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2025

três semanas

há algo de deliciosamente obsceno em ver a história humilhar os donos da verdade. especialmente aqueles sujeitos de peito estufado, mandíbula contraída e uma convicção quase religiosa de que o futuro lhes pertence. são os mesmos que passam a vida falando em força, poder e grandeza, geralmente com a profundidade intelectual de um filé de frango descongelado.

e então veio o brasil.

esse país extraordinário, contraditório, insolente, onde falta dinheiro para o básico, mas nunca falta criatividade para mandar a arrogância tomar no cu com uma elegância quase artística.

três semanas.

vinte e um malditos dias.

foi o intervalo entre dois domingos de eleição. tempo suficiente para uma mobilização mudar o rumo de uma disputa presidencial e começar a oferecer ao mundo algo que nenhuma consultoria milionária havia conseguido colocar numa apresentação de powerpoint.

uma maneira de reagir.

e o mais extraordinário é que tudo isso coube numa letra.

um simples L feito com a mão. sem tanques, sem uniformes, sem aquela estética ridícula de homens que precisam parecer perigosos para esconder o pavor que sentem diante de pessoas livres.

uma letra que nasceu como símbolo eleitoral e começou a viajar como referência para movimentos que enfrentam a extrema direita.

na espanha, ada colau ergueu o L. no méxico, claudia sheinbaum repetiu o gesto. na frança, grupos políticos passaram a reproduzir a estratégia brasileira de mobilização. na argentina, a experiência inspirou novas redes de organização. até nos estados unidos começaram a estudar o que diabos havia acontecido por aqui.

leiam isso novamente.

o mundo está olhando para o brasil em busca de inspiração política.

o brasil.

o mesmo país que ainda precisa explicar a um cidadão adulto que não se deve jogar lixo na rua, que considera uma obra entregue no prazo um fenômeno sobrenatural e que consegue transformar uma reunião de condomínio numa guerra civil em miniatura.

esse mesmo brasil.

e, francamente, há uma beleza quase pornográfica nessa ironia.

durante anos, assistimos ao crescimento internacional de uma política alimentada pelo medo, pela raiva e pela necessidade patológica de encontrar alguém para culpar. um espetáculo de homens muito sérios, vestidos como executivos de funerária, prometendo salvar civilizações enquanto demonstram uma dificuldade constrangedora para conviver com quem pensa diferente.

e agora uma parte do mundo olha para um país tropical que resolveu responder com organização popular, irreverência e um gesto que qualquer criança consegue reproduzir.

não significa que a extrema direita esteja derrotada no planeta. seria uma conclusão tão idiota quanto declarar uma guerra vencida porque alguém ganhou uma batalha.

mas significa que uma experiência brasileira passou a ser observada, discutida e adaptada em outros lugares.

e isso é imenso.

porque o que atravessou o oceano não foi apenas uma letra.

foi a demonstração de que a resignação pode ser interrompida.

pensem no tamanho disso para alguém que vive em outro país, cercado por discursos autoritários, cansado de assistir à intolerância ser vendida como coragem e à brutalidade ser apresentada como virtude.

de repente, do outro lado do atlântico, chega a notícia de que uma mobilização popular conseguiu virar o resultado de uma disputa que parecia seguir outro roteiro.

não é uma solução pronta. é uma possibilidade.

e possibilidades são perigosíssimas para quem constrói poder convencendo os outros de que nada pode mudar.

o que me emociona nessa história não é a glória de um partido ou de um líder. políticos passam, governos terminam, fotografias oficiais amarelam e homens convencidos da própria eternidade acabam reduzidos a notas de rodapé. a história tem um senso de humor infinitamente superior ao deles.

o que me emociona são as pessoas.

milhões de pessoas comuns, com suas contas atrasadas, seus filhos, seus empregos, suas pequenas tragédias particulares, encontrando uma maneira de participar de algo maior do que elas mesmas.

gente que não aparece nos livros. que não recebe medalhas. que não será convidada para discursar em conferências internacionais.

mas que esteve lá.

e sem essas pessoas não haveria história alguma para contar.

é nisso que penso quando vejo o gesto chegando a outros países. alguém, a milhares de quilômetros daqui, pode estar descobrindo que aquilo que parecia impossível talvez fosse apenas algo que ainda não havia sido tentado da maneira certa.

imaginem a dimensão humana dessa descoberta.

não existe luxo maior do que recuperar a sensação de que o futuro permanece aberto.

e pensar que tudo isso aconteceu num país que o mundo tantas vezes tratou como um eterno aprendiz de civilização.

desta vez, somos nós que estamos sendo observados.

não porque tenhamos resolvido nossos problemas. deus nos livre de tamanha presunção. ainda temos desigualdade, violência, corrupção e uma quantidade absolutamente obscena de gente produzindo opiniões com a mesma facilidade com que produz gases.

mas porque mostramos uma experiência de mobilização que começou a inspirar outras sociedades.

e talvez essa seja a parte mais importante de todas.

o brasil não exportou uma promessa de paraíso.

exportou a lembrança de que a história não é propriedade particular de quem grita mais alto.

três semanas para mudar o rumo de uma eleição. poucos dias para que símbolos e estratégias começassem a circular internacionalmente.

não sei aonde isso vai chegar. ninguém sabe. o futuro continua sendo aquele restaurante suspeito onde fazemos o pedido sem jamais ter certeza do que sairá da cozinha.

mas há momentos em que uma sociedade faz alguma coisa tão inesperada que obriga o mundo a reconsiderar suas certezas.

e o brasil acaba de viver um desses momentos.

talvez daqui a muitos anos alguém procure entender como uma letra desenhada no ar por mãos brasileiras foi parar em manifestações e debates políticos do outro lado do planeta.

e descubra que, por trás daquela imagem tão simples, havia milhões de histórias, uma imensa vontade de participar e a recusa de aceitar que o futuro já estivesse decidido.

isso é o que arrepia.

não a ideia de termos ensinado o mundo a vencer.

mas a possibilidade de termos lembrado outras pessoas de que ainda vale a pena tentar.

porque há uma diferença brutal entre ganhar uma eleição e devolver a alguém a coragem de imaginar outro amanhã.

a primeira coisa se mede em votos.

a segunda pode atravessar gerações.

e se essa pequena letra conseguir lembrar a alguém, em qualquer canto do planeta, que nenhuma forma de poder é eterna, já terá feito algo extraordinário.

o mundo ainda tem um longo caminho pela frente. e nós também.

mas é uma satisfação indescritível ver o brasil deixar de ser apenas o país sobre o qual todos têm alguma coisa a dizer e se tornar, por um instante, o país ao qual outros estão prestando atenção.

três semanas.

uma letra.

e uma pergunta atravessando fronteiras.

se eles conseguiram mudar o roteiro no brasil, o que mais pode mudar?

não conheço resposta mais bonita do que essa pergunta.

e imagino que ela esteja provocando uma bela indigestão em muita gente acostumada a se considerar dona do mundo.

excelente.

às vezes, a história merece ser servida sem antiácido.