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2025

colecionar

estava refletindo, algumas pessoas gostam de colecionar objetos.

eu gosto de colecionar épocas.

porque quando vejo uma coisa antiga não vejo apenas a coisa.

vejo o mundo que existia ao redor dela.

um objeto antigo é uma pequena máquina do tempo.

ele carrega expectativas, ambições, limitações e sonhos de uma época que já desapareceu.

e talvez seja por isso que eu tenha dificuldade em me desfazer dessas coisas.

não porque sejam valiosas.

muitas nem são.

não porque sejam raras.

algumas são absurdamente comuns.

mas porque representam momentos específicos da história.

fotografias físicas de como o mundo imaginava o futuro.

e eu sempre fui fascinado pelo futuro.

talvez até demais.

o problema de ser um early adopter durante décadas é que você desenvolve uma relação estranha com o tempo.

você passa anos correndo atrás da próxima novidade.

da próxima tecnologia.

da próxima ideia.

do próximo lançamento.

e então acontece uma coisa curiosa.

o futuro envelhece.

aquele objeto revolucionário vira sucata.

aquela inovação vira peça de museu.

aquele lançamento aguardado vira curiosidade histórica.

e eu adoro isso.

adoro porque revela uma verdade muito humana.

o futuro nunca chega da forma que imaginamos.

ele sempre chega mais estranho.

mais bagunçado.

mais improvisado.

e muito mais engraçado.

talvez por isso eu goste tanto de guardar essas coisas.

porque elas contam histórias sobre otimismo.

sobre pessoas tentando adivinhar o amanhã.

e quase sempre errando.

às vezes de forma espetacular.

o que é ainda melhor.

eu olho para muitos desses objetos e não vejo tecnologia.

vejo ambição.

vejo engenheiros convencidos de que estavam mudando o mundo.

vejo empresas apostando milhões numa ideia.

vejo designers tentando materializar o futuro com plástico, metal e circuitos.

algumas vezes funcionou.

outras vezes não.

mas a tentativa continua fascinante.

porque existe algo profundamente humano em construir coisas para um mundo que ainda não existe.

e talvez seja isso que eu colecione.

não objetos.

não tecnologia.

não antiguidades.

eu coleciono tentativas.

tentativas de imaginar o futuro.

tentativas de resolver problemas.

tentativas de reinventar a vida.

tentativas de deixar uma marca.

algumas brilhantes.

algumas ridículas.

a maioria esquecida.

eu tenho um carinho especial justamente pelas esquecidas.

porque os vencedores entram para a história.

mas os fracassos mostram como as pessoas pensavam.

e quase sempre essa é a parte mais interessante da história.

no fundo, minha coleção inteira talvez seja apenas isso…

uma estante cheia de futuros que não aconteceram exatamente como prometido.

o que, pensando bem, é uma descrição bastante precisa da própria vida.