
donald trump chegou a 31% de aprovação numa pesquisa reuters/ipsos. o menor índice de seus dois mandatos. outra pesquisa, do pew research center, encontrou 30%.
confesso que achei um resultado interessante. não exatamente pela queda, mas pela quantidade de gente que parece estar descobrindo agora que entregar a administração de uma potência nuclear a um apresentador de reality show pode produzir algumas complicações fora do horário nobre.
durante anos, trump ofereceu ao público um espetáculo extraordinário. insultos, ameaças, apelidos, inimigos imaginários e reais, promessas monumentais e aquela expressão permanente de quem acaba de descobrir que o universo está funcionando sem sua autorização.
e milhões de pessoas adoraram.
era divertido. era provocativo. era diferente. finalmente alguém disposto a dizer tudo aquilo que os políticos tradicionais tinham a prudência, a educação ou o bom senso de não dizer.
a falta de filtro virou autenticidade. a arrogância virou liderança. a confusão virou estratégia.
e a capacidade de transformar qualquer assunto numa discussão sobre donald trump foi elevada à categoria de talento político.
o problema é que um país não é um programa de televisão. no programa, quando o protagonista faz alguma besteira, a audiência aumenta. num país, quando o protagonista faz alguma besteira, alguém precisa pagar a conta.
e parece que a conta começou a chegar.
a desaprovação da condução econômica alcançou 68% na pesquisa reuters/ipsos. os preços dos combustíveis, pressionados pelo conflito com o irã, tornaram-se uma preocupação importante.
há uma ironia deliciosa em tudo isso.
trump passou anos cultivando a imagem do homem capaz de dobrar governos, intimidar adversários e negociar qualquer coisa.
mas o preço da gasolina continua demonstrando uma lamentável falta de respeito por sua personalidade.
não adianta chamá-lo de perdedor.
não adianta escrever uma postagem furiosa.
não adianta anunciar que ninguém na história da humanidade foi tão extraordinário quanto o atual ocupante da casa branca.
a bomba simplesmente apresenta o valor.
é uma experiência democrática bastante eficiente. todos podem ter opiniões diferentes sobre o presidente, mas o visor do posto de gasolina não costuma aceitar argumentos.
e talvez seja justamente isso que esteja incomodando.
porque o espetáculo funciona maravilhosamente enquanto alguém acredita que está assistindo de graça. quando descobre que também participa do financiamento, a diversão perde um pouco do encanto.
mas seria ingênuo imaginar que a queda de popularidade representa uma grande transformação intelectual da sociedade americana.
não há evidência de que milhões de pessoas tenham acordado simultaneamente, preparado um café e decidido estudar ciência política.
pesquisas de aprovação refletem avaliações diferentes, por motivos diferentes. há insatisfação econômica, divergências sobre políticas públicas e rejeições que já existiam antes.
não é uma cerimônia coletiva de arrependimento.
e talvez essa seja a parte mais reveladora.
porque o que está acontecendo com trump diz menos sobre uma súbita descoberta da democracia e mais sobre nossa relação cada vez mais estranha com o poder.
aprendemos a admirar políticos como admiramos celebridades.
não importa tanto o que conseguem administrar. importa o que conseguem provocar.
queremos frases memoráveis, confrontos, humilhações públicas e aquela sensação deliciosa de pertencer ao grupo que está vencendo a discussão.
a política virou uma espécie de campeonato de egos, com bandeiras, torcidas e uma quantidade impressionante de adultos que parecem ter esquecido que o resultado não termina quando o juiz apita.
o presidente pode ganhar a discussão e o cidadão continuar perdendo poder de compra.
uma vitória extraordinária, desde que ninguém examine o recibo.
e isso não acontece apenas nos estados unidos.
a tentação de confundir carisma com competência é internacional. atravessa fronteiras com muito mais facilidade do que refugiados e dispensa visto de entrada.
há uma atração quase infantil pelo homem que promete resolver tudo sozinho.
alguém que entra numa sala, bate na mesa, ameaça os adversários e anuncia que finalmente colocará ordem na bagunça.
é uma fantasia maravilhosa.
especialmente para quem nunca precisou administrar um condomínio.
porque governar envolve instituições, leis, negociações, consequências econômicas e pessoas que, por algum defeito da democracia, insistem em discordar.
nada disso cabe facilmente numa frase de efeito.
e frases de efeito são muito mais agradáveis do que explicações.
o cidadão quer alguém que diga que tudo será resolvido.
não necessariamente alguém que explique como.
afinal, explicações exigem atenção. promessas exigem apenas entusiasmo.
trump compreendeu perfeitamente essa diferença.
construiu uma carreira política transformando cada controvérsia numa oportunidade de ocupar o centro da conversa.
mesmo quem o detesta frequentemente passa boa parte do dia falando dele.
é uma capacidade extraordinária.
mas atenção não reduz automaticamente preços, não resolve conflitos internacionais e não transforma uma promessa em resultado.
a realidade tem essa mania desagradável de exigir trabalho depois que os aplausos terminam.
e talvez seja por isso que a popularidade esteja sofrendo.
não porque o mundo tenha desenvolvido uma súbita aversão ao espetáculo.
mas porque parte da plateia começou a perceber que os ingressos são caros.
ainda assim, milhões de americanos continuam aprovando trump. isso não é um paradoxo. pessoas avaliam governos de maneiras distintas e podem apoiar certas decisões enquanto rejeitam outras.
o que chama atenção é a persistência da política como experiência emocional.
para muita gente, admitir que uma liderança decepcionou pode ser mais difícil do que reconhecer um erro de cálculo.
porque, quando um político deixa de ser apenas um político e passa a representar a identidade de alguém, criticá-lo parece uma ofensa pessoal.
e ninguém gosta de descobrir que investiu anos de entusiasmo numa promessa que talvez não entregue aquilo que imaginava.
é mais confortável encontrar uma explicação alternativa.
a culpa é da imprensa. dos adversários. dos burocratas. dos estrangeiros. das circunstâncias. de qualquer coisa que permita preservar intacta a imagem do protagonista.
o problema é que a inflação não costuma aceitar desculpas ideológicas como forma de pagamento.
e a economia doméstica possui uma habilidade cruel para interromper grandes narrativas.
é possível defender uma visão grandiosa de futuro enquanto o cartão ainda tem limite.
quando o limite acaba, o futuro precisa aguardar.
talvez seja essa a grande lição dos 31%.
não que trump esteja politicamente acabado. pesquisas mudam, governos recuperam aprovação e eleições dependem de muito mais do que um levantamento isolado.
mas o número expõe a distância entre a imagem de força e a experiência concreta de governar.
uma distância que nenhum slogan consegue eliminar para sempre.
e também expõe algo sobre nós.
somos uma civilização capaz de colocar satélites em órbita, desenvolver inteligência artificial e realizar descobertas científicas extraordinárias.
mas continuamos extraordinariamente vulneráveis ao sujeito que sobe num palco e promete resolver tudo porque, ao contrário dos outros, ele é especial.
compramos a promessa, defendemos o personagem, discutimos com desconhecidos e transformamos divergências políticas em conflitos pessoais.
depois, quando a realidade apresenta a fatura, ficamos surpresos.
uma surpresa comovente.
é como entrar num restaurante porque o dono passou a noite insultando os concorrentes, ignorar completamente o cardápio e reclamar quando a comida chega fria.
talvez o chef fosse excelente em produzir manchetes.
cozinhar era outra questão.
o mais curioso é que essa confusão entre espetáculo e competência continua sendo vendida como uma demonstração de sofisticação política.
não precisamos de políticos que expliquem problemas. queremos personagens que prometam derrotá-los.
não queremos dúvidas. queremos certezas.
não queremos administração. queremos emoção.
e, se possível, uma boa briga para acompanhar o jantar.
trump não inventou essa fome de espetáculo.
apenas aprendeu a alimentá-la melhor do que quase todo mundo.
os 31% mostram que a aprovação pode cair quando as expectativas encontram a realidade. não demonstram, por si só, que o público abandonou o gosto por esse tipo de política.
e é aí que a história fica interessante.
porque a verdadeira questão não é quanto tempo trump levará para recuperar popularidade, se é que recuperará.
é quanto tempo levaremos para parar de confundir alguém que sabe conquistar uma plateia com alguém que sabe cuidar de um país.
talvez o problema nunca tenha sido apenas o homem no palco.
talvez seja nossa extraordinária disposição de aplaudir antes de descobrir quem vai pagar a conta.
e, quando ela finalmente chega, temos a audácia de chamar aquilo de surpresa.