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2025

milionários em exposição e miseráveis em existência

há um homem morrendo numa mansão tão grande que provavelmente seria necessário um aplicativo de localização para encontrar o banheiro. ele tem dinheiro, jornais, obras de arte, influência política, empregados e uma quantidade obscena de objetos que ninguém precisa. antes de morrer, pronuncia uma única palavra: rosebud.

é assim que orson welles começa cidadão kane, em 1941.

e é impressionante como um filme de 85 anos consegue parecer mais interessado no nosso presente do que boa parte das pessoas que vivem nele.

charles foster kane passou a vida inteira tentando possuir o mundo. comprou jornais, colecionou estátuas, construiu um palácio, fabricou sua própria importância e tentou convencer todo mundo de que aquilo era felicidade.

hoje, provavelmente teria um podcast.

e uma equipe de marketing explicando que sua solidão era, na verdade, uma estratégia de posicionamento.

o mais perturbador em cidadão kane não é a riqueza do personagem. é sua incapacidade de perceber que está cercado de tudo, menos daquilo que realmente deseja.

kane compra coisas porque não consegue construir relações. compra influência porque não suporta ser contrariado. compra admiração porque não sabe o que fazer com o amor quando ele não vem acompanhado de obediência.

é um homem que confunde ser visto com ser amado.

e aqui estamos nós, quase um século depois, fazendo exatamente a mesma coisa, só que com celulares mais caros e apartamentos menores.

kane precisava comprar um jornal para controlar a narrativa sobre si mesmo.

nós conseguimos fazer isso antes do café da manhã.

acordamos, pegamos o telefone e começamos a administrar nossa pequena empresa de relações públicas. escolhemos uma fotografia, corrigimos a luz, eliminamos uma espinha, escrevemos uma legenda que sugira uma vida interessante e aguardamos a reação do mercado.

um coração vermelho significa aprovação.

um comentário significa relevância.

o silêncio significa que talvez precisemos postar outra coisa.

nunca houve tanta gente trabalhando gratuitamente para divulgar a própria existência.

o mais engraçado é que chamamos isso de liberdade.

temos a liberdade de escolher o filtro, a música, a frase e o horário da publicação. depois, entregamos tudo a um sistema que decide quantas pessoas poderão ver.

kane controlava os jornais. nós somos controlados pela distribuição.

é uma democratização bastante curiosa da vaidade.

antes, era preciso ser um magnata para transformar a própria vida num espetáculo. hoje, basta aceitar os termos de uso.

há uma cena extraordinária no filme em que kane tenta transformar sua segunda esposa, susan alexander, numa cantora de ópera.

ela não tem talento para aquilo. não deseja aquela carreira. sofre, fracassa e implora para parar.

mas kane não está interessado em música.

está interessado em vencer.

ele precisa provar que seu dinheiro e sua vontade são suficientes para transformar uma mulher comum numa grande artista. a opinião dela é um detalhe administrativo.

essa cena deveria ser exibida em todas as reuniões de pessoas que dizem estar apenas tentando ajudar alguém a alcançar seu potencial.

vivemos cercados de pequenos kane. gente que não consegue aceitar que outra pessoa tenha desejos próprios. pais que planejam a vida dos filhos como quem organiza uma aquisição empresarial. chefes que chamam controle de liderança. influenciadores que vendem modelos de felicidade com a mesma delicadeza de um vendedor de aspiradores às oito da manhã.

todo mundo parece saber o que é melhor para todo mundo. e quase ninguém suporta ouvir um simples não.

o problema de kane não era desejar que susan tivesse sucesso. era precisar que o sucesso dela comprovasse a grandeza dele.

isso continua assustadoramente atual.

há pessoas que não querem que você seja feliz. querem que você seja feliz do jeito que elas imaginaram, de preferência agradecendo pela oportunidade.

mas a parte mais cruel de cidadão kane está na maneira como o filme desmonta a ideia de que conhecer alguém é reunir informações sobre essa pessoa.

depois da morte do magnata, um jornalista sai entrevistando antigos amigos, amantes e funcionários para descobrir o significado de rosebud.

cada um oferece uma versão de kane.

o homem ambicioso. o amigo generoso. o marido impossível. o empresário brilhante. o sujeito ressentido. o menino abandonado.

todos conheceram alguma coisa dele. ninguém conheceu tudo. é praticamente uma descrição das nossas relações contemporâneas.

sabemos onde uma pessoa passou as férias, o que comeu no sábado, qual música escolheu para acompanhar uma fotografia e que opinião resolveu publicar sobre o assunto da semana.

às vezes sabemos até quantos quilômetros ela correu antes das sete da manhã, informação que a humanidade conseguiu dispensar durante milhares de anos sem grandes prejuízos.

mas não sabemos se ela está feliz.

não sabemos o que a mantém acordada à noite.

não sabemos se o trabalho a esgota, se sente falta de alguém ou se aquela viagem maravilhosa foi uma tentativa desesperada de escapar de uma vida que já não suporta.

temos acesso a uma quantidade absurda de detalhes e chamamos isso de intimidade.

é como tentar compreender um restaurante lendo apenas o cardápio.

podemos conhecer os ingredientes, os preços, a decoração e a biografia do chef. ainda assim, nada disso nos diz se alguém, naquela cozinha, sabe realmente cozinhar.

com as pessoas acontece algo parecido.

colecionamos informações sobre suas vidas sem necessariamente participar delas.

kane construiu xanadu, um palácio monumental cheio de tesouros, esculturas e objetos adquiridos ao redor do mundo.

não parece uma casa.

parece um depósito de coisas caras tentando preencher um buraco muito antigo.

hoje, xanadu cabe no bolso.

temos bibliotecas de músicas que nunca ouvimos, listas de filmes que jamais veremos, milhares de fotografias que não revisitamos, roupas que raramente usamos e uma coleção interminável de produtos que compramos porque alguém conseguiu nos convencer de que nossa versão atual estava ligeiramente incompleta.

é sempre a próxima coisa.

o próximo telefone. a próxima viagem. o próximo restaurante. o próximo corpo. o próximo apartamento. a próxima experiência transformadora, convenientemente disponível em doze parcelas.

a indústria da felicidade encontrou uma maneira genial de continuar funcionando… precisa garantir que a felicidade nunca seja entregue definitivamente.

porque um consumidor satisfeito é um problema comercial.

kane tinha dinheiro suficiente para comprar praticamente qualquer coisa, mas continuava incapaz de comprar o que lhe faltava.

nós talvez não tenhamos seu dinheiro, mas aprendemos perfeitamente o método.

compramos para sentir alguma coisa.

e, quando a sensação passa, compramos de novo.

existe ainda uma ironia deliciosa no fato de cidadão kane ser um filme sobre um homem que usa a imprensa para moldar a percepção pública.

kane publica manchetes, influencia opiniões e constrói uma imagem grandiosa de si mesmo.

não inventou a manipulação. apenas descobriu como transformá-la em negócio.

hoje, a situação é mais sofisticada.

não precisamos de um único magnata decidindo o que milhões de pessoas vão ler. temos plataformas capazes de descobrir o que nos irrita, o que nos excita, o que desperta nosso medo e o que nos mantém olhando para a tela por mais alguns minutos.

e então recebemos exatamente isso.

não necessariamente aquilo que precisamos saber.

aquilo que dificilmente conseguiremos ignorar.

a velha imprensa de kane precisava vender jornais. as plataformas precisam vender nossa atenção.

o produto mudou. a matéria-prima continua sendo a mesma, o desejo humano de acreditar numa história que faça sentido para si próprio.

e somos clientes extraordinariamente cooperativos.

adoramos notícias que confirmam nossas certezas. compartilhamos opiniões antes de terminar de ler. transformamos desconhecidos em heróis ou monstros com base em quinze segundos de vídeo.

depois reclamamos que o mundo ficou superficial. como se estivéssemos apenas passando pela região.

mas seria fácil demais transformar cidadão kane numa crítica aos ricos, às redes sociais ou ao consumismo.

o filme é mais cruel do que isso.

ele pergunta o que acontece quando uma pessoa passa a vida inteira construindo uma imagem de sucesso e perde a capacidade de reconhecer aquilo que realmente lhe importava.

kane não era simplesmente um homem ganancioso.

era um menino que havia sido separado de sua infância e passou décadas tentando compensar uma perda que jamais conseguiu compreender completamente.

a revelação final de rosebud não oferece uma solução mágica para sua personalidade. um trenó não explica sozinho uma vida inteira. seria ridículo reduzir um homem tão contraditório a um brinquedo de infância.

mas aquela palavra sugere uma ausência.

algo que existia antes do dinheiro, do poder, das manchetes e das pessoas interessadas em agradá-lo.

algo que ele não conseguiu recuperar.

e essa talvez seja a parte que mais incomoda.

porque nossa época não apenas nos incentiva a conquistar coisas. ela nos convence de que devemos transformar cada conquista numa prova pública de que estamos vivendo corretamente.

não basta viajar. é preciso registrar.

não basta jantar. é preciso mostrar.

não basta amar. é preciso publicar.

não basta estar feliz. é preciso produzir evidências.

o sujeito pode estar sentado diante do mar mais bonito que já viu, mas, se não conseguir uma boa fotografia, corre o risco de achar que perdeu alguma coisa.

perdeu mesmo.

o mar.

há um momento da vida em que deveríamos começar a desconfiar de tudo aquilo que exige uma plateia.

não porque compartilhar seja ruim. contar histórias, mostrar fotografias e dividir alegrias sempre fizeram parte da experiência humana.

mas porque existe uma diferença enorme entre viver algo e precisar que os outros confirmem que aquilo valeu a pena.

kane precisava que o mundo inteiro reconhecesse sua importância.

nós começamos a ficar desconfortáveis quando uma publicação não recebe atenção suficiente.

ele construiu um palácio para abrigar sua coleção de objetos.

nós construímos versões digitais de nós mesmos e passamos os dias cuidando delas.

ele queria controlar o que os jornais diziam a seu respeito.

nós aprendemos a editar a própria vida antes que alguém tenha a oportunidade de vê-la.

e talvez a maior semelhança esteja no medo.

o medo de não ser admirado. de ser esquecido. de não ter conseguido o suficiente. de descobrir que aquela pessoa aparentemente bem-sucedida, que aparece nas fotografias sorrindo em lugares maravilhosos, não está tão satisfeita assim quando ninguém está olhando.

a vida moderna oferece distrações extraordinárias para evitar esse encontro.

sempre há uma notificação.

uma notícia urgente.

uma promoção imperdível.

uma nova discussão.

um vídeo que começa automaticamente.

é impressionante o trabalho que desenvolvemos para nunca precisar ficar alguns minutos sozinhos com a própria cabeça.

kane tinha corredores intermináveis em xanadu.

nós temos uma tela infinita.

ambos são excelentes lugares para se perder.

o mais estranho é que cidadão kane não termina com uma grande revelação capaz de explicar definitivamente seu protagonista.

o jornalista não descobre o significado de rosebud.

nós, espectadores, descobrimos.

e isso não muda absolutamente nada.

kane continua morto. suas relações continuam destruídas. sua fortuna continua incapaz de devolver aquilo que perdeu.

o trenó acaba queimado entre os objetos descartados de xanadu.

é uma conclusão de uma crueldade quase perfeita.

o objeto que carregava um significado íntimo para aquele homem é tratado como lixo por pessoas que não têm como reconhecê-lo.

e talvez seja essa a pergunta que o filme nos deixa, oitenta e cinco anos depois.

entre todas as coisas que estamos acumulando, exibindo, defendendo e perseguindo, quais realmente importam?

não aquelas que impressionam os outros.

não aquelas que ficam bonitas numa fotografia.

não aquelas que ajudam a construir a biografia de alguém aparentemente extraordinário.

as outras.

aquelas pequenas coisas que talvez nem saibamos explicar direito. uma conversa antiga. uma tarde que parecia não ter importância. uma pessoa que já morreu. uma casa onde não moramos mais. um cheiro de comida vindo da cozinha. uma versão de nós mesmos que ainda não precisava provar nada a ninguém.

talvez estejamos tão ocupados fabricando uma vida admirável que mal percebemos quando deixamos de viver uma vida que nos agrada.

e o mais perverso é que ninguém precisa nos obrigar a isso.

fazemos voluntariamente.

com entusiasmo.

às vezes pagando uma assinatura mensal.

charles foster kane morreu cercado por uma fortuna e pronunciou o nome de um trenó.

nós ainda temos tempo de descobrir o que é nosso rosebud.

seria interessante fazer isso antes de gastar a vida inteira comprando coisas para não precisar pensar no assunto.

porque a verdadeira tragédia de cidadão kane não é que um homem tenha conseguido tudo e terminado sozinho. é que ele passou a vida confundindo tudo aquilo que podia possuir com aquilo que jamais conseguiu ter.

e, olhando ao redor, parece que transformamos esse equívoco num modelo de negócios.