
existe uma categoria fascinante de pessoas que se orgulha de não tomar partido. observa o mundo pegando fogo, ajeita a cadeira, pede um café e anuncia, com a serenidade de um monge muito bem alimentado, que prefere não se envolver.
é uma posição confortável. principalmente quando o incêndio acontece na casa dos outros.
a neutralidade ganhou uma reputação curiosa. virou sinônimo de inteligência, equilíbrio, maturidade. o sujeito que não se posiciona é apresentado como alguém acima das paixões humanas, um espírito superior que não se deixa contaminar pelas vulgaridades do debate público.
às vezes é apenas alguém com um talento extraordinário para proteger o próprio conforto. e convenhamos, conforto é uma ideologia bastante popular. não exige leitura, coragem ou grandes sacrifícios. basta continuar sentado.
não estou sugerindo que todo mundo precise ter uma opinião sobre absolutamente tudo. já temos especialistas suficientes em geopolítica que aprenderam a localização dos países envolvidos há quinze minutos. o mundo agradeceria se algumas pessoas descobrissem o prazer revolucionário de dizer que não sabem.
há uma diferença imensa, porém, entre reconhecer a própria ignorância e fingir que não existe nada a ser reconhecido. entre escutar antes de julgar e usar a prudência como esconderijo. entre evitar uma discussão inútil e permanecer elegantemente calado diante de uma injustiça perfeitamente visível.
o problema começa quando a neutralidade deixa de ser um exercício de discernimento e se transforma num plano de carreira.
ninguém quer perder amigos, clientes, seguidores ou convites para jantar. ninguém quer ser o inconveniente da mesa, aquele sujeito que estraga o clima porque resolveu mencionar algo ligeiramente mais importante que o vinho.
então desenvolvemos uma diplomacia admirável.
condenamos os excessos sem identificar quem os pratica. lamentamos as tragédias sem examinar suas causas. defendemos a paz com tamanho entusiasmo que evitamos até incomodar quem está produzindo a guerra.
é uma performance impecável.
todos saem da conversa satisfeitos. especialmente quem não precisava que nada mudasse. e existe uma indústria inteira dedicada a transformar essa omissão em virtude. frases bonitas sobre respeitar todas as opiniões, ouvir todos os lados, preservar a harmonia.
ótimos princípios, quando aplicados com algum critério.
porque ouvir todos os lados não significa atribuir o mesmo peso a qualquer argumento. respeitar pessoas não obriga ninguém a tratar crueldade como uma preferência estética. e preservar a harmonia pode ser uma ideia maravilhosa, desde que não dependa de pedir silêncio a quem está sendo prejudicado.
a história humana oferece exemplos suficientes do custo desse tipo de elegância. injustiças raramente sobrevivem apenas pela força de quem as pratica. também se beneficiam da hesitação de quem percebe o problema, calcula o inconveniente de agir e decide que talvez seja melhor esperar.
esperar é uma atividade maravilhosa. transmite a sensação de responsabilidade sem exigir o trabalho desagradável de assumir alguma. e, enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.
há pessoas pagando pelas decisões de outras. há direitos sendo discutidos como se fossem privilégios excessivos. há mentiras circulando com a desenvoltura de convidados importantes, enquanto fatos precisam apresentar documentos na portaria.
e nós, criaturas sofisticadas, preocupados em não parecer radicais. curioso como a moderação pode se tornar uma forma bastante extravagante de vaidade. o sujeito não quer compreender melhor o problema. quer ser admirado pela distância que mantém dele.
quer que todos reconheçam sua superioridade emocional, sua recusa às paixões, sua extraordinária capacidade de não se aborrecer. é fácil manter a calma quando nada do que está acontecendo ameaça você.
muito fácil.
mas também seria um erro transformar posicionamento em campeonato de indignação. ter coragem não exige gritar. ter convicção não autoriza abandonar a dúvida. e escolher um lado não dispensa ninguém da obrigação de pensar.
aliás, algumas das pessoas mais barulhentas que conhecemos demonstram uma resistência heroica a qualquer atividade intelectual. a coragem que me interessa é menos fotogênica.
é a capacidade de dizer que algo está errado mesmo quando seria socialmente mais vantajoso rir, concordar ou mudar de assunto.
é admitir que uma pessoa de quem gostamos fez algo indefensável. é reconhecer um erro no grupo ao qual pertencemos. é recusar a mentira conveniente, inclusive quando ela favorece nossas próprias convicções.
isso custa alguma coisa. e talvez seja justamente por isso que vale alguma coisa.
não precisamos de mais gente desesperada para emitir sentenças sobre o mundo. precisamos de pessoas dispostas a assumir responsabilidade pelo que conseguem enxergar, sem transformar cada discordância numa guerra particular.
a neutralidade pode ser necessária numa negociação, honesta diante de fatos insuficientes e sábia quando os ânimos estão impedindo qualquer conversa. mas também pode ser o nome respeitável que damos ao medo de desagradar, e essa segunda versão tem um preço.
porque há momentos em que ficar em cima do muro deixa de ser uma demonstração de equilíbrio. passa a ser apenas a escolha de quem descobriu um lugar confortável para assistir à queda dos outros.
ser neutro é um risco. sobretudo quando a consciência começa a cobrar explicações e descobrimos que passamos a vida inteira treinando respostas para não ter de dar nenhuma.