ser pai de um menino de quatro anos com uma opinião sobre absolutamente tudo é como dividir um apartamento com um crítico de arte mal-humorado e sem filtro. só que esse crítico mede um metro, tem uma fixação irracional por dinossauros e não se intimida em te corrigir na frente de estranhos. você acha que tem alguma autoridade, afinal, você paga as contas e dirige o carro, mas ele não se impressiona. no fundo, você sabe que é apenas um coadjuvante no show dele.
ele acorda com uma tese para defender. não importa o assunto, porque alface deveria ser ilegal, a injustiça de ter que usar sapatos, a suposta conspiração do universo contra ele porque hoje é dia de escola. tudo vem com argumentos apaixonados, expressões dramáticas e um poder de persuasão que faria qualquer advogado experiente tremer. você tenta usar lógica, mas ele opera num plano superior onde lógica é apenas uma sugestão.
o conceito de “não” para ele é o equivalente a um desafio. você diz “não pode mexer nisso”, ele entende “por favor, teste os limites da física e da minha paciência ao mesmo tempo”. e quando a catástrofe inevitável acontece, um copo quebrado, uma parede redecorada com giz de cera, um brinquedo desmontado até a última peça, ele não assume culpa. na mente dele, o verdadeiro culpado é a gravidade, um desenho animado ou, na pior das hipóteses, você, por ter permitido que o mundo fosse assim.
alimentação é um campo de batalha. um dia ele ama banana, no outro, banana é ofensiva. ele implora por um prato que você finalmente faz, só para declarar, no momento em que você serve, que “não gosta mais”. tentar negociar com ele é como tentar convencer um chef de cozinha premiado a colocar ketchup na lagosta. ele tem princípios e não está disposto a comprometê-los por conveniência.
vestir-se? outra guerra. você pode escolher a roupa mais confortável e apropriada, mas se não estiver de acordo com a visão estética dele para aquele dia, esqueça. “eu que decido!” ele brada, enquanto insiste em usar uma fantasia de super-herói para o mercado ou um pijama no meio da tarde. você, que já teve ambições de bom gosto e ordem, agora só quer sair de casa sem um colapso épico na porta.
as perguntas são intermináveis e, pior, altamente filosóficas. “por que o céu é azul?” é fichinha. ele quer saber coisas como “quem decide o que é real?”, “se formiga tem nome?”, “por que adulto pode fazer tudo e criança nada?” e, claro, “se eu gritar bem alto, alguém no espaço ouve?” você se vê sem respostas, tentando lembrar onde foi que sua vida se tornou um episódio de um debate existencialista conduzido por um baixinho com as mãos sujas de chocolate.
dormir é um conceito abstrato. ele pode estar exausto, olhos semicerrados, tombando para o lado, mas na hora de ir para a cama, renasce com energia de quem acabou de tomar um café expresso. “não tô com sono!” diz, enquanto boceja e pisca devagar. negociar a hora de dormir envolve técnicas de diplomacia que nem as nações unidas dominam. no fim, você já nem liga se ele dorme na cama ou no tapete, desde que o silêncio finalmente reine.
você descobre que é fisicamente impossível sentar-se para um momento de paz sem ser interrompido por um “pai, olha isso!” seguido de uma demonstração detalhada de como ele consegue pular de um móvel para o outro sem “tocar no chão de lava”. café quente? utopia. ler um livro? ilusão. ir ao banheiro sozinho? um privilégio que você já nem lembra como é.
mas então, do nada, ele vem e encosta a cabeça no seu ombro. te abraça forte. fala que te ama, que você é o melhor pai do mundo. e você percebe que, apesar do caos, da bagunça, dos argumentos sem fim, você jamais trocaria isso por nada. porque, no fundo, esse pequeno ser humano está te ensinando muito mais sobre paciência, criatividade e amor incondicional do que qualquer livro ou guru da paternidade jamais ensinaria.
e assim você segue. cansado, com olheiras que fariam um sobrevivente de apocalipse parecer descansado, cercado por brinquedos que misteriosamente se multiplicam pela casa como coelhos em plena primavera. você já não luta contra o caos, só tenta sobreviver a ele. talvez, um dia, encontre sua dignidade no meio daquela pilha de bonecos decapitados e carrinhos sem rodas.
mas até lá, você se resigna ao fato de que seu café será sempre morno, que ele não te chama de “pai” pois considera chato, e qualquer tentativa de silêncio será imediatamente sabotada por um grito histérico sobre algo crucial, como a posição errada de uma meia ou a descoberta de um inseto na varanda. você não é mais um indivíduo, é uma espécie de assistente pessoal de um ditador em miniatura, um ditador adorável, sim, mas ainda assim, implacável.
e pensar que um dia você teve ambições. sonhos. vontade própria. agora, sua rotina é construída em torno das preferências de um pequeno imperador que acredita piamente que o mundo gira ao seu redor e, de certa forma, gira mesmo. porque, no fim, você não manda mais nada. você só paga as contas e dirige o carro.
“menos é mais.” uma mentira tão bem contada, tão repetida, que virou verdade sem nunca ser questionada. dizemos, ouvimos, acatamos… como se fosse um dogma, uma lei universal esculpida em pedra. mas será mesmo? ou será apenas uma desculpa conveniente, uma forma elegante de justificar o desapego, a falta, a renúncia disfarçada de escolha?
pense bem. quando foi que menos realmente foi mais? menos talento é mais genialidade? menos coragem é mais conquista? menos esforço é mais resultado? olhe para qualquer grande feito da história e tente encontrar minimalismo. tente encontrar o “essencial”, a “simplicidade estratégica”. tente dizer que a grandeza nasceu da contenção.
michelangelo não fez um afresco discreto no teto da capela sistina. fez um épico colossal, deitando-se de costas por anos, com tinta escorrendo nos olhos e músculos em agonia. beethoven não escreveu sinfonias enxutas e econômicas… compôs tempestades, quebras de regras, explosões sonoras que atravessam séculos. gaudí não projetou igrejas minimalistas. construiu delírios de pedra que parecem ter sido esculpidos por deuses em transe.
mas aí chega alguém e diz: “menos é mais.” e todo mundo acena com a cabeça, como se fosse verdade. menos é mais… para quem quer que você peça menos. para quem quer que você se contente, que você não exija, que você aceite a versão reduzida daquilo que poderia ser grande. menos é mais para quem quer que você desapareça sem fazer barulho.
então, chega dessa mentira bem-educada. menos é menos. sempre foi. mais é o que move o mundo. mais é o que cria histórias que valem a pena. mais é o que transforma pessoas comuns em lendas. você pode escolher um caminho seguro, compacto, silencioso. ou pode aceitar o que sempre foi óbvio… que quem realmente vive nunca se contenta com pouco.
e é isso que ninguém te conta… que o mundo sempre pertenceu aos que quiseram mais. aos que ignoraram limites, aos que fizeram perguntas incômodas, aos que não aceitaram a primeira resposta. aos que queimaram tudo e começaram de novo. aos que não tiveram medo de parecerem exagerados, intensos, demais.
porque veja bem, a mediocridade adora a moderação. adora o equilíbrio, o “suficiente”, o “bastante bom”. o confortável. mas o que é confortável raramente é memorável. ninguém se lembra do filme que foi “ok”. ninguém recomenda um livro que foi “bem escrito, mas discreto”. ninguém quer ouvir a história da viagem que foi “tranquila, sem surpresas”.
e é isso que o “menos é mais” faz, ele vende a ideia de que a ausência de excessos é uma virtude. que simplificar tudo é um sinal de inteligência. que cortar, reduzir, podar, eliminar é o caminho para uma vida melhor. e pode até funcionar, se sua ideia de “vida melhor” for algo prático, funcional, inofensivo.
mas se você quer algo real? algo intenso, pulsante, profundo? então esqueça essa ladainha de minimalismo existencial. esqueça essa bobagem de que “menos” tem um valor intrínseco. olhe para qualquer coisa que te tirou o fôlego, qualquer experiência que te marcou, qualquer momento que você voltaria no tempo para reviver… nada disso veio do mínimo. veio do máximo. veio do exagero, da bagunça, do detalhe que não precisava estar ali, mas estava.
então, sim, você pode seguir cortando, reduzindo, limpando, otimizando, vivendo com menos. só não se engane… menos é só menos. menos é economia, conveniência, controle. mas nunca foi grandeza. nunca foi inesquecível. nunca foi o que fez alguém virar lenda.
sabe, eu nunca fui um grande fã de religião, mas se existe um templo onde aprendi a orar, onde fui moldado como um pedaço de argila barata nas mãos de um deus debochado e irônico, esse templo foi o cinema. a sala escura, o feixe de luz cortando a poeira no ar, o cheiro rançoso de pipoca murcha e refrigerante derramado… aquilo era sagrado. ali, sentado em poltronas desconfortáveis, aprendi o que significava ser cool, o que era amor, o que era aventura, o que esperar do mundo e, principalmente, o quão brutalmente decepcionante seria perceber que a vida real ignorava solenemente todas essas lições.
o cinema não foi apenas um passatempo. foi um manual, um evangelho. de um jeito ou de outro, cada diretor, cada ator, cada roteiro que passou diante dos meus olhos deixou uma marca, um traço no meu código genético, como se minha identidade tivesse sido escrita não pelo acaso, mas pelas decisões criativas de gente como scorsese, tarantino, fellini, godard, kubrick, lynch, coppola, kurosawa, hitchcock. cada um deles me moldou, me ensinou algo… algumas lições úteis, outras desgraçadamente erradas.
quando criança, vivi no mundo de spielberg. ele me fez acreditar que a aventura estava em toda parte, que o ordinário podia, a qualquer momento, se transformar no extraordinário. e.t., os goonies, indiana jones… esses filmes me ensinaram que o mundo era grande, cheio de mistérios, de descobertas esperando por um olhar curioso. passei anos procurando mapas do tesouro escondidos, esperando que um alienígena aparecesse na minha janela, achando que bastava querer muito algo para que a magia acontecesse.
então, a adolescência chegou e, com ela, a constatação de que a vida não era uma produção de spielberg, mas sim um longa desconfortável de john hughes. a diferença é que, ao contrário de clube dos cinco, ninguém parecia tão espirituoso, tão engraçado, tão iconicamente problemático. ninguém resolvia suas crises existenciais em um sábado de detenção. ninguém tinha uma trilha sonora perfeitamente sincronizada com seus dilemas internos. a adolescência real era só acne, insegurança e um tédio esmagador.
foi aí que tarantino entrou na minha vida, com sua metralhadora de referências pop, diálogos cortantes e violência coreografada com uma precisão quase musical. assistir cães de aluguel e pulp fiction foi como uma revelação… o mundo podia ser estiloso, mesmo quando era sujo. cada fala importava, cada cena tinha um peso visual, cada personagem parecia existir além do tempo e espaço. tentei replicar isso, claro. tentei falar como se estivesse em um roteiro de tarantino, enfiando monólogos sobre cultura pop em conversas banais. o resultado? olhares vazios e a dolorosa percepção de que diálogos cinematográficos só funcionam quando alguém os escreve.
e então veio scorsese, com sua brutalidade elegante, seus mafiosos cheios de classe e tragédia. os bons companheiros, cassino, touro indomável, filmes que me ensinaram que o fracasso podia ser belo, que o crime podia ser sedutor, que a ascensão e queda eram partes inseparáveis do jogo. scorsese me fez acreditar que a vida deveria ter um arco narrativo, uma introdução poderosa, um clímax intenso, uma queda inevitável. mas ninguém me avisou que, na vida real, às vezes você só cai e fica por lá. sem trilha sonora, sem fade out estiloso, sem lição final.
kubrick me ensinou o terror da perfeição. o iluminado, laranja mecânica, 2001 uma odisseia no espaço, todos eles me mostraram que a estética pode ser tão perturbadora quanto a própria história. que o silêncio pode ser mais aterrorizante que um grito. que o controle absoluto sobre cada detalhe pode transformar um filme, e uma vida, em algo sufocante. tentei levar isso para mim, tentei controlar cada aspecto da minha narrativa pessoal. o problema? kubrick era um gênio obsessivo. eu era só um cara tentando fazer a vida parecer um plano-sequência calculado.
e então, veio fellini, com suas festas intermináveis, seus excessos, seus personagens que pareciam dançar à beira do caos. la dolce vita me fez querer a vida como um desfile de momentos grandiosos, de encontros inesperados, de noites que nunca terminam. fui para bares esperando que a decadência fosse cinematográfica, que cada gole de vinho viesse acompanhado de uma epifania. o que descobri? a ressaca chega. a conta vem. e, diferentemente dos filmes, você não pode simplesmente dar um fade to black quando as coisas ficam insuportáveis.
lynch me mostrou que a realidade sempre tem algo de surreal, que por trás das fachadas limpas sempre há algo podre. quando assisti cidade dos sonhos, pela primeira vez, fiquei obcecado. não porque entendi, porque ninguém realmente entende lynch, mas porque senti que a vida real se parecia mais com aquilo do que qualquer outra coisa que eu já tinha visto. às vezes, tudo parece fazer sentido, mas então a câmera gira, a luz muda, e o que antes parecia real se revela um teatrobarato, uma farsa mal costurada.
godard me fez querer ser intelectual. kurosawa me fez querer ser um guerreiro. hitchcock me fez desconfiar de tudo. david lynch me fez duvidar da sanidade do universo.
e então, hoje me pego assistindo aos clássicos que me moldaram, como um velho mafioso revendo os álbuns de fotos da família, só que minha família é composta por rostos projetados em celuloide, e cada um deles me ensinou algo que eu nunca pedi para aprender.
revisito o poderoso chefão e percebo que coppola me deu mais noções de lealdade e traição do que qualquer aula de ética. me ensinou que a família nem sempre é a que você nasce, mas a que você escolhe… e que, no fim, sempre tem um fredo esperando para ferrar tudo.
volto a pulp fiction e lembro de quando queria falar como os personagens de tarantino… rápido, sagaz, afiado como uma lâmina. queria que cada conversa fosse um duelo verbal, um jogo de xadrez de referências pop e sarcasmo. mas a vida real tem muito mais pausas constrangedoras e muito menos trilha sonora de dick dale.
assisto a taxi driver e vejo que scorsese já sabia, todo mundo é um pouco travis bickle, navegando pelas ruas sujas da cidade com uma raiva silenciosa, esperando por um grande momento de redenção que talvez nunca chegue. e então coloco os bons companheiros e sorrio, porque, no fundo, todos nós queremos ser henry hill, mas a maioria de nós acaba sendo apenas mais um figurante na multidão, assistindo os outros comerem o melhor da vida enquanto ficamos com as sobras.
revivo la dolce vita e percebo que fellini tinha razão desde o início… a vida é um desfile caótico de personagens absurdos, festas grandiosas e ressacas existenciais. tentamos encontrar significado entre um gole de vinho e outro, entre um encontro apaixonado e um silêncio constrangedor. e, no fim, talvez não haja significado algum. talvez seja tudo uma grande ópera sem roteiro, e nosso papel seja apenas continuar cantando mesmo sem saber a letra.
hoje, entendo melhor o cinema, e talvez, por isso, entenda um pouco mais sobre a vida. entendo que hitchcock sempre soube que a paranoia não é um exagero, é uma ferramenta de sobrevivência. que kurosawa me mostrou que a honra é só uma questão de perspectiva. que lynch me ensinou que a realidade sempre tem algo de errado, como um quadro torto que ninguém nota até ser tarde demais.
mas, acima de tudo, entendo que, apesar de todas as mentiras que o cinema me contou, ele também me deu algo raro e valioso… a capacidade de ver beleza no meio do caos. de encontrar poesia num prato de macarrão fumegante, num letreiro de neon piscando na madrugada, numa conversa aleatória que, por algum motivo, soa como um diálogo bem escrito.
e então, dou play em mais um clássico. porque, no fim, talvez a grande mentira do cinema não seja nos fazer acreditar que a vida tem um roteiro, e sim nos fazer esquecer, ainda que por um instante, que ela não tem.
a coisa mais assustadora sobre ser humano não é nossa capacidade de sofrer, mas o quão rápido a gente se acostuma com qualquer merda. dor, tédio, humilhação, frustração… dá um tempo e, pronto, virou terça-feira normal. é quase cômico. você pode estar atolado no pior emprego do mundo, comendo comida sem gosto, vivendo uma vida que daria pena até num reality show ruim… mas adivinha? você segue em frente. reclama no começo, esperneia um pouco, mas logo está ali, aceitando o destino como um cachorrinho que já entendeu que não vai ganhar mais petiscos.
isso parece deprimente? talvez. mas também é uma das coisas mais poderosas que você pode entender sobre a vida. porque se você pode se acostumar com qualquer coisa, então nada pode realmente te quebrar. você acha que não consegue viver sem conforto? sem aquele salário seguro? sem o wi-fi rápido? acha que vai morrer se não tiver o restaurante chique ou o apartamento de 80 metros quadrados na “região nobre” da cidade? grande ilusão. te jogam no meio do nada com um colchão fino, uma comida duvidosa e uma garrafa de álcool barato e, adivinha? em um mês, você já tá rindo disso.
bem-vindo à era da soma zero, um pesadelo coletivo onde todo mundo tem certeza absoluta de que, para ganhar, alguém precisa perder. não importa o contexto. dinheiro, emprego, política, cultura, espaço na porra do metrô, se alguém tem mais, significa automaticamente que você tem menos. não há crescimento conjunto, não há progresso compartilhado, não há espaço para um mundo onde todo mundo pode se dar bem. se um grupo sobe, é porque outro está sendo esmagado. se uma pessoa prospera, é porque outra está sendo roubada. é um pensamento tão primitivo e burro que até um chimpanzé com trauma de infância olharia e diria: “porra, cara, vocês precisam relaxar”.
e o mais engraçado? é que tudo isso é baseado em uma mentira conveniente. porque, veja bem, a maior parte das coisas que importam na vida não é finita. dinheiro pode ser criado. empregos podem surgir. inovação pode abrir portas que antes nem existiam. mas tente dizer isso para alguém que já decidiu que está sendo passado para trás. não importa a lógica, não importam os dados, não importa a história. na cabeça dessa gente, a vida é um enorme campo de batalha onde, se alguém tem mais do que você, isso só pode significar que ele te roubou. e o resultado? um mundo mais paranóico, mais hostil e completamente exausto, onde ninguém quer crescer, só quer garantir que os outros encolham.
vamos a alguns exemplos deliciosos. imigração? uma horda de bárbaros vindo roubar nossos empregos e sugar nossos recursos, certo? nunca importa que imigrantes criem empresas, impulsionem economias e ocupem vagas que ninguém quer. não. na cabeça do fanático da soma zero, um imigrante empregado significa um local desempregado. fim da discussão. inovação tecnológica? claro, estamos todos fodidos, porque se um robô faz o trabalho de um humano, significa que o humano agora está condenado a viver de restos. esqueça que a tecnologia sempre criou novas indústrias e novas oportunidades. não. melhor sentar, reclamar e xingar o futuro.
e política? um verdadeiro circo de horrores, onde o objetivo não é governar bem, mas sim garantir que o outro lado perca. republicanos e democratas, direita e esquerda, conservadores e progressistas, pouco importa. ninguém quer resolver nada. todos querem apenas ver o adversário se foder. eleições não são sobre planos, ideias ou melhorias; são sobre vingança. sobre garantir que “os outros” percam. e é claro que essa mentalidade se espalhou para o resto da sociedade como um vírus resistente a antibiótico. agora, qualquer conquista de um lado é vista como um ataque ao outro. qualquer progresso social ou econômico é recebido com histeria porque, segundo essa lógica, se alguém ganha um direito, então outro grupo está perdendo algo.
e a internet? um espetáculo de desespero. um imenso campo de batalha onde todo mundo briga por um pedaço de validação digital. influenciadores disputam atenção como ratos famintos num esgoto, e cada pequena vitória se traduz em uma derrota para alguém. tem mais seguidores? está roubando os meus. recebeu mais likes? está drenando minha relevância. conseguiu um patrocínio? está tirando dinheiro do meu bolso. e assim seguimos, um grande reality show de ressentimento e mediocridade, onde a única maneira de alguém se sentir bem é ver outra pessoa afundar.
e o mais cômico? é que essa obsessão pela soma zero não nos torna mais espertos, mais ricos ou mais felizes. pelo contrário, nos torna um bando de desgraçados paranoicos, sempre olhando por cima do ombro para garantir que ninguém está nos “passando para trás”. sabe quem realmente prospera com essa mentalidade? bilionários, empresas gigantes, políticos corruptos. porque, enquanto as pessoas comuns se matam para garantir que o outro não tenha nada, os verdadeiros donos do jogo seguem acumulando tudo. eles te convenceram de que o problema é o imigrante, o desempregado, o estudante de ações afirmativas, o cara que conseguiu um aumento. enquanto isso, eles seguem engordando suas fortunas sem que ninguém perceba. gênio, não?
e agora, como saímos dessa? bom, sejamos realistas. provavelmente não sairemos. porque o pensamento de soma zero é viciante. ele dá às pessoas a desculpa perfeita para não fazerem nada. se tudo é um jogo de quem perde e quem ganha, então não há por que tentar, não há por que inovar, não há por que arriscar. é muito mais fácil sentar e reclamar que o mundo está conspirando contra você. muito mais confortável acreditar que seu fracasso não é culpa sua, mas sim resultado de uma grande máquina que está desviando oportunidades para outras pessoas. e assim seguimos, um bando de gente exausta, brigando por migalhas, enquanto os verdadeiros donos do jogo seguem tranquilos, assistindo de camarote.
então vá em frente. continue acreditando que, para você ganhar, alguém precisa perder. continue vivendo com essa mentalidade miserável, sabotando a si mesmo e ao mundo ao seu redor. continue jogando esse jogo patético onde ninguém realmente vence. no final, é exatamente isso que aqueles no topo querem que você faça. e se há algo que eles entendem melhor do que ninguém, é que nada gera mais lucro do que um povo distraído demais brigando entre si para perceber quem realmente está passando a perna em quem.
times square é o pior lugar do mundo. uma aberração arquitetônica onde a cidade mais interessante do planeta se transforma em um parque temático de mau gosto para turistas desavisados. tudo ali é um golpe. tudo ali custa o dobro do que deveria. tudo ali brilha o suficiente para te cegar, mas nada tem alma. é um espetáculo de consumo frenético, onde multidões se arrastam como zumbis, esbarrando em você sem nem perceber, enquanto perdem tempo e dinheiro em experiências vazias que parecem mágicas no momento, mas que depois deixam apenas um gosto amargo na boca.
se por algum infortúnio eu precisar estar perto dessa calamidade urbana, prefiro andar até a 115th street, sentar num banco de praça qualquer e observar um grupo de velhos jogando dominó com expressões de quem já viu tudo nessa vida. prefiro comprar um café numa bodega onde o dono me trata com o mesmo desdém que eu trato times square. prefiro debater sobre o preço da gasolina com um taxista mal-humorado que se recusa a usar gps. qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, é melhor do que pisar naquele circo de neon e desespero.
agora, senta e se prepara, porque eu vou te dar 30 motivos detalhados para nunca mais desperdiçar um segundo sequer naquele zoológico de idiotas.
1. a bandeira de neon de nova york: o símbolo supremo da confusão coletiva
você já viu. eu já vi. todo mundo já viu. aquela maldita bandeira de neon, gigantesca, piscando como se tivesse algo importante a dizer. e, no entanto, ninguém sabe o que ela significa. turistas param em frente, tiram fotos, fazem poses dramáticas, postam no instagram com legendas emocionadas como se estivessem diante da estátua da liberdade. só tem um detalhe… ninguém nunca se perguntou por quê. é só uma bandeira de neon. não marca um momento histórico, não tem um propósito, não significa absolutamente nada. mas, como times square funciona à base de distrações brilhantes, as pessoas continuam registrando essa imagem como se fosse o auge da viagem delas.
2. os mascotes falsificados: um elenco de terror em plena luz do dia
se um dia um estúdio de filmes B quiser rodar um terror psicológico sem gastar um centavo com figurino, basta montar as câmeras em times square. temos um elmo que parece ter sido resgatado de um incêndio, um homem-aranha com uma barriga de quem trocou os arranha-céus por uma dieta baseada em fast food e um minion cujo olhar vazio sugere que ele já passou por traumas que não podem ser descritos em palavras.
esses “personagens” não estão ali por amor à cultura pop. estão ali para se aproximar de você, te abraçar sem permissão e, no instante em que seu corpo encostar naquela fantasia suja, pronto, agora você deve pagar. tente recusar e observe o rosto sorridente se transformar em uma expressão de puro ódio enquanto eles te perseguem com a cobrança.
3. os caras do CD: um estudo de manipulação psicológica
esses são os mestres do golpe. eles chegam com uma abordagem amistosa, fingindo serem rappers em ascensão. “aí, mano, toma aqui, meu CD, de presente!” e você, sendo uma pessoa educada, pega o CD sem pensar. e é nesse momento que você se fode. porque agora, segundo eles, você tem que pagar. tente devolver e veja um show de indignação que poderia render um oscar. “sério, cara? tu vai desrespeitar meu trampo assim?” tente ignorar e veja eles te seguindo, insistindo, repetindo que tudo que eles querem é apoio. e se você realmente pagar, parabéns! você acaba de comprar um CD virgem que não tem absolutamente nada gravado.
4. os caras da pulseirinha: o assalto sem faca
eles aparecem sorrindo, com uma abordagem tão amigável que parece que você reencontrou um primo distante. sem pedir permissão, amarram uma pulseirinha colorida no seu pulso e dizem algo genérico como “agora você tá abençoado, irmão”. nesse instante, você já caiu no golpe. porque agora vem a cobrança. e se você tentar recusar, eles mudam de tom. o sorriso desaparece, a expressão fica séria. “pô, mano, a gente tá na luta, só uma ajuda.” pronto. você acabou de pagar 10 dólares por um pedaço de barbante amarrado no seu braço.
5. os caras da plataforma giratória: a humilhação em 360°
esse golpe é novo, mas já está no topo da lista de humilhações públicas. um grupo de rapazes monta uma pequena plataforma giratória no meio da rua. eles chamam você, te convencem a subir, ligam uma música ensurdecedora (geralmente empire state of mind) e começam a filmar. você, iludido, faz poses, gira como um frango de padaria, acha que está arrasando. e então, vem a cobrança… um valor absurdo para receber um vídeo que, na verdade, você nunca mais vai assistir. tente recusar e eles começam a gritar e agir como se você fosse o ser humano mais mesquinho do mundo.
6. a loja da m&m’s: um templo para o açúcar
três andares. três malditos andares dedicados exclusivamente a vender chocolates que você encontra em qualquer farmácia da esquina. só que aqui, em vez de pagar um dólar, você paga 20 por um saquinho de cores personalizadas. e, claro, como times square não seria times square sem uma fila completamente desnecessária, há um “muro de m&m’s” onde turistas gastam horas escolhendo cores específicas como se estivessem tomando uma decisão que mudaria suas vidas.
7. a loja da hershey’s: a experiência menos especial da sua vida
se a loja da m&m’s é um culto ao consumo sem sentido, a loja da hershey’s é a sua versão genérica e deprimente. as mesmas barras de chocolate que você pode comprar em qualquer loja de conveniência, só que aqui vendidas em embalagens um pouco maiores para justificar o preço absurdo.
8. a disney store: o campo de batalha das famílias desesperadas
o lugar onde crianças perdem a cabeça, pais perdem dinheiro e funcionários perdem a paciência. imagine um grito infantil ecoando incessantemente enquanto uma mãe tenta, em vão, convencer seu filho de que ele já tem brinquedos demais. agora imagine isso em loop infinito. essa é a disney store de times square.
9.a loja da levi’s: onde jeans comuns viram relíquias sagradas
se você já comprou uma calça jeans na vida, sabe que não há absolutamente nada de especial em uma levi’s. é um jeans honesto, funcional, sem surpresas. e, no entanto, na times square, há uma loja da levi’s que opera como se estivesse vendendo arte renascentista.
você entra achando que vai encontrar promoções. mero engano.
um vendedor aparece com um entusiasmo forçado digno de um culto religioso. “essa aqui é a nossa linha especial new york edition, feita com algodão premium e um corte exclusivo inspirado na vibe da cidade!” você pega a calça e olha para ela. é uma calça jeans normal. nada de especial, nada de edição limitada, apenas um pedaço de tecido azul costurado exatamente da mesma forma que todas as outras levi’s do planeta.
o preço? 180 dólares.
você pisca, confuso. “Mas essa mesma calça custa 60 dólares no site da levi’s.”
o vendedor sorri, imune à lógica. “sim, mas essa é a experiência de comprar uma levi’s em times square!”
e é aí que você percebe o golpe: eles estão te vendendo a experiência de ser roubado.
10. o hard rock café: um tributo à mediocridade gastronômica
quer pagar 50 dólares por um hambúrguer enquanto olha para uma jaqueta usada por um músico decadente nos anos 80? então você encontrou seu lugar.
11. o bubba gump shrimp co.: pagando caro para reviver um filme de 1994
a experiência de comer no bubba gump shrimp co. é a definição de humilhação gastronômica. um restaurante temático baseado em forrest gump, que aparentemente ainda tem força suficiente para enganar turistas ingênuos.
tudo ali é uma grande piada interna para quem acha que nostalgia justifica pagar 30 dólares por um prato de camarão congelado. os garçons são obrigados a repetir frases do filme como se fossem robôs programados para reencenar forrest gump todos os dias, para sempre. eles fazem quiz sobre o filme. quiz. sobre um filme de trinta anos atrás. e você tem que fingir que está gostando enquanto espera um prato que demorou uma eternidade para chegar e que, no final, tem gosto de traição e margarina velha.
12. os carrinhos de hot dog: uma obra-prima da trapaça nova-iorquina
o carrinho de hot dog de times square é um dos maiores experimentos de roubo ao ar livre já criados. é simples… um menu que diz “hot dog = $2”. você, cansado e com fome, pensa “finalmente, algo barato por aqui.” você pede, pega o cachorro-quente e, na hora de pagar, o vendedor te olha nos olhos e diz… “12 dólares”.
e agora? você já deu a primeira mordida. você já segurou o hot dog. a fila atrás de você cresce. turistas te olham. você não quer discutir por um hot dog. então, com um suspiro de derrota, você paga. e pronto… você acaba de ser oficialmente batizado como trouxa em nova york.
13. as filas para tirar foto com anúncios de led
há algo de perversamente fascinante em assistir um grupo de turistas esperar pacientemente na fila para tirar uma foto com um outdoor digital. sim, isso acontece. pessoas gastam tempo da viagem para registrar a imagem de uma propaganda da coca-cola piscando no meio do caos. como se, sem essa foto, o passeio não estivesse completo.
“olha, tirei uma foto com esse anúncio de uma marca de automóveis que nem vende carros no meu país!”
sim. parabéns. uma experiência inesquecível.
14. os caras que vendem ingressos falsos da broadway
se existe uma categoria de vigaristas que merece reconhecimento por sua criatividade, são os golpistas dos ingressos falsos. eles andam pelas calçadas com um crachá improvisado e um sorriso confiável. “quer ver o rei leão por metade do preço?”, perguntam. claro que você quer. quem não quer um bom desconto?
só que tem um problema. o ingresso é uma ilusão. um pedaço de papel que não vale nada. e quando você chega no teatro, descobre que, na verdade, acabou de gastar 80 dólares por um marcador de livro inútil.
15. a tkts booth: a fila da resignação coletiva
essa é uma cena clássica de times square… centenas de turistas esperando sob o sol, na chuva ou na neve, em uma fila que se arrasta como um funeral, tudo para conseguir um desconto meia-boca em ingressos de teatro.
as pessoas esperam horas. horas. para no final conseguirem um ingresso para um musical que não queriam ver, mas que compraram porque já estavam ali mesmo.
“é chicago ou mamma mia?” “eu não queria ver nenhum dos dois.” “mas a gente ficou duas horas na fila…” “tá, compra logo.”
e assim nasce mais uma experiência teatral motivada pela pressão social e não pelo interesse real.
16. os entregadores de panfletos de stand-up comedy
esses caras são incansáveis. estão em todas as esquinas, tentando enfiar um panfleto na sua mão. “show de comédia hoje à noite! os melhores comediantes de nova york!”
spoiler… não são os melhores comediantes de nova york.
se você cair na cilada, vai acabar em um porão escuro, sentado em uma cadeira desconfortável, ouvindo piadas ruins de caras que parecem estar prestes a desistir da carreira. e o pior? há um consumo mínimo obrigatório. sim. você é obrigado a comprar ao menos duas bebidas, que custam o mesmo que um rim no mercado negro.
17. os turistas que caminham como se nunca tivessem usado as pernas
andar em times square é um jogo de paciência. as ruas estão sempre lotadas de pessoas que aparentemente nunca caminharam antes na vida.
há o turista-zebra, que para abruptamente no meio da calçada, fazendo com que você quase bata nele. o turista-baleia, que se move em câmera lenta, arrastando um grupo inteiro atrás de si. e o pior de todos… o turista-barreira, um grupo de cinco ou seis pessoas que caminham lado a lado, bloqueando completamente a passagem, como se fossem o elenco de um comercial de margarina.
18. os influencers dançando no meio do trânsito
é inevitável. em algum momento, você verá um influenciador tentando gravar um vídeo no meio da rua, fazendo uma dancinha ridícula para o tiktok enquanto um táxi amarelo avança lentamente, pronto para acabar com o sonho digital dessa pessoa.
e você, parado na calçada, segurando sua frustração, pensa… “será que ele merece ser atropelado?”, ok exagerei mas não irei apagar.
19. o cheiro característico de times square: lixo quente e pretzel queimado
se houvesse um perfume que capturasse a essência de times square, ele seria uma mistura de suor de turista, esgoto e aquele cheiro vagamente doce de pretzel queimado vindo de algum lugar indefinido.
não importa a estação do ano. esse cheiro está sempre lá. impregnado no asfalto, flutuando no ar como uma maldição invisível.
20. os ônibus turísticos vermelhos: uma aula de desperdício de dinheiro
esses ônibus circulam por times square o dia inteiro, cheios de turistas felizes sentados no andar de cima, ouvindo um guia entediado repetir fatos históricos meia-boca sobre a cidade.
só tem um detalhe… o trânsito não anda.
então, essencialmente, você paga 50 dólares para ficar preso no mesmo lugar, olhando para os mesmos anúncios de neon por 40 minutos enquanto um guia diz algo genérico tipo “ali está a broadway, onde os grandes shows acontecem!”.
21. a loja de souvenirs mais cara da sua vida
se você entrar em qualquer loja de lembrancinhas de times square, verá um fenômeno curioso, itens de qualidade questionável sendo vendidos por preços absolutamente criminosos.
uma camiseta “i ❤️ ny” que custa 5 dólares em qualquer outro bairro? aqui, 35 dólares. uma mini estátua da liberdade feita de plástico vagabundo? 20 dólares. um chaveiro que diz “new york city” e que provavelmente foi fabricado na china por centavos? 15 dólares.
e as pessoas compram. porque times square tem essa capacidade de fazer você acreditar que precisa gastar dinheiro com coisas que você nunca vai usar.
22. os caras dos retratos que não se parecem com você
esses artistas de rua têm um dom único, transformar qualquer rosto humano em um cruzamento bizarro entre um personagem de desenho animado e um suspeito de crime procurado.
você para, animado, pensando… por que não? afinal, é uma lembrança personalizada de nova york. você senta, fica imóvel enquanto o “artista” desenha com a seriedade de um cirurgião, e quando ele finalmente vira o papel para te mostrar o resultado…
você vê um ser humano genérico, com olhos esbugalhados, queixo pontudo e uma expressão completamente aleatória. nada ali se parece com você. nada.
e aí vem a melhor parte… o preço. “são 50 dólares.”
você tenta argumentar. “50 dólares? Mas você nem desenhou meu nariz direito.”
mas já era. você agora está diante de um “artista” ultrajado que começa a gritar sobre respeito ao seu trabalho. e, claro, para evitar a humilhação pública, você paga. e sai dali segurando um desenho que vai direto para o fundo da mala e depois para o lixo.
23. a loja da pele: uma homenagem sem sentido ao rei do futebol
há muitos lugares no mundo onde faz sentido abrir uma loja temática do pelé. times square não é um deles.
e, no entanto, ali está ela. firme, forte, completamente deslocada. uma loja onde você pode pagar centenas de dólares por chuteiras e camisetas autografadas.
quantos turistas alemães, canadenses ou japoneses realmente vêm a nova york pensando… preciso urgentemente comprar um tênis do pelé? absolutamente nenhum. mas a loja continua lá. porque, em times square, se uma ideia parece absurda e sem sentido, alguém vai tentar vendê-la.
24. os turistas que acreditam que jaywalking é crime
nova york é uma cidade onde atravessar fora da faixa não é apenas normal, é essencial. se você quer sobreviver aqui, precisa andar rápido, ser ágil, se jogar na rua entre os carros quando vê uma brecha.
mas em times square, os turistas congelam na calçada, esperando religiosamente o sinal de pedestres abrir, mesmo que não tenha carro nenhum vindo. eles ficam lá, parados, como se fossem explodir caso desrespeitassem a regra.
pior ainda… quando o sinal abre, eles andam lentamente, olhando para os lados como se estivessem atravessando um campo minado. enquanto isso, os nova-iorquinos já atravessaram duas ruas e pediram um café no starbucks.
25. o preço de um café ruim em times square
se você acha que 12 dólares por um hot dog é um crime, espere até pedir um café na times square.
não estamos falando de um café artesanal, moído na hora, servido por um barista que faz desenhos sofisticados na espuma do seu latte. não. estamos falando de um copo de café comum, ralo, que tem gosto de água quente com um leve toque de depressão.
e o preço? 6 dólares.
e se você pedir um cappuccino? parabéns, agora estamos na faixa dos 9 dólares. um espresso? mínimo de 5. e claro, se você cometer o erro de pedir leite de amêndoa, eles vão te cobrar um extra porque, aparentemente, leite alternativo é um luxo digno da realeza.
26. os pedestres que decidem parar e abrir um mapa no meio da calçada
não importa o quão avançada esteja a tecnologia, sempre haverá turistas em times square que param no meio da rua, abrem um mapa de papel do tamanho de um lençol e começam a girá-lo desesperadamente, tentando entender onde estão.
esse movimento provoca um fenômeno fascinante: o efeito dominó do ódio.
um nova-iorquino esbarra neles e pragueja. outro desvia abruptamente e quase derruba alguém. um entregador de comida bufa enquanto passa por cima da calçada para escapar.
e o turista ali, impassível, analisando o mapa como se estivesse tentando decifrar os hieróglifos de uma tumba egípcia.
27. as lojas de eletrônicos que são um golpe descarado
essas lojas são fáceis de reconhecer… vitrines cheias de celulares, fones de ouvido e câmeras, sempre anunciando “PROMOÇÃO! 90% DE DESCONTO!”
parece bom demais para ser verdade? é porque é um golpe.
o truque é simples. você entra, escolhe um item com preço aparentemente baixo, vai até o caixa e… surpresa! o desconto só vale se você comprar uma garantia extra ou um acessório superfaturado.
se recusar, eles mudam o preço na hora. e quando você percebe, já pagou três vezes o valor normal por um carregador que não funciona.
28. o preço criminoso da água engarrafada
andar em times square pode dar sede. e aí você vê um vendedor ambulante, pensa “vou só pegar uma garrafinha d’água”.
aí vem o assalto… 5 dólares.
cinco dólares por água. por algo que literalmente cai do céu.
mas você está suado, cansado, desesperado. você paga. e quando dá o primeiro gole, percebe que a garrafa estava no sol o dia inteiro e a água está quente o suficiente para fazer chá.
29. os músicos que tocam a mesma maldita música sempre
há músicos incríveis espalhados por nova york. nenhum deles está em times square.
o que temos ali são artistas que tocam a mesma música repetidamente, dia após dia, esperando que turistas ingênuos joguem dinheiro no chapéu.
o repertório?
1. empire state of mind (claro)
2. new york, new york (frank sinatra, óbvio)
3. qualquer coisa do elton john, porque aparentemente “rocket man” combina com um cruzamento caótico e barulhento
se você for azarado, pode pegar um daqueles caras que tentam improvisar e começam a cantar sobre você. “hey, lady in the red dress, walking down the street!” e pronto. agora você está forçada a interagir e, no final, pressionada a dar uma gorjeta.
30. o preço absurdo para usar um banheiro decente
em qualquer outro lugar de nova york, você pode entrar em um café, comprar um café barato e usar o banheiro sem problemas. mas em times square, usar um banheiro decente é um privilégio para poucos.
opção 1: os banheiros públicos, que são um pesadelo. filas gigantescas, cheiro de guerra química e uma porta que provavelmente não fecha direito. opção 2: entrar em um starbucks e implorar para usá-lo sem comprar nada, o que provavelmente vai te render um olhar de ódio do funcionário exausto. opção 3: pagar. sim, pagar. há banheiros pagos que cobram 2 ou 3 dólares para te dar o direito básico de não explodir em público.
conclusão: times square é um culto e você é o sacrifício
times square não é um destino. é um golpe. é um espetáculo distorcido de luzes piscantes e promessas vazias. é um laboratório de experiências ruins onde tudo custa mais do que deveria, tudo demora mais do que o necessário, e tudo te deixa com a sensação de que você acabou de ser enganado. é um shopping center sem teto, um cassino sem fichas, um zoológico de gente perdida esbarrando umas nas outras sem saber por quê.
nada ali é real. os restaurantes são redes genéricas que servem comida congelada a preços de restaurante cinco estrelas. as lojas vendem produtos que você pode encontrar em qualquer outro lugar da cidade por um terço do preço. os artistas de rua são golpistas disfarçados. os turistas andam como se nunca tivessem usado as pernas antes. os influenciadores dançam no meio do trânsito, prontos para serem atropelados por um táxi que já desistiu de tentar escapar do inferno.
times square é uma experiência sensorial de frustração, calor humano indesejado e preços extorsivos. é um buraco negro de autenticidade, um lugar que promete algo incrível, mas só entrega fila, buzina e arrependimento.
mas… se você nunca foi, vá.
vá e veja com seus próprios olhos. caminhe entre a multidão lenta, respire o cheiro de pretzel queimado e suor de turista, tente atravessar a rua sem enlouquecer. tire sua foto na frente de um painel de neon que não significa nada. compre um souvenir superfaturado que você nunca vai usar. pague caro por um hambúrguer ruim e fique preso no trânsito dentro de um táxi bufando de ódio.
acabei de ler dez dias que abalaram o mundo, de john reed. e agora estou aqui, olhando para o teto, tentando decidir se acabo de testemunhar um épico revolucionário ou a mais bem escrita carta de amor a uma ilusão. porque reed não só narra a revolução bolchevique… ele a vive, a respira, a devora com uma fome insaciável de história e heroísmo. ele corre por petrogrado como um maníaco com um caderninho, anotando cada discurso, cada barricada, cada grito de ordem como se fosse o evangelho de um novo mundo. um mundo sem patrões, sem exploração, sem injustiça. soa lindo, não? até que a realidade chega chutando a porta e lembrando que toda revolução começa com promessas e termina com uma fila de gente esfarrapada esperando pão, sob a mira de um fuzil.
porque o que reed descreve é eletrizante, sim. petrogrado em outubro de 1917 é um caos em estado puro, uma ópera revolucionária onde operários largam as máquinas, soldados desertam em massa e os bolcheviques, aqueles caras de olhar vidrado e discurso afiado, tomam o poder prometendo que agora, agora sim, o povo está no comando. e reed acredita em cada palavra. ele não é um jornalista, ele é um missionário. lenin e trotsky são seus santos, os sovietes, sua igreja. e a revolução? a salvação.
e eu? eu leio isso tudo com um misto de fascínio e desconfiança. porque a gente já viu esse filme antes, e continua vendo, só que agora com redes sociais, hashtags e influencers de apartamento fingindo que entendem de luta de classes. reed vende a revolução como um espetáculo, e não o culpo. nos primeiros dias, tudo parece grandioso, o palácio de inverno tomado, os ministros do governo provisório presos como ratos em um porão, os sovietes se espalhando como uma febre. parece o triunfo definitivo dos oprimidos. mas revoluções são traiçoeiras. começam com a promessa de liberdade e acabam com uma nova casta no poder, um novo czar, só que agora com um manual marxista na mão e uma polícia secreta mais eficiente.
reed não viveu para ver o que aconteceu depois. morreu jovem, enterrado com honras na muralha do kremlin, enquanto o paraíso proletário se transformava num estado paranoico, onde qualquer um poderia desaparecer no meio da noite por um “desvio ideológico”. a revolução que ele testemunhou foi só o primeiro ato de um espetáculo longo e sangrento. e, no entanto, ele acreditava. acreditava tanto que sua paixão transborda das páginas e faz a gente quase querer acreditar também. quase.
porque a verdade é que dez dias podem mudar o mundo, sim. mas e os anos depois? e os corpos empilhados? e os sonhos despedaçados? essa parte reed não escreveu. e talvez seja por isso que sua história continua tão poderosa, porque ainda queremos acreditar que, de alguma forma, da próxima vez, vai ser diferente.
mas não é diferente. nunca é. porque, por mais que mudemos os nomes, os slogans, as bandeiras, a estrutura do espetáculo continua a mesma. trocamos czar por secretário-geral, depois por presidente vitalício, depois por um CEO de big tech que promete um futuro brilhante enquanto mina os direitos trabalhistas por trás da cortina de néon do progresso. a revolução, nos dias de hoje, não acontece mais nas ruas de petrogrado, ela acontece em threads no x, em vídeos no tiktok, em discursos inflamados no youtube, onde jovens empolgados, que nunca passaram fome e nunca seguraram uma ferramenta de verdade, falam sobre “derrubar o sistema” com um iphone na mão e um starbucks do lado.
reed, se estivesse vivo, teria um milhão de seguidores e seria adorado por metade da internet e odiado pela outra. ele estaria lá, transmitindo direto da linha de frente de alguma nova insurreição, seja em caracas, em hong kong, em porto príncipe, postando fotos borradas de barricadas e tanques na rua, contando histórias de operários insurgentes com a mesma paixão que usou para narrar petrogrado. e, claro, haveria quem o chamasse de vendido, de ingênuo, de idiota útil. porque hoje a revolução não é só armada, é digital. e cada um escolhe a sua trincheira baseado no algoritmo e a bolha que está inserido.
mas, no fim das contas, a questão continua a mesma… quem está realmente no comando? quem realmente ganha quando o sistema cai? porque, assim como em 1917, os discursos podem ser sobre o povo, sobre justiça, sobre um futuro brilhante… mas, em algum lugar, há um pequeno grupo de homens planejando como reorganizar o jogo para que eles continuem no topo. os bolcheviques fizeram isso quando tomaram o poder. as grandes corporações fazem isso quando dizem que querem um mundo mais inclusivo enquanto exploram mão de obra no sudeste asiático. os políticos fazem isso quando dizem lutar pela democracia enquanto assinam acordos que garantem que tudo fique exatamente como está.
dez dias podem mudar o mundo, mas e o décimo primeiro? e o centésimo? e o milésimo? é aí que a poeira assenta, os heróis se tornam burocratas e os sonhos revolucionários viram propaganda estatal. é aí que petrogrado vira moscou, que esperança vira controle, que liberdade vira vigilância. e nós? continuamos esperando pela próxima revolução, como se desta vez fosse ser diferente. como se desta vez a história não fosse se repetir. como se desta vez, finalmente, o povo fosse vencer.
mas a história ri da nossa ingenuidade. sempre riu.
videogames. tentei. porra, eu tentei. liguei a máquina, peguei o controle, me preparei para ser tragado para essa maravilha tecnológica onde tudo é possível, onde mundos inteiros se dobram à minha vontade, onde cada detalhe foi meticulosamente projetado para sugar minha alma e me manter engajado como um rato pressionando alavancas por um torrão de açúcar. quinze minutos depois, eu queria morrer de tédio.
talvez o problema seja eu. talvez eu tenha perdido alguma coisa, algum gene da modernidade que faz as pessoas ficarem obcecadas com esse troço. ou talvez o problema seja o fato de que videogames, assim como fast food e redes sociais, foram projetados para te viciar sem te dar nada de verdade em troca. uma dose cuidadosamente medida de dopamina a cada “missão cumprida”, cada “nível alcançado”, cada pequena recompensa que mantém seu cérebro feliz enquanto suas horas desaparecem no ralo.
mas eu não sou rato de laboratório. não preciso que me deem estrelinhas douradas por apertar botões na sequência certa. então desliguei aquela merda e voltei para o que realmente me relaxa… escrever. porque escrever não me dá pontos, não me elogia, não me faz sentir um vencedor só por ter existido. escrever me enfrenta. me desafia. me olha na cara e pergunta: “é só isso que você tem?”
e talvez seja exatamente isso que falta nos videogames modernos. risco. imprevisibilidade. o cheiro de sangue na água. hoje, tudo é calibrado para ser seguro, acessível, para que ninguém fique frustrado, para que todos sintam que estão indo bem. um grande parque de diversões digital onde todo mundo ganha, onde tudo é um espetáculo de luzes e barulhos que mascaram o fato de que, no fim, você não fez nada. não aprendeu nada. não conquistou nada.
eu sei que tem jogos incríveis por aí, que para muita gente isso é arte, um refúgio, um escape válido. beleza, sem ressentimentos. mas para mim? quinze minutos e já estava de saco cheio. talvez porque prefira criar meu próprio mundo a vagar por um que alguém já desenhou para mim. talvez porque precise da frustração de uma página em branco, do risco real de falhar, da liberdade absoluta que só existe onde não há regras.
ou talvez porque eu simplesmente não tenha paciência para perder tempo com besteira.
já escrever me fode. me arrasta pelo chão, me esmurra, me faz duvidar de cada palavra que sai da minha cabeça. não tem botão de reset, não tem checkpoint, não tem mecânica de recompensa para me fazer continuar. tem só eu, uma página vazia e a pergunta incômoda… isso aqui presta? isso aqui vale alguma coisa? isso aqui sangra o suficiente para ser real?
e é exatamente por isso que eu escrevo. porque não há atalhos. não há sistema projetado para me fazer sentir bem o tempo todo. escrever é sujo, difícil, ingrato. é cavar fundo e encontrar coisas que eu preferia deixar enterradas. é falhar, reescrever, detestar tudo, jogar fora e começar de novo.
mas quando funciona… quando uma frase estala como um golpe preciso, quando uma ideia se encaixa como se sempre estivesse ali esperando para ser escrita… nada se compara. não existe recompensa digital que se equipare a essa sensação. não há “achievement unlocked” que chegue perto do momento em que você olha para algo que acabou de escrever e pensa: “porra, isso aqui tem vida.”
e é isso que me vicia. não o conforto, mas o desconforto. não a certeza, mas a dúvida. não a segurança de um caminho pré-definido, mas a luta constante contra o vazio, contra a mediocridade, contra a tentação de escrever qualquer coisa só para preencher espaço.
o bom é bom para sempre. um relógio suíço de verdade continua funcionando depois de cem anos, enquanto seu smartwatch morre depois de três. um porsche 911 de 1973 ainda arranca suspiros e respeito, enquanto SUVs genéricos vêm e vão como itens de liquidação. “casablanca” ainda dá uma surra em qualquer blockbuster multimilionário cheio de CGI e diálogos escritos por comitê. “dark side of the moon” segue impecável, enquanto álbuns que bateram recordes de streaming hoje serão esquecidos na semana que vem.
mas aí vem a turma da modernidade, os entusiastas da obsolescência programada, os apóstolos do efêmero, tentando te convencer de que tudo precisa ser substituído o tempo todo. que o vinil é ultrapassado, que um livro físico é tralha, que seu carro antigo não tem “conectividade” e que um filme preto e branco é “lento demais”. essa gente que troca substância por novidade, que acha que um remix genérico melhora uma música que já era perfeita, que acredita que um aplicativo faz melhor o que um simples caderno já resolvia há séculos.
mas a verdade sempre vem. no silêncio da madrugada, um “blade runner” envelhece como vinho enquanto os efeitos visuais da moda já parecem toscos. um riff do led zeppelin ainda arrepia, enquanto a última tendência musical já soa como trilha sonora de elevador. uma velha leica ainda captura a alma de uma cena melhor do que qualquer câmera cheia de firulas digitais.
o bom é bom para sempre. e o resto? bem, o resto é só ruído branco para distrair quem tem medo do tempo.
“inundar a zona”, é assim que chamam. jogue tanta coisa ao mesmo tempo que ninguém consiga focar em nada. transforme o noticiário em um carnaval de manchetes histéricas, uma enxurrada de absurdos, um verdadeiro tiroteio de escândalos. enquanto as pessoas tentam entender o que está acontecendo, você já passou para o próximo golpe. não se trata de esconder, isso é antiquado. o truque agora é mostrar tudo, de uma vez, até que a mente coletiva simplesmente desligue.
e funciona. funciona porque ninguém aguenta viver em estado de choque permanente. um dia, um decreto absurdo. no outro, uma medida draconiana. na quarta-feira, um ataque às instituições. na quinta, uma briga fabricada para desviar a atenção. no sábado, um novo inimigo inventado. e na segunda, começamos tudo de novo. até que a indignação vire cansaço, até que a população, mesmo informada, esteja exausta demais para reagir.
e quando alguém ousa perguntar… “mas como isso foi acontecer?” a resposta é um encolher de ombros coletivo. porque depois de semanas, meses, anos nesse jogo sujo, tudo começa a parecer normal. ignorar leis? normal. reescrever regras? normal. reverter direitos? normal. até que um dia, sem perceber, as pessoas acordam em um mundo que jamais teriam aceitado no passado, mas que hoje já não têm forças para questionar. e quem provocou tudo isso? segue tranquilo, sem pressa, pronto para jogar mais um balde de caos na próxima rodada.