de lista. eu gosto de horário. eu gosto de chegar antes. eu gosto de saber onde estou pisando.
sou neurótico o suficiente pra observar quem chega atrasado e tirar conclusões silenciosas que talvez eu nunca diga em voz alta, mas que definitivamente estão sendo arquivadas num pequeno tribunal interno.
a questão é outra.
é não transformar controle em religião.
porque durante anos eu tentei antecipar tudo.
a reação. o resultado. a próxima etapa. o risco. o erro. o que iam pensar. o que eu deveria parecer.
e no fim algumas das melhores coisas que me aconteceram vieram justamente do que eu não tinha planejado.
do desvio. da porta errada. da conversa inesperada. do erro que abriu outra coisa. do “vamos ver no que dá” dito com pouca convicção e muita sorte.
eu gosto disso agora.
gosto de entrar em situações sem saber exatamente quem está no comando.
gosto de perceber que talvez eu seja o menos preparado da sala pra entender o que realmente está acontecendo.
isso é saudável.
humilhante, claro.
mas saudável.
porque tem uma arrogância muito feia em achar que você já entendeu tudo.
eu já fui esse cara em algumas versões.
o sujeito entra num lugar, observa três detalhes e já cria tese completa sobre o mundo.
que vergonha.
hoje eu tento chegar mais quieto.
não humilde de um jeito performático, essa humildade teatral de gente que quer aplauso por parecer simples.
humilde de verdade.
do tipo: “talvez eu esteja errado.” “talvez eu não tenha contexto.” “talvez eu não seja tão brilhante assim.” “talvez eu devesse calar a boca por mais cinco minutos.”
isso, aliás, deveria ser uma prática espiritual obrigatória.
calar a boca por mais cinco minutos.
resolveria guerras, reuniões, brainstormings e metade dos podcasts.
outra coisa que mudou aos 45… eu fiquei menos interessado em agradar todo mundo.
não por rebeldia juvenil.
isso também cansa.
mas porque uma reação forte, pra mim, vale mais do que aprovação unânime de gente entediada.
quando todo mundo concorda comigo, alguma coisa está errada.
ou eu falei algo covarde demais.
ou entrei numa sala cheia de gente educada demais pra admitir que discordou.
ou, pior, virei o tipo de pessoa que fala coisas tão lisas que ninguém tem onde tropeçar.
e eu não quero isso.
eu quero algum atrito.
alguma borda.
alguma coisa que faça alguém pensar… “não sei se concordo, mas isso me incomodou por um motivo interessante.”
isso é vida.
o resto é decoração verbal.
e talvez por isso eu tenha cada vez menos paciência pra versões muito polidas de mim mesmo.
durante muito tempo eu tentei parecer mais inteligente do que era. mais preparado. mais sofisticado. mais seguro. mais “no controle”.
que desperdício monumental de energia.
e sabe o pior?
quase ninguém estava prestando tanta atenção assim.
a gente sofre como protagonista de filme épico, mas na maioria das vezes é só figurante atravessando a rua na cabeça dos outros.
isso deveria libertar mais gente.
eu olho pra trás e vejo quantas decisões tomei só pra não parecer idiota.
e algumas delas foram exatamente as mais idiotas.
porque existe uma burrice específica em tentar parecer inteligente demais.
você começa a escolher palavras que não usaria. opiniões que não sente. posturas que não sustentaria numa noite ruim.
e aos poucos vira um personagem muito bem editado e completamente insuportável.
eu prefiro o contrário agora.
prefiro ser pego em contradição honesta do que em coerência falsa.
prefiro mudar de ideia do que defender até a morte uma versão antiga minha só porque ela foi publicada, dita, performada ou admirada por alguém.
isso também é envelhecer, parar de tratar toda versão passada de si mesmo como patrimônio histórico tombado.
algumas versões merecem demolição.
com explosivo, se possível.
também aprendi a desconfiar do dinheiro fácil.
não por moralismo.
moralismo me dá sono.
mas porque algumas coisas pagam bem no curto prazo e cobram aluguel da sua alma pelo resto da vida.
e eu não falo de alma num sentido místico.
falo daquela parte pequena e irritante dentro de você que sabe quando você se vendeu barato.
tem oferta que parece oportunidade e é só tornozeleira eletrônica.
você aceita uma vez e pronto.
vira “aquele cara”.
aquele cara da campanha. aquele cara da frase. aquele cara que topou. aquele cara que não soube dizer não quando ainda dava.
e eu gosto muito da palavra “não”.
demorei pra respeitar.
“não” é uma palavra curta, feia, antipática, nada instagramável.
por isso mesmo é excelente.
“não” salva reputação. salva tempo. salva gosto. salva sanidade. salva você de virar mascote de uma ideia que nem acredita.
e aos 45 eu comecei a entender que escolher bem o que recusar talvez seja mais importante do que escolher o que aceitar.
porque sim abre portas.
mas não impede que você entre em salas onde depois vai precisar explicar por que diabos estava lá.
também penso muito em sorte.
essa palavra que adulto ambicioso odeia porque estraga a fantasia meritocrática do próprio ego.
claro que esforço importa.
claro que disciplina importa.
claro que aparecer, fazer direito, respeitar o trabalho, chegar na hora, não ser um parasita emocional importa.
mas sorte existe.
acaso existe.
alguém lê algo seu. alguém lembra de você. alguém abre uma porta. alguém esquece de fechar outra.
e de repente sua vida muda.
o ponto é, quando a sorte aparece, você precisa não estar completamente despreparado, bêbado de vaidade ou ocupado demais tentando parecer genial.
precisa reconhecer… “isso aqui talvez não aconteça de novo.”
e agir com cuidado.
não com medo.
cuidado.
medo é paralisia. cuidado é respeito pela chance.
eu gosto dessa diferença.
e eu cheguei numa fase em que respeito profundamente quem leva o próprio trabalho a sério sem transformar isso em teatro.
gente que chega no horário. gente que limpa a própria bagunça. gente que entende que atraso não é traço de personalidade, é falta de consideração fantasiada de espontaneidade.
eu sei.
isso não é sexy.
pontualidade não rende manifesto.
mas quer saber?
chegar no horário é uma forma de caráter.
organizar o que você precisa organizar é uma forma de respeito.
fazer sua parte sem obrigar outro a carregar sua incompetência também.
eu não tenho paciência pra genial preguiçoso.
essa figura romantizada do criativo caótico que todo mundo ao redor precisa salvar.
meu amigo, se sua genialidade depende de outras pessoas varrendo os destroços da sua falta de respeito, talvez você seja só inconveniente com vocabulário melhor.
eu gosto de gente boa de trabalho.
gente que não precisa de discurso motivacional. gente que entende o padrão. gente que sabe que liberdade não é permissão pra ser relaxado.
liberdade é justamente o contrário.
quanto mais liberdade você tem, mais responsabilidade tem de não entregar qualquer porcaria.
isso vale pra trabalho. vale pra criação. vale pra vida.
porque quando ninguém está te vigiando, aí sim você descobre quem você é.
e eu não quero ser o cara que só faz direito quando tem alguém olhando.
isso é comportamento de adolescente em prova.
eu quero fazer direito porque eu saberia se fiz mal.
e eu teria que conviver comigo depois.
o que já é trabalho suficiente.
outra coisa… senso de humor.
sem isso, acabou.
eu não confio em gente sem humor.
não precisa ser palhaço. não precisa transformar tudo em piada. mas precisa entender o absurdo.
precisa perceber que a vida é frequentemente ridícula.
que nós somos ridículos.
que grande parte do que chamamos de drama é só ego com iluminação ruim.
senso de humor impede a pessoa de virar estátua de si mesma.
e eu tenho pavor de gente que virou estátua.
gente que se leva a sério demais. gente que fala de si com solenidade. gente que transforma qualquer frustração em capítulo de autobiografia heroica.
calma.
às vezes deu errado porque você errou.
às vezes não era injustiça cósmica. era só você sendo ruim naquilo.
isso também liberta.
eu já fui ruim em muitas coisas.
algumas vezes mereci perder. algumas vezes mereci ouvir não. algumas vezes tentei e não consegui. algumas vezes a ideia era pior do que eu imaginava.
ótimo.
fracasso honesto tem utilidade.
ele te limpa.
te tira a maquiagem.
te mostra o que você queria que fosse verdade e o que de fato era.
e eu prefiro isso ao conforto miserável de nunca tentar nada que possa me humilhar.
porque ser humilhado por uma tentativa real ainda é melhor do que passar anos preservando uma imagem que não produziu absolutamente nada vivo.
também comecei a entender que criatividade não é essa coisa fofa que vendem.
criatividade exige um tipo meio desagradável de vaidade.
vamos ser honestos.
pra achar que você tem algo a dizer, pra achar que alguém deveria gastar dez minutos da própria vida ouvindo sua cabeça funcionar, precisa existir ali um monstro pequeno de autoestima.
não adianta fingir pureza.
quem cria alguma coisa acredita, em algum nível, que sua visão merece espaço.
isso é meio absurdo.
meio arrogante.
meio patológico.
e também necessário.
o problema não é ter esse monstro.
o problema é deixar ele dirigir bêbado.
eu preciso de vaidade suficiente pra criar.
mas preciso de vergonha suficiente pra editar.
preciso achar que tenho algo a dizer.
mas também preciso desconfiar profundamente de mim antes de mostrar.
esse equilíbrio é uma pequena guerra diária.
e talvez seja por isso que eu goste de listas.
sim, listas.
não como fetiche de produtividade.
não como essa pornografia moderna de organização, com aplicativo bonito, caixinha, tag, gráfico e gente fingindo que “otimizar manhã” é personalidade.
eu gosto de lista porque minha cabeça é um bairro perigoso se não tiver iluminação mínima.
lista é um jeito de dizer… “calma, animal. uma coisa por vez.”
e ao mesmo tempo eu sei que lista também é ilusão.
uma ilusão útil.
mas ilusão.
porque nenhuma lista resolve a vida.
ela só impede que a vida vire uma gaveta de cabo velho.
e isso já é alguma coisa.
aos 45 eu também comecei a entender melhor essa coisa estranha chamada dignidade.
não dignidade grandiosa.
não discurso.
dignidade pequena.
acordar, colocar uma camisa limpa, fazer o que precisa ser feito, tratar gente com respeito, não transformar toda dificuldade em espetáculo, não usar cansaço como desculpa pra virar um babaca.
isso parece pouco.
não é.
num mundo cheio de gente tentando parecer extraordinária, viver com um pouco de dignidade comum virou quase uma provocação.
e talvez seja isso que mais me interessa hoje… menos grandiosidade. mais presença. menos performance. mais precisão. menos necessidade de ser admirado. mais vontade de fazer algo que eu mesmo respeite.
porque eu já cansei de muito barulho.
cansei de gente que fala demais e entrega pouco. cansei de frases imensas pra esconder ideias pequenas. cansei de “jornada”. cansei de “legado”. cansei de “minha verdade”. cansei de “meu processo”.
às vezes o processo é só insegurança com assessoria de imprensa.
e tudo bem.
mas não me peça pra aplaudir.
eu quero coisas mais simples e mais difíceis…
fazer melhor. dizer não. chegar na hora. errar com alguma coragem. não ficar burro por conforto. não virar cínico. continuar curioso. aceitar que às vezes sou o idiota da sala. não fazer trabalho sem sangue só porque seria mais fácil. não transformar minha vida numa sequência de movimentos seguros até acabar discretamente numa cadeira confortável demais.
porque esse é o risco real.
não fracassar.
fracassar todo mundo fracassa.
o risco é se acostumar com o morno.
o risco é ir aceitando versões cada vez menores de si mesmo porque elas dão menos trabalho.
o risco é confundir paz com anestesia.
o risco é acordar um dia e perceber que você não virou adulto.
virou apenas cuidadoso demais.
e eu não quero isso.
não agora.
não aos 45.
não depois de já ter visto oportunidade desaparecer, gente brilhante se apagar, ideias boas morrerem por covardia e medíocres muito bem vestidos receberem aplauso por não assustar ninguém.
eu quero continuar com algum apetite pelo inesperado.
não aquela inquietação juvenil insuportável de quem acha que tudo precisa ser intenso o tempo inteiro.
isso é exaustivo.
falo de outra coisa.
a disposição de ainda se surpreender.
de ainda não saber. de ainda tentar. de ainda entrar numa sala e pensar… “talvez eu aprenda alguma coisa aqui se eu calar a boca.”
e também a disposição de sair da sala quando perceber que ali só tem gente concordando demais.
porque nada me dá mais medo do que um ambiente onde todos acham tudo “incrível”.
isso normalmente significa que ninguém está prestando atenção.
ou que todo mundo está tentando sobreviver socialmente.
eu prefiro uma reação honesta ruim a um elogio automático.
elogio automático é anestesia.
crítica boa, mesmo irritante, pelo menos tem pulso.
eu não quero agradar todo mundo.
todo mundo é um público horrível.
todo mundo gosta de coisa morna, segura, digerível, confortável, sem ponta.
eu quero tocar em alguma ponta.
quero que alguma coisa tenha risco.
quero olhar pra trás e pensar… “ok, talvez tenha sido imprudente, talvez tenha sido estranho, talvez nem tenha dado certo, mas pelo menos não foi morto.”
isso, pra mim, já conta muito.
e talvez no fim seja isso que estou tentando aprender agora…
não viver como quem está tentando montar uma versão aceitável de si mesmo pros outros avaliarem.
não transformar tudo em estratégia.
não buscar sempre o caminho que “faz sentido”.
muita coisa boa na vida começa justamente onde o sentido acaba e sobra só curiosidade, coragem, um pouco de irresponsabilidade bem administrada e uma vontade quase infantil de ver no que aquilo vai dar.
e se der errado?
paciência.
pelo menos deu alguma coisa.
pior é não dar nada.
pior é atravessar anos impecável, correto, bem apresentado, educado, estrategicamente posicionado…
e absolutamente sem história nenhuma que valha ser contada.