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2024

eu odeio listas de metas para o próximo ano

listas de metas para o próximo ano. me diga, com toda a honestidade do mundo: você realmente acredita nessa palhaçada? ou isso é só mais uma desculpa socialmente aceitável para fingir que a bagunça caótica que chamamos de vida pode ser resolvida com meia dúzia de tópicos escritos em um caderninho que você vai esquecer na gaveta antes mesmo do carnaval? vamos encarar os fatos: listas de metas não são planejamento, são teatro. e você não é protagonista de nada. é só mais um figurante tentando dar sentido a um roteiro que ninguém escreveu.

o engraçado – ou trágico, dependendo do humor – é que essas listas geralmente começam com o que chamo de “mentiras clássicas”. “vou cuidar mais da minha saúde.” ah, por favor. você sabe tão bem quanto eu que o mais perto que você vai chegar disso é assinar uma academia que nunca vai frequentar ou comprar um pacote de chá que promete “desintoxicar” a alma. cuidar da saúde? nem sei se você lembra como é uma salada, e tenho certeza de que aquele tênis de corrida que você comprou no ano passado ainda está com a etiqueta.

e a grande campeã das resoluções inúteis: “vou economizar dinheiro.” porque, claro, o plano é gastar menos e “pensar no futuro”. mas aí aparece aquele celular novo, ou uma viagem irresistível, e lá vai você, culpando as “circunstâncias” enquanto seu saldo bancário grita por socorro. a verdade é que você quer economizar, mas só depois de ter comprado absolutamente tudo o que te fizer sentir momentaneamente menos miserável.

e o desenvolvimento pessoal? “vou ler mais, aprender um idioma, fazer um curso.” é sempre a mesma conversa fiada. você compra dois livros que nunca termina, baixa um aplicativo de idiomas que te manda notificações irritantes por uma semana, e paga por um curso online que só serve para encher sua caixa de entrada com e-mails que você nem lê. no final, a única coisa que você realmente aprendeu é que nunca vai cumprir nada disso – mas ei, ao menos você tentou, certo?

a realidade é que essas listas existem por uma razão muito específica: elas te dão a ilusão de controle. como se escrever “ser uma pessoa melhor” em um pedaço de papel fosse te transformar magicamente em alguém digno de admiração. mas sabe qual é a verdade? você não quer ser uma pessoa melhor. quer apenas parecer uma. quer postar nas redes sociais que está “em uma jornada de autoconhecimento”, enquanto vive exatamente como sempre viveu – no piloto automático, tomando decisões que nem você entende.

não me entenda mal. eu não sou contra mudanças. sou contra mentiras. contra essa farsa anual que nos faz acreditar que é possível resolver a complexidade de nossas vidas com meia dúzia de frases vagas e irrealizáveis. o que você realmente quer – e sabe disso – não está em uma lista. não pode ser resumido em “perder peso” ou “ser mais produtivo”. o que você quer é algo real, tangível, que te tire da rotina e te faça sentir vivo. e isso, meu amigo, não se planeja. isso acontece.

então aqui vai minha sugestão para o próximo ano: esqueça a lista. coma algo memorável. vá a um lugar onde nunca esteve. diga “sim” a algo que te assusta. passe mais tempo com pessoas que te fazem rir até a barriga doer e menos com gente que você suporta por obrigação. não porque isso vai te transformar, mas porque, no final das contas, é isso que realmente importa. o resto? o resto é só tinta no papel.

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2024

huntsman

ah, o canivete suíço huntsman. esse pequeno pedaço de perfeição alpina que não só cabe no seu bolso, mas parece sussurrar: “você não precisa de mais nada. eu sou suficiente.” uma ode portátil à funcionalidade, e talvez o único objeto que faz você se sentir preparado para tudo — desde abrir uma garrafa de vinho até improvisar uma cirurgia no meio do mato (ou pelo menos tirar aquela farpa irritante do dedo). ele não é apenas um canivete, é uma lição de vida em aço inoxidável: seja útil, seja direto, e nunca, jamais, seja entediante.

e claro, o gancho. o glorioso, estranho e absolutamente improvável gancho. a ferramenta que parece feita para resolver problemas que ninguém nunca teve. “criado para carregar caixas de doces amarradas com cordas”, dizem. porque, aparentemente, na Suíça, isso era uma prioridade. um problema urgente. alguém no QG dos canivetes suíços levantou a mão e disse: “e se alguém precisar carregar caixas de chocolates com cordas elegantes?” e ao invés de rirem dessa ideia absurda, eles fizeram acontecer. é ridículo, é maravilhoso, é puro suíço.

mas o gancho é mais do que isso, claro. ele é o amigo que aparece do nada com uma solução mágica. corrente de bicicleta quebrada? usa o gancho. precisa puxar algo que ninguém em sã consciência puxaria? lá está ele, piscando pra você. ele é o símbolo perfeito de um objeto que insiste em ser mais útil do que você jamais será. e o melhor: ele está ali, quieto, esperando. você provavelmente nunca vai usá-lo, mas o simples fato de saber que ele está lá te faz dormir mais tranquilo à noite.

agora, o resto das ferramentas do huntsman. ah, essas pequenas maravilhas. as lâminas? afiadas o suficiente para cortar o ego de um chef pretensioso ou abrir qualquer embalagem ridiculamente selada por alguma conspiração corporativa contra a humanidade. o abridor de vinho? um lembrete de que, não importa o caos que te rodeia, sempre há tempo para uma garrafa de cabernet sauvignon. a tesoura? uma aberração de precisão que corta como se tivesse algo a provar. e não vamos esquecer a pinça. pequenininha, quase invisível, mas ali para salvar sua dignidade quando uma farpa resolve te transformar em um bebê chorão no meio de uma trilha.

o que faz o huntsman tão especial, no entanto, não é só o que ele faz. é o que ele simboliza. ele é o oposto de tudo que está errado com o mundo moderno. enquanto seus gadgets morrem porque você esqueceu de carregar a bateria (de novo), o huntsman está lá, eterno, funcional, indiferente às suas desculpas patéticas. enquanto seus aplicativos te deixam na mão, ele é a solução física, palpável, real. ele é a anti-bugiganga, a resposta definitiva para o consumismo vazio.

em um mundo que venera o descartável, o huntsman é uma relíquia de algo melhor, algo mais sólido. ele não é um grito, não é uma declaração espalhafatosa. ele é um sussurro de confiança: “não importa o que aconteça, eu dou conta.” ele não quer atenção, ele só faz o trabalho. e faz bem.

no fundo, ele não é só um canivete. ele é uma aula de humildade em forma de metal. uma lembrança de que, com as ferramentas certas, você pode conquistar o mundo. ou pelo menos parecer que consegue. porque no final das contas, a verdadeira arte do canivete suíço não é o que ele faz, mas o que ele te faz acreditar. e no caos do dia a dia, essa ilusão é tudo o que você precisa.

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2024

simplicidade

simplicidade. o conceito mais perigoso do planeta, porque ele faz a pergunta que ninguém quer ouvir: “e se não precisasse de tudo isso?” imagina só, o colapso da civilização moderna se essa ideia pegasse. um mundo onde as pessoas aceitassem que às vezes as coisas funcionam melhor sem camadas inúteis. um mundo onde o café fosse só café, e não uma experiência sensorial feita com grãos digeridos por gatos selvagens no himalaia. mas, claro, isso nunca vai acontecer. as pessoas têm pavor de admitir que vivem complicando tudo porque não sabem o que fazer com o vazio.

olha pro design de um lápis. a coisa mais básica e funcional já inventada. e sabe o que é mais doido? ele continua perfeito. você consegue escrever um romance com um lápis. mas tenta enfiar isso numa reunião de brainstorming hoje em dia. alguém vai sugerir que o lápis “precisa se modernizar”. provavelmente vão adicionar uma conexão bluetooth, talvez uma luz led que mude de cor, e antes que você perceba, o maldito lápis custa 300 dólares e nem escreve direito. porque simplicidade não vende. ela não impressiona. e, principalmente, ela não alimenta essa máquina insaciável de status.

mas sabe o que é a maior piada? o simples é a única coisa que funciona de verdade. todas as coisas que a gente não vive sem – fogo, água, pão, vinho – são tão antigas e simples quanto o próprio tempo. você pode criar a versão mais elaborada e extravagante do que quiser, mas no final das contas o que faz seu coração parar é a coisa mais básica. um prato de arroz e feijão. um gole de cerveja gelada. o silêncio de um lugar onde ninguém está tentando te impressionar.

mas as pessoas não conseguem lidar com isso. o simples exige algo que falta em quase todo mundo hoje em dia: confiança. porque você só pode ser simples quando sabe que é suficiente. quando não precisa de uma apresentação cheia de gráficos pra justificar sua existência. e isso, meu amigo, aterroriza a maioria. então, em vez disso, todo mundo corre na direção oposta. criam uma vida inteira feita de ornamentos inúteis, só pra evitar admitir que talvez a coisa mais verdadeira que você pode fazer é sentar e não fazer absolutamente nada.

mas, ei, quem sou eu pra julgar? continue aí, tentando reinventar a roda enquanto os japoneses estão te servindo sushi com três ingredientes desde sempre. continue comprando móveis complicados enquanto uma cadeira de madeira feita há um século ainda faz o trabalho. continue explicando pra todo mundo como seu cappuccino é diferente porque foi servido numa taça de cristal. eu? vou ali comer uma fatia de pão com manteiga e lembrar que a vida é só isso. simples. perfeita. e suficiente.

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ler

ler, de verdade, não é para qualquer um. vamos deixar isso claro. é um esporte de resistência, uma prática cruel e solitária para aqueles que ainda têm a audácia de achar que podem entender algo mais complexo do que uma legenda de instagram ou uma dancinha no tiktok. porque um bom livro, um livro de verdade, não te dá nada de bandeja. ele não está aqui para te agradar, te confirmar ou te massagear o ego. ele está aqui para te testar. te confundir. te ferrar.

os melhores livros? esses são os piores. os que te fazem sentir burro. os que você fecha, olha para a capa e pensa: “eu perdi alguma coisa aqui, não é possível.” e perdeu mesmo. porque um bom livro é como aquele cara mal-encarado no bar que sabe que é mais esperto que você e ainda faz questão de esfregar isso na sua cara. ele joga referências que você não entende, constrói frases que te fazem tropeçar, te dá silêncios que parecem cheios de significados que, honestamente, você provavelmente nunca vai captar. e é exatamente por isso que você volta. porque você quer, desesperadamente, provar que é capaz.

mas aqui está o segredo: você nunca é. os livros que realmente importam são aqueles que você entende em camadas. lê aos 20, acha uma coisa. lê aos 40, acha outra. aos 60, percebe que estava errado o tempo todo. e aí morre. e o livro continua lá, inalterado, enquanto você apodrece na ignorância. porque é assim que funciona. livros não precisam de você. eles estavam aqui antes de você e continuarão depois que você virar poeira. mas você precisa deles. precisa da porrada intelectual, da humilhação, do soco no estômago que só um bom texto pode te dar.

então, sim, a leitura exige que você desenvolva uma tolerância quase zen para a incompreensão. e, sejamos honestos, isso não é para todo mundo. vivemos em uma época em que as pessoas não conseguem lidar com cinco segundos de silêncio sem pegar o celular para “ver algo rápido.” imagina encarar 400 páginas de algo que você nem sabe se vai entender. mas, se você ainda acredita nisso — na beleza de ser desafiado, na glória de não entender nada hoje e talvez entender um pouco amanhã —, parabéns. você é um dos últimos. um dinossauro perdido em um mundo de idiotas. boa sorte aí.

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2024

ser líder é ter coragem

ser líder é ter coragem, sim. mas não essa coragem cinematográfica de herói que desafia vilões enquanto a música épica sobe ao fundo. não é coragem de discurso inflamado ou de capa voando ao vento. é a coragem crua e silenciosa de quem escolhe ficar quando seria mais fácil sair. a coragem de ser o idiota que diz: “eu assumo”.

ter coragem como líder não é gritar mais alto que todo mundo; é manter a voz firme quando tudo em volta está desmoronando. é admitir que você não tem todas as respostas, mas ainda assim se levantar para tentar encontrá-las. coragem é encarar reuniões onde ninguém concorda com ninguém e sair de lá com um plano – ou pelo menos com a disposição de tentar de novo amanhã.

é ter a audácia de ser odiado. porque, acredite, ser líder significa que, em algum momento, você será o vilão da história de alguém. você vai tomar decisões impopulares. vai decepcionar pessoas. vai ser chamado de insensível, autoritário, ou simplesmente burro. e sabe qual é a parte corajosa? seguir em frente mesmo assim. saber que agradar todo mundo não é só impossível – é covarde.

coragem como líder também é sobre assumir os riscos. é fácil ser valente quando a responsabilidade não é sua, quando as consequências não vão cair no seu colo. mas liderar é entrar na linha de fogo sabendo que, se der errado, a culpa será sua – mesmo que não seja. é ter peito para dizer “sim, vamos nessa”, quando o caminho está enevoado e cheio de armadilhas.

e não é só sobre o grande espetáculo, as decisões que mudam tudo. às vezes, a coragem está nas pequenas coisas. em admitir que errou. em pedir ajuda. em olhar nos olhos de alguém e dizer o que ele não quer ouvir, mas precisa. em segurar as pontas de alguém que está caindo aos pedaços, mesmo quando você também está.

ser líder é ter coragem de ser humano. de ser vulnerável, mas continuar avançando. de mostrar força, mas sem se esconder atrás dela. de enfrentar os próprios medos para que os outros sintam que podem enfrentar os deles. não é bonito, não é épico, mas é necessário. e é isso que separa os líderes de quem só gosta do título.

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vida moderna

então, aí está você. vivendo a grande e monótona ópera que chamamos de “vida moderna”. não me entenda mal, eu não sou um desses pregadores do apocalipse que acham que tudo está perdido. longe disso. eu só tenho uma leve suspeita de que passamos tempo demais tentando convencer o mundo (e nós mesmos) de que estamos realmente vivendo. mas não estamos. estamos nos enganando com um coquetel de distrações perfeitamente calibradas. e o mais impressionante? estamos adorando isso.

olha ao redor. somos um bando de animais elegantes, tecnologicamente sofisticados, completamente apavorados com o silêncio. não conseguimos ficar sentados, sozinhos, sem um telefone na mão ou uma playlist tocando de fundo. porque, deus nos livre, o que faríamos com o som dos nossos próprios pensamentos? e ainda assim, tem uma beleza nisso tudo. um tipo de tragicomédia. é o ser humano na sua forma mais pura: perdido, teimoso e tentando desesperadamente encontrar sentido em meio ao caos.

mas vamos lá. sejamos justos. tem seus momentos. às vezes você tropeça em alguma coisa real. uma conversa que não é filtrada pelo brilho do celular. uma caminhada sem destino, onde você sente o vento – não a metáfora do vento, mas o vento de verdade, aquele que bagunça o cabelo e te lembra que você ainda está aqui. ou talvez seja um sorriso de um estranho na rua, um que parece dizer: “é, eu também não faço ideia do que estou fazendo”. e é aí que está o truque. essas pequenas faíscas.

não estou aqui pra pregar fuga do sistema ou uma cruzada contra a modernidade. tudo isso é uma grande palhaçada, e você sabe disso. mas eu estou dizendo pra você fazer uma pausa, de vez em quando. largar a performance, só por um segundo. porque, no final, o que sobra? a conta bancária? os seguidores? a carreira brilhante? não, meu amigo. sobra a história. o quanto você realmente esteve aqui. o quanto você viveu antes de desaparecer como todo mundo. e, sejamos honestos, ninguém quer desaparecer sem deixar uma boa história.

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2024

rituais

olha, valorizar rituais na vida é o equivalente emocional de fazer um bom mise en place na cozinha: parece besteira até você perceber que sem isso sua vida é uma bagunça caótica e insuportável. mas claro, a maioria de nós vive num eterno fast food emocional. tudo no drive-thru, sem parar pra mastigar, engolindo qualquer porcaria sem nem se dar conta do gosto. e sabe o que acontece? um belo dia você acorda e percebe que sua vida tá mais insossa que um peito de frango sem sal. parabéns.

os rituais – esses pequenos gestos quase insignificantes – são o tempero que evita essa tragédia. não tô falando de se enfiar em cerimônias elaboradas dignas de um filme do wes anderson. não precisa de taças de cristal nem incensos exóticos. tô falando de coisas simples, pequenas. o ritual de moer o café na hora, sentir o aroma subindo enquanto você ainda tá de pijama. o ritual de abrir um livro como se fosse um portal pra outro mundo, deixando o resto pra depois. o ritual de cortar os legumes com calma, em vez de simplesmente tacar tudo no micro-ondas e chamar de jantar.

a questão é que a gente vive num mundo que odeia rituais. valorizar essas coisas é quase subversivo. o mundo quer que você acorde, engula um café horroroso numa caneca genérica, e saia correndo pra bater ponto na sua existência medíocre. mas dar valor aos rituais é dizer: “não, eu não vou ser só mais um idiota no automático. vou sentir as coisas. vou tornar minha vida minimamente digna de ser vivida.”

e antes que você me venha com esse papo de “ah, mas quem tem tempo pra isso?”, deixa eu te contar: tempo não se acha, tempo se toma. você tem tempo pra perder horas no tiktok vendo receitas que nunca vai fazer, mas não tem cinco minutos pra acender uma vela e comer um pedaço de queijo como se fosse um rei da renascença? por favor. não é sobre tempo, é sobre prioridades. é sobre escolher dar um foda-se pro caos e criar momentos que são seus, mesmo que o mundo esteja pegando fogo lá fora.

então, meu conselho? arrume a mesa, mesmo que você vá comer miojo. passe manteiga no pão como se estivesse pintando uma obra-prima. escolha um disco, um filme, um chá quente. transforme qualquer dia miserável em algo que pareça, pelo menos por um instante, menos banal. porque, no final das contas, os rituais são tudo que temos entre o nascimento e a morte. tudo o que nos separa de viver como uma barata.

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reuniões

ah, reuniões. o momento em que o capitalismo decide que você não tem mais alma e resolve roubar as poucas horas de vida que te restam. um circo de mediocridade onde todo mundo se acha indispensável, mas ninguém realmente faz nada. é como ser convidado para um jantar elegante, mas o menu inteiro é papelão molhado e o vinho é suco de uva estragado. mas, claro, com apresentação em powerpoint.

começa assim: um convite inútil, com palavras tão vazias quanto promessas de ano novo. “estratégia”, “alinhamento”, “sinergia”. essas palavras são como purpurina jogada em um pedaço de cocô. não importa o quanto brilhem, ainda é lixo. mas você vai. porque é isso que fazemos, certo? fingimos que essas pantomimas corporativas importam, enquanto por dentro só queremos um meteoro que acabe com tudo.

e então, o show começa. uma sala fria – ou uma call onde a metade das câmeras está desligada, mas o chefe insiste em falar como se estivesse pregando na ONU. tem o cara que monopoliza o tempo porque acha que sua opinião é uma joia rara. a colega que só repete o que todo mundo já disse, mas usando palavras diferentes, achando que está contribuindo. e você, ali, como um refém, rezando para o tempo passar mais rápido. spoiler: não vai.

os melhores momentos? quando alguém solta pérolas como: “vamos revisar isso juntos” ou “precisamos de uma solução colaborativa”. mentira. ninguém quer revisar nada. ninguém quer colaborar. o que eles querem é sair da reunião com a consciência limpa de que foram “produtivos” enquanto o mundo real lá fora pega fogo. e aquele slide que levaram três dias para fazer? não será usado. nunca. vai direto para a lixeira, onde aliás deveria ter ido desde o começo.

e, claro, tem a cereja do bolo: a reunião que gera outra reunião. porque nada grita “ineficiência” como marcar um follow-up para discutir os mesmos pontos que acabaram de ser debatidos. é como um filme ruim com uma sequência ainda pior. mas o ingresso já está pago e, no fim, você nem se lembra mais por que começou a assistir.

reuniões não são para resolver problemas; são para fazer todo mundo se sentir importante enquanto o relógio corre e a vida passa. são a verdadeira prova de que a humanidade está condenada – não porque somos maus, mas porque somos desesperadamente entediantes.

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2024

trabalhe com o que você ama e… passe a odiar o que você amava!

a equação mágica. a mentira mais sedutora do capitalismo moderno: transforme aquilo que você ama em algo que paga as contas. faça da paixão uma profissão. todo mundo já ouviu essa ladainha, seja de um guru motivacional numa palestra insuportável ou daquele colega metido a iluminado que largou o emprego pra “seguir seus sonhos”. e, por um segundo, você até acredita. afinal, por que não? trabalhar com algo que você ama soa como um conto de fadas possível, uma solução simples pra todos os seus problemas. mas, spoiler: isso nunca é simples. e quase nunca é um conto de fadas.

lembro da primeira vez que essa ilusão me bateu. eu tinha uns vinte e poucos, achava que o mundo era meu playground, e que bastava descobrir minha paixão pra resolver minha vida. escrever, talvez? cozinhar? algo criativo. qualquer coisa, desde que não envolvesse terno, reuniões ou aquele cheiro peculiar de café ruim e carpete mofado que todo escritório parece ter. só que ninguém te conta o detalhe crucial: assim que você pega algo que ama e tenta fazer dinheiro com isso, a dinâmica muda. o que antes te dava prazer começa a te cobrar. a sufocar. e, eventualmente, a te consumir.

por exemplo, eu tinha um amigo que adorava desenhar. passava horas rabiscando, criando coisas que ninguém mais conseguia imaginar. todo mundo dizia: “cara, você devia trabalhar com isso”. e ele, ingenuamente, acreditou. virou ilustrador freelancer. no começo, era divertido. ele podia trabalhar em casa, escolher os projetos, até postar no instagram com aquelas legendas insuportáveis tipo living the dream. mas, com o tempo, vieram os clientes. os prazos. os revisions infinitos. “pode deixar isso mais azul?”, “faz uma versão com vibes mais jovens?”, e a clássica: “a gente amou, mas muda tudo”.

não demorou muito pra ele odiar desenhar. não porque perdeu o talento, mas porque o ato de criar deixou de ser dele. era uma transação, uma moeda de troca. cada linha que ele desenhava parecia um pedacinho da alma dele indo embora. “eu queria trabalhar com o que amo”, ele me disse uma vez, com uma cerveja quente na mão e um olhar vazio. “agora eu não amo mais nada.”

e isso não é exclusivo de artistas, claro. cozinheiros, músicos, fotógrafos, escritores – todo mundo que tenta transformar paixão em sustento acaba esbarrando na mesma parede. o mundo não quer sua arte ou sua autenticidade. quer algo vendável. algo rentável. e você se adapta, porque tem que pagar o aluguel. no final, a equação mágica vira uma conta que não fecha.

é isso que ninguém te conta: quando você transforma o que ama em trabalho, aquilo deixa de ser só seu. vira de quem tá pagando. você faz concessões, negocia princípios, e o que sobra não é mais paixão. é apenas mais um dia. a equação mágica é uma armadilha brilhante, mas cruel. porque, no fundo, você nunca deixa de trabalhar. e talvez o segredo não seja fazer o que você ama, mas encontrar algo que você odeie um pouco menos do que o resto.

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2024

design

design, meus amigos. esse monstro invisível que guia tudo o que fazemos, desde o jeito que seguramos um garfo até como atravessamos uma rua sem sermos atropelados. já parou pra pensar nisso? provavelmente não. porque o bom design — o design de verdade — é invisível. ele tá ali, te ajudando a viver melhor, enquanto você nem percebe. mas quando ele é ruim… ah, quando ele é ruim, você sabe. sabe porque você tá preso no elevador apertando um botão que não funciona, ou tentando abrir uma porta que te odeia. aí você sente a raiva. aquela raiva quente, honesta, que te faz gritar pra ninguém em particular: “quem foi o imbecil que pensou nisso?”

mas o bom design… o bom design é outra coisa. é dieter rams decidindo que o mundo precisa ser menos, mas com mais propósito. é os eames dizendo: “sabe aquela cadeira que parece só uma cadeira? ela pode ser arte. e conforto. e beleza.” e philippe starck, claro, transformando um espremedor de limão numa obra de arte que você nunca usaria, mas que mesmo assim quer ter. isso é design. transformar o comum no extraordinário. pegar o que já existe e melhorar, simplificar, até parecer que sempre foi assim.

a história do design tá cheia desses momentos. momentos em que alguém olhou pra uma coisa mundana e disse: “isso pode ser melhor.” como quando mass-produced design nasceu, e de repente coisas lindas e funcionais começaram a chegar nas mãos das massas. ou quando a bauhaus decidiu que forma e função deveriam ser amantes inseparáveis, e o mundo nunca mais foi o mesmo.

mas vamos falar de hoje. porque o design tá mais vivo do que nunca. tá no app que você abre antes mesmo de acordar direito. tá no banco da bicicleta compartilhada que não te quebra a bunda. tá na garrafa reutilizável que você carrega pra não parecer um idiota egoísta que ignora o aquecimento global. e tá no trabalho de pessoas como ráisa guerra. sim, a ráisa. sabe aquela pessoa que você olha e pensa: “caramba, como é que tudo que ela faz parece tão óbvio depois que ela faz, mas ninguém pensou antes?”

ráisa é assim. uma mente que mistura criatividade e estratégia com uma habilidade quase irritante de fazer o mundo funcionar melhor. eu vejo o trabalho dela e penso: “onde é que eu tava quando essa ideia nasceu?” mas não é só isso. é o impacto. é como ela entende que design não é só sobre criar coisas bonitas, mas sobre melhorar vidas. e isso, meus amigos, me dá esperança. esperança de que tem gente por aí que ainda se importa o suficiente pra resolver os problemas que os idiotas causaram.

o design, no fundo, é isso. é uma batalha constante contra o feio, o inútil, o estúpido. é pegar o mundo quebrado e consertar, peça por peça. e quando eu olho pra história do design — dos mestres como rams e eames até os novos nomes que estão mudando as regras do jogo — eu não posso deixar de sentir orgulho. orgulho de ser parte de uma conversa que importa. porque, no fim das contas, o bom design não é só sobre fazer o mundo bonito. é sobre fazer o mundo funcionar. melhor. mais inteligente. mais humano.

e quando isso acontece, quando você se depara com algo tão bem feito, tão perfeito que te faz esquecer da mediocridade que te cerca, sabe o que você faz? você celebra. você levanta um copo, dá um gole, e agradece a esses maníacos brilhantes que decidiram fazer o trabalho difícil de consertar o mundo. pra eles, e pro bom design, sempre vale o brinde.

brindo a você minha socia