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2025

o que você quer ser quando crescer?

imagina a cena… uma criança de seis anos, camiseta do homem-aranha suja de sorvete, cabelo grudado de suor, sendo encarada por um adulto que acha que está fazendo uma pergunta profunda, quase existencial, quando na verdade está só despejando sobre ela a mais entediante e burocrática das expectativas humanas: “o que você quer ser quando crescer?”. como se a criança tivesse a obrigação de parar de chupar o picolé, largar o lego e soltar um power point com metas, prazos e carreira definida. sério, é como pedir para um gato escolher o próximo ministro da economia (ok isso já acontece). a criança deveria, no máximo, responder: “pirata espacial” ou “dona de um castelo inflável” mas não, a gente quer respostas sérias, consistentes, “realistas”.

e a pergunta nunca é sobre quem a criança quer ser, mas sobre o que ela vai fazer para pagar contas, agradar os pais e se enquadrar no carnaval corporativo. ninguém pergunta se ela quer ser alguém curioso, engraçado, leal, ou só um sujeito que sabe fazer um belo arroz com feijão. não, o que interessa é em qual prateleira do supermercado humano ela vai se encaixar. médico, advogado, engenheiro, influencer e o sorriso de aprovação vem sempre do adulto, nunca da criança. é como se a infância fosse um estágio probatório para a vida adulta, e já fosse preciso definir desde cedo qual será a marca da coleira.

aos vinte, a maioria ainda acredita em meritocracia e acorda cedo para trabalhar em empregos miseráveis, convencida de que isso é uma fase. aos trinta, descobre que a fase é permanente. aos quarenta, se der sorte, já foi demitido, já fracassou, já errou feio o bastante para perceber que o manual de instruções não existe e que ninguém nunca soube exatamente o que estava fazendo. é aí, e só aí, que a pergunta faz algum sentido. antes, é só sadismo travestido de curiosidade.

porque a vida não é linear, não é o joguinho de tabuleiro com casinhas numeradas onde no final você chega em “sucesso profissional” e ganha uma plaquinha de funcionário do mês. a vida é mais tipo um bar sujo às três da manhã… você entra achando que vai tomar uma cerveja, sai com um cigarro barato no bolso, cheiro de fritura impregnado na roupa e uma história que talvez faça sentido só daqui a dez anos. e tudo bem.

se for para perguntar alguma coisa para uma criança, que seja “qual o gosto do céu azul?” ou “quantos dinossauros cabem dentro de um sonho?”. perguntas que não têm resposta, mas têm graça. o que ela quer ser quando crescer? quem se importa. ela vai descobrir tropeçando, quebrando a cara, mudando de ideia cinquenta vezes e, com sorte, rindo disso tudo mais tarde. crescer não é um destino, é um acidente de percurso. e é justamente por isso que ninguém nunca sabe o que está fazendo.

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2025

ny

nova york é o palco onde até o trump vira só mais um ator decadente tentando roubar cena. sim, ele é o produto tóxico mais óbvio que essa cidade já exportou, mas também é a prova viva de que aqui tudo é amplificado, distorcido, remixado até virar tendência global. trump é reality show em forma humana, e nova york sempre foi isso… o lugar onde a realidade não basta, precisa virar espetáculo.

quer entender o comportamento humano? vem pra cá. esquece estudos de mercado, relatórios de tendências, slides em power point. pega o metrô às seis da tarde. em um vagão, você vê a influencer de 19 anos que vai ditar moda no tiktok enquanto o executivo com rolex ensaia crise de pânico em silêncio. no outro, um pregador anuncia o apocalipse enquanto um imigrante do uzbequistão equilibra três sacolas de delivery e ainda acha tempo pra responder mensagem no whatsapp. esse é o manual não-oficial do futuro.

ninguém diz isso em voz alta, mas nova york é o único lugar do mundo onde todas as versões possíveis da humanidade convivem sem pedir licença. aqui o capitalismo mais voraz anda de mãos dadas com o ativismo mais radical. o rabino, o drag queen e o jogador de basquete adolescente dividem a mesma calçada e nenhum deles se impressiona com o outro. porque em nova york nada choca. e é justamente por isso que daqui saem os choques que o resto do planeta vai sentir anos depois.

os restaurantes não são só restaurantes… são laboratórios de comportamento. o cara que abre um buraco vendendo noodles em chinatown sem se importar com estrelas michelin pode, sem querer, ditar a próxima obsessão gastronômica do planeta. a moda não nasce nas passarelas, mas nos thrift shops de brooklyn, no jeito que um adolescente caribenho dobra a barra da calça antes de sair de casa. até as discussões sobre identidade, gênero, raça, política tudo ganha corpo aqui primeiro, na prática, na rua, sem mediação acadêmica.

trump tentou sequestrar esse espírito, transformar a cidade em caricatura dele mesmo. mas nova york não se curva a messias. ela engole, digere e caga de volta, em versão meme, piada de stand-up, protesto na rua, camiseta vendida por 30 dólares em soho.

é por isso que eu digo, nova york é o melhor lugar do mundo pra entender comportamento. porque ela não esconde nada, não pede desculpa, não dá tempo pra racionalizar. ela te joga no ringue, te obriga a observar, e no fim, você sai marcado.

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2025

não caia nessa

cara, toda vez que alguém me fala que achou “um programa de salvação pessoal” por módicos 30 mil, em até 12 suaves prestações sem juros, eu sinto uma vontade de gargalhar tão alto que incomodaria até os monges tibetanos. porque, convenhamos, isso não é religião, não é filosofia, não é transcendência… é telemarketing. é netshoes da alma. é a polishop do vazio existencial. e o pior, o script é sempre o mesmo, um sorriso de porcelana, um powerpoint cheio de palavras mágicas tipo “cura”, “abundância”, “prosperidade” e a grande promessa… “em doze encontros você vai descobrir o segredo que gurus milenares esconderam”. puta merda. se o segredo milenar cabe num pix, não é segredo. é carnê da casa bahia.

e eu fico me perguntando, que espécie de “iluminação” é essa que precisa de maquininha de cartão? tipo, o cara te olha nos olhos e diz que vai te libertar do ego, mas antes precisa passar teu limite do visa platinum. sério, se buda tivesse cobrado 30k em 12x pra ensinar o caminho do meio, ainda estaríamos todos reencarnando como hamster. imagina jesus na última ceia oferecendo a eucaristia em 10 vezes sem juros pelo pagseguro? a humanidade teria desistido de nascer de novo.

e a cereja do bolo… essa galera vende “salvação premium” com bônus. bônus, cara. “se fechar hoje, além da iluminação, você leva um pdf com 10 frases transformacionais e acesso exclusivo ao grupo vip do whatsapp”. é a black friday do nirvana. se a existência é mesmo um grande vazio, esses caras são os camelôs da beira dele, gritando na sua cara que só hoje a transcendência tá pela metade do preço.

pra mim, isso é pornografia espiritual, pega tua dor, tua vontade de fazer sentido, e transforma em produto escalável. é a mesma lógica da academia que promete abdômen em três semanas, só que com incenso e mantra em 432hz. e no fundo, todo mundo sabe. mas ainda assim pagam. porque dói menos pagar 30k e se sentir “no caminho da cura” do que encarar que a vida é um caos sem manual, e que ninguém tem controle de porra nenhuma.

quer salvação? vai beber cachaça ruim numa mesa de boteco e ouvir o taxista te contando como foi largado pela terceira esposa. vai dormir em hostel fedendo a mofo em algum lugar onde você não entende a placa do banheiro. vai comer comida de rua duvidosa e passar uma noite inteira rezando pra não morrer de diarreia. isso, sim, te ensina humildade, te coloca no lugar. salvação não é powerpoint nem parcelamento. salvação é entender que o mundo é uma bagunça sem promessa de final feliz.

se você tá pagando 30 mil em 12 vezes sem juros, você não comprou salvação. você só comprou a versão espiritual de um rolex falso comprado em camelô… brilha na foto, mas basta olhar de perto que é plástico pintado.

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2025

simplesmente assim

às vezes eu fico pensando que a gente inventou uma complicação absurda pra algo que, no fundo, é tão simples quanto respirar. viver virou esse projeto de engenharia, cheio de planilhas emocionais, gráficos de produtividade e frases motivacionais pregadas na geladeira como se fossem a chave de uma caverna secreta. e eu olho pra isso tudo e penso… porra, sério? será que a gente esqueceu como é só estar presente, sentir o agora sem precisar embrulhar em papel dourado?

eu me sinto meio louco porque eu gosto das coisas cruas, sem filtro. gosto de olhar pro céu sem transformar em legenda de instagram, gosto de ouvir o barulho do vento como se fosse uma canção suja, gosto de ver a água do café esfriando só pra perceber que o tempo passou e eu estava ali, inteiro, vivendo aquele instante microscópico que não volta nunca mais. não preciso transformar isso em lição de vida, em workshop, em filosofia de almanaque. eu só quero o gosto do momento.

o problema é que parece que a humanidade tem pavor do silêncio. silêncio incomoda, porque nele não tem aplauso, não tem distração, não tem justificativa. então a solução que inventaram foi poluir a vida com barulho… barulho de notificações, barulho de metas, barulho de pensamentos que repetem como discos arranhados. todo mundo se entupindo de tarefas, de objetivos, de sentido comprado em embalagem plástica, como se isso fosse salvar do vazio. mas o vazio não é o inimigo. o vazio é só o lembrete de que a vida não precisa ser um espetáculo.

eu acho engraçado ver como todo mundo corre atrás de respostas como se fossem medalhas olímpicas. querem saber o propósito, o destino, a explicação final, como se estivessem num jogo que precisa de final boss. e eu, na minha suposta loucura, prefiro aceitar que não tem final boss nenhum. é só andar, sentir, provar, rir e chorar. é viver o presente com a intensidade de quem sabe que não vai ter reprise. porque não vai. e quanto mais cedo a gente engole essa verdade, mais leve fica.

eu vejo essa obsessão moderna de “buscar sentido” como uma piada ruim. é como pedir pro cozinheiro explicar cada ingrediente do prato em vez de simplesmente comer. a vida não precisa ser decifrada, precisa ser devorada. de boca cheia, sem etiqueta, sem manual. quando você para de buscar o “sentido”, ele aparece sozinho. não como revelação divina, mas como um gole de coca zero gelada num dia quente. simples, direta, sem discurso.

talvez eu seja louco porque acho que a beleza tá justamente no óbvio, estar aqui. agora. nesse segundo que não vai voltar. sem prometer nada, sem garantir nada, sem precisar ser “útil”. e eu rio quando vejo como as pessoas se torturam pra transformar a vida numa tese acadêmica, enquanto ignoram o fato de que a maior riqueza é sentir a própria respiração, o gosto de um tomate bem maduro, o cheiro da rua depois da chuva. coisas que não cabem em livros de autoajuda, mas que carregam mais sentido do que qualquer merda escrita por um coach.

eu não quero respostas, não quero mapas, não quero porta de saída dourada. eu quero o agora, cru, imperfeito, sem propaganda. quero a lucidez de saber que tudo pode acabar a qualquer momento e que é justamente essa finitude que torna cada instante precioso. e no fim, se isso é loucura, então que me internem… desde que me deixem levar o silêncio, o sarcasmo e um prato de comida honesta. porque, sinceramente, nada mais faz sentido do que simplesmente viver.

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2025

moisés seria influencer?

acabei de ver um vídeo do primo rico… sim, ele mesmo, o messias das planilhas, o profeta do excel, o homem que descobriu que dá pra transformar powerpoint em tábua sagrada. o cara estava num podcast, diante das pirâmides, aquele cenário que já por si só grita “megalomania”, e teve a ousadia de se comparar com a cultura de moisés. moisés, o sujeito que abriu o mar vermelho com fé e coragem… e ele, o sujeito que abriu uma plataforma de cursos com gatilho mental e boleto parcelado em doze vezes sem juros.

e ali, entre um discurso e outro, percebi… não estamos falando de empreendedorismo. estamos diante de uma espécie de religião fast-food. uma liturgia de instagram, com dogmas de copywriting e milagres em forma de gráfico de pizza. o cara fala como se tivesse recebido as revelações do monte sinai, mas na verdade foi só um e-mail do hotmart confirmando a venda de mais um curso.

a cena é patética e fascinante ao mesmo tempo. porque é isso… ele não quer ser moisés, quer ser faraó. sentado diante da pirâmide, com a aura de alguém que não guia o povo à liberdade, mas os conduz até o carrinho de compras. moisés tinha dez mandamentos, ele tem dez módulos, mais um bônus exclusivo se você comprar agora.

imagina o estudo científico disso. “síndrome do empreendedor messiânico: uma análise neuropsicológica da auto-estima tóxica em ambientes arenosos”. metodologia… colocar dez influenciadores diante de monumentos históricos e ver em quanto tempo eles se comparam a figuras bíblicas. resultado… em média, três minutos e meio. e não dá nem pra culpar a vaidade pura, é marketing. é sempre marketing. porque se ele tivesse citado zezinho da padaria da esquina, não teria o mesmo efeito. mas moisés, ah, moisés dá um cheiro de eternidade, de destino, de mito. e é exatamente esse mito que ele tá vendendo, não só a promessa de riqueza, mas a sensação de estar participando de algo épico, digno de livro sagrado.

e a plateia? engole. acredita. compartilha com hashtags tipo #mindset #fé #libertaçãofinanceira. não veem que estão apenas carregando tijolos invisíveis, ajudando a erguer a pirâmide do ego alheio. e o que recebem em troca? frases motivacionais recicladas, uma comunidade de telegram e aquele doce veneno de acreditar que estão no caminho certo.

a verdade é que todo coach sonha ser profeta. mas o primo rico deu um passo além, ele já se imagina personagem bíblico, com direito a cenografia. só falta agora um êxodo de seguidores atravessando o deserto do cartão de crédito até a terra prometida do pix caindo na conta.

e eu fico pensando… se moisés tivesse feito isso hoje, será que teria virado influencer também? será que o mar vermelho teria um patrocinador? “esta abertura é um oferecimento de xp investimentos”. porque é exatamente isso, um teatro de fé terceirizada, onde o deserto é só um funil de vendas e a libertação vem em forma de e-book gratuito.

no fim, não tem revelação. não tem êxodo. não tem promessa cumprida. só tem a repetição eterna de um ciclo, o messias sobe a montanha, desce com slides novos, e o povo paga ingresso pra ouvir. e tudo isso em frente às pirâmides, o símbolo máximo de que a humanidade sempre foi ótima em construir monumentos gigantescos à custa da ingenuidade coletiva.

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2025

tatuagem

tatuagem não é ornamento, não é acessório, não é detalhe estético que você escolhe como quem decide a cor do carro ou o sabor da pizza. tatuagem é declaração de guerra contra a neutralidade. é um recado impresso na pele, feito de dor, suor e agulha, que grita “eu estive aqui” com mais convicção do que qualquer foto ou lembrança guardada numa gaveta.

o momento em que a máquina liga já muda o ar. aquele zumbido metálico é como a trilha sonora de um ritual profano. você sabe que não tem nada de transcendental acontecendo ali, mas ao mesmo tempo sente que algo está sendo alterado em você. não porque sua alma ficou mais leve, mas porque a carne está sendo atravessada. a dor vem em ondas, constante, quase hipnótica. e no meio dela você se pega pensando… é isso, estou imprimindo quem eu sou no meu próprio corpo. não há como ser mais honesto que isso.

a tatuagem não precisa de explicação. quem tenta justificar cai sempre no ridículo… “é homenagem”, “é minha força interior”, “é símbolo da liberdade”. bobagem. a tatuagem em si já é o significado. o ato é maior que o desenho. pode ser uma obra-prima ou um borrão mal feito numa madrugada, o que importa é que foi escolhido. o desenho é detalhe. o essencial é a marca.

com o tempo, elas se tornam capítulos visíveis de uma autobiografia torta. cada uma traz o cheiro, o som e a memória do momento em que nasceu. algumas me enchem de orgulho, outras me dão vergonha, mas todas são minhas. e é exatamente por isso que funcionam. não são medalhas, são cicatrizes com estilo. a tatuagem não embeleza, denuncia. denuncia quem eu fui, o que eu pensei, as merdas que vivi. é sinceridade estampada na pele, sem filtro, sem edição.

e o que eu mais gosto é que a tatuagem envelhece junto comigo. ela não fica intacta, brilhante, congelada no tempo. ela racha, borra, perde a nitidez, acompanha a decadência do corpo. é memória em decomposição, e nisso há algo profundamente humano. porque não é sobre eternidade, é sobre rastro. a tatuagem é prova viva de que estive em movimento, que passei, que fiz.

não tatuei pra me diferenciar. não tatuei pra parecer mais interessante. tatuei porque não aceito a ideia de corpo vazio, pele muda, superfície neutra. tatuagem é barulho, é sujeira, é grito impresso em carne. e mais… é prazer perverso em ver o corpo carregando as minhas decisões como tatuagens carregam a tinta. boas ou ruins, elas estão ali.

a vida já deixa marcas que você não pede… cicatriz de bisturi, queda de bicicleta, ruga que aparece sem aviso. a tatuagem é a única marca que você escolhe. a única cicatriz que você chama de sua. é a prova de que, pelo menos uma vez, você decidiu o que ficaria gravado no corpo e aceitou a consequência sem drama.

quando penso nas minhas tatuagens, não vejo ornamento. vejo diários sem palavras, vejo mapas da minha própria estupidez e dos meus poucos acertos. vejo carne rabiscada que não tem medo de assumir “eu estive aqui, eu fui isso, eu fiz essa escolha”. e isso basta. não é pra ser bonito, não é pra ser profundo. é pra ser verdadeiro.

e no dia em que eu virar pó, que meus ossos apodrecerem, que a pele se for ainda assim, até o último segundo, vou carregar comigo o testemunho desses rabiscos. não como troféu, mas como cicatriz voluntária. e nesse mundo de promessas rasas e memórias descartáveis, não consigo pensar em algo mais honesto do que isso.

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2025

medindo tudo

acordo e não sei mais se dormi bem. não porque meu corpo não me diz, mas porque eu nem escuto. em vez de sentir, eu confiro. abro o celular e lá está… a sentença sobre minha noite. “sono profundo: 2h14min.” quem diabos se importa? aparentemente eu. porque se a tela me diz que foi ruim, pronto… é ruim. mesmo que eu tenha acordado inteiro, descansado. já não basta estar vivo, é preciso estar validado.

e não para por aí. eu não fico mais estressado, eu sou informado de que estou estressado. não relaxo, eu recebo uma notificação de que “meus níveis de estresse caíram 7%”. como se eu fosse uma bolsa de valores. como se eu fosse incapaz de simplesmente saber, sentir, intuir. é um sequestro sofisticado, cheio de gráficos bonitos. o sequestro da minha própria percepção.

antes, eu acordava fodido, tomava um café, xingava o despertador e seguia. agora, acordo fodido, olho a tela, e ganho um selo dourado dizendo “parabéns, você atingiu 85% de eficiência no sono”. e isso deveria me consolar? na verdade, me irrita ainda mais. porque a vida não é uma planilha. e no entanto, estamos todos presos nessa ilusão de que dá pra transformar o caos humano em números limpos, controlados, amigáveis.

o problema é que quando você acredita mais no app do que em você mesmo, você não vive mais a experiência, você a terceiriza. você delega o prazer de estar cansado, de estar relaxado, de estar ansioso, a um dispositivo que te devolve esses estados em forma de notificação. e o pior… você agradece. aperta o coraçãozinho. compartilha o gráfico. como se ter dormido fosse algum tipo de performance digna de aplauso.

no fundo, é uma piada cruel. essa obsessão em medir saúde não deixa ninguém mais saudável. deixa só mais ansioso, mais dependente, mais desconectado do corpo que você carrega todo santo dia. você não acorda mais e pensa “dormi bem”. você acorda e pensa “deixa eu ver se o gráfico deixa eu acreditar que dormi bem”. e isso, meu amigo, é a verdadeira insônia.

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2025

deixa que eu faço isso

eu odeio gente pró ativa demais e não é ódio gratuito é aquela irritação que cresce toda vez que vejo alguém se contorcendo pra parecer útil como se a vida fosse um espetáculo e cada gesto precisasse de testemunhas. essas pessoas não sabem ficar quietas não sabem esperar o momento certo não sabem simplesmente viver. elas correm pra resolver problemas que não existem metem a mão onde não foram chamadas e depois posam como salvadoras da pátria. é quase comovente de tão patético.

e o mais fascinante é a crença messiânica de que toda essa hiperatividade vai mudar o mundo. mudar o mundo. como se a soma de pequenos atos compulsivos e frases inspiracionais fosse de fato mexer no eixo da terra. a verdade é que não vai. ninguém muda o mundo correndo atrás de reconhecimento a qualquer preço. o que se muda no máximo é o humor alheio porque conviver com gente assim cansa. é aquele cansaço que você sente no peito quando percebe que o entusiasmo do outro não é inspiração é cobrança velada é um lembrete diário de que você deveria estar fazendo mais mesmo sem querer.

essa mania de pró atividade é só um outro jeito de dizer que não se suporta o silêncio que não se aguenta a própria mediocridade. porque quem está em paz não precisa provar nada. quem está confortável na própria pele não precisa correr maratona às cinco da manhã pra postar foto com frase motivacional nem preencher cada segundo da vida com iniciativas brilhantes. quem está em paz vive e pronto. mas esses não param porque têm medo do vazio e o vazio assusta.

e eu confesso que gosto do vazio. gosto da pausa gosto de deixar as coisas acontecerem sem ficar cutucando o destino como se fosse um cachorro de estimação que precisa de atenção o tempo todo. a vida já se encarrega de trazer drama e caos suficientes sem que alguém tente gerenciar tudo em tempo real. mas os pró ativos não aceitam isso. querem controlar querem adiantar querem otimizar querem ter certeza de que serão lembrados. no fundo é só vaidade pintada de virtude.

ninguém vai lembrar do tanto que você correu se você não soube parar. ninguém vai agradecer por ter enchido o mundo de soluções desnecessárias. e ninguém vai te dar uma medalha por ser pró ativo demais. no fim a vida continua passando igual e talvez quem soube esperar tenha vivido muito mais do que quem correu o tempo todo atrás de aplauso invisível.

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2025

meu maior vício


meu vício é coca cola zero. parece pequeno, banal, quase engraçado. mas não é. é o tipo de detalhe que explica mais sobre mim do que qualquer biografia bem escrita. não sou colecionador de vinhos, não entendo nada de cafés especiais, não gasto cem reais numa cerveja artesanal com gosto de pinho queimado. o que me move é o som plástico e vulgar de uma garrafa de dois litros sendo aberta. aquele tsshhht que anuncia: “você sobreviveu até aqui, toma sua recompensa”.

a primeira tragada não mata sede. nunca matou. mata angústia. mata o gosto da rotina mal digerida. é artificial, eu sei. mas é esse artificial que sustenta. coca zero é meu lembrete diário de que o mundo também é feito de plástico, mentira e verniz e a gente insiste em chamar isso de realidade.

o rótulo estampa o “zero” em letras grandes. zero açúcar, zero calorias, zero substância. e talvez esse seja o ponto… coca zero é a representação perfeita da nossa era. é o nada embalado como promessa. é o vazio vendido como escolha. e eu bebo esse vazio todos os dias porque, de algum modo, ele é mais honesto do que qualquer discurso de pureza, qualquer guru de bem-estar que acha que chia salva almas. coca zero nunca me prometeu nada. e cumpre exatamente isso… nada.

me olham torto. dizem que é veneno. que vai corroer meus ossos, fritar meus rins, apagar minha luz antes da hora. ótimo. mas todo mundo já tá morrendo de alguma coisa. alguns morrem de ansiedade, outros de reuniões inúteis, outros de acordar cedo pra viver uma vida que não escolheram. eu escolhi morrer carbonatado. e vou até o fim com isso.

o mais curioso é como coca zero, no seu vazio assumido, é mais sincera que muita gente. ela não posa de saudável, não finge autenticidade. ela é lixo e assume ser lixo. e eu confio mais nesse lixo honesto do que em qualquer virtude envernizada.

talvez esse seja meu maior aprendizado com a coca zero, aceitar o artificial como parte do jogo. não romantizar. não dourar a pílula. só beber e seguir. porque, no fim, é isso que ela faz por mim. dá alguns segundos de ilusão com bolhas e depois me devolve à realidade. e eu volto, sempre volto.

um dia pode ser que ela desapareça. e aí? vai ter contrabando, guerra de supermercado, garrafa escondida em fundo falso. e eu vou estar lá, sem dignidade, sem disfarce. porque coca zero é mais que um vício… é a metáfora de tudo o que a vida é. uma sucessão de zeros embrulhados em papel colorido. e a gente segue bebendo, porque sem isso, o silêncio seria insuportável.

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2025

agora! now!

o culto da opinião instantânea é o fast-food da inteligência… barato, mal feito, indigesto, mas todo mundo consome como se fosse caviar. não importa se você nunca leu nada além de legenda de instagram, se acha que geopolítica é nome de remédio pra dor de estômago, ou se confunde o oriente médio com uma rede de restaurantes. o que interessa é postar rápido. guerra, eleição, pandemia, crise climática, álbum novo da diva pop, você tem trinta segundos pra soltar seu veredito. se atrasar, já é cúmplice do mal, um covarde digital, um traidor da causa do momento.

a internet transformou a ignorância em sprint olímpico. não vale a pena estudar, refletir, mastigar a informação. isso é coisa de gente ultrapassada, chata, sem engajamento. o que conta é lacrar no timing, ter a frase mais histérica, mais inflamável, mais “compartilhável”. não se trata de estar certo, deus me livre, mas de estar primeiro. e quem ousa esperar, pensar, articular uma frase sem emojis? pronto, é um alienado, um isentão, um verme moral.

é lindo e grotesco ao mesmo tempo. virou teatro. cada trending topic é uma peça com papéis definidos… os indignados profissionais, os cínicos sarcásticos, os falsos neutros, os oportunistas que fazem thread de 80 posts só pra engordar seguidor. é uma feira livre de vaidade. e o mundo real, aquele que continua acontecendo mesmo sem notificação push, esse que se foda.

ninguém quer verdade, quer performance. ninguém quer profundidade, quer frase de efeito. pensar virou pecado mortal, porque pensar demora. e demora significa perder a onda, perder cliques, perder relevância. no palco do algoritmo, nuance é assassinato ao vivo. tipo esse texto que vocês estão lendo… teve muito pensamento envolvido e demorou uma semana para ser escrito. sou um pecador dos tempos modernos.

o mais engraçado é que essa “urgência moral” tem prazo de validade de iogurte vencido. hoje é a tragédia da semana, amanhã é a piada da vez. indignação virou produto descartável. usamos, postamos, descartamos. enquanto isso, a guerra continua, a eleição se repete, a popstar segue vendendo turnê mundial. a roda gira, e você segue latindo pro carteiro digital, sem nunca perceber que é só mais um cachorro no coro global do nada.

no fundo, essa pressa toda é só uma desculpa bem embrulhada pra não admitir o óbvio, ninguém sabe porra nenhuma. mas falar menos seria admitir ignorância, e isso dói. então falamos mais. sempre mais. sempre mais alto. sempre mais rápido. até que o silêncio vire luxo… luxo de quem ainda tem coragem de pensar antes de abrir a boca.