
este é meu último texto antes da votação de hoje.
não sei quando vou escrever outro. talvez amanhã. talvez daqui a alguns dias. talvez eu precise de um tempo para descobrir o que fazer com o resultado, com o país e com essa coleção de sentimentos pouco apresentáveis que uma eleição brasileira consegue despertar.
acordei pensando num sujeito de 25 anos que, em 1967, teve a insolência de subir ao palco com guitarras elétricas e cantar sobre a vida enquanto o brasil era governado por militares.
caetano veloso.
alegria, alegria.
o país tinha generais, censores e uma quantidade impressionante de homens convencidos de que sabiam o que era melhor para todo mundo. caetano tinha uma guitarra, uma canção e o péssimo hábito de não pedir autorização para existir.
o curioso é que, naquela época, havia quem achasse a guitarra a parte mais perigosa da história.
em outubro de 1967, o brasil já estava havia três anos sob uma ditadura. direitos políticos tinham sido cassados, estudantes enfrentavam a repressão e um general ocupava a presidência sem precisar se submeter ao inconveniente de uma eleição popular.
e, no festival da record, havia gente preocupada com a invasão estrangeira representada por uma guitarra elétrica.
é uma imagem que merece ser apreciada com calma.
um país nas mãos de militares, e os patriotas ofendidos com os argentinos dos beat boys.
o problema não era o quartel dentro da política. era o rock dentro da música brasileira.
caetano entrou de paletó, gola rolê laranja e uma marchinha que parecia ter sido composta depois que alguém derrubou as páginas de um jornal sobre a mesa do café.
crimes. espaçonaves. guerrilhas. presidentes. bombas. brigitte bardot.
o planeta inteiro espremido numa caminhada.
não há uma sequência moralmente confortável. a bomba aparece perto da atriz. o presidente divide a paisagem com o beijo. a propaganda convive com a violência.
porque o horror não tem a educação de esperar que a felicidade termine.
em 1967, enquanto estudantes eram perseguidos, havia gente namorando. enquanto a polícia política produzia relatórios, alguém comprava um refrigerante. enquanto famílias começavam a descobrir o significado de ter um parente preso por motivos políticos, outras discutiam o preço da carne.
a ditadura não suspendeu o verão.
essa é uma das coisas que mais me perturbam quando alguém fala daqueles anos com saudade.
a memória costuma ser uma cozinheira desonesta. retira os ingredientes desagradáveis e apresenta o prato como se sempre tivesse sido delicioso.
havia ordem, dizem.
havia tranquilidade.
claro.
para quem?
para o sujeito que voltava para casa todas as noites?
para quem nunca precisou procurar um filho em delegacias?
para quem não sabia o que acontecia atrás de determinadas portas… ou sabia e preferia não perguntar?
o autoritarismo tem essa vantagem comercial, pode parecer um excelente produto para quem não está incluído na lista de defeitos.
e caetano continua andando.
contra o vento.
sem documentos.
não é preciso transformar cada palavra da música numa senha secreta contra os militares. isso seria reduzir uma canção extraordinária a um panfleto mediano.
o vento também vinha dos costumes, da moral, das patrulhas culturais e das expectativas de uma sociedade que queria saber exatamente onde cada jovem deveria ficar.
os generais tinham uma ideia de brasil.
parte da esquerda cultural tinha outra, frequentemente acompanhada de instruções sobre quais instrumentos um artista deveria tocar.
caetano parecia pouco interessado em receber ordens de qualquer um dos dois.
e então aparece a coca-cola.
um refrigerante americano no meio de uma canção brasileira, justamente quando o imperialismo cultural era assunto de discussões apaixonadas.
não era uma declaração de amor aos estados unidos. era o reconhecimento de que o mundo já havia entrado pela porta da frente enquanto muita gente continuava discutindo se deveria permitir sua entrada.
o brasil denunciava a influência americana e bebia coca-cola.
hoje denuncia a influência americana pelo iphone, publica o protesto no instagram e vai dormir assistindo a uma série produzida em los angeles.
a crítica ao imperialismo continua tendo fundamentos. a fantasia de pureza cultural é que sempre foi um pouco ridícula.
caetano não queria um brasil esterilizado.
queria mostrar o brasil que existia.
contraditório, sedutor, cafona, moderno, atrasado, violento, maravilhoso.
uma mistura que deixaria qualquer fiscal da identidade nacional com vontade de chamar a vigilância sanitária.
e há uma mulher pensando em casamento.
no meio de guerrilhas, bombas e presidentes, alguém quer casar.
acho isso de uma humanidade quase insuportável.
ela talvez queira uma casa, alguma segurança, um futuro que possa imaginar sem sentir medo.
ele quer continuar andando.
não sabemos se algum dos dois está certo.
e essa é a beleza.
a vida não interrompe seus pequenos desejos porque a história resolveu ficar monstruosa.
uma moça ainda quer casar.
um rapaz ainda quer beijar.
uma mãe ainda prepara o jantar.
e, em algum lugar, um homem pode estar sendo espancado por aquilo que pensa.
não é uma metáfora.
foi assim que o país viveu.
a parte da música que mais me persegue, porém, é aquela pergunta sobre a quantidade de notícias.
em 1967, o mundo entrava pelas bancas, pelo rádio e pela televisão. a guerra do vietnã, a corrida espacial, as guerrilhas latino-americanas, os presidentes, as estrelas de cinema.
hoje carregamos tudo isso no bolso.
a tragédia chega antes do café.
o escândalo aparece durante o almoço.
a mentira circula antes que alguém tenha tempo de conferir o fato.
e à noite, depois de consumir uma quantidade de informação que teria enlouquecido um editor de jornal de 1967, ainda encontramos energia para discutir com um desconhecido que usa a fotografia de um cachorro como identidade.
o mais espantoso não é o volume de notícias.
é o que fizemos com elas.
conseguimos transformar a realidade numa questão de preferência pessoal.
se o fato confirma minha opinião, é uma prova.
se contraria, é perseguição.
se a gravação favorece meu candidato, é definitiva.
se o compromete, alguém certamente a manipulou.
é uma forma extraordinária de investigação, primeiro se escolhe o inocente, depois se procura uma maneira de explicar por que as evidências estão erradas.
em 1967, o poder procurava impedir que determinadas informações circulassem.
hoje, mesmo com uma imprensa livre e uma democracia, muita gente consegue olhar diretamente para um fato e decidir que ele não merece existir.
não é a mesma situação histórica.
mas há algo deprimente em perceber que uma liberdade conquistada com tanto sofrimento pode ser desperdiçada com tamanha facilidade.
e então caetano dispensa livros e fuzis.
em 1967, isso não era uma imagem inocente.
a revolução cubana ainda incendiava a imaginação política. che guevara seria morto naquele outubro. o vietnã estava em guerra. no brasil, cresciam as discussões sobre como resistir aos militares.
caetano não estava dizendo que conhecimento era inútil ou que resistência era desnecessária.
estava se recusando a transformar a própria vida num uniforme ideológico.
não queria ser o soldado perfeito de uma causa.
queria ser um homem.
com dúvidas, desejos, contradições e uma vontade quase indecente de continuar caminhando.
é um tipo de liberdade que incomoda muita gente.
inclusive pessoas que passam o dia inteiro falando em liberdade.
porque há quem defenda a liberdade de expressão até o momento em que alguém expressa uma opinião inconveniente.
há quem defenda a família enquanto se dedica a regulamentar a intimidade da família dos outros.
e há quem se apresente como inimigo da censura, desde que possa decidir pessoalmente quais vozes merecem ser silenciadas.
a hipocrisia é uma das poucas instituições brasileiras que jamais enfrentaram uma crise de financiamento.
mas a história não teve a menor delicadeza com caetano.
em dezembro de 1968, depois do ai-5, ele e gilberto gil foram presos.
mais tarde, vieram o exílio e londres.
o rapaz que cantava sobre caminhar livremente descobriu que o estado brasileiro podia decidir até em que país ele teria permissão para morar.
e é aqui que alegria, alegria deixa de ser apenas uma canção bonita.
porque nós sabemos o que aquele jovem ainda não sabia.
sabemos que a repressão se aprofundaria.
que pessoas seriam torturadas.
que famílias passariam décadas procurando respostas.
que mães morreriam sem saber exatamente o que fizeram com seus filhos.
pensem nisso por um instante.
não nas grandes palavras. não nos discursos sobre democracia, soberania ou segurança nacional.
numa mãe.
numa cadeira vazia à mesa.
num prato que ninguém teve coragem de guardar.
numa pessoa que saiu de casa e nunca mais voltou.
a história do brasil também é feita dessas ausências.
e nenhuma delas aparece nas fotografias sorridentes dos homens que prometiam salvar a pátria.
talvez por isso eu não consiga tratar a votação de hoje como uma simples troca de administrador.
o país tem problemas enormes. há razões legítimas para estar decepcionado, irritado, cansado. ninguém precisa fingir entusiasmo por um governo para reconhecer a importância das instituições que permitem criticá-lo e substituí-lo.
mas também não dá para fingir que todos os projetos políticos enxergam essas instituições da mesma maneira.
o que está em discussão não é apenas quem ocupará a presidência.
é o tipo de relação que o poder terá com os limites impostos a ele.
com a imprensa.
com a justiça.
com quem discorda.
com a memória de um país que já experimentou o que acontece quando homens convencidos de sua missão histórica deixam de aceitar limites.
e aqui está a ironia que me tira o sono.
em 1967, caetano caminhava sem saber o que viria.
nós sabemos o que veio.
sabemos como começa a conversa sobre ordem. sabemos como a linguagem da salvação nacional pode ser usada para justificar abusos. sabemos quanto tempo um país pode levar para recuperar aquilo que perdeu.
não estamos condenados a repetir o passado.
mas também não recebemos nenhuma vacina contra ele.
e talvez o gesto mais perigoso de uma sociedade seja começar a tratar a própria história como uma advertência destinada exclusivamente aos outros.
não sei o que acontecerá hoje.
não sei se amanhã terei vontade de escrever.
mas sei que, ao ouvir alegria, alegria, não consigo pensar apenas naquele jovem de 25 anos, de gola rolê laranja, diante de uma plateia que vaiava guitarras.
penso no homem que seria preso.
no artista que seria mandado para longe.
nas pessoas que não tiveram a mesma sorte de voltar.
e penso na facilidade com que um país pode começar a perder a liberdade enquanto parte de sua população continua preocupada com o assunto errado.
em 1967, havia quem achasse que o perigo estava na guitarra.
é uma pergunta que vale levar para a urna, com o que estamos nos distraindo enquanto decidimos o futuro?
agora coloca alegria, alegria aí, enquanto espera sua vez de votar.
ouve aquela marchinha, a guitarra, a coca-cola, as bombas, os beijos, os presidentes.
e lembra que o rapaz que cantava não sabia o que vinha pela frente.
nós sabemos o que ficou para trás.
seria uma tristeza imensa descobrir que isso não nos ensinou absolutamente nada.