existe uma categoria fascinante de pessoas que se orgulha de não tomar partido. observa o mundo pegando fogo, ajeita a cadeira, pede um café e anuncia, com a serenidade de um monge muito bem alimentado, que prefere não se envolver.
é uma posição confortável. principalmente quando o incêndio acontece na casa dos outros.
a neutralidade ganhou uma reputação curiosa. virou sinônimo de inteligência, equilíbrio, maturidade. o sujeito que não se posiciona é apresentado como alguém acima das paixões humanas, um espírito superior que não se deixa contaminar pelas vulgaridades do debate público.
às vezes é apenas alguém com um talento extraordinário para proteger o próprio conforto. e convenhamos, conforto é uma ideologia bastante popular. não exige leitura, coragem ou grandes sacrifícios. basta continuar sentado.
não estou sugerindo que todo mundo precise ter uma opinião sobre absolutamente tudo. já temos especialistas suficientes em geopolítica que aprenderam a localização dos países envolvidos há quinze minutos. o mundo agradeceria se algumas pessoas descobrissem o prazer revolucionário de dizer que não sabem.
há uma diferença imensa, porém, entre reconhecer a própria ignorância e fingir que não existe nada a ser reconhecido. entre escutar antes de julgar e usar a prudência como esconderijo. entre evitar uma discussão inútil e permanecer elegantemente calado diante de uma injustiça perfeitamente visível.
o problema começa quando a neutralidade deixa de ser um exercício de discernimento e se transforma num plano de carreira.
ninguém quer perder amigos, clientes, seguidores ou convites para jantar. ninguém quer ser o inconveniente da mesa, aquele sujeito que estraga o clima porque resolveu mencionar algo ligeiramente mais importante que o vinho.
então desenvolvemos uma diplomacia admirável.
condenamos os excessos sem identificar quem os pratica. lamentamos as tragédias sem examinar suas causas. defendemos a paz com tamanho entusiasmo que evitamos até incomodar quem está produzindo a guerra.
é uma performance impecável.
todos saem da conversa satisfeitos. especialmente quem não precisava que nada mudasse. e existe uma indústria inteira dedicada a transformar essa omissão em virtude. frases bonitas sobre respeitar todas as opiniões, ouvir todos os lados, preservar a harmonia.
ótimos princípios, quando aplicados com algum critério.
porque ouvir todos os lados não significa atribuir o mesmo peso a qualquer argumento. respeitar pessoas não obriga ninguém a tratar crueldade como uma preferência estética. e preservar a harmonia pode ser uma ideia maravilhosa, desde que não dependa de pedir silêncio a quem está sendo prejudicado.
a história humana oferece exemplos suficientes do custo desse tipo de elegância. injustiças raramente sobrevivem apenas pela força de quem as pratica. também se beneficiam da hesitação de quem percebe o problema, calcula o inconveniente de agir e decide que talvez seja melhor esperar.
esperar é uma atividade maravilhosa. transmite a sensação de responsabilidade sem exigir o trabalho desagradável de assumir alguma. e, enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.
há pessoas pagando pelas decisões de outras. há direitos sendo discutidos como se fossem privilégios excessivos. há mentiras circulando com a desenvoltura de convidados importantes, enquanto fatos precisam apresentar documentos na portaria.
e nós, criaturas sofisticadas, preocupados em não parecer radicais. curioso como a moderação pode se tornar uma forma bastante extravagante de vaidade. o sujeito não quer compreender melhor o problema. quer ser admirado pela distância que mantém dele.
quer que todos reconheçam sua superioridade emocional, sua recusa às paixões, sua extraordinária capacidade de não se aborrecer. é fácil manter a calma quando nada do que está acontecendo ameaça você.
muito fácil.
mas também seria um erro transformar posicionamento em campeonato de indignação. ter coragem não exige gritar. ter convicção não autoriza abandonar a dúvida. e escolher um lado não dispensa ninguém da obrigação de pensar.
aliás, algumas das pessoas mais barulhentas que conhecemos demonstram uma resistência heroica a qualquer atividade intelectual. a coragem que me interessa é menos fotogênica.
é a capacidade de dizer que algo está errado mesmo quando seria socialmente mais vantajoso rir, concordar ou mudar de assunto.
é admitir que uma pessoa de quem gostamos fez algo indefensável. é reconhecer um erro no grupo ao qual pertencemos. é recusar a mentira conveniente, inclusive quando ela favorece nossas próprias convicções.
isso custa alguma coisa. e talvez seja justamente por isso que vale alguma coisa.
não precisamos de mais gente desesperada para emitir sentenças sobre o mundo. precisamos de pessoas dispostas a assumir responsabilidade pelo que conseguem enxergar, sem transformar cada discordância numa guerra particular.
a neutralidade pode ser necessária numa negociação, honesta diante de fatos insuficientes e sábia quando os ânimos estão impedindo qualquer conversa. mas também pode ser o nome respeitável que damos ao medo de desagradar, e essa segunda versão tem um preço.
porque há momentos em que ficar em cima do muro deixa de ser uma demonstração de equilíbrio. passa a ser apenas a escolha de quem descobriu um lugar confortável para assistir à queda dos outros.
ser neutro é um risco. sobretudo quando a consciência começa a cobrar explicações e descobrimos que passamos a vida inteira treinando respostas para não ter de dar nenhuma.
donald trump chegou a 31% de aprovação numa pesquisa reuters/ipsos. o menor índice de seus dois mandatos. outra pesquisa, do pew research center, encontrou 30%.
confesso que achei um resultado interessante. não exatamente pela queda, mas pela quantidade de gente que parece estar descobrindo agora que entregar a administração de uma potência nuclear a um apresentador de reality show pode produzir algumas complicações fora do horário nobre.
durante anos, trump ofereceu ao público um espetáculo extraordinário. insultos, ameaças, apelidos, inimigos imaginários e reais, promessas monumentais e aquela expressão permanente de quem acaba de descobrir que o universo está funcionando sem sua autorização.
e milhões de pessoas adoraram.
era divertido. era provocativo. era diferente. finalmente alguém disposto a dizer tudo aquilo que os políticos tradicionais tinham a prudência, a educação ou o bom senso de não dizer.
a falta de filtro virou autenticidade. a arrogância virou liderança. a confusão virou estratégia.
e a capacidade de transformar qualquer assunto numa discussão sobre donald trump foi elevada à categoria de talento político.
o problema é que um país não é um programa de televisão. no programa, quando o protagonista faz alguma besteira, a audiência aumenta. num país, quando o protagonista faz alguma besteira, alguém precisa pagar a conta.
e parece que a conta começou a chegar.
a desaprovação da condução econômica alcançou 68% na pesquisa reuters/ipsos. os preços dos combustíveis, pressionados pelo conflito com o irã, tornaram-se uma preocupação importante.
há uma ironia deliciosa em tudo isso.
trump passou anos cultivando a imagem do homem capaz de dobrar governos, intimidar adversários e negociar qualquer coisa.
mas o preço da gasolina continua demonstrando uma lamentável falta de respeito por sua personalidade.
não adianta chamá-lo de perdedor.
não adianta escrever uma postagem furiosa.
não adianta anunciar que ninguém na história da humanidade foi tão extraordinário quanto o atual ocupante da casa branca.
a bomba simplesmente apresenta o valor.
é uma experiência democrática bastante eficiente. todos podem ter opiniões diferentes sobre o presidente, mas o visor do posto de gasolina não costuma aceitar argumentos.
e talvez seja justamente isso que esteja incomodando.
porque o espetáculo funciona maravilhosamente enquanto alguém acredita que está assistindo de graça. quando descobre que também participa do financiamento, a diversão perde um pouco do encanto.
mas seria ingênuo imaginar que a queda de popularidade representa uma grande transformação intelectual da sociedade americana.
não há evidência de que milhões de pessoas tenham acordado simultaneamente, preparado um café e decidido estudar ciência política.
pesquisas de aprovação refletem avaliações diferentes, por motivos diferentes. há insatisfação econômica, divergências sobre políticas públicas e rejeições que já existiam antes.
não é uma cerimônia coletiva de arrependimento.
e talvez essa seja a parte mais reveladora.
porque o que está acontecendo com trump diz menos sobre uma súbita descoberta da democracia e mais sobre nossa relação cada vez mais estranha com o poder.
aprendemos a admirar políticos como admiramos celebridades.
não importa tanto o que conseguem administrar. importa o que conseguem provocar.
queremos frases memoráveis, confrontos, humilhações públicas e aquela sensação deliciosa de pertencer ao grupo que está vencendo a discussão.
a política virou uma espécie de campeonato de egos, com bandeiras, torcidas e uma quantidade impressionante de adultos que parecem ter esquecido que o resultado não termina quando o juiz apita.
o presidente pode ganhar a discussão e o cidadão continuar perdendo poder de compra.
uma vitória extraordinária, desde que ninguém examine o recibo.
e isso não acontece apenas nos estados unidos.
a tentação de confundir carisma com competência é internacional. atravessa fronteiras com muito mais facilidade do que refugiados e dispensa visto de entrada.
há uma atração quase infantil pelo homem que promete resolver tudo sozinho.
alguém que entra numa sala, bate na mesa, ameaça os adversários e anuncia que finalmente colocará ordem na bagunça.
é uma fantasia maravilhosa.
especialmente para quem nunca precisou administrar um condomínio.
porque governar envolve instituições, leis, negociações, consequências econômicas e pessoas que, por algum defeito da democracia, insistem em discordar.
nada disso cabe facilmente numa frase de efeito.
e frases de efeito são muito mais agradáveis do que explicações.
o cidadão quer alguém que diga que tudo será resolvido.
não necessariamente alguém que explique como.
afinal, explicações exigem atenção. promessas exigem apenas entusiasmo.
trump compreendeu perfeitamente essa diferença.
construiu uma carreira política transformando cada controvérsia numa oportunidade de ocupar o centro da conversa.
mesmo quem o detesta frequentemente passa boa parte do dia falando dele.
é uma capacidade extraordinária.
mas atenção não reduz automaticamente preços, não resolve conflitos internacionais e não transforma uma promessa em resultado.
a realidade tem essa mania desagradável de exigir trabalho depois que os aplausos terminam.
e talvez seja por isso que a popularidade esteja sofrendo.
não porque o mundo tenha desenvolvido uma súbita aversão ao espetáculo.
mas porque parte da plateia começou a perceber que os ingressos são caros.
ainda assim, milhões de americanos continuam aprovando trump. isso não é um paradoxo. pessoas avaliam governos de maneiras distintas e podem apoiar certas decisões enquanto rejeitam outras.
o que chama atenção é a persistência da política como experiência emocional.
para muita gente, admitir que uma liderança decepcionou pode ser mais difícil do que reconhecer um erro de cálculo.
porque, quando um político deixa de ser apenas um político e passa a representar a identidade de alguém, criticá-lo parece uma ofensa pessoal.
e ninguém gosta de descobrir que investiu anos de entusiasmo numa promessa que talvez não entregue aquilo que imaginava.
é mais confortável encontrar uma explicação alternativa.
a culpa é da imprensa. dos adversários. dos burocratas. dos estrangeiros. das circunstâncias. de qualquer coisa que permita preservar intacta a imagem do protagonista.
o problema é que a inflação não costuma aceitar desculpas ideológicas como forma de pagamento.
e a economia doméstica possui uma habilidade cruel para interromper grandes narrativas.
é possível defender uma visão grandiosa de futuro enquanto o cartão ainda tem limite.
quando o limite acaba, o futuro precisa aguardar.
talvez seja essa a grande lição dos 31%.
não que trump esteja politicamente acabado. pesquisas mudam, governos recuperam aprovação e eleições dependem de muito mais do que um levantamento isolado.
mas o número expõe a distância entre a imagem de força e a experiência concreta de governar.
uma distância que nenhum slogan consegue eliminar para sempre.
e também expõe algo sobre nós.
somos uma civilização capaz de colocar satélites em órbita, desenvolver inteligência artificial e realizar descobertas científicas extraordinárias.
mas continuamos extraordinariamente vulneráveis ao sujeito que sobe num palco e promete resolver tudo porque, ao contrário dos outros, ele é especial.
compramos a promessa, defendemos o personagem, discutimos com desconhecidos e transformamos divergências políticas em conflitos pessoais.
depois, quando a realidade apresenta a fatura, ficamos surpresos.
uma surpresa comovente.
é como entrar num restaurante porque o dono passou a noite insultando os concorrentes, ignorar completamente o cardápio e reclamar quando a comida chega fria.
talvez o chef fosse excelente em produzir manchetes.
cozinhar era outra questão.
o mais curioso é que essa confusão entre espetáculo e competência continua sendo vendida como uma demonstração de sofisticação política.
não precisamos de políticos que expliquem problemas. queremos personagens que prometam derrotá-los.
não queremos dúvidas. queremos certezas.
não queremos administração. queremos emoção.
e, se possível, uma boa briga para acompanhar o jantar.
trump não inventou essa fome de espetáculo.
apenas aprendeu a alimentá-la melhor do que quase todo mundo.
os 31% mostram que a aprovação pode cair quando as expectativas encontram a realidade. não demonstram, por si só, que o público abandonou o gosto por esse tipo de política.
e é aí que a história fica interessante.
porque a verdadeira questão não é quanto tempo trump levará para recuperar popularidade, se é que recuperará.
é quanto tempo levaremos para parar de confundir alguém que sabe conquistar uma plateia com alguém que sabe cuidar de um país.
talvez o problema nunca tenha sido apenas o homem no palco.
talvez seja nossa extraordinária disposição de aplaudir antes de descobrir quem vai pagar a conta.
e, quando ela finalmente chega, temos a audácia de chamar aquilo de surpresa.
uma das coisas que mais me chamou a atenção no debate de ontem entre lula e flávio bolsonaro foi algo que aconteceu enquanto lula falava. flávio ficava atrás dele, gesticulando, balançando o dedo negativamente, fazendo expressões de ironia. e isso me lembrou imediatamente o debate de 2016 entre hillary clinton e donald trump.
e tem muita ciência por trás dessa história. principalmente quando pensamos no eleitor indeciso.
em 2016, trump circulava pelo palco e ficava parado atrás de hillary enquanto ela respondia às perguntas. aquilo foi interpretado por muita gente como uma demonstração de intimidação e domínio. hillary tentava manter a postura e falar com o público, enquanto trump disputava a atenção simplesmente ocupando o espaço ao redor dela.
ontem, flávio fez algo semelhante, mas com uma diferença importante. trump usava principalmente a presença física, a proximidade e o tamanho do corpo. flávio usou mais a expressão facial e os gestos de negação. um parecia querer demonstrar domínio sobre a adversária. o outro parecia querer desacreditar tudo o que o adversário dizia.
e olha que interessante: existe um estudo de 2005, publicado no journal of social psychology, que analisou justamente como o público reage quando um candidato fica demonstrando discordância com gestos enquanto o outro fala. o resultado é curioso. quem fazia esses gestos acabava sendo percebido como menos adequado ao debate. e, quando a discordância era constante, quem estava falando podia até sair com uma imagem melhor.
ou seja, algo que parece uma demonstração de força pode produzir exatamente o efeito contrário.
e tem outra questão que a psicologia cognitiva ajuda a explicar. nossa atenção responde a expressões faciais, movimentos e sinais de conflito. quando alguém está falando e outra pessoa aparece ao fundo fazendo gestos de deboche, passamos a receber duas mensagens ao mesmo tempo. uma verbal, com argumentos, e outra visual, sugerindo que aqueles argumentos não merecem crédito.
o curioso é que a segunda mensagem nem precisa apresentar provas. basta uma expressão de desprezo para tentar colocar em dúvida aquilo que está sendo dito. é como se alguém colocasse uma legenda emocional na fala do adversário.
mas o ponto que acho mais interessante é o eleitor indeciso.
quem já gosta do flávio provavelmente viu ali alguém corajoso, seguro, que não abaixa a cabeça. quem já gosta do lula provavelmente viu arrogância, desrespeito e imaturidade. isso tem relação com um fenômeno bastante estudado na psicologia política, nossas preferências anteriores influenciam a maneira como interpretamos o comportamento de um candidato.
só que o indeciso não tem necessariamente essa mesma convicção. e indeciso também não significa desinformado. às vezes é alguém que conhece os dois, não confia plenamente em nenhum e está tentando descobrir quem parece mais preparado para governar.
e nesse caso a linguagem corporal pode ter um peso enorme.
porque esse eleitor pode nem lembrar exatamente o argumento econômico apresentado por um ou por outro, mas pode sair do debate com uma sensação muito clara sobre o comportamento dos dois. quem demonstrou segurança? quem pareceu nervoso? quem transmitiu equilíbrio? quem parecia estar querendo resolver alguma coisa e quem parecia interessado apenas em provocar?
percebe o risco?
flávio pode conseguir chamar a atenção e agradar muito quem já votaria nele. mas também pode provocar no indeciso uma pergunta bastante desconfortável, se ele se comporta assim num debate, como vai se comportar diante de uma crise de verdade?
por outro lado, há quem interprete exatamente essa postura como sinal de força, de alguém disposto a enfrentar o sistema. e isso ajuda a entender por que a mesma cena pode despertar admiração em uma pessoa e rejeição em outra.
existe ainda uma diferença que acho fundamental entre 2016 e ontem. trump estava diante de uma mulher, e a proximidade física acrescentava uma leitura de intimidação que envolvia também expectativas sociais sobre gênero. no confronto entre flávio e lula, essa dimensão é diferente. o peso visual está muito mais na disputa entre autoridade e deboche, experiência e enfrentamento.
mas tem um outro elemento nessa comparação que acho ainda mais interessante. lula tem 80 anos e flávio 45. e isso acrescenta uma camada completamente diferente à leitura da cena. porque, culturalmente, existe uma expectativa de respeito aos mais velhos, independentemente de concordarmos com eles. quando um homem mais jovem fica atrás de um senhor de 80 anos fazendo gestos de deboche, parte do público pode interpretar aquilo não apenas como uma provocação política, mas como uma demonstração de desrespeito a alguém mais velho.
e essa questão fica ainda mais curiosa porque a própria campanha de flávio explora a idade de lula como sinal de que chegou a hora de uma mudança. no debate, inclusive, flávio chegou a dizer que o brasil iria aposentá-lo. ou seja, existe um discurso verbal que associa juventude à renovação e idade avançada ao fim de um ciclo. mas, quando esse discurso vem acompanhado de gestos que podem parecer desrespeitosos, a mensagem corre o risco de se voltar contra quem a utiliza.
e aqui entra novamente a semiótica. a mesma imagem pode comunicar duas coisas completamente diferentes. para alguns, um jovem enfrentando um político experiente e representando o novo. para outros, um homem mais jovem debochando de alguém que poderia ter a idade de seu pai ou de seu avô.
e pense no eleitor indeciso, especialmente naquele que valoriza muito o respeito aos mais velhos. ele pode até concordar que lula está velho demais para governar, mas isso não significa que ache aceitável vê-lo sendo tratado com deboche. é perfeitamente possível alguém questionar a capacidade de um político continuar no cargo e, ao mesmo tempo, sentir incômodo com a maneira como seu adversário se comporta diante dele.
aliás, essa talvez seja uma das contradições mais interessantes dessa estratégia. ao tentar representar juventude e força, flávio corre o risco de fazer lula parecer justamente aquilo que sua campanha tenta transformar em fraqueza: um senhor mais velho diante de alguém que parece não respeitá-lo.
e não estou dizendo que essa foi necessariamente a leitura das pessoas. estou dizendo que, do ponto de vista da comunicação, é uma possibilidade muito real. e que pode pesar justamente entre aqueles que ainda não escolheram um lado.
e tem algo que torna tudo isso ainda mais interessante… um debate hoje também é feito para virar corte nas redes sociais. um gesto de três segundos pode circular milhões de vezes sem que ninguém saiba exatamente o que estava sendo discutido. a imagem viaja sozinha, e cada grupo político coloca a legenda que quiser.
e isso me faz pensar numa coisa, talvez o maior desafio de quem participa de um debate não seja apenas convencer o eleitor de que está certo, mas conseguir transmitir que tem equilíbrio emocional para ocupar o cargo.
porque existe uma diferença enorme entre parecer forte e parecer preparado.
e para o eleitor indeciso, essa diferença pode ser decisiva.
no fundo, a semiótica nos mostra uma coisa fascinante, enquanto um candidato tenta convencer com palavras, o outro pode tentar desmenti-lo com o corpo. só que a interpretação final não pertence a nenhum dos dois.
pertence a quem está assistindo.
e esse talvez seja o maior perigo de transformar um debate presidencial numa competição de caretas. você pode conquistar os aplausos de quem já está do seu lado e, ao mesmo tempo, perder silenciosamente quem ainda estava disposto a te ouvir.
na tarde de 8 de maio de 2025, quando a fumaça branca começou a subir da chaminé da capela sistina, senti uma emoção que não esperava. havia alguma coisa profundamente bonita naquela multidão olhando para o céu, esperando que um sinal tão antigo anunciasse alguma esperança para um mundo tão absurdamente moderno.
nenhum aplicativo. nenhum algoritmo. nenhuma pesquisa de popularidade. apenas uma chaminé, alguns sinos e milhares de pessoas acreditando que ainda valia a pena esperar por alguma coisa boa.
por alguns minutos, o mundo pareceu menos louco.
então anunciaram que o novo papa era americano.
e eu pensei, meu deus, até o senhor resolveu terceirizar para os estados unidos?
não bastavam hollywood, wall street, o pentágono, o vale do silício e a mania de tratar o planeta como um condomínio onde washington preside a reunião de moradores? agora também a cadeira de são pedro?
confesso que imaginei o céu sendo reorganizado por consultores de gestão. são pedro obrigado a cumprir metas trimestrais, os anjos participando de reuniões de produtividade e a salvação oferecida em três modalidades de assinatura.
mas minha preocupação não era apenas com o passaporte do novo pontífice.
era com o homem que ele precisava suceder.
francisco.
aquele argentino que conseguiu fazer o mundo inteiro prestar atenção num velho de branco falando sobre coisas que, aparentemente, havíamos começado a considerar ultrapassadas: bondade, humildade, misericórdia, solidariedade.
francisco não precisava parecer poderoso. sua força estava justamente em não precisar demonstrar poder.
num planeta apaixonado por homens que batem na mesa, ele preferia estender a mão.
e isso, convenhamos, é uma atitude bastante provocativa.
porque bater na mesa qualquer sujeito com um cargo importante consegue. estender a mão a alguém que o mundo prefere ignorar exige uma coragem de outra natureza.
francisco tinha a capacidade de transformar gestos pequenos em acontecimentos enormes. aproximava-se de alguém esquecido, ouvia uma história, abraçava uma pessoa que ninguém fotografaria por iniciativa própria.
e, de repente, aquele homem desconhecido passava a existir diante dos olhos do mundo.
não porque tivesse conquistado alguma coisa.
mas porque alguém importante havia decidido tratá-lo como importante.
eu achava impossível substituir aquilo.
e talvez fosse mesmo.
mas cometi um erro, imaginei que o sucessor precisaria repetir a mesma música.
quando robert francis prevost apareceu na sacada da basílica de são pedro, vi um homem emocionado, tentando encontrar palavras diante de uma responsabilidade quase inconcebível.
não havia ali um conquistador anunciando sua chegada.
havia um homem que parecia compreender o peso do lugar onde estava.
e sua primeira mensagem foi de paz.
não uma declaração de grandeza. não uma promessa de vitória. não uma demonstração de autoridade.
paz.
uma palavra pequena, quase tímida, diante do tamanho do mundo.
e talvez justamente por isso tão poderosa.
porque estamos vivendo numa época em que a paz se tornou uma palavra curiosa. todo mundo diz desejá-la, desde que ela não atrapalhe demais os próprios interesses.
governos falam de paz enquanto ampliam arsenais. empresas anunciam um futuro melhor enquanto disputam quem consegue controlar mais aspectos da nossa vida. homens poderosos prometem estabilidade com a delicadeza de quem está prestes a quebrar a mobília.
e, no meio desse espetáculo, aparece um homem vestido de branco pedindo paz.
sem ameaçar ninguém.
sem anunciar sanções.
sem apresentar uma lista de inimigos.
é quase uma afronta aos costumes contemporâneos.
o mundo está tão acostumado com a arrogância que a serenidade começa a parecer revolucionária.
e talvez seja isso que tenha começado a me conquistar em leão xiv.
não a ideia de que ele será outro francisco.
mas a possibilidade de que seja exatamente o papa de que este tempo precisa.
um homem nascido em chicago, que viveu durante anos no peru, conheceu comunidades distantes dos grandes centros de poder e aprendeu que a vida humana não se resume às prioridades de quem tem dinheiro para definir a agenda do planeta.
um americano que parece compreender que o mundo não é propriedade dos americanos.
o que, convenhamos, já representa uma agradável quebra de expectativa.
e há algo ainda mais interessante, leão xiv não parece querer vencer a disputa pelo volume da voz.
num tempo em que políticos competem para ver quem consegue produzir a frase mais agressiva, bilionários transformam opiniões pessoais em acontecimentos internacionais e qualquer desconhecido com um telefone se considera autorizado a dar lições definitivas sobre a existência, um homem que fala com calma corre o risco de ser confundido com alguém sem força.
mas talvez tenhamos esquecido que a verdadeira autoridade não precisa gritar.
um professor que conhece profundamente seu assunto não precisa humilhar seus alunos. um bom médico não precisa transformar o sofrimento do paciente em espetáculo. uma pessoa realmente segura de si não precisa vencer todas as conversas.
e um papa não precisa disputar popularidade com os homens que transformaram o mundo numa competição permanente de egos.
sua tarefa é muito maior.
talvez uma das mais difíceis desde os grandes conflitos e transformações do século xx.
porque leão xiv não recebeu apenas uma igreja para conduzir.
recebeu um mundo que consegue fazer coisas extraordinárias e parece cada vez mais confuso sobre o que realmente importa.
criamos máquinas capazes de conversar, escrever, desenhar, traduzir idiomas e realizar tarefas que pareciam impossíveis há poucos anos.
uma conquista maravilhosa.
mas ainda não descobrimos como impedir que tanta gente se sinta sozinha.
construímos cidades iluminadas durante a noite inteira, mas continuamos incapazes de enxergar algumas pessoas que vivem nelas.
podemos atravessar oceanos em poucas horas, mas há famílias que passam anos separadas por fronteiras, guerras e circunstâncias que não escolheram.
temos acesso a praticamente todo o conhecimento humano na palma da mão.
e, mesmo assim, às vezes precisamos de alguém para nos lembrar de ouvir.
é uma ironia magnífica.
o mundo inteiro conectado.
e tanta gente sem encontrar uma pessoa com quem conversar de verdade.
talvez seja por isso que a mensagem de um papa possa alcançar até quem não frequenta uma igreja.
porque a fé, quando é capaz de inspirar alguma coisa boa, não deveria funcionar como uma cerca que separa os que pertencem dos que ficaram de fora.
deveria ser uma porta.
francisco parecia compreender isso profundamente.
e começo a ter esperança de que leão xiv também compreenda.
não porque suas palavras sejam sempre perfeitas. nem porque a igreja esteja livre de contradições. há problemas reais, feridas que exigem justiça e responsabilidades que não desaparecem com uma bênção.
mas porque o pontificado pode oferecer algo que anda perigosamente escasso… um convite a sermos melhores sem precisar primeiro escolher alguém para odiar.
e essa talvez seja a maior provocação possível no mundo de hoje.
imaginem o escândalo.
um líder que não precisa inventar um inimigo para reunir pessoas.
que não precisa humilhar alguém para demonstrar força.
que não precisa prometer que seu povo será maior do que os outros.
que pode simplesmente dizer que ninguém deveria ser esquecido.
é quase um absurdo administrativo.
como organizar uma campanha de poder baseada na ideia de que até quem não tem poder merece respeito?
como transformar isso num slogan agressivo?
como vender a compaixão como uma demonstração de superioridade?
não funciona.
e ainda bem.
porque talvez estejamos precisando de alguma coisa que não funcione segundo as regras desse espetáculo.
penso novamente naquela fumaça branca.
num mundo em que quase tudo acontece depressa demais, milhares de pessoas pararam para esperar.
esperaram por um nome.
por um rosto.
por uma palavra.
e a palavra foi paz.
talvez eu tenha subestimado a força desse momento.
eu estava preocupado com a nacionalidade do homem.
com a sombra gigantesca de francisco.
com o risco de que um novo papa não conseguisse despertar a mesma emoção.
mas talvez a beleza da sucessão esteja justamente em descobrir que a esperança não pertence a uma única pessoa.
francisco foi francisco.
leão será leão.
e a mensagem que ambos receberam é muito mais antiga do que seus nomes, suas nacionalidades e suas diferenças.
uma mensagem que atravessou impérios, guerras, descobertas, revoluções e séculos inteiros de mudanças humanas.
uma mensagem que, apesar de toda a nossa tecnologia, continua surpreendentemente difícil de praticar.
amar o próximo.
duas palavras que parecem simples até descobrirmos que o próximo também pode ser alguém de quem discordamos.
alguém que não conhecemos.
alguém que não pode nos oferecer absolutamente nada.
e talvez esteja aí o grande desafio de leão xiv.
não convencer o mundo de que a igreja é importante.
mas ajudar a igreja a demonstrar por que sua mensagem ainda pode ser importante para o mundo.
não disputar espaço com os homens poderosos.
mas lembrar que a grandeza de uma pessoa não se mede pelo número de pessoas que lhe obedecem.
e sim pela maneira como trata aquelas que não têm obrigação nenhuma de obedecer.
confesso que hoje olho para aquele americano com uma esperança que não imaginava sentir.
não uma esperança ingênua. ainda haverá decisões difíceis, críticas, falhas e decepções possíveis. nenhum papa está acima da condição humana, e talvez seja bom que não esteja.
mas uma esperança que nasce justamente da surpresa.
a surpresa de descobrir que um homem pode contrariar nossas expectativas para melhor.
que um sucessor pode honrar seu antecessor sem imitá-lo.
que a serenidade pode ter força.
que a fé pode continuar inspirando gente num mundo tão apaixonado por certezas barulhentas.
e que talvez ainda existam pessoas dispostas a assumir responsabilidades enormes sem precisar transformar isso num espetáculo sobre a própria importância.
naquela tarde de maio, vi a fumaça branca e temi que o mundo estivesse prestes a perder alguma coisa do que francisco havia deixado.
hoje começo a pensar que talvez tenha acontecido o contrário.
talvez tenhamos recebido uma oportunidade de continuar.
de continuar acreditando que a bondade não é ingenuidade.
que a humildade não é fraqueza.
que a paz não é uma palavra decorativa.
e que a esperança não precisa morrer quando morre alguém que nos ensinou a senti-la.
eu achava que seria impossível substituir francisco. e estava certo.
o que eu não havia entendido é que ninguém precisava substituí-lo. era preciso continuar aquilo que ele havia começado.
e talvez seja essa a beleza de leão xiv.
um americano que me fez rever meus preconceitos.
um homem que não precisa gritar para ser ouvido.
um papa que recebeu um mundo extraordinariamente complicado e decidiu começar com uma palavra que todos conhecemos, mas que parecemos ter esquecido como praticar.
paz.
quando aquela fumaça branca subiu ao céu, pensei que estava assistindo à escolha de um novo papa.
hoje, quase um ano e meio depois, começo a perceber que talvez estivesse assistindo a algo ainda mais bonito.
a lembrança de que, mesmo quando o mundo parece determinado a perder o rumo, ainda pode haver alguém disposto a apontar um caminho sem precisar empurrar ninguém.
e pensar que minha primeira preocupação era o fato de ele ser americano.
às vezes, a esperança tem um senso de humor melhor do que o nosso.
em 1923, adolf hitler participou de uma tentativa de golpe na alemanha. foi preso, condenado e, algum tempo depois, libertado.
a prisão não encerrou sua carreira. anos mais tarde, o partido nazista conquistou uma bancada expressiva no parlamento, e hitler foi nomeado chanceler.
em 1933, depois de perseguir adversários, suspender direitos e intimidar deputados, seu governo conseguiu aprovar a lei de plenos poderes.
o parlamento autorizou o governo a fazer leis sem consultar o parlamento.
uma solução administrativa de admirável eficiência. especialmente para quem considerava a existência de oposição um desperdício de tempo.
a história oferece uma lição que dispensa qualquer semelhança pessoal entre políticos, o poder fica especialmente confortável quando quem deveria fiscalizá-lo começa a trabalhar para dispensar a fiscalização.
no brasil, a discussão tem ingredientes próprios.
jair bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de estado. seu filho flávio disputa a presidência, defende politicamente o pai e já falou sobre mudanças constitucionais com apoio de uma composição parlamentar mais à direita.
aqui surge uma pergunta interessante, se um presidente chega ao poder com uma bancada disposta a apoiar seu programa, o que acontece quando esse programa inclui mudanças nas instituições encarregadas de limitar o próprio presidente?
a resposta depende das propostas, evidentemente. uma maioria parlamentar não é um golpe. alterar a constituição também não. seria uma descoberta bastante desagradável para o direito constitucional se toda emenda fosse automaticamente suspeita.
mas também seria ingênuo acreditar que uma reforma se torna democrática apenas porque alguém resolveu chamá-la de “redemocratização”.
palavras são baratas. sobretudo quando o orçamento de comunicação é generoso.
a questão é saber o que se pretende fazer com as regras.
se a proposta altera o funcionamento do supremo, quais poderes serão modificados? se muda mecanismos de fiscalização, quem passa a fiscalizar? se trata de condenações relacionadas à tentativa de golpe, quais medidas estão sendo defendidas e dentro de quais limites legais?
essas são perguntas perfeitamente normais. curiosamente, costumam ser tratadas como inconvenientes justamente quando deveriam ser respondidas com maior clareza.
também existe uma peculiaridade familiar nessa eleição.
flávio bolsonaro disputa a presidência enquanto defende a situação jurídica de seu pai, condenado pelo supremo. já admitiu a possibilidade de jair bolsonaro participar de um eventual governo, embora tenha dito depois que uma nomeação não estava nos planos naquele momento.
isso não significa que possa libertá-lo por vontade própria, nem que uma eventual vitória produza automaticamente qualquer mudança judicial. existem competências, procedimentos e limites constitucionais.
mas significa que a relação entre interesses políticos, decisões judiciais e poder presidencial é um assunto concreto da campanha, não uma invenção de quem faz perguntas.
e é justamente por isso que a composição do congresso importa.
um presidente com maioria parlamentar pode conseguir aprovar boa parte de sua agenda. é assim que o sistema representativo funciona.
o detalhe, que às vezes passa despercebido entre uma comemoração eleitoral e outra, é que o congresso também existe para controlar o governo.
não foi criado apenas para facilitar a vida do ocupante do planalto.
uma maioria pode ajudar a executar políticas públicas. também pode apoiar propostas que reduzam controles institucionais. o que distingue uma coisa da outra não é o sobrenome do presidente, mas o conteúdo das medidas e o respeito às garantias constitucionais.
a constituição brasileira estabelece barreiras importantes, inclusive quóruns elevados para emendas e cláusulas que não podem ser abolidas.
ainda bem. seria uma arquitetura institucional bastante exótica aquela em que bastasse vencer uma eleição para adquirir o direito de reescrever todas as regras do jogo.
a alemanha de 1933 mostra por que essas barreiras importam. lá, a destruição da democracia combinou violência, perseguição e decisões institucionais que concentraram poder no executivo.
não é uma previsão sobre o brasil. é um exemplo histórico do que acontece quando limites deixam de funcionar.
por isso, diante de qualquer candidato que proponha mudanças profundas na constituição, a pergunta mais útil não é se ele tem votos suficientes para aprová-las.
é se, depois de aprovadas, a oposição ainda terá condições de se opor, os tribunais ainda poderão contrariar o governo e o congresso ainda será capaz de fiscalizá-lo.
porque a democracia tem uma característica irritante para quem gostaria de governar sem obstáculos: ela permite que outras pessoas digam não.
e essa é precisamente a parte que precisa continuar funcionando.
o congresso não é uma torcida organizada do presidente. se começar a se comportar como uma, o problema não será a falta de entusiasmo. será descobrir quem ficou responsável por apitar o jogo.