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2025

under pressure

há algo de extraordinariamente irônico no fato de que uma música nascida de uma noite de improviso, vinho suíço e cinco egos suficientemente grandes para provocar um pequeno desastre diplomático tenha encontrado, 45 anos depois, seu lugar nas ruas do brasil.

e não numa propaganda de automóveis, num comercial de banco ou em alguma dessas campanhas publicitárias que tentam vender emoção como quem vende margarina.

mas na avenida paulista, no meio de uma multidão de jovens que resolveu trocar a confortável indignação digital pela inconveniência de aparecer pessoalmente.

a música era under pressure, de david bowie e queen.

e a história por trás dela torna tudo ainda mais fascinante.

em 1981, ano em que nasci, bowie apareceu no mountain studios, em montreux, na suíça, onde o queen estava gravando. ninguém havia planejado aquele encontro como uma grande reunião de gênios para salvar a música contemporânea. estavam apenas tocando, bebendo e improvisando. uma atividade bastante mais produtiva do que a maioria das reuniões estratégicas realizadas desde então.

john deacon criou uma linha de baixo extraordinariamente simples. tão simples que, depois de uma pausa para comer e beber, segundo as lembranças dos próprios músicos, quase ninguém conseguia concordar sobre como ela havia sido tocada.

imaginem a cena. cinco dos maiores talentos do rock reunidos e a história da música quase perdendo um clássico porque alguém resolveu jantar.

mas há um detalhe ainda mais delicioso.

o título provisório da composição era people on streets.

pessoas nas ruas.

sim. pessoas nas ruas.

quarenta e cinco anos antes de aquela música acompanhar imagens da avenida paulista tomada por uma multidão, seus criadores já repetiam essas palavras dentro de um estúdio suíço.

se isso tivesse sido inventado por um roteirista de hollywood, provavelmente seria considerado simbolismo excessivo.

a diferença é que a vida, ocasionalmente, tem mais imaginação do que os profissionais encarregados de explicá-la.

e a própria música é uma pequena obra-prima de tensão.

começa com aquele baixo insistente, quase claustrofóbico. não parece uma celebração. parece um coração tentando manter o ritmo enquanto alguma coisa muito séria acontece lá fora.

e há uma genialidade quase cruel naquela simplicidade. john deacon não precisava de cinquenta instrumentos, um coral de crianças ou uma orquestra inteira para fabricar emoção. bastaram algumas notas para produzir uma sensação de urgência que atravessaria gerações.

algo que deveria ser estudado por certos publicitários convencidos de que a profundidade de uma mensagem depende da quantidade de efeitos especiais.

bowie entra com sua voz carregada de apreensão. freddie responde com uma urgência quase desesperada. as vozes se encontram, se interrompem, disputam espaço. não há tranquilidade alguma naquela gravação.

há pressão. medo. famílias divididas. pessoas nas ruas. a sensação sufocante de viver num mundo que parece exigir de todos mais do que conseguem suportar.

soa familiar?

a canção não fala de uma eleição brasileira. não foi escrita contra um partido, um candidato ou qualquer personagem da nossa interminável ópera política. e justamente por isso conseguiu encontrar um significado tão poderoso quarenta e cinco anos depois.

porque fala daquilo que acontece com seres humanos quando o mundo começa a parecer pequeno demais para suportar tanto medo.

e então acontece o que torna under pressure uma canção muito maior do que um clássico de rock.

ela muda de direção.

no meio de todo aquele caos, freddie mercury começa a insistir na possibilidade de oferecer outra chance ao amor. e bowie leva a ideia ainda mais longe, tratando o amor não como uma delicadeza sentimental, mas como a coragem de se importar com quem está à margem.

não é o amor decorativo das campanhas de perfume.

é o amor como responsabilidade humana.

e isso, meus caros, é muito mais subversivo do que parece.

porque é relativamente fácil transformar raiva em espetáculo. basta um microfone, uma plateia e algum sujeito convencido de que falar alto substitui pensar.

difícil é convencer pessoas de que ainda existe alguma coisa que vale a pena preservar umas nas outras.

agora voltemos à avenida paulista.

11 de outubro de 2026.

uma eleição presidencial em seu momento mais tenso. o país dividido. o primeiro turno havia terminado com lula atrás de seu adversário, flávio bolsonaro. as pesquisas, os comentaristas, os especialistas e aquela fauna de analistas políticos que consegue explicar qualquer resultado depois que ele acontece ocupavam suas posições habituais.

mas alguma coisa havia escapado ao controle dos profissionais da política.

os jovens estavam se organizando.

fãs de lady gaga, taylor swift, bts, beyoncé, movimentos estudantis, torcidas, coletivos, gente com histórias e razões diferentes para participar. pessoas que provavelmente jamais concordariam sobre qual seria o melhor álbum do ano, mas conseguiram encontrar uma maneira de ocupar a mesma avenida.

e agora chegamos àquela imagem.

aquela maldita imagem que não consigo assistir sem sentir alguma coisa apertar dentro do peito.

lula aparece subindo uma rua ao lado do masp. um homem de oitenta anos, atravessando um pequeno pedaço de são paulo em direção a uma multidão que o espera.

a cena não tem nada de extraordinário quando descrita assim.

um homem caminhando. uma rua. um museu. gente reunida.

mas então entra under pressure.

aquele baixo.

aquele coração musical insistente.

e a câmera do drone começa a revelar o tamanho do que estava acontecendo.

a imagem se abre. o homem que ocupava o centro da cena começa a parecer pequeno. os prédios surgem, a avenida se estende e a multidão ocupa o espaço até onde os olhos conseguem acompanhar.

a paulista, essa avenida que já testemunhou manifestações, celebrações, protestos, derrotas e uma quantidade industrial de discursos esquecíveis, parece se transformar em alguma coisa maior do que uma rua.

e acontece um detalhe cinematográfico que talvez explique por que aquela montagem seja tão poderosa.

o protagonista deixa de ser apenas o homem caminhando.

passa a ser a multidão.

pessoas que acordaram cedo, enfrentaram transporte público, viajaram, combinaram encontros, levaram amigos, encontraram desconhecidos, suportaram calor e cansaço para estar ali.

o drone continua subindo.

e eu me pergunto quantas histórias cabem naquela imagem.

quantas pessoas tiveram medo do futuro. quantas estavam cansadas de brigar com parentes. quantas haviam perdido a paciência com a brutalidade transformada em entretenimento político. quantas simplesmente queriam fazer parte de alguma coisa que consideravam importante.

nenhuma câmera consegue mostrar tudo isso.

mas uma música, às vezes, consegue fazer com que a gente sinta.

e é exatamente aí que under pressure deixa de funcionar apenas como trilha sonora e passa a fazer parte da experiência emocional daquele vídeo.

porque a música não começa oferecendo uma resposta.

ela começa reconhecendo a pressão.

e quem viveu aquelas semanas sabe o quanto essa palavra pesava.

a tensão de uma eleição apertada. o medo, as expectativas, as discussões, a incerteza. a sensação de que uma decisão coletiva poderia determinar muito mais do que o nome que ocuparia um gabinete.

e então, diante daquela avenida tomada por pessoas, surge uma ideia extraordinariamente simples.

ninguém está vivendo isso sozinho.

talvez seja por isso que eu chore toda vez que revejo a cena.

e confesso que não é uma reação particularmente confortável para alguém que passou boa parte da vida desconfiando de grandes demonstrações emocionais. especialmente das produzidas pela política, esse ramo da atividade humana no qual sujeitos muito bem pagos nos garantem, com absoluta solenidade, que desta vez será diferente.

mas há imagens que atravessam nossa armadura de cinismo sem pedir licença.

aquela é uma delas.

e há outra coincidência maravilhosa.

o videoclipe original de under pressure, dirigido por david mallet em 1981, não mostrava nem bowie nem o queen. mostrava multidões, trabalhadores, trens lotados, conflitos, explosões e fragmentos do cinema mudo.

entre as imagens escolhidas estavam cenas de o encouraçado potemkin, de eisenstein, e nosferatu, de murnau.

pensem nisso.

uma canção construída sobre a pressão exercida sobre as pessoas foi originalmente transformada em imagens de gente comprimida pela vida moderna, pelo medo e pelos conflitos humanos.

quarenta e cinco anos depois, um drone brasileiro encontra outra multidão.

mas agora não estamos vendo apenas pessoas esmagadas pela pressão.

estamos vendo pessoas que decidiram aparecer apesar dela.

é uma mudança de perspectiva belíssima.

e o que torna tudo ainda mais interessante é que a própria gravação de under pressure nasceu de um conflito criativo.

brian may contou que bowie chegou a interferir na maneira como john deacon tocava o baixo. houve atrito, opiniões diferentes, disputas sobre os caminhos da composição. depois, bowie assumiu a tarefa de dar direção à letra, e may não ficou inteiramente satisfeito com o espaço que a guitarra ganhou no resultado final.

cinco músicos extraordinários discordando sobre praticamente tudo e ainda assim conseguindo produzir alguma coisa que nenhum deles teria criado sozinho.

uma pequena lição de convivência que, convenhamos, deveria ser distribuída gratuitamente a metade do congresso nacional.

e quando a canção chega ao seu momento mais intenso, ela não resolve o caos com uma demonstração de força.

ela faz algo infinitamente mais difícil.

pede outra chance.

uma chance de mudar nossa maneira de cuidar uns dos outros.

uma chance de não permitir que a pressão nos transforme naquilo que mais tememos.

e é impossível não pensar naquelas imagens da paulista sem perceber a delicadeza brutal dessa associação.

porque não era apenas um presidente chegando a um comício.

era também o encontro de gerações.

de um lado, um homem que havia começado sua trajetória pública num brasil de ditadura militar, greves operárias e repressão política.

do outro, jovens nascidos décadas depois, organizados por redes sociais, fandoms e formas de comunicação que seriam praticamente incompreensíveis para os dirigentes sindicais dos anos setenta.

duas épocas. linguagens diferentes. experiências radicalmente distintas.

e uma avenida entre elas.

na letra de under pressure, existe ainda aquela imagem da última dança.

e ali ela adquire uma dimensão quase insuportavelmente humana.

um homem de oitenta anos, consciente de que o tempo não negocia com ninguém, caminhando ao encontro de pessoas que ainda têm a maior parte da vida pela frente.

não sabemos se será a última campanha dele. a música tampouco foi escrita pensando nessa possibilidade.

mas a associação é inevitável.

porque toda última dança só é bonita quando nos lembra que houve uma vida inteira antes dela.

e então veio o dia 25 de outubro.

vinte e um dias depois do primeiro turno, o resultado foi outro. lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de flávio bolsonaro.

uma eleição não se explica por uma música, um vídeo ou uma manifestação isolada. seria uma estupidez atribuir a uma montagem de internet aquilo que dependeu de milhões de escolhas individuais, campanhas, debates e mobilizações.

mas aquela cena da paulista se tornou uma das imagens pelas quais muita gente passou a recordar essas três semanas.

e não ficou restrita ao nosso universo político.

a manifestação ganhou cobertura de veículos internacionais como reuters, el país e efe. as comunidades de fãs brasileiras chamaram a atenção de grupos em outros países. e, depois da eleição, o gesto do L começou a aparecer em manifestações e manifestações de apoio político fora do brasil.

não significa que o mundo inteiro tenha descoberto uma fórmula infalível ou que movimentos tão diferentes tenham passado a pensar da mesma maneira.

mas existe algo culturalmente extraordinário em ver símbolos e estratégias nascidos de uma campanha brasileira atravessarem fronteiras tão rapidamente.

um país acostumado a importar tendências agora despertava curiosidade sobre sua capacidade de mobilização.

o brasil, que mal consegue organizar uma fila de embarque sem provocar uma crise de civilização, havia oferecido ao exterior uma experiência política que outros queriam entender.

e o que isso tem a ver com bowie e freddie mercury?

absolutamente tudo, ao menos no plano da emoção.

porque under pressure nunca foi sobre a fantasia infantil de um mundo sem conflitos.

foi sobre o que fazemos uns com os outros quando esses conflitos parecem insuportáveis.

e essa pergunta não pertence ao brasil.

pertence a qualquer sociedade que já tenha descoberto como é fácil trocar a complexidade humana por slogans, transformar divergências em inimigos e confundir brutalidade com coragem.

talvez por isso a canção tenha envelhecido tão pouco.

freddie mercury morreu em 1991. david bowie, em 2016.

os dois deixaram um mundo consideravelmente mais complicado do que aquele em que gravaram a música. e, francamente, depois de décadas de suposto progresso, ainda conseguimos produzir as mesmas velhas crueldades com equipamentos muito mais sofisticados.

temos inteligência artificial, satélites, algoritmos capazes de prever o que desejamos comprar e aparelhos que nos permitem conversar com alguém do outro lado do planeta.

e seguimos precisando que uma música de 1981 nos lembre de tratar outros seres humanos como gente.

um desempenho bastante constrangedor para a espécie mais convencida de sua própria inteligência.

mas há uma pequena ironia final nessa história, e ela é tão deliciosa que parece invenção.

under pressure foi lançada em 26 de outubro de 1981.

em 26 de outubro de 2026, um dia depois da eleição brasileira, completou exatamente 45 anos.

e no dia seguinte, 27 de outubro, lula completou 81 anos.

uma canção sobre a pressão da vida, uma imagem de gerações se encontrando, uma eleição decidida três semanas depois do primeiro turno e um aniversário quase simultâneo.

não estou sugerindo destino, profecia ou alguma dessas teorias místicas que costumam surgir depois do terceiro copo de vinho.

coincidências são coincidências.

mas algumas possuem uma beleza narrativa difícil de ignorar.

e talvez o que mais me emocione nessa história não seja a vitória de um candidato, nem a repercussão internacional, nem mesmo a impressionante extensão daquela multidão.

é a maneira como a câmera sobe.

sim, a câmera.

porque há algo profundamente simbólico naquele movimento.

ela começa perto de um homem. depois mostra o que existe à volta dele. e, à medida que sobe, cada pessoa individual vai ficando menor, enquanto a dimensão coletiva se torna impossível de ignorar.

é quase uma tradução visual daquilo que a música pede.

uma mudança de perspectiva.

a capacidade de perceber que existe alguma coisa além de nós mesmos.

quando revejo o vídeo, não consigo evitar pensar em quem estava lá e jamais aparecerá num close. na pessoa que saiu do trabalho, no estudante que economizou para viajar, na mulher que levou a filha, no velho que já esteve em outras manifestações e talvez tenha pensado que nunca mais veria algo parecido.

todos minúsculos vistos do alto.

todos indispensáveis àquela imagem.

é isso que me desmonta.

porque a história costuma lembrar o nome de quem estava sobre o palanque.

mas nenhuma multidão existe sem as vidas anônimas que decidiram estar presentes.

e naquele instante, com o baixo de john deacon pulsando, as vozes de bowie e freddie mercury se encontrando e a avenida se abrindo diante dos olhos, o que sinto não é simplesmente entusiasmo político.

é uma consciência quase dolorosa da passagem do tempo.

dos artistas que já morreram.

das gerações que envelheceram.

das batalhas que terminaram.

das outras que continuam.

e dos jovens que ainda estão chegando para viver suas próprias histórias.

ninguém sabe quanto tempo durará a influência internacional dessa mobilização, nem quais mudanças concretas sobreviverão ao entusiasmo do momento. a história tem o desagradável costume de cobrar resultados muito depois que a música termina.

mas aquela imagem já existe.

e isso ninguém pode desfazer.

um homem subindo uma rua.

uma avenida cheia de gente.

uma câmera se afastando.

e duas vozes gravadas há quarenta e cinco anos encontrando um novo sentido em um país do outro lado do oceano.

talvez daqui a décadas alguém assista a esse vídeo sem conhecer todos os detalhes da eleição de 2026.

talvez não saiba os nomes dos candidatos, não entenda as disputas, não reconheça os cartazes.

mas ouvirá aquele baixo.

verá a multidão.

e entenderá que, naquele domingo, havia pessoas para quem estar ali significava alguma coisa enorme.

porque há momentos que pertencem à política e outros que, sem deixar de ser políticos, também passam a pertencer à memória afetiva de quem os viveu.

e essa é a parte que nenhum marqueteiro consegue encomendar.

a emoção verdadeira não aceita briefing.

não obedece a calendário de publicação.

não nasce de uma reunião com doze executivos discutindo se o vídeo precisa ter mais três segundos para melhorar o engajamento.

ela acontece.

e às vezes acontece com uma música velha, um drone e milhares de pessoas reunidas numa avenida.

não consigo ouvir under pressure da mesma maneira desde então.

aquele baixo agora me leva de volta à paulista.

a voz de bowie me lembra a pressão de um mundo que parece nunca nos conceder descanso.

e quando freddie mercury começa a cantar sobre a possibilidade de oferecer outra chance ao amor, lembro que, por trás de toda a retórica grandiosa e de todas as certezas políticas, ainda existem pessoas tentando encontrar uma maneira menos cruel de viver juntas.

é isso que me faz chorar.

não porque a música prometa um final feliz.

mas precisamente porque ela sabe que não existe essa garantia.

o mundo continua difícil. as sociedades continuam divididas. nenhuma eleição elimina nossas contradições e nenhuma multidão, por maior que seja, nos dispensa da responsabilidade de continuar pensando.

mas, por alguns minutos, aquela combinação de música e imagens consegue nos fazer sentir a dimensão humana de um acontecimento histórico.

e talvez seja essa a grandeza de under pressure.

ela começa com o peso de um mundo inteiro sobre os ombros.

e termina nos lembrando daquilo que ainda podemos oferecer uns aos outros.

quarenta e cinco anos depois, bowie e freddie encontraram pessoas nas ruas.

as mesmas pessoas que já estavam no primeiro nome daquela canção.

people on streets.

e, toda vez que o drone sobe sobre a paulista, tenho a estranha sensação de que a história está nos mostrando algo que a política, com toda sua arrogância, frequentemente esquece.

por trás de cada grande acontecimento existem vidas pequenas demais para caber nas manchetes, mas grandes o suficiente para mudar o sentido de uma época.

a música termina.

a imagem desaparece.

e eu continuo ali por alguns segundos, olhando para a tela.

com os olhos molhados e aquela sensação desconcertante de ter testemunhado alguma coisa que levarei comigo por muito tempo.

francamente, depois de tudo isso, acho que podemos perdoar john deacon por ter quase esquecido a linha de baixo depois do jantar.

o que ele criou acabou se tornando a memória musical de milhões de vidas que jamais conheceria.

e não existe sucesso de marketing no mundo que se compare a isso.

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2025

pensar virou uma atividade suspeita

tem uma coisa acontecendo que me incomoda mais do que deveria. estamos ficando extraordinariamente bons em encontrar respostas e perigosamente ruins em fazer perguntas. nunca tivemos tanta informação disponível, tantos especialistas explicando o mundo, tantos vídeos ensinando como viver, trabalhar, comer, dormir, investir, criar filhos, escolher um relógio ou simplesmente acordar sem estragar o dia. temos acesso a praticamente tudo que a humanidade conseguiu aprender e, mesmo assim, parece que estamos desenvolvendo uma alergia coletiva ao esforço de pensar. a informação nunca esteve tão perto. o pensamento, curiosamente, parece cada vez mais distante.

e antes que alguém comece a culpar a inteligência artificial, convém lembrar que já estávamos fazendo um trabalho bastante competente nessa direção muito antes dela aparecer. passamos anos terceirizando nossas opiniões para comentaristas, influenciadores, especialistas, gurus, políticos, jornalistas, celebridades e qualquer sujeito suficientemente confiante diante de uma câmera. a ia apenas entrou numa festa que já estava acontecendo. encontrou todo mundo bastante confortável com a ideia de receber conclusões prontas e perguntou se gostaríamos de recebê-las ainda mais rápido. evidentemente, dissemos que sim.

o problema é que pensar sempre foi uma atividade meio desagradável. exige tempo, dúvida, paciência e uma disposição quase masoquista para descobrir que talvez você esteja errado. é muito mais confortável ouvir alguém explicar um assunto em quarenta segundos, concordar imediatamente e seguir o dia com aquela sensação maravilhosa de ter aprendido alguma coisa. você não precisou ler, comparar fontes, entender o contexto ou enfrentar uma opinião que contradissesse a sua. recebeu uma conclusão, guardou na cabeça e agora pode defendê-la com a segurança de quem passou anos estudando o tema. a internet conseguiu transformar convicção em produto de entrega rápida.

basta observar como discutimos qualquer assunto. alguém publica uma frase, outro responde com um vídeo, um terceiro aparece com um gráfico cuja origem ninguém conhece e, em poucos minutos, temos milhares de pessoas absolutamente convencidas de que entenderam um problema que pesquisadores passam décadas tentando explicar. política, economia, medicina, educação, tecnologia. não importa. todo assunto complexo parece caber perfeitamente numa legenda, desde que a legenda seja escrita com confiança suficiente. se ainda tiver uma música dramática e alguém apontando para palavras na tela, melhor. aparentemente a verdade também precisa de direção de arte.

e o mais curioso é que confundimos acesso à informação com conhecimento. ter uma biblioteca inteira no bolso não significa que você leu os livros. significa apenas que você pode ignorar todos eles em qualquer lugar do mundo. o smartphone nos deu acesso a uma quantidade absurda de conhecimento, mas também nos ofereceu milhares de maneiras muito mais agradáveis de evitar qualquer contato com ele. podemos estudar história enquanto esperamos o ônibus. preferimos assistir a um sujeito discutindo com outro sobre uma história que nenhum dos dois estudou. depois compartilhamos o vídeo e chamamos aquilo de debate.

não tenho nenhuma nostalgia romântica de uma época em que as pessoas supostamente pensavam mais. a humanidade sempre teve uma relação bastante irregular com a inteligência. basta abrir um livro de história para encontrar provas suficientes. a diferença é que antes a ignorância tinha algumas limitações logísticas. para espalhar uma ideia absurda, era necessário convencer pessoas, imprimir alguma coisa, organizar uma reunião ou pelo menos sair de casa. hoje basta uma conexão razoável e uma boa thumbnail. conseguimos industrializar a opinião sem precisar melhorar a qualidade da matéria-prima.

também criamos uma cultura em que mudar de ideia parece uma humilhação pública. alguém diz uma coisa aos vinte anos, aprende algo aos trinta, pensa diferente aos quarenta e imediatamente aparece uma pessoa com uma captura de tela de 2014 exigindo explicações. como se evoluir intelectualmente fosse uma espécie de fraude. o resultado é previsível. muita gente prefere defender uma bobagem até o fim a admitir que aprendeu alguma coisa. estamos cercados de pessoas que tratam a própria opinião como patrimônio histórico. qualquer revisão precisa passar por um processo de tombamento.

isso fica especialmente evidente na política. as pessoas escolhem um lado e, a partir dali, começam a consumir informações como quem monta uma coleção de figurinhas. só interessam as que completam o álbum. uma notícia confirma o que você acredita? excelente jornalismo. contradiz? manipulação. um especialista concorda com você? referência. discorda? vendido. os fatos continuam existindo, mas aparentemente precisam passar por uma entrevista de emprego antes de entrar na nossa cabeça. e o mais engraçado é que cada lado olha para o outro com espanto genuíno, sem perceber que está usando exatamente o mesmo método.

nas empresas, o espetáculo ganha uma aparência mais sofisticada. contratamos consultorias, compramos relatórios, criamos indicadores, montamos dashboards e organizamos reuniões para discutir apresentações que resumem apresentações anteriores. tudo parece muito racional. até alguém perguntar por que estamos fazendo aquilo. nesse momento, geralmente aparece uma explicação envolvendo benchmark, tendência de mercado ou alguma expressão em inglês que ninguém teria coragem de usar numa conversa normal. pensar de verdade pode ser um problema corporativo. você corre o risco de descobrir que um projeto inteiro existe porque alguém importante teve uma ideia ruim numa terça-feira e ninguém quis contrariar.

existe uma diferença prática entre ter dados e saber o que fazer com eles. uma empresa pode medir centenas de indicadores e continuar tomando decisões idiotas com precisão impressionante. pode contratar os melhores sistemas, integrar plataformas, automatizar processos e descobrir que agora consegue executar uma estratégia ruim três vezes mais rápido. os números ajudam muito quando existe alguém disposto a interpretá-los. sem isso, viram decoração de powerpoint. e decoração, como sabemos, é uma indústria bastante respeitada no mundo corporativo.

a inteligência artificial torna essa conversa ainda mais interessante porque finalmente temos uma ferramenta capaz de produzir respostas convincentes sobre praticamente qualquer assunto. isso é extraordinário. também é um convite irresistível para nossa preguiça intelectual. você pede um resumo de um livro que não leu, uma análise de um mercado que não conhece, uma opinião sobre um tema que não estudou e recebe tudo organizado em segundos. o texto parece bom. os argumentos parecem razoáveis. a estrutura está impecável. você copia, publica e segue a vida. em algum momento, duas máquinas podem acabar discutindo entre si enquanto os seres humanos ficam apenas escolhendo qual resposta parece mais inteligente.

não vejo problema em usar ia para pesquisar, organizar ideias, testar hipóteses ou encontrar caminhos que talvez você não tivesse considerado. seria ridículo ignorar uma ferramenta dessas por algum tipo de orgulho artesanal. o problema começa quando ela deixa de ampliar seu raciocínio e passa a substituí-lo. quando você já não sabe explicar uma conclusão sem abrir novamente a conversa. quando um texto está cheio de palavras que você nunca usaria e ideias que não conseguiria defender. quando a tecnologia faz tão bem o trabalho de parecer inteligente que você começa a achar desnecessário ser.

e isso não se limita à ia. acontece quando seguimos recomendações sem entender nossos próprios critérios. quando compramos um produto porque alguém disse que era o melhor. quando escolhemos uma profissão porque uma lista afirmou que seria promissora. quando repetimos opiniões de pessoas que admiramos sem perguntar se elas fazem sentido. quando transformamos experiências alheias em manuais universais. um sujeito acorda às quatro da manhã, corre dez quilômetros, toma um café que parece ter sido filtrado através de uma árvore e publica que encontrou o segredo do sucesso. imediatamente aparecem milhares de pessoas ajustando o despertador. ninguém pergunta se o sujeito é realmente feliz, se trabalha bem ou se simplesmente não consegue dormir.

a indústria da resposta pronta é maravilhosa porque consegue vender segurança num mundo que não oferece nenhuma. sempre existe um método, uma fórmula, um protocolo, um hábito, um aplicativo ou um especialista prometendo reduzir a complexidade da vida a cinco passos. e nós adoramos. não porque acreditamos necessariamente em todos eles, mas porque a possibilidade de alguém já ter resolvido o problema é muito mais agradável do que precisar enfrentá-lo. pensar envolve o risco de chegar a uma resposta incompleta. seguir uma fórmula oferece pelo menos a tranquilidade de culpar o autor quando tudo dá errado.

o que mais me preocupa é que estamos começando a perder a tolerância ao desconforto de não saber. alguém faz uma pergunta e sentimos uma necessidade quase física de responder. não importa se entendemos o assunto. o silêncio parece incompetência. a dúvida parece fraqueza. dizer “não sei” virou uma experiência socialmente embaraçosa, principalmente para quem construiu uma reputação de ter opinião sobre tudo. e talvez seja por isso que temos tanta gente explicando o mundo com tanta certeza. admitir ignorância exige uma segurança pessoal que nem todo especialista de internet consegue sustentar.

algumas das conversas mais interessantes começam justamente quando alguém admite que não sabe. porque aí existe espaço para investigar, perguntar, ouvir e descobrir. uma pessoa que já entrou na conversa com todas as respostas prontas não está conversando. está distribuindo panfletos. pode até ser um panfleto muito bem escrito, com dados, referências e uma bela identidade visual. continua sendo um panfleto. e ninguém aprende muita coisa enquanto está ocupado tentando converter os outros.

também precisamos recuperar o direito de pensar devagar. essa talvez seja uma das ideias mais impopulares da nossa época. vivemos num ambiente que recompensa velocidade, reação e posicionamento imediato. acontece alguma coisa às oito da manhã e às oito e quinze já existem especialistas explicando as consequências para os próximos vinte anos. às nove surgem os vídeos de reação. às dez aparecem as análises das reações. ao meio-dia alguém publica que tudo aquilo era previsível. no fim da tarde o assunto já morreu, substituído por outra urgência. ninguém teve tempo de compreender muita coisa, mas todos tiveram oportunidade de demonstrar que estavam presentes.

pensar devagar exige aceitar que algumas questões não cabem no ritmo da internet. que certos assuntos precisam de leitura, comparação, conversa e tempo. que uma boa pergunta pode ser mais valiosa do que uma resposta rápida. que existem problemas sem solução elegante e decisões em que todas as alternativas têm algum custo. isso é particularmente irritante para uma geração acostumada a interfaces que oferecem um botão para resolver tudo. a realidade, infelizmente, continua sendo um produto com uma experiência de usuário bastante ruim.

e talvez devêssemos desconfiar um pouco mais das nossas próprias certezas. principalmente daquelas que nos deixam confortáveis demais. quando uma ideia explica perfeitamente todos os problemas do mundo, identifica claramente os culpados e ainda coloca você entre as pessoas inteligentes que perceberam tudo, existe uma boa chance de que ela mereça uma segunda olhada. explicações convenientes são sedutoras. permitem que a gente continue exatamente como está, apenas um pouco mais indignado. pensar de verdade costuma produzir um efeito menos agradável. obriga você a revisar alguma coisa em si mesmo.

não estou propondo que todo mundo vire filósofo, passe os fins de semana lendo tratados acadêmicos ou transforme uma conversa sobre futebol numa investigação epistemológica. seria insuportável. já temos gente suficiente usando palavras difíceis para esconder ideias simples. estou falando de coisas bem mais comuns. ler além do título. perguntar de onde veio um número. ouvir alguém antes de classificá-lo. tentar explicar uma opinião com as próprias palavras. reconhecer quando uma ideia parece boa apenas porque foi dita por alguém de quem gostamos. ter coragem de dizer que ainda não pensou o suficiente para chegar a uma conclusão.

essas pequenas atitudes parecem banais, mas estão se tornando estranhamente raras. talvez porque pensar tenha perdido espaço para uma atividade muito mais recompensadora, parecer que pensamos. hoje é possível construir uma imagem pública de pessoa informada sem atravessar o inconveniente processo de aprender. basta compartilhar os livros certos, citar os autores certos, repetir as opiniões certas e manter uma expressão de desprezo diante de quem ainda não descobriu aquilo que você também acabou de descobrir ontem. a ignorância com boa curadoria virou quase uma especialidade profissional.

e existe um custo nisso que não aparece imediatamente. quando paramos de exercitar nosso próprio julgamento, começamos a depender cada vez mais de quem promete pensar por nós. pode ser um político, um influenciador, um algoritmo, uma empresa ou uma inteligência artificial. a dependência é confortável porque elimina a responsabilidade de decidir. se der errado, a culpa é de quem recomendou. se der certo, podemos comemorar como se tivéssemos escolhido sozinhos. um arranjo bastante conveniente, especialmente para quem ganha dinheiro ou poder oferecendo as respostas.

o curioso é que estamos vivendo uma época em que pensar por conta própria deveria ser mais fácil do que nunca. temos ferramentas extraordinárias, acesso a perspectivas diferentes, bibliotecas digitais, cursos, pesquisas e possibilidades de aprender que seriam inimagináveis para gerações anteriores. mas abundância também produz um tipo estranho de passividade. quando tudo está disponível, parece que nada precisa ser realmente conquistado. confundimos a facilidade de encontrar uma resposta com a capacidade de compreendê-la. e compreensão continua exigindo uma coisa que nenhuma tecnologia conseguiu eliminar completamente. esforço.

talvez daqui a algumas décadas olhemos para este momento com uma mistura de admiração e constrangimento. teremos criado máquinas capazes de realizar tarefas intelectuais impressionantes enquanto parte de nós desaprendeu a sustentar uma conversa sem consultar uma tela. teremos acesso instantâneo a quase todo o conhecimento humano e continuaremos discutindo manchetes que ninguém leu. teremos sistemas cada vez melhores para responder perguntas e uma sociedade cada vez menos interessada em descobrir se estava fazendo as perguntas certas.

não acho que a solução seja usar menos tecnologia. seria uma resposta preguiçosa para um problema que merece algo melhor. a questão é o que fazemos com a capacidade que essas ferramentas nos devolvem. se uma máquina consegue resumir um relatório em segundos, talvez possamos usar o tempo economizado para questionar suas conclusões. se encontramos informações rapidamente, podemos gastar mais tempo comparando versões. se automatizamos tarefas repetitivas, talvez sobre espaço para aquilo que sempre foi mais difícil. interpretar, imaginar, duvidar, criar critérios e assumir responsabilidade pelas escolhas.

mas isso depende de uma decisão que nenhuma ferramenta pode tomar por nós. a decisão de não aceitar a primeira resposta apenas porque ela chegou rápido, bem escrita e com uma aparência convincente.

o mundo está cheio de gente oferecendo respostas. algumas boas, muitas ruins, várias bastante lucrativas para quem as vende. talvez o que esteja faltando sejam pessoas dispostas a interromper o espetáculo por alguns minutos e perguntar se aquilo tudo faz algum sentido.

porque a parte mais assustadora de uma sociedade que para de pensar não é que ela fique sem respostas.

é que ela continua tendo respostas para absolutamente tudo.

e começa a se orgulhar disso.

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2025

seguir o flow virou um estilo de vida

tem uma frase que aparece o tempo todo.

“vai no flow.”

“deixa acontecer.”

“segue o algoritmo.”

“o mercado decidiu.”

“é o que está funcionando.”

é curioso como, aos poucos, a gente começou a admirar pessoas que parecem sempre estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, surfando a onda certa.

mas existe uma diferença entre perceber para onde o vento está soprando… e deixar que ele escolha completamente o seu destino.

acho que a internet acelerou isso. antes, tendências demoravam anos para mudar. hoje, às vezes, mudam em semanas. uma música. um aplicativo. um jeito de editar vídeo. um tipo de humor. uma estética. um discurso. uma opinião.

e, junto com essa velocidade, apareceu uma ansiedade silenciosa… a de nunca ficar para trás e o problema é que viver tentando acompanhar tudo tem um efeito colateral curioso.

você passa tanto tempo olhando para onde todo mundo está indo… que esquece de perguntar para onde queria ir. é como entrar num aeroporto e decidir o destino apenas observando qual portão tem a maior fila.

se tanta gente está indo para lá, deve ser bom. mas… e se aquele nunca tivesse sido o seu destino? talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que estamos fazendo escolhas e na prática, muitas vezes estamos apenas reagindo.

o algoritmo muda, a gente muda.

o mercado muda, a gente muda.

a estética muda, a gente muda.

a linguagem muda, a gente muda.

acho que confundimos evoluir com oscilar… evoluir exige reflexão, já oscilar exige apenas velocidade. e isso não acontece só na internet… acontece na carreira, na forma como consumimos tecnologia, na maneira como escolhemos o que ler, o que vestir, o que pensar, o que defender e até o que criticar.

é cada vez mais raro encontrar alguém disposto a sustentar uma ideia por tempo suficiente para descobrir se ela realmente fazia sentido porque sempre existe uma novidade esperando na próxima esquina e novidade tem uma característica sedutora, ela nunca exige compromisso… só atenção.

talvez seja por isso que tanta gente vive cansada, não porque trabalha demais e sim porque está constantemente recalculando a própria direção. e recalcular o tempo inteiro também cansa.

não estou defendendo rigidez, mudar de ideia é saudável e mudar de caminho também.

o problema começa quando toda mudança deixa de nascer de uma reflexão… e passa a nascer apenas do medo de ficar de fora.

percebe a diferença entre escolher uma estrada diferente porque ela faz mais sentido e trocar de estrada porque todo mundo começou a correr para outro lado.

a história está cheia de pessoas que pareceram atrasadas durante anos, coheço vários escritores, cientistas, artistas e inventores.

quase todos tiveram uma coisa em comum, eles passaram muito tempo andando na direção contrária do fluxo e não porque queriam ser diferentes. mas porque estavam ocupados demais tentando entender alguma coisa que o resto do mundo ainda não tinha percebido.

talvez seguir o flow seja confortável, mas dificilmente é onde surgem as ideias que mudam alguma coisa.

porque o flow sempre leva para onde a corrente já está indo.

e, às vezes, o lugar mais interessante para estar…

é justamente alguns passos fora dela.

talvez liberdade não seja fazer o que você quiser.

talvez liberdade seja perceber quando uma escolha realmente nasceu de você…

e quando ela foi apenas mais uma resposta automática ao movimento da multidão.