
tem uma coisa estranha acontecendo com a gente. e não começou ontem, nem nasceu com uma eleição, um político ou uma rede social específica. em algum momento, discordar deixou de significar apenas discordar. virou uma espécie de exame moral. você fala o que pensa sobre política, economia, comportamento, guerra, vacina, religião, educação, qualquer assunto suficientemente inflamável, e alguém imediatamente começa a calcular que tipo de ser humano você deve ser. não interessa muito como você trata seus filhos, se ajuda um amigo quando ele precisa, se devolve o carrinho do supermercado, se cuida dos pais ou se é o sujeito que deixa o cachorro cagar na calçada e finge que não viu. aparentemente uma opinião sobre um assunto complexo passou a ser suficiente para resumir uma pessoa inteira. tão eficiente né?!
o mais curioso é que todo mundo diz odiar a polarização. ninguém parece particularmente disposto a abrir mão do prazer de polarizar. polarização é sempre uma doença do outro. o meu lado tem convicções. o outro tem fanatismo. eu tenho princípios. ele tem ideologia. eu estou defendendo valores. ele foi manipulado. é um sistema maravilhoso porque permite que todos participem do problema enquanto se sentem parte da solução.
e ficou fácil demais odiar alguém que virou uma palavra.
esquerdista. direitista. fascista. comunista. liberal. conservador. progressista. bolsonarista. petista. isentão. militante. negacionista. lacrador. cada grupo construiu seu pequeno estoque de etiquetas porque etiquetas são muito mais práticas que pessoas. pessoas dão trabalho. elas contradizem a própria tribo. têm histórias. carregam traumas. mudam de ideia. às vezes concordam com você numa coisa e discordam completamente em outra. uma inconveniência enorme para quem gostaria de organizar oito bilhões de seres humanos em duas gavetas.
a internet resolveu esse problema.
agora basta olhar a bio.
você encontra uma bandeira, uma frase, um emoji, um político, uma causa ou uma foto e pronto. investigação encerrada. já sabemos tudo sobre aquele ser humano. podemos odiá-lo com a tranquilidade de quem fez uma pesquisa profunda de aproximadamente onze segundos.
o algoritmo agradece.
porque gente tentando entender gente é um negócio meio sem graça. não produz aquele maravilhoso coquetel de indignação, dopamina e vontade de escrever “você é exatamente o problema deste país” para um completo desconhecido às onze e meia da noite.
duas pessoas dizendo “entendo seu ponto, mas vejo diferente” provavelmente nunca sustentariam uma plataforma de bilhões de dólares.
já “você é um lixo” tem excelente retenção.
e aos poucos fomos ficando muito bons nisso.
não necessariamente em argumentar. nisso tenho minhas dúvidas.
ficamos bons em reconhecer inimigos.
uma frase. um boné. um livro na estante. uma camiseta. um voto. um repost. pronto. o cérebro já terminou o trabalho antes mesmo da conversa começar.
o mais fascinante é que fazemos isso enquanto repetimos que precisamos de mais empatia.
empatia virou uma dessas palavras que todo mundo adora desde que não precise praticar com alguém realmente desagradável.
é fácil ter empatia por quem pensa como você. isso não é empatia. é conforto.
o teste começa quando aparece alguém cuja visão de mundo irrita você.
aí a conversa muda.
“como posso entender uma pessoa dessas?”
bom, talvez exatamente assim. tentando.
entender não significa concordar. essa confusão talvez seja uma das coisas mais preguiçosas que inventamos. você pode compreender perfeitamente como alguém chegou a uma conclusão e continuar achando aquela conclusão errada. pode ouvir uma história inteira sem assinar embaixo dela. pode reconhecer humanidade numa pessoa sem reconhecer razão no argumento dela.
parece óbvio.
aparentemente não é mais.
porque hoje existe uma espécie de medo de compreender o outro. como se tentar enxergar o mundo pelos olhos de alguém fosse uma pequena traição ao próprio grupo. você precisa demonstrar lealdade. indignação rápida ajuda. dúvida demais começa a parecer suspeita.
e talvez essa seja uma das partes mais perigosas da polarização. ela não exige apenas que você escolha um lado. exige que você pare de sentir curiosidade pelo outro.
curiosidade é inconveniente.
ela pode fazer você descobrir que aquele sujeito que você imaginava ser um monstro cuida da mãe doente há dez anos. que aquela mulher que você classificou como idiota tem uma história que explica, ainda que não justifique, muita coisa. que a pessoa que votou em alguém que você considera abominável talvez não tenha votado pelos motivos que você imaginou enquanto discutia sozinho com ela dentro da sua cabeça.
isso complica tudo.
e nós estamos apaixonados por explicações simples.
talvez por isso tanta conversa política hoje pareça duas pessoas discutindo com personagens que inventaram uma sobre a outra.
ninguém está realmente ali.
tem um estereótipo de cada lado da mesa.
um responde ao que acha que o outro acredita. o outro se defende de algo que nunca disse. quinze minutos depois ambos saem convencidos de que acabaram de confirmar tudo que já pensavam antes de sentar.
excelente conversa.
zero risco de aprender alguma coisa.
o problema é que a vida real continua acontecendo fora dessa arena.
quando alguém sofre um acidente na sua frente, você não pergunta em quem votou antes de ajudar. quando seu filho está doente, você provavelmente não pede o histórico eleitoral do médico. quando o avião balança de verdade, curiosamente ninguém quer saber se o piloto é progressista ou conservador. naquele momento, nossa humanidade reaparece com uma velocidade impressionante.
talvez porque o medo tenha essa qualidade maravilhosa de reorganizar prioridades.
de repente somos apenas pessoas.
frágeis, assustadas, tentando chegar em casa.
é uma pena precisarmos de turbulência para lembrar.
porque por trás de quase toda opinião que nos irrita existe alguém fazendo mais ou menos as mesmas coisas ridículas que fazemos. acordando cansado. pagando conta. tentando criar filho sem manual. brigando com alguém que ama. sentindo saudade de gente que morreu. adiando exame médico. olhando o saldo da conta. tentando descobrir o que fazer da própria vida enquanto finge ter entendido tudo.
depois essa pessoa abre o celular.
e vira “o outro lado”.
pronto.
acabou a humanidade.
agora é avatar.
é inimigo.
é uma categoria.
é alguém sobre quem podemos dizer coisas que provavelmente teríamos vergonha de dizer olhando nos olhos.
esse talvez seja o truque mais perverso de tudo. a distância transforma crueldade em opinião.
é muito fácil desejar coisas terríveis para “eles”.
mais difícil quando “eles” têm nome, família, cheiro de café, medo de perder o emprego e uma mãe ligando para perguntar se chegaram bem.
não estou sugerindo aquela bobagem açucarada de que todo mundo precisa se abraçar, esquecer diferenças e cantar junto em volta de uma fogueira. algumas ideias são ruins. algumas pessoas são canalhas. existem limites morais, crimes, mentiras, manipulação e gente que merece ser confrontada com força. humanidade não exige ingenuidade.
mas existe uma distância enorme entre confrontar uma ideia e sentir prazer em desumanizar quem acredita nela.
e estamos atravessando essa distância com uma facilidade assustadora.
talvez porque desumanizar seja confortável.
se o outro é burro, mau ou irrecuperável, você não precisa ouvi-lo. não precisa responder às perguntas difíceis. não precisa examinar as contradições do seu próprio lado. não precisa admitir que talvez sua turma também tenha idiotas, oportunistas, hipócritas e gente perfeitamente disposta a defender hoje aquilo que condenava ontem.
tribos são muito boas em encontrar defeitos nas tribos vizinhas.
o espelho costuma ficar fora do orçamento.
todo mundo acredita que está pensando por conta própria.
milhões de pessoas repetindo exatamente as mesmas frases, os mesmos argumentos, os mesmos memes, os mesmos inimigos e as mesmas indignações, cada uma absolutamente convencida de sua independência intelectual.
é quase bonito.
talvez liberdade de pensamento seja hoje escolher qual pacote de opiniões prontas combina melhor com sua personalidade.
e seguimos.
mais conectados do que qualquer geração anterior e cada vez menos capazes de permanecer dez minutos numa conversa com alguém que discorda sem transformá-la numa competição.
talvez o problema não seja termos opiniões fortes. deveríamos ter. algumas coisas merecem posição clara.
o problema começa quando nossa opinião passa a valer mais do que nossa capacidade de enxergar uma pessoa na nossa frente.
porque política muda.
governos acabam.
líderes desaparecem.
partidos trocam discurso.
causas mudam de nome.
o escândalo que hoje parece definir o destino da civilização daqui a alguns anos provavelmente vai ocupar três linhas num livro que ninguém terminou de ler.
mas aquela pessoa que você decidiu odiar pode continuar sendo seu irmão.
seu pai.
sua filha.
seu amigo.
seu vizinho.
ou simplesmente outro sujeito tentando sobreviver ao mesmo mundo confuso que você.
talvez daqui a alguns anos a gente olhe para esse período e perceba o quanto ficou fácil convencer pessoas comuns a desprezarem outras pessoas comuns enquanto gente muito mais poderosa lucrava política, financeira ou socialmente com a briga.
seria uma ironia bonita.
se não fosse uma ironia tão antiga.
no fim, talvez não precisemos concordar mais.
talvez precisemos apenas recuperar uma habilidade bem menos glamourosa.
olhar para alguém do outro lado e lembrar que ainda existe alguém ali.
parece pouco.
mas chegamos a um ponto curioso da história em que continuar sendo humano virou uma posição bastante radical.