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2025

empatia

a gente está perdendo uma habilidade que durante muito tempo pareceu básica. conseguir olhar para alguém, discordar profundamente dessa pessoa e ainda assim tentar entender como ela chegou até ali.

empatia virou uma palavra bonita para colocar em apresentação de empresa, legenda de campanha e palestra sobre liderança. na vida real, porém, estamos ficando surpreendentemente ruins nela.

e talvez o problema tenha começado quando confundimos empatia com concordância.

entender alguém não significa absolver, apoiar ou mudar de lado. significa apenas fazer o esforço desconfortável de enxergar o mundo por alguns minutos usando informações, medos, experiências e referências que não são as suas.

parece simples. não é.

é muito mais fácil transformar a outra pessoa numa caricatura.

se alguém pensa diferente, deve ser burro. se vota diferente, deve ser mau. se compra uma coisa que você jamais compraria, foi manipulado. se acredita em algo que você considera absurdo, obviamente não estudou o suficiente. se tem uma vida que você não escolheria, deve estar vivendo errado.

é uma solução maravilhosa porque elimina qualquer necessidade de curiosidade.

você não precisa entender ninguém depois que decidiu que todo mundo que discorda de você tem algum defeito moral ou intelectual.

as redes sociais ajudaram bastante nessa transformação. não porque inventaram a falta de empatia. seres humanos já eram perfeitamente capazes de se odiar muito antes do wi-fi. o que elas fizeram foi criar um ambiente em que compreender alguém quase nunca dá tanto retorno quanto julgá-lo rapidamente.

“eu consigo entender por que essa pessoa pensa assim, embora discorde dela” é uma frase péssima para uma briga na internet.

“como alguém consegue pensar isso?” funciona muito melhor.

tem indignação. tem superioridade. tem torcida. tem comentário.

e existe uma pequena ironia nisso tudo. nunca tivemos tanto acesso à vida dos outros e talvez nunca tenhamos sido tão rápidos em simplificá-los.

vemos onde a pessoa mora, o que come, o que pensa, onde viaja, o que compra, em quem vota, como cria os filhos e qual série assiste. recebemos uma quantidade absurda de informação sobre desconhecidos e usamos tudo isso para decidir, em aproximadamente sete segundos, quem eles são.

criamos uma espécie de delivery de julgamento.

rápido, conveniente e sem necessidade de conhecer o restaurante.

o algoritmo também percebeu uma coisa que provavelmente gostaríamos de não admitir. conflito é um produto excelente. duas pessoas tentando sinceramente compreender uma à outra produzem uma conversa. duas pessoas convencidas de que a outra representa tudo que existe de errado no mundo produzem audiência.

então fomos treinando uma habilidade estranha.

aprendemos a identificar posições antes de conhecer pessoas.

você fala uma frase e alguém já sabe em qual gaveta colocar você. dali em diante, não está mais ouvindo o que você diz. está respondendo ao personagem que construiu na cabeça.

e isso não acontece apenas com política, religião ou aqueles assuntos que tradicionalmente transformam o almoço de família numa conferência diplomática improvisada.

acontece no trabalho.

o chefe acha que o funcionário não tem comprometimento. o funcionário acha que o chefe não tem humanidade. ninguém pergunta o que está acontecendo na vida do outro.

acontece entre gerações.

uma olha para a outra e vê preguiça. a outra olha de volta e vê gente ultrapassada. ambas têm explicações sofisticadas para pessoas com quem quase nunca sentaram para conversar.

acontece com dinheiro.

quem tem pouco imagina que quem tem muito perdeu contato com a realidade. quem tem muito frequentemente acredita que quem tem pouco simplesmente tomou decisões ruins. duas biografias inteiras reduzidas a uma conclusão conveniente.

acontece até dentro de casa.

às vezes conhecemos alguém há vinte anos e ainda preferimos interpretar uma atitude pela nossa lógica em vez de perguntar pela lógica dela.

talvez porque empatia dê trabalho.

ela exige uma coisa que nossa época não gosta muito de oferecer. tempo antes da conclusão.

você precisa ouvir uma história até o final. fazer uma pergunta cuja resposta talvez incomode. admitir que alguém pode ter razões compreensíveis para chegar a uma conclusão que você considera completamente errada.

pior ainda, às vezes você descobre que aquela pessoa que tinha tanta certeza de ser idiota tem um argumento razoável.

é péssimo para o ego.

por isso tenho pensado que empatia talvez seja menos uma virtude sentimental e mais uma forma de inteligência.

é conseguir perceber que bilhões de pessoas estão vivendo histórias das quais você conhece meia dúzia de linhas.

todo mundo carrega contexto.

a pessoa grosseira no aeroporto pode simplesmente ser grosseira. também pode estar voltando de um funeral.

o funcionário aparentemente desinteressado pode ser preguiçoso. também pode ter passado a noite cuidando do filho doente.

o sujeito que tomou uma decisão financeira que parece absurda para você talvez tenha crescido num ambiente em que segurança significava algo completamente diferente.

você não sabe.

e essa frase anda fazendo falta.

“eu não sei.”

não significa que precisamos aceitar qualquer comportamento. existem pessoas ruins. existem canalhas. existem ideias indefensáveis. existem atitudes que precisam ter consequência. empatia não exige que você transforme ausência de limite em virtude.

só exige que você resista à tentação infantil de acreditar que compreendeu completamente um ser humano porque viu um post, uma frase, um voto, uma roupa, um erro ou quinze segundos de vídeo.

talvez tenhamos ficado tão bons em construir nossa identidade que qualquer tentativa de entender o outro começou a parecer uma ameaça à nossa própria.

se eu compreender seu argumento, alguém pode achar que concordo com você.

se reconhecer que você tem um ponto, minha turma pode desconfiar de mim.

se admitir que a realidade é complicada, perco aquela sensação maravilhosa de estar absolutamente certo.

então escolhemos a certeza.

ela é mais confortável.

e muito mais solitária.

porque uma sociedade sem empatia não vira necessariamente uma sociedade cheia de ódio. antes disso, vira algo talvez mais banal e triste.

vira um lugar onde todo mundo fala e quase ninguém está realmente interessado na resposta.

onde conversamos para vencer.

ouvimos para encontrar a falha.

perguntamos para preparar a réplica.

e chamamos isso de diálogo.

talvez a habilidade perdida não seja exatamente sentir a dor do outro. isso ainda fazemos quando o outro se parece conosco, pensa como nós e pertence à nossa turma.

o teste interessante começa quando ele não pertence.

empatia fácil nunca foi grande coisa.

difícil é olhar para alguém que você jamais seria, que fez escolhas que você não faria e que acredita em coisas que você rejeita, e ainda manter curiosidade suficiente para perguntar como aquela pessoa chegou ali.

não para concordar.

só para entender.

parece pouco.

ultimamente, parece quase revolucionário.