
há algo de extraordinariamente irônico no fato de que uma música nascida de uma noite de improviso, vinho suíço e cinco egos suficientemente grandes para provocar um pequeno desastre diplomático tenha encontrado, 45 anos depois, seu lugar nas ruas do brasil.
e não numa propaganda de automóveis, num comercial de banco ou em alguma dessas campanhas publicitárias que tentam vender emoção como quem vende margarina.
mas na avenida paulista, no meio de uma multidão de jovens que resolveu trocar a confortável indignação digital pela inconveniência de aparecer pessoalmente.
a música era under pressure, de david bowie e queen.
e a história por trás dela torna tudo ainda mais fascinante.
em 1981, ano em que nasci, bowie apareceu no mountain studios, em montreux, na suíça, onde o queen estava gravando. ninguém havia planejado aquele encontro como uma grande reunião de gênios para salvar a música contemporânea. estavam apenas tocando, bebendo e improvisando. uma atividade bastante mais produtiva do que a maioria das reuniões estratégicas realizadas desde então.
john deacon criou uma linha de baixo extraordinariamente simples. tão simples que, depois de uma pausa para comer e beber, segundo as lembranças dos próprios músicos, quase ninguém conseguia concordar sobre como ela havia sido tocada.
imaginem a cena. cinco dos maiores talentos do rock reunidos e a história da música quase perdendo um clássico porque alguém resolveu jantar.
mas há um detalhe ainda mais delicioso.
o título provisório da composição era people on streets.
pessoas nas ruas.
sim. pessoas nas ruas.
quarenta e cinco anos antes de aquela música acompanhar imagens da avenida paulista tomada por uma multidão, seus criadores já repetiam essas palavras dentro de um estúdio suíço.
se isso tivesse sido inventado por um roteirista de hollywood, provavelmente seria considerado simbolismo excessivo.
a diferença é que a vida, ocasionalmente, tem mais imaginação do que os profissionais encarregados de explicá-la.
e a própria música é uma pequena obra-prima de tensão.
começa com aquele baixo insistente, quase claustrofóbico. não parece uma celebração. parece um coração tentando manter o ritmo enquanto alguma coisa muito séria acontece lá fora.
e há uma genialidade quase cruel naquela simplicidade. john deacon não precisava de cinquenta instrumentos, um coral de crianças ou uma orquestra inteira para fabricar emoção. bastaram algumas notas para produzir uma sensação de urgência que atravessaria gerações.
algo que deveria ser estudado por certos publicitários convencidos de que a profundidade de uma mensagem depende da quantidade de efeitos especiais.
bowie entra com sua voz carregada de apreensão. freddie responde com uma urgência quase desesperada. as vozes se encontram, se interrompem, disputam espaço. não há tranquilidade alguma naquela gravação.
há pressão. medo. famílias divididas. pessoas nas ruas. a sensação sufocante de viver num mundo que parece exigir de todos mais do que conseguem suportar.
soa familiar?
a canção não fala de uma eleição brasileira. não foi escrita contra um partido, um candidato ou qualquer personagem da nossa interminável ópera política. e justamente por isso conseguiu encontrar um significado tão poderoso quarenta e cinco anos depois.
porque fala daquilo que acontece com seres humanos quando o mundo começa a parecer pequeno demais para suportar tanto medo.
e então acontece o que torna under pressure uma canção muito maior do que um clássico de rock.
ela muda de direção.
no meio de todo aquele caos, freddie mercury começa a insistir na possibilidade de oferecer outra chance ao amor. e bowie leva a ideia ainda mais longe, tratando o amor não como uma delicadeza sentimental, mas como a coragem de se importar com quem está à margem.
não é o amor decorativo das campanhas de perfume.
é o amor como responsabilidade humana.
e isso, meus caros, é muito mais subversivo do que parece.
porque é relativamente fácil transformar raiva em espetáculo. basta um microfone, uma plateia e algum sujeito convencido de que falar alto substitui pensar.
difícil é convencer pessoas de que ainda existe alguma coisa que vale a pena preservar umas nas outras.
agora voltemos à avenida paulista.
11 de outubro de 2026.
uma eleição presidencial em seu momento mais tenso. o país dividido. o primeiro turno havia terminado com lula atrás de seu adversário, flávio bolsonaro. as pesquisas, os comentaristas, os especialistas e aquela fauna de analistas políticos que consegue explicar qualquer resultado depois que ele acontece ocupavam suas posições habituais.
mas alguma coisa havia escapado ao controle dos profissionais da política.
os jovens estavam se organizando.
fãs de lady gaga, taylor swift, bts, beyoncé, movimentos estudantis, torcidas, coletivos, gente com histórias e razões diferentes para participar. pessoas que provavelmente jamais concordariam sobre qual seria o melhor álbum do ano, mas conseguiram encontrar uma maneira de ocupar a mesma avenida.
e agora chegamos àquela imagem.
aquela maldita imagem que não consigo assistir sem sentir alguma coisa apertar dentro do peito.
lula aparece subindo uma rua ao lado do masp. um homem de oitenta anos, atravessando um pequeno pedaço de são paulo em direção a uma multidão que o espera.
a cena não tem nada de extraordinário quando descrita assim.
um homem caminhando. uma rua. um museu. gente reunida.
mas então entra under pressure.
aquele baixo.
aquele coração musical insistente.
e a câmera do drone começa a revelar o tamanho do que estava acontecendo.
a imagem se abre. o homem que ocupava o centro da cena começa a parecer pequeno. os prédios surgem, a avenida se estende e a multidão ocupa o espaço até onde os olhos conseguem acompanhar.
a paulista, essa avenida que já testemunhou manifestações, celebrações, protestos, derrotas e uma quantidade industrial de discursos esquecíveis, parece se transformar em alguma coisa maior do que uma rua.
e acontece um detalhe cinematográfico que talvez explique por que aquela montagem seja tão poderosa.
o protagonista deixa de ser apenas o homem caminhando.
passa a ser a multidão.
pessoas que acordaram cedo, enfrentaram transporte público, viajaram, combinaram encontros, levaram amigos, encontraram desconhecidos, suportaram calor e cansaço para estar ali.
o drone continua subindo.
e eu me pergunto quantas histórias cabem naquela imagem.
quantas pessoas tiveram medo do futuro. quantas estavam cansadas de brigar com parentes. quantas haviam perdido a paciência com a brutalidade transformada em entretenimento político. quantas simplesmente queriam fazer parte de alguma coisa que consideravam importante.
nenhuma câmera consegue mostrar tudo isso.
mas uma música, às vezes, consegue fazer com que a gente sinta.
e é exatamente aí que under pressure deixa de funcionar apenas como trilha sonora e passa a fazer parte da experiência emocional daquele vídeo.
porque a música não começa oferecendo uma resposta.
ela começa reconhecendo a pressão.
e quem viveu aquelas semanas sabe o quanto essa palavra pesava.
a tensão de uma eleição apertada. o medo, as expectativas, as discussões, a incerteza. a sensação de que uma decisão coletiva poderia determinar muito mais do que o nome que ocuparia um gabinete.
e então, diante daquela avenida tomada por pessoas, surge uma ideia extraordinariamente simples.
ninguém está vivendo isso sozinho.
talvez seja por isso que eu chore toda vez que revejo a cena.
e confesso que não é uma reação particularmente confortável para alguém que passou boa parte da vida desconfiando de grandes demonstrações emocionais. especialmente das produzidas pela política, esse ramo da atividade humana no qual sujeitos muito bem pagos nos garantem, com absoluta solenidade, que desta vez será diferente.
mas há imagens que atravessam nossa armadura de cinismo sem pedir licença.
aquela é uma delas.
e há outra coincidência maravilhosa.
o videoclipe original de under pressure, dirigido por david mallet em 1981, não mostrava nem bowie nem o queen. mostrava multidões, trabalhadores, trens lotados, conflitos, explosões e fragmentos do cinema mudo.
entre as imagens escolhidas estavam cenas de o encouraçado potemkin, de eisenstein, e nosferatu, de murnau.
pensem nisso.
uma canção construída sobre a pressão exercida sobre as pessoas foi originalmente transformada em imagens de gente comprimida pela vida moderna, pelo medo e pelos conflitos humanos.
quarenta e cinco anos depois, um drone brasileiro encontra outra multidão.
mas agora não estamos vendo apenas pessoas esmagadas pela pressão.
estamos vendo pessoas que decidiram aparecer apesar dela.
é uma mudança de perspectiva belíssima.
e o que torna tudo ainda mais interessante é que a própria gravação de under pressure nasceu de um conflito criativo.
brian may contou que bowie chegou a interferir na maneira como john deacon tocava o baixo. houve atrito, opiniões diferentes, disputas sobre os caminhos da composição. depois, bowie assumiu a tarefa de dar direção à letra, e may não ficou inteiramente satisfeito com o espaço que a guitarra ganhou no resultado final.
cinco músicos extraordinários discordando sobre praticamente tudo e ainda assim conseguindo produzir alguma coisa que nenhum deles teria criado sozinho.
uma pequena lição de convivência que, convenhamos, deveria ser distribuída gratuitamente a metade do congresso nacional.
e quando a canção chega ao seu momento mais intenso, ela não resolve o caos com uma demonstração de força.
ela faz algo infinitamente mais difícil.
pede outra chance.
uma chance de mudar nossa maneira de cuidar uns dos outros.
uma chance de não permitir que a pressão nos transforme naquilo que mais tememos.
e é impossível não pensar naquelas imagens da paulista sem perceber a delicadeza brutal dessa associação.
porque não era apenas um presidente chegando a um comício.
era também o encontro de gerações.
de um lado, um homem que havia começado sua trajetória pública num brasil de ditadura militar, greves operárias e repressão política.
do outro, jovens nascidos décadas depois, organizados por redes sociais, fandoms e formas de comunicação que seriam praticamente incompreensíveis para os dirigentes sindicais dos anos setenta.
duas épocas. linguagens diferentes. experiências radicalmente distintas.
e uma avenida entre elas.
na letra de under pressure, existe ainda aquela imagem da última dança.
e ali ela adquire uma dimensão quase insuportavelmente humana.
um homem de oitenta anos, consciente de que o tempo não negocia com ninguém, caminhando ao encontro de pessoas que ainda têm a maior parte da vida pela frente.
não sabemos se será a última campanha dele. a música tampouco foi escrita pensando nessa possibilidade.
mas a associação é inevitável.
porque toda última dança só é bonita quando nos lembra que houve uma vida inteira antes dela.
e então veio o dia 25 de outubro.
vinte e um dias depois do primeiro turno, o resultado foi outro. lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de flávio bolsonaro.
uma eleição não se explica por uma música, um vídeo ou uma manifestação isolada. seria uma estupidez atribuir a uma montagem de internet aquilo que dependeu de milhões de escolhas individuais, campanhas, debates e mobilizações.
mas aquela cena da paulista se tornou uma das imagens pelas quais muita gente passou a recordar essas três semanas.
e não ficou restrita ao nosso universo político.
a manifestação ganhou cobertura de veículos internacionais como reuters, el país e efe. as comunidades de fãs brasileiras chamaram a atenção de grupos em outros países. e, depois da eleição, o gesto do L começou a aparecer em manifestações e manifestações de apoio político fora do brasil.
não significa que o mundo inteiro tenha descoberto uma fórmula infalível ou que movimentos tão diferentes tenham passado a pensar da mesma maneira.
mas existe algo culturalmente extraordinário em ver símbolos e estratégias nascidos de uma campanha brasileira atravessarem fronteiras tão rapidamente.
um país acostumado a importar tendências agora despertava curiosidade sobre sua capacidade de mobilização.
o brasil, que mal consegue organizar uma fila de embarque sem provocar uma crise de civilização, havia oferecido ao exterior uma experiência política que outros queriam entender.
e o que isso tem a ver com bowie e freddie mercury?
absolutamente tudo, ao menos no plano da emoção.
porque under pressure nunca foi sobre a fantasia infantil de um mundo sem conflitos.
foi sobre o que fazemos uns com os outros quando esses conflitos parecem insuportáveis.
e essa pergunta não pertence ao brasil.
pertence a qualquer sociedade que já tenha descoberto como é fácil trocar a complexidade humana por slogans, transformar divergências em inimigos e confundir brutalidade com coragem.
talvez por isso a canção tenha envelhecido tão pouco.
freddie mercury morreu em 1991. david bowie, em 2016.
os dois deixaram um mundo consideravelmente mais complicado do que aquele em que gravaram a música. e, francamente, depois de décadas de suposto progresso, ainda conseguimos produzir as mesmas velhas crueldades com equipamentos muito mais sofisticados.
temos inteligência artificial, satélites, algoritmos capazes de prever o que desejamos comprar e aparelhos que nos permitem conversar com alguém do outro lado do planeta.
e seguimos precisando que uma música de 1981 nos lembre de tratar outros seres humanos como gente.
um desempenho bastante constrangedor para a espécie mais convencida de sua própria inteligência.
mas há uma pequena ironia final nessa história, e ela é tão deliciosa que parece invenção.
under pressure foi lançada em 26 de outubro de 1981.
em 26 de outubro de 2026, um dia depois da eleição brasileira, completou exatamente 45 anos.
e no dia seguinte, 27 de outubro, lula completou 81 anos.
uma canção sobre a pressão da vida, uma imagem de gerações se encontrando, uma eleição decidida três semanas depois do primeiro turno e um aniversário quase simultâneo.
não estou sugerindo destino, profecia ou alguma dessas teorias místicas que costumam surgir depois do terceiro copo de vinho.
coincidências são coincidências.
mas algumas possuem uma beleza narrativa difícil de ignorar.
e talvez o que mais me emocione nessa história não seja a vitória de um candidato, nem a repercussão internacional, nem mesmo a impressionante extensão daquela multidão.
é a maneira como a câmera sobe.
sim, a câmera.
porque há algo profundamente simbólico naquele movimento.
ela começa perto de um homem. depois mostra o que existe à volta dele. e, à medida que sobe, cada pessoa individual vai ficando menor, enquanto a dimensão coletiva se torna impossível de ignorar.
é quase uma tradução visual daquilo que a música pede.
uma mudança de perspectiva.
a capacidade de perceber que existe alguma coisa além de nós mesmos.
quando revejo o vídeo, não consigo evitar pensar em quem estava lá e jamais aparecerá num close. na pessoa que saiu do trabalho, no estudante que economizou para viajar, na mulher que levou a filha, no velho que já esteve em outras manifestações e talvez tenha pensado que nunca mais veria algo parecido.
todos minúsculos vistos do alto.
todos indispensáveis àquela imagem.
é isso que me desmonta.
porque a história costuma lembrar o nome de quem estava sobre o palanque.
mas nenhuma multidão existe sem as vidas anônimas que decidiram estar presentes.
e naquele instante, com o baixo de john deacon pulsando, as vozes de bowie e freddie mercury se encontrando e a avenida se abrindo diante dos olhos, o que sinto não é simplesmente entusiasmo político.
é uma consciência quase dolorosa da passagem do tempo.
dos artistas que já morreram.
das gerações que envelheceram.
das batalhas que terminaram.
das outras que continuam.
e dos jovens que ainda estão chegando para viver suas próprias histórias.
ninguém sabe quanto tempo durará a influência internacional dessa mobilização, nem quais mudanças concretas sobreviverão ao entusiasmo do momento. a história tem o desagradável costume de cobrar resultados muito depois que a música termina.
mas aquela imagem já existe.
e isso ninguém pode desfazer.
um homem subindo uma rua.
uma avenida cheia de gente.
uma câmera se afastando.
e duas vozes gravadas há quarenta e cinco anos encontrando um novo sentido em um país do outro lado do oceano.
talvez daqui a décadas alguém assista a esse vídeo sem conhecer todos os detalhes da eleição de 2026.
talvez não saiba os nomes dos candidatos, não entenda as disputas, não reconheça os cartazes.
mas ouvirá aquele baixo.
verá a multidão.
e entenderá que, naquele domingo, havia pessoas para quem estar ali significava alguma coisa enorme.
porque há momentos que pertencem à política e outros que, sem deixar de ser políticos, também passam a pertencer à memória afetiva de quem os viveu.
e essa é a parte que nenhum marqueteiro consegue encomendar.
a emoção verdadeira não aceita briefing.
não obedece a calendário de publicação.
não nasce de uma reunião com doze executivos discutindo se o vídeo precisa ter mais três segundos para melhorar o engajamento.
ela acontece.
e às vezes acontece com uma música velha, um drone e milhares de pessoas reunidas numa avenida.
não consigo ouvir under pressure da mesma maneira desde então.
aquele baixo agora me leva de volta à paulista.
a voz de bowie me lembra a pressão de um mundo que parece nunca nos conceder descanso.
e quando freddie mercury começa a cantar sobre a possibilidade de oferecer outra chance ao amor, lembro que, por trás de toda a retórica grandiosa e de todas as certezas políticas, ainda existem pessoas tentando encontrar uma maneira menos cruel de viver juntas.
é isso que me faz chorar.
não porque a música prometa um final feliz.
mas precisamente porque ela sabe que não existe essa garantia.
o mundo continua difícil. as sociedades continuam divididas. nenhuma eleição elimina nossas contradições e nenhuma multidão, por maior que seja, nos dispensa da responsabilidade de continuar pensando.
mas, por alguns minutos, aquela combinação de música e imagens consegue nos fazer sentir a dimensão humana de um acontecimento histórico.
e talvez seja essa a grandeza de under pressure.
ela começa com o peso de um mundo inteiro sobre os ombros.
e termina nos lembrando daquilo que ainda podemos oferecer uns aos outros.
quarenta e cinco anos depois, bowie e freddie encontraram pessoas nas ruas.
as mesmas pessoas que já estavam no primeiro nome daquela canção.
people on streets.
e, toda vez que o drone sobe sobre a paulista, tenho a estranha sensação de que a história está nos mostrando algo que a política, com toda sua arrogância, frequentemente esquece.
por trás de cada grande acontecimento existem vidas pequenas demais para caber nas manchetes, mas grandes o suficiente para mudar o sentido de uma época.
a música termina.
a imagem desaparece.
e eu continuo ali por alguns segundos, olhando para a tela.
com os olhos molhados e aquela sensação desconcertante de ter testemunhado alguma coisa que levarei comigo por muito tempo.
francamente, depois de tudo isso, acho que podemos perdoar john deacon por ter quase esquecido a linha de baixo depois do jantar.
o que ele criou acabou se tornando a memória musical de milhões de vidas que jamais conheceria.
e não existe sucesso de marketing no mundo que se compare a isso.

