
tem uma frase que aparece o tempo todo.
“vai no flow.”
“deixa acontecer.”
“segue o algoritmo.”
“o mercado decidiu.”
“é o que está funcionando.”
é curioso como, aos poucos, a gente começou a admirar pessoas que parecem sempre estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, surfando a onda certa.
mas existe uma diferença entre perceber para onde o vento está soprando… e deixar que ele escolha completamente o seu destino.
acho que a internet acelerou isso. antes, tendências demoravam anos para mudar. hoje, às vezes, mudam em semanas. uma música. um aplicativo. um jeito de editar vídeo. um tipo de humor. uma estética. um discurso. uma opinião.
e, junto com essa velocidade, apareceu uma ansiedade silenciosa… a de nunca ficar para trás e o problema é que viver tentando acompanhar tudo tem um efeito colateral curioso.
você passa tanto tempo olhando para onde todo mundo está indo… que esquece de perguntar para onde queria ir. é como entrar num aeroporto e decidir o destino apenas observando qual portão tem a maior fila.
se tanta gente está indo para lá, deve ser bom. mas… e se aquele nunca tivesse sido o seu destino? talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que estamos fazendo escolhas e na prática, muitas vezes estamos apenas reagindo.
o algoritmo muda, a gente muda.
o mercado muda, a gente muda.
a estética muda, a gente muda.
a linguagem muda, a gente muda.
acho que confundimos evoluir com oscilar… evoluir exige reflexão, já oscilar exige apenas velocidade. e isso não acontece só na internet… acontece na carreira, na forma como consumimos tecnologia, na maneira como escolhemos o que ler, o que vestir, o que pensar, o que defender e até o que criticar.
é cada vez mais raro encontrar alguém disposto a sustentar uma ideia por tempo suficiente para descobrir se ela realmente fazia sentido porque sempre existe uma novidade esperando na próxima esquina e novidade tem uma característica sedutora, ela nunca exige compromisso… só atenção.
talvez seja por isso que tanta gente vive cansada, não porque trabalha demais e sim porque está constantemente recalculando a própria direção. e recalcular o tempo inteiro também cansa.
não estou defendendo rigidez, mudar de ideia é saudável e mudar de caminho também.
o problema começa quando toda mudança deixa de nascer de uma reflexão… e passa a nascer apenas do medo de ficar de fora.
percebe a diferença entre escolher uma estrada diferente porque ela faz mais sentido e trocar de estrada porque todo mundo começou a correr para outro lado.
a história está cheia de pessoas que pareceram atrasadas durante anos, coheço vários escritores, cientistas, artistas e inventores.
quase todos tiveram uma coisa em comum, eles passaram muito tempo andando na direção contrária do fluxo e não porque queriam ser diferentes. mas porque estavam ocupados demais tentando entender alguma coisa que o resto do mundo ainda não tinha percebido.
talvez seguir o flow seja confortável, mas dificilmente é onde surgem as ideias que mudam alguma coisa.
porque o flow sempre leva para onde a corrente já está indo.
e, às vezes, o lugar mais interessante para estar…
é justamente alguns passos fora dela.
talvez liberdade não seja fazer o que você quiser.
talvez liberdade seja perceber quando uma escolha realmente nasceu de você…
e quando ela foi apenas mais uma resposta automática ao movimento da multidão.