
terminei de ler a reportagem da piauí sobre flávio bolsonaro, empresários interessados em vender vacinas, uma lancha, garotas de programa e um rolex. fiquei alguns minutos olhando para a tela, tentando decidir se precisava de um café, de um uísque ou de uma nova tradução da divina comédia.
optei por dante. o álcool, diante do noticiário brasileiro, já começa a parecer um investimento de risco.
a história, segundo a revista, se passa em julho de 2020. o brasil enterrava mais de mil pessoas por dia. hospitais estavam lotados, famílias se despediam por telefone e profissionais de saúde descobriam que a expressão “dar o máximo de si” podia incluir trabalhar até o próprio corpo pedir demissão.
em algum ponto daquele país devastado, de acordo com a reportagem, empresários interessados em negociar vacinas com o governo bolsonaro teriam oferecido a flávio uma tarde de lazer numa lancha, com bebidas e acompanhantes. haveria ainda um rolex de presente.
um rolex.
dante precisou de cem cantos para descrever o inferno. o brasil consegue produzir uma alegoria moral inteira com uma embarcação, alguns empresários e um relógio suíço.
e o detalhe mais perturbador nem sequer é o luxo. adultos podem passear de lancha, beber e fazer escolhas privadas que não interessam ao público. o problema começa quando os anfitriões têm negócios a propor ao governo do pai do convidado, justamente num momento em que o país implora por vacinas.
aí a festa deixa de ser apenas uma festa e passa a exigir perguntas sobre acesso, influência e interesses.
quem ofereceu o quê? com qual expectativa? que portas pretendia abrir?
dante colocava os corruptos, os fraudulentos e os traidores em regiões diferentes do inferno. havia método naquela crueldade. cada pecado tinha uma lógica, cada punição uma ironia. no brasil, a dificuldade seria organizar os personagens. mal o poeta terminasse de classificar um círculo, surgiria uma nova reportagem exigindo a ampliação do terreno.
e imagino virgílio, o guia sensato, tentando explicar a situação.
“aquele homem é senador?”
“sim.”
“e os empresários queriam vender vacinas ao governo?”
“segundo a reportagem.”
“e havia um relógio de luxo?”
“também segundo a reportagem.”
“e tudo isso enquanto as pessoas morriam?”
“mais de mil por dia.”
virgílio provavelmente pediria para voltar ao inferno original. ao menos lá ninguém precisava acompanhar uma comissão parlamentar de inquérito para entender o enredo.
o relógio é o detalhe que mais me incomoda. não por representar riqueza. há gente rica com relógios caros e uma consciência perfeitamente funcional. mas pela indecência da imagem, enquanto milhares de brasileiros contavam as horas de vida de alguém que amavam, um político teria recebido de presente um objeto feito para exibir o preço do tempo.
a literatura chama isso de símbolo.
o jornalismo, felizmente, pode chamar de algo mais útil, um fato a ser esclarecido.
e eu continuo pensando nas famílias que viveram aquele julho. gente esperando uma ligação do hospital. gente calculando se ainda haveria oxigênio. gente que nunca mais pôde abraçar a mãe, o pai, o companheiro, a filha.
é diante delas que a história perde qualquer possibilidade de ser apenas uma anedota picante.
a obscenidade verdadeira não está nas acompanhantes, nas bebidas ou na lancha. está na possibilidade de que a tragédia coletiva tenha convivido, sem o menor constrangimento, com a hospitalidade oferecida por quem desejava fazer negócios com o poder.
talvez seja por isso que eu precise voltar a dante.
ele acreditava que o inferno tinha uma arquitetura moral. que havia alguma ordem capaz de acomodar a vaidade, a ganância, a fraude e a traição. uma ambição literária admirável, embora um tanto ingênua para os padrões brasileiros.
o inferno de dante tinha nove círculos. o nosso tem assessoria jurídica, relações institucionais e, aparentemente, uma excelente marina.
e o pior é que ainda estamos descobrindo quem estava a bordo.