
durante muito tempo eu achei que corria porque gostava de correr.
hoje suspeito que corria por razões muito mais complicadas.
e muito menos nobres.
eu corria porque queria melhorar.
depois porque queria melhorar mais.
depois porque queria melhorar mais rápido.
e depois porque alguém, em algum lugar, estava melhorando mais rápido do que eu.
e esse é o problema.
a corrida nunca fica sozinha.
o ecossistema chega logo atrás.
primeiro vem o tênis.
depois o relógio.
depois o aplicativo.
depois o sensor.
depois o treinador.
depois o youtube.
depois o strava.
depois os rankings.
depois os grupos.
depois as planilhas.
depois as comparações.
e sem perceber você não está mais correndo.
você virou gerente de projeto da própria corrida.
eu conheço esse sujeito porque fui ele.
eu era o cara que sabia exatamente o pace médio dos últimos meses.
sabia a frequência cardíaca.
sabia a recuperação.
sabia a projeção para maratona.
sabia o vo2 máximo.
sabia tudo.
absolutamente tudo.
menos uma coisa.
se eu ainda estava me divertindo.
e talvez essa seja a pergunta mais importante.
porque existe uma armadilha maravilhosa escondida dentro do universo da corrida.
ela começa como uma atividade.
e termina como uma identidade.
não é mais algo que você faz.
vira algo que você é.
você não corre.
você é corredor.
e quando isso acontece tudo muda.
porque identidade é uma droga poderosa.
ela precisa ser alimentada.
precisa ser exibida.
precisa ser confirmada.
precisa ser protegida.
e aí começam as coisas estranhas.
a corrida deixa de ser sobre correr.
e passa a ser sobre demonstrar que você corre.
o mapa.
o pace.
o gráfico.
o post.
o comentário.
a medalha.
a foto.
o relógio.
o tênis.
o suplemento.
o vídeo.
a opinião.
o ritual.
o uniforme.
o personagem.
e eu não estou apontando o dedo.
eu fui esse cara.
eu adorava esse cara.
eu investi uma quantidade vergonhosa de dinheiro para ser esse cara.
e honestamente?
foi divertido.
durante um tempo.
porque existe uma sensação maravilhosa em perseguir números.
o problema é que números não sabem quando parar.
você corre 5 quilômetros.
quer 10.
corre 10.
quer meia maratona.
faz meia.
quer maratona.
faz maratona.
quer baixar tempo.
baixa tempo.
quer baixar mais.
e mais.
e mais.
e mais.
a linha de chegada está sempre se mudando para outro lugar.
e talvez seja aí que mora a grande mentira.
porque eu passei anos acreditando que estava perseguindo saúde.
mas olhando para trás?
acho que estava perseguindo validação.
uma validação extremamente sofisticada.
embrulhada em disciplina.
embrulhada em desempenho.
embrulhada em superação.
mas ainda validação.
porque existe uma parte do cérebro humano que adora transformar qualquer coisa em competição.
qualquer coisa.
corrida.
livros.
meditação.
cafés.
viagens.
produtividade.
até descanso.
se existir um aplicativo capaz de medir alguma coisa, nós vamos transformá-la em campeonato.
é inevitável.
e durante anos eu participei com entusiasmo.
até perceber algo estranho.
as melhores corridas da minha vida raramente apareciam nos gráficos.
não eram as mais rápidas.
não eram as mais longas.
não eram as mais impressionantes.
eram as corridas em que eu simplesmente desaparecia.
corridas em que eu olhava para a cidade.
pensava em ideias.
resolvia problemas.
lembrava de histórias.
ou simplesmente não pensava em nada.
corridas que não serviriam para impressionar ninguém.
corridas que seriam péssimo conteúdo.
corridas completamente inúteis para as redes sociais.
e exatamente por isso extraordinárias.
hoje eu corro quase todos os dias.
trinta minutos.
às vezes mais.
às vezes menos.
mas quase sempre trinta minutos.
e existe algo engraçado nisso.
porque dez anos atrás eu teria achado isso ridículo.
eu teria chamado de treino leve.
treino curto.
treino insuficiente.
treino sem ambição.
e talvez eu estivesse certo.
só que hoje percebo uma coisa.
eu corro mais agora do que corria naquela época.
não em quilômetros.
em consistência.
porque naquela época eu corria para bater metas.
hoje corro para continuar correndo.
e isso muda tudo.
não existe prova no horizonte.
não existe medalha.
não existe recorde.
não existe planilha me julgando.
não existe versão imaginária de mim mesmo esperando ser impressionada.
e descobrindo que talvez essa fosse a parte interessante desde o começo.
existe apenas um sujeito colocando um pé na frente do outro.
o mais irônico é que eu ainda anoto tudo.
quilômetros.
tempo.
pace.
mas num caderno.
um caderno…
e eu adoro isso.
porque aquele caderno não está tentando me otimizar.
não está tentando me vender nada.
não está tentando me transformar numa versão melhorada de mim mesmo.
ele está apenas guardando histórias.
e talvez seja essa a grande diferença.
durante anos eu usei a corrida para construir desempenho.
hoje eu uso a corrida para acumular dias.
dias em que saí mesmo sem vontade.
dias frios.
dias quentes.
dias bons.
dias ruins.
dias normais.
porque quanto mais velho fico, mais suspeito que a vida não seja construída por grandes feitos.
ela é construída por pequenas repetições.
e talvez a corrida tenha finalmente me ensinado isso.
não quando eu corri mais.
não quando corri mais rápido.
não quando terminei maratonas.
mas justamente quando parei de transformar cada quilômetro numa tentativa desesperada de provar alguma coisa.
para os outros.
para a internet.
ou para mim mesmo.