
na tarde de 8 de maio de 2025, quando a fumaça branca começou a subir da chaminé da capela sistina, senti uma emoção que não esperava. havia alguma coisa profundamente bonita naquela multidão olhando para o céu, esperando que um sinal tão antigo anunciasse alguma esperança para um mundo tão absurdamente moderno.
nenhum aplicativo. nenhum algoritmo. nenhuma pesquisa de popularidade. apenas uma chaminé, alguns sinos e milhares de pessoas acreditando que ainda valia a pena esperar por alguma coisa boa.
por alguns minutos, o mundo pareceu menos louco.
então anunciaram que o novo papa era americano.
e eu pensei, meu deus, até o senhor resolveu terceirizar para os estados unidos?
não bastavam hollywood, wall street, o pentágono, o vale do silício e a mania de tratar o planeta como um condomínio onde washington preside a reunião de moradores? agora também a cadeira de são pedro?
confesso que imaginei o céu sendo reorganizado por consultores de gestão. são pedro obrigado a cumprir metas trimestrais, os anjos participando de reuniões de produtividade e a salvação oferecida em três modalidades de assinatura.
mas minha preocupação não era apenas com o passaporte do novo pontífice.
era com o homem que ele precisava suceder.
francisco.
aquele argentino que conseguiu fazer o mundo inteiro prestar atenção num velho de branco falando sobre coisas que, aparentemente, havíamos começado a considerar ultrapassadas: bondade, humildade, misericórdia, solidariedade.
francisco não precisava parecer poderoso. sua força estava justamente em não precisar demonstrar poder.
num planeta apaixonado por homens que batem na mesa, ele preferia estender a mão.
e isso, convenhamos, é uma atitude bastante provocativa.
porque bater na mesa qualquer sujeito com um cargo importante consegue. estender a mão a alguém que o mundo prefere ignorar exige uma coragem de outra natureza.
francisco tinha a capacidade de transformar gestos pequenos em acontecimentos enormes. aproximava-se de alguém esquecido, ouvia uma história, abraçava uma pessoa que ninguém fotografaria por iniciativa própria.
e, de repente, aquele homem desconhecido passava a existir diante dos olhos do mundo.
não porque tivesse conquistado alguma coisa.
mas porque alguém importante havia decidido tratá-lo como importante.
eu achava impossível substituir aquilo.
e talvez fosse mesmo.
mas cometi um erro, imaginei que o sucessor precisaria repetir a mesma música.
quando robert francis prevost apareceu na sacada da basílica de são pedro, vi um homem emocionado, tentando encontrar palavras diante de uma responsabilidade quase inconcebível.
não havia ali um conquistador anunciando sua chegada.
havia um homem que parecia compreender o peso do lugar onde estava.
e sua primeira mensagem foi de paz.
não uma declaração de grandeza. não uma promessa de vitória. não uma demonstração de autoridade.
paz.
uma palavra pequena, quase tímida, diante do tamanho do mundo.
e talvez justamente por isso tão poderosa.
porque estamos vivendo numa época em que a paz se tornou uma palavra curiosa. todo mundo diz desejá-la, desde que ela não atrapalhe demais os próprios interesses.
governos falam de paz enquanto ampliam arsenais. empresas anunciam um futuro melhor enquanto disputam quem consegue controlar mais aspectos da nossa vida. homens poderosos prometem estabilidade com a delicadeza de quem está prestes a quebrar a mobília.
e, no meio desse espetáculo, aparece um homem vestido de branco pedindo paz.
sem ameaçar ninguém.
sem anunciar sanções.
sem apresentar uma lista de inimigos.
é quase uma afronta aos costumes contemporâneos.
o mundo está tão acostumado com a arrogância que a serenidade começa a parecer revolucionária.
e talvez seja isso que tenha começado a me conquistar em leão xiv.
não a ideia de que ele será outro francisco.
mas a possibilidade de que seja exatamente o papa de que este tempo precisa.
um homem nascido em chicago, que viveu durante anos no peru, conheceu comunidades distantes dos grandes centros de poder e aprendeu que a vida humana não se resume às prioridades de quem tem dinheiro para definir a agenda do planeta.
um americano que parece compreender que o mundo não é propriedade dos americanos.
o que, convenhamos, já representa uma agradável quebra de expectativa.
e há algo ainda mais interessante, leão xiv não parece querer vencer a disputa pelo volume da voz.
num tempo em que políticos competem para ver quem consegue produzir a frase mais agressiva, bilionários transformam opiniões pessoais em acontecimentos internacionais e qualquer desconhecido com um telefone se considera autorizado a dar lições definitivas sobre a existência, um homem que fala com calma corre o risco de ser confundido com alguém sem força.
mas talvez tenhamos esquecido que a verdadeira autoridade não precisa gritar.
um professor que conhece profundamente seu assunto não precisa humilhar seus alunos. um bom médico não precisa transformar o sofrimento do paciente em espetáculo. uma pessoa realmente segura de si não precisa vencer todas as conversas.
e um papa não precisa disputar popularidade com os homens que transformaram o mundo numa competição permanente de egos.
sua tarefa é muito maior.
talvez uma das mais difíceis desde os grandes conflitos e transformações do século xx.
porque leão xiv não recebeu apenas uma igreja para conduzir.
recebeu um mundo que consegue fazer coisas extraordinárias e parece cada vez mais confuso sobre o que realmente importa.
criamos máquinas capazes de conversar, escrever, desenhar, traduzir idiomas e realizar tarefas que pareciam impossíveis há poucos anos.
uma conquista maravilhosa.
mas ainda não descobrimos como impedir que tanta gente se sinta sozinha.
construímos cidades iluminadas durante a noite inteira, mas continuamos incapazes de enxergar algumas pessoas que vivem nelas.
podemos atravessar oceanos em poucas horas, mas há famílias que passam anos separadas por fronteiras, guerras e circunstâncias que não escolheram.
temos acesso a praticamente todo o conhecimento humano na palma da mão.
e, mesmo assim, às vezes precisamos de alguém para nos lembrar de ouvir.
é uma ironia magnífica.
o mundo inteiro conectado.
e tanta gente sem encontrar uma pessoa com quem conversar de verdade.
talvez seja por isso que a mensagem de um papa possa alcançar até quem não frequenta uma igreja.
porque a fé, quando é capaz de inspirar alguma coisa boa, não deveria funcionar como uma cerca que separa os que pertencem dos que ficaram de fora.
deveria ser uma porta.
francisco parecia compreender isso profundamente.
e começo a ter esperança de que leão xiv também compreenda.
não porque suas palavras sejam sempre perfeitas. nem porque a igreja esteja livre de contradições. há problemas reais, feridas que exigem justiça e responsabilidades que não desaparecem com uma bênção.
mas porque o pontificado pode oferecer algo que anda perigosamente escasso… um convite a sermos melhores sem precisar primeiro escolher alguém para odiar.
e essa talvez seja a maior provocação possível no mundo de hoje.
imaginem o escândalo.
um líder que não precisa inventar um inimigo para reunir pessoas.
que não precisa humilhar alguém para demonstrar força.
que não precisa prometer que seu povo será maior do que os outros.
que pode simplesmente dizer que ninguém deveria ser esquecido.
é quase um absurdo administrativo.
como organizar uma campanha de poder baseada na ideia de que até quem não tem poder merece respeito?
como transformar isso num slogan agressivo?
como vender a compaixão como uma demonstração de superioridade?
não funciona.
e ainda bem.
porque talvez estejamos precisando de alguma coisa que não funcione segundo as regras desse espetáculo.
penso novamente naquela fumaça branca.
num mundo em que quase tudo acontece depressa demais, milhares de pessoas pararam para esperar.
esperaram por um nome.
por um rosto.
por uma palavra.
e a palavra foi paz.
talvez eu tenha subestimado a força desse momento.
eu estava preocupado com a nacionalidade do homem.
com a sombra gigantesca de francisco.
com o risco de que um novo papa não conseguisse despertar a mesma emoção.
mas talvez a beleza da sucessão esteja justamente em descobrir que a esperança não pertence a uma única pessoa.
francisco foi francisco.
leão será leão.
e a mensagem que ambos receberam é muito mais antiga do que seus nomes, suas nacionalidades e suas diferenças.
uma mensagem que atravessou impérios, guerras, descobertas, revoluções e séculos inteiros de mudanças humanas.
uma mensagem que, apesar de toda a nossa tecnologia, continua surpreendentemente difícil de praticar.
amar o próximo.
duas palavras que parecem simples até descobrirmos que o próximo também pode ser alguém de quem discordamos.
alguém que não conhecemos.
alguém que não pode nos oferecer absolutamente nada.
e talvez esteja aí o grande desafio de leão xiv.
não convencer o mundo de que a igreja é importante.
mas ajudar a igreja a demonstrar por que sua mensagem ainda pode ser importante para o mundo.
não disputar espaço com os homens poderosos.
mas lembrar que a grandeza de uma pessoa não se mede pelo número de pessoas que lhe obedecem.
e sim pela maneira como trata aquelas que não têm obrigação nenhuma de obedecer.
confesso que hoje olho para aquele americano com uma esperança que não imaginava sentir.
não uma esperança ingênua. ainda haverá decisões difíceis, críticas, falhas e decepções possíveis. nenhum papa está acima da condição humana, e talvez seja bom que não esteja.
mas uma esperança que nasce justamente da surpresa.
a surpresa de descobrir que um homem pode contrariar nossas expectativas para melhor.
que um sucessor pode honrar seu antecessor sem imitá-lo.
que a serenidade pode ter força.
que a fé pode continuar inspirando gente num mundo tão apaixonado por certezas barulhentas.
e que talvez ainda existam pessoas dispostas a assumir responsabilidades enormes sem precisar transformar isso num espetáculo sobre a própria importância.
naquela tarde de maio, vi a fumaça branca e temi que o mundo estivesse prestes a perder alguma coisa do que francisco havia deixado.
hoje começo a pensar que talvez tenha acontecido o contrário.
talvez tenhamos recebido uma oportunidade de continuar.
de continuar acreditando que a bondade não é ingenuidade.
que a humildade não é fraqueza.
que a paz não é uma palavra decorativa.
e que a esperança não precisa morrer quando morre alguém que nos ensinou a senti-la.
eu achava que seria impossível substituir francisco. e estava certo.
o que eu não havia entendido é que ninguém precisava substituí-lo. era preciso continuar aquilo que ele havia começado.
e talvez seja essa a beleza de leão xiv.
um americano que me fez rever meus preconceitos.
um homem que não precisa gritar para ser ouvido.
um papa que recebeu um mundo extraordinariamente complicado e decidiu começar com uma palavra que todos conhecemos, mas que parecemos ter esquecido como praticar.
paz.
quando aquela fumaça branca subiu ao céu, pensei que estava assistindo à escolha de um novo papa.
hoje, quase um ano e meio depois, começo a perceber que talvez estivesse assistindo a algo ainda mais bonito.
a lembrança de que, mesmo quando o mundo parece determinado a perder o rumo, ainda pode haver alguém disposto a apontar um caminho sem precisar empurrar ninguém.
e pensar que minha primeira preocupação era o fato de ele ser americano.
às vezes, a esperança tem um senso de humor melhor do que o nosso.