
eu sempre volto para twin peaks. não apenas porque é minha série favorita, mas porque ela representa uma coisa que estamos desaprendendo numa velocidade impressionante. a capacidade de não entender. david lynch parecia confiar profundamente que o espectador sobreviveria a alguns minutos, episódios ou talvez décadas sem receber uma explicação satisfatória. ele colocava um gigante numa sala, uma mulher carregando um tronco, cortinas vermelhas, um anão falando de um jeito impossível, café, torta de cereja, sonhos que talvez fossem pistas e pistas que talvez fossem apenas sonhos, e seguia em frente. você que resolvesse o que fazer com aquilo. não havia alguém aparecendo cinco minutos depois para explicar que a cor vermelha simbolizava isso, que o personagem representava aquilo e que, caso você ainda estivesse confuso, havia um vídeo chamado “twin peaks explicado em 12 minutos”. lynch entendia uma coisa brutalmente simples. explicar demais uma ideia é uma ótima maneira de matá-la. a internet, aparentemente, decidiu dedicar toda a sua infraestrutura a provar o contrário.
twin peaks chegou à televisão americana em 1990 parecendo, no começo, algo relativamente reconhecível. uma garota chamada laura palmer é encontrada morta numa pequena cidade no estado de washington e o agente dale cooper chega para investigar. pronto. temos um assassinato, um investigador, suspeitos e uma pergunta maravilhosa para vender televisão. quem matou laura palmer? só que lynch e mark frost começaram a fazer algo muito mais interessante. foram usando o crime como uma porta para entrar naquela cidade e, quanto mais entrávamos, menos a série parecia interessada apenas em descobrir um assassino. de repente estávamos observando famílias, desejos, violência, traições, sonhos, pequenos absurdos, segredos e aquela estranha sensação de que existe alguma coisa terrível escondida logo atrás daquilo que parece perfeitamente normal. a pergunta “quem matou laura palmer?” continuava lá, claro, mas em algum momento você percebia que talvez ela fosse apenas a desculpa para fazer perguntas muito piores.
e isso é importante porque a própria história de twin peaks quase virou uma demonstração perfeita do problema. havia enorme pressão para revelar o assassino. televisão aberta queria respostas. público queria respostas. audiência queria respostas. respostas são maravilhosas para executivos porque parecem progresso. uma pergunta aberta é desconfortável. uma resposta pode ser colocada numa chamada comercial. eventualmente a identidade do assassino foi revelada durante a segunda temporada, antes do que lynch considerava ideal, e algo essencial na máquina começou a desaparecer. não porque o mistério fosse tudo, mas porque resolver o mistério mostrou justamente por que ele era tão poderoso. enquanto você não sabia, sua cabeça trabalhava. quando soube, parte daquela energia morreu. respostas têm esse defeito terrível. elas encerram coisas.
lynch parecia compreender que mistério não era ausência de informação. era matéria-prima. ele não queria necessariamente que você saísse de uma obra dizendo “entendi”. queria que alguma coisa permanecesse com você. mulholland drive faz isso. lost highway faz isso. eraserhead praticamente construiu uma casa nesse território e se recusou a entregar a chave. e twin peaks talvez seja a versão mais deliciosa dessa filosofia porque durante anos milhões de pessoas tentaram organizar racionalmente uma obra que parecia constantemente escapar da organização. e quanto mais você tenta fechar tudo, mais percebe que talvez fechar tudo seja justamente perder parte da experiência.
agora compare isso com a internet atual. nós desenvolvemos uma espécie de pânico coletivo diante da possibilidade de alguém não entender imediatamente alguma coisa. tudo precisa ter contexto. tudo precisa ter legenda. tudo precisa ter explicação. o vídeo precisa dizer nos primeiros segundos por que você deve continuar assistindo. o título precisa explicar a promessa. a thumbnail precisa explicar o título. o criador precisa explicar o vídeo. depois alguém grava outro vídeo explicando o primeiro. e finalmente aparece alguém nos comentários perguntando “mas qual é a conclusão?”. aparentemente chegamos ao ponto em que até sentir alguma coisa sem receber uma conclusão virou uma experiência inconveniente.
o algoritmo obviamente ajuda. ambiguidade é péssima para métricas porque exige tempo, e tempo virou uma espécie de artigo de luxo. nós não assistimos mais apenas a histórias. assistimos enquanto avaliamos se vale a pena continuar assistindo. pulamos introduções, aceleramos podcasts, vemos filmes com o celular na mão, procuramos o final de uma série antes de terminar e depois reclamamos que nada mais surpreende. é uma operação bastante sofisticada. eliminamos deliberadamente todas as condições necessárias para sermos surpreendidos e depois culpamos os artistas pela falta de surpresa.
talvez seja por isso que david lynch pareça ainda mais radical hoje do que parecia décadas atrás. ele confiava no silêncio. confiava no desconforto. confiava numa imagem que não precisava imediatamente justificar sua existência. e, acima de tudo, confiava no espectador. isso talvez seja o que mais desapareceu. grande parte do conteúdo contemporâneo parece produzido com um medo permanente de que você vá embora. então tudo implora pela sua permanência. fica até o final. você não vai acreditar no que aconteceu. três coisas que ninguém contou. a última vai surpreender você. lynch poderia colocar um ventilador de teto na tela durante tempo suficiente para você começar a desconfiar do ventilador. não porque havia necessariamente uma explicação secreta esperando no final, mas porque ele sabia que atenção também pode ser construída sem desespero.
e existe algo quase ofensivo nisso para a cultura atual. david lynch não parecia muito interessado em otimizar a experiência para você. ele não estava preocupado em eliminar atrito. o atrito fazia parte. você podia ficar confuso. podia ficar irritado. podia sair do cinema sem saber exatamente o que tinha acabado de assistir. podia discutir durante anos. podia rever e mudar de opinião. uma obra não precisava terminar quando os créditos subiam. talvez começasse justamente ali. hoje temos uma indústria inteira tentando eliminar qualquer segundo de dúvida da experiência do usuário. tudo precisa ser intuitivo, imediato, explicável, recomendável e, se possível, resumível em cinco pontos. conseguimos aplicar lógica de ux até na arte. parabéns para nós.
e talvez seja por isso que twin peaks continue viva. não porque tenha respostas perfeitas, mas porque deixou espaços que nós continuamos preenchendo. especialmente quando lynch voltou àquele universo em twin peaks… the return, em 2017, depois de vinte e cinco anos. qualquer pessoa razoável poderia imaginar que o grande retorno serviria para nostalgia, reencontros, explicações e aquela confortável sensação de visitar novamente um lugar conhecido. lynch fez quase o contrário. pegou a nostalgia, olhou para ela e pareceu perguntar por que diabos alguém acharia que voltar para casa significaria encontrar tudo exatamente como deixou. o resultado era mais estranho, mais lento, mais desconfortável e frequentemente menos interessado em satisfazer expectativas do que a série original. enquanto boa parte da indústria descobria como transformar propriedades antigas em parques temáticos para adultos nostálgicos, lynch voltou para destruir a própria nostalgia. isso exige uma espécie de coragem criativa que dificilmente sobreviveria a uma reunião dominada por métricas.
eu penso muito nisso porque talvez o problema vá muito além de cinema ou televisão. estamos explicando tudo demais. marcas explicam seus propósitos. pessoas explicam suas personalidades. criadores explicam suas piadas. empresas explicam suas culturas. influenciadores explicam suas rotinas. todo mundo parece desesperado para controlar exatamente como será interpretado. e quanto mais tentamos controlar a interpretação, mais parecidos ficamos. porque mistério exige risco. você precisa aceitar que alguém talvez não entenda. talvez não goste. talvez interprete errado. talvez simplesmente vá embora. e hoje essa possibilidade parece intolerável.
lynch aceitava.
talvez porque entendesse que uma obra não pertence completamente ao autor depois que encontra outra pessoa. existe um espaço entre aquilo que alguém cria e aquilo que outra pessoa sente. e é justamente nesse espaço que as coisas interessantes acontecem. quando você explica absolutamente tudo, fecha esse espaço. não sobra nada para o espectador colocar. ele recebe a experiência montada, manual de instruções incluído. eficiente, claro. provavelmente alguém conseguiria até colocar um qr code no final.
por isso eu não acho que a grande lição de david lynch seja “seja estranho”. isso seria justamente transformar lynch em mais uma fórmula, o que seria uma ironia quase ofensiva. a lição, para mim, é muito mais difícil. confie na ideia o suficiente para não precisar defendê-la o tempo inteiro. confie em quem está do outro lado o suficiente para permitir que ele pense. aceite que nem tudo precisa ser imediatamente compreendido para ser profundamente sentido.
twin peaks nunca me pediu apenas para descobrir quem matou laura palmer. me pediu para permanecer naquele lugar estranho tempo suficiente para perceber que talvez eu estivesse fazendo as perguntas erradas.
e talvez seja exatamente isso que esteja faltando agora.
menos respostas.
menos explicações.
menos gente desesperada para garantir que todo mundo entendeu exatamente a mesma coisa.
porque david lynch entendeu que explicar demais uma ideia é uma ótima maneira de matá-la.
a internet decidiu fazer exatamente o contrário.
e depois fica se perguntando por que quase tudo parece tão esquecível.