há algo de profundamente exaustivo, quase claustrofóbico, em lidar com pessoas animadas demais. sabe do que estou falando, né? aquelas criaturas que parecem ter acordado após um banho de glitter, cheirado um balde de açúcar e decidido que a vida delas é um comercial de iogurte grego. elas são o equivalente humano de uma bomba de confete: barulhentas, pegajosas e impossíveis de ignorar. tudo é “amazing”, “incrível”, “uau”. como se o simples fato de estarmos respirando fosse digno de uma parada de carnaval.
é como dividir espaço com uma personagem de série ruim da netflix, onde todos os problemas podem ser resolvidos com “positividade” e um copo de matcha latte. sabe o que cansa? essa demanda constante de reciprocidade. porque, ao lado delas, você automaticamente se torna o cínico, o “de mal com a vida”. o problema nunca é o mundo, é você. “você só precisa mudar sua perspectiva!”, dizem elas, com um sorriso que parece fisicamente doloroso. não, minha querida. o problema não sou eu. o problema é que você está agindo como se tivesse descoberto a cura para o tédio existencial, quando claramente só está fugindo dele com toda essa efervescência insuportável.
não me entenda mal. eu não sou contra alegria. quem sou eu para negar a alguém o direito de ser feliz? mas essa felicidade performática, essa necessidade de empurrar sua euforia goela abaixo do resto da humanidade, isso me faz querer abrir um buraco na terra e me esconder. porque, vamos ser sinceros, ninguém é tão feliz assim. e, se for, isso me faz desconfiar seriamente do seu equilíbrio emocional.
às vezes, tudo o que eu quero é sentar em silêncio. contemplar a existência com um pouco de melancolia, talvez uma taça de vinho tinto. mas não. lá vem a tropa de choque do “vibe positiva” com suas frases de almanaque: “você só vive uma vez”, “pense no lado bom”. honestamente? o lado bom da vida é que essas pessoas, eventualmente, vão embora. e eu vou poder voltar a ser um ser humano funcional, sem me sentir um Grinch por simplesmente não querer participar do circo delas.
então, não, não sou “negativo”. eu só prefiro viver num tom menos ensurdecedor. e, se isso faz de mim um insuportável, que assim seja.
me sento num café como quem ocupa um trono improvisado numa ópera barata. não um desses cafés meticulosamente planejados pra parecerem autênticos, com menus escritos à mão e plantas estrategicamente colocadas como se tivessem crescido ali por acidente. não, eu escolho aqueles lugares honestos, quase feios, onde o café tem gosto de mágoa e a mobília parece ter sobrevivido a uma guerra – mas mal. o tipo de lugar onde os donos desistiram de fingir que se importam. e eu? eu me sento, com minha xícara de café amargo e frio, e começo meu esporte favorito: dissecar as vidas das pessoas ao meu redor, transformando-as em personagens de histórias que elas nunca vão saber que existiram.
começo pelo homem de terno cinza, sentado sozinho, com uma pasta de couro que parece pesada demais para ele carregar. ele não está tomando café, mas whisky. às dez da manhã. na minha cabeça, ele é um advogado de segunda categoria que aceitou um trabalho que nunca deveria ter aceitado. algo sujo, envolvendo políticos e dinheiro vindo de lugares onde ninguém fala inglês. agora, ele está pagando o preço. literalmente. aquele homem de jaqueta preta no balcão? não está lá por coincidência. ele é uma sombra. um aviso. o advogado sabe que sua vida vale menos do que os números nos cheques que assinou. ele toma o whisky devagar, tentando decidir se pega o trem para casa ou foge para um país sem tratado de extradição.
na mesa perto da janela, uma mulher com um casaco vermelho, elegante, mas discreto. ela mexe no chá, mas não bebe. só olha para ele, como se estivesse esperando que algo acontecesse. ela carrega uma bolsa pequena, tão surrada quanto o café em que estamos. na minha versão, ela é uma ladra. não daquelas que invadem bancos ou casas de milionários, mas uma especialista em furtos quase imperceptíveis. carteiras, relógios, um colar que escorrega do pescoço de uma vítima desatenta. ela tem um olhar clínico, analisa o ambiente como um jogador de xadrez. mas hoje algo está errado. ela está hesitante. talvez tenha cruzado a linha com alguém que não deveria, talvez tenha roubado a pessoa errada. e agora, está esperando. pelo quê, ela não sabe. talvez uma saída. talvez um perdão que nunca vai chegar.
e aquele casal no fundo, tão quieto que quase desaparece no cenário? ele, com o rosto marcado pelo tempo, mãos calejadas, e ela, com olhos que parecem ter chorado muito mais do que deveriam. eles não dizem uma palavra, mas a tensão entre eles é palpável. na minha história, eles são cúmplices de um crime. algo terrível, algo que começou como uma solução fácil e se transformou em um pesadelo. talvez um assalto que deu errado. ou talvez algo mais sombrio. um corpo que eles não queriam matar, mas mataram mesmo assim. agora, estão presos um ao outro, ligados pelo tipo de segredo que corrói por dentro. eles não confiam mais um no outro, mas também não têm ninguém além de si mesmos. ela mexe no anel de casamento como se fosse uma algema. ele olha para a porta como se esperasse a polícia a qualquer momento.
o barista, claro, é outra peça desse tabuleiro. jovem, tatuagens nos braços, um bigode que provavelmente consome metade do salário mínimo em manutenção. mas o olhar dele não é blasé como os de outros baristas pretensiosos. é agudo, atento. ele está prestando atenção em tudo e todos, como um diretor de cinema capturando cada movimento da cena. na minha versão, ele não é só um barista. ele trabalha para alguém. um chefão do submundo, talvez. cada café que ele serve é um código. um “americano duplo” pode significar que a entrega chegou. um “cappuccino sem espuma”? um alerta de que algo deu errado. ele anota os pedidos num caderno que parece inofensivo, mas é um mapa das operações clandestinas que acontecem sob o nariz de todos.
e os turistas? sempre há turistas. um homem de meia-idade, camisa polo, e uma câmera pendurada no pescoço como uma coleira. sua esposa, com um sorriso nervoso e roupas que claramente foram escolhidas para parecer “descontraídas”. mas eles não estão ali para ver a cidade. não realmente. na minha história, ele é um investigador privado contratado para seguir alguém. talvez um político infiel, talvez um empresário que está escondendo dinheiro. mas ele é ruim no que faz. visível demais. ela, por outro lado, é quem realmente está no comando. enquanto ele tira fotos desajeitadas, ela observa os alvos, faz anotações mentais, corrige seus erros. eles são um time, mas não um bom. e eles sabem disso.
e eu? fico ali, no canto, com meu café amargo e frio, observando o desfile. porque, sejamos honestos, o homem de terno cinza não é nenhum advogado corrupto lutando contra o peso dos pecados; ele provavelmente só perdeu o emprego e está esperando o bar abrir. a mulher de casaco vermelho não é uma ladra com dedos leves, é só alguém que gosta de parecer misteriosa enquanto decide se pede mais chá ou sai para fumar um cigarro. as pessoas são assim, sempre menos interessantes do que parecem. mas é aí que entro.
sem mim, o barista não passa de um cara entediado que odeia seu trabalho. e os turistas? bem, eles continuam sendo turistas, nada pode salvar turistas. mas na minha versão, eles têm camadas, conflitos, segredos. na minha versão, o mundo é mais cruel, mais bonito, mais verdadeiro.
porque, no final das contas, a verdade é tediosa. ninguém quer saber que o homem no canto só está esperando um telefonema que não vai chegar. querem drama, sangue, conspirações. e eu dou isso a eles, pelo menos na minha cabeça. não porque eles mereçam, mas porque alguém tem que transformar esse mundo em algo que preste.
o tempo, esse desgraçado invisível, virou uma espécie de deus moderno. todo mundo quer controlá-lo, economizá-lo, espremer cada segundo como se fosse o último gole de uma garrafa de vinho ruim. estamos obcecados, movidos por calendários digitais, agendas lotadas e aquele maldito senso de urgência que nos consome desde o momento em que abrimos os olhos. mas para quê? para chegar onde? para comprar mais lixo que vamos esquecer no fundo de uma gaveta?
e aí, no meio dessa balbúrdia, aparecem algumas marcas – poucas, quase extintas – que têm a ousadia de fazer o que ninguém mais faz: ignorar essa corrida idiota contra o tempo. elas não estão preocupadas com prazos impossíveis ou com a próxima tendência idiota que vai morrer antes do fim do mês. essas marcas fazem o que é raro, o que é quase revolucionário: respeitam o tempo. e, ao fazer isso, nos mostram que talvez a verdadeira elegância esteja em desacelerar e, deus me livre dizer isso, esperar.
não é só sobre qualidade, embora isso seja parte do charme. é sobre a história que cada peça carrega. é sobre entender que um bom produto – seja um casaco, uma bolsa, uma faca, ou um par de botas – não precisa ser reinventado a cada temporada. ele só precisa ser feito para durar, para resistir, para melhorar com a idade, como um bom queijo ou um bom whisky. essas marcas não estão aqui para te dar o que você quer agora. elas estão aqui para te dar algo que você ainda vai querer daqui a 20 anos.
e é aí que está a mágica: elas respeitam o processo. o couro é curtido como se fosse um ritual sagrado, não uma linha de produção que corre para atender a demanda do próximo natal. as costuras são feitas com mãos humanas, não máquinas frenéticas que tratam cada peça como um clone sem alma. não tem atalho, não tem pressa. cada passo importa, cada detalhe é pensado. e o resultado? algo que desafia o tempo, que te lembra que as melhores coisas da vida são aquelas que se recusam a ser efêmeras.
essas marcas são um dedo do meio levantado para a sociedade da pressa. elas não te dizem para correr mais rápido ou consumir mais rápido. elas te desafiam a parar. a pensar. a investir em algo que vai durar. porque, no final, o que vale mais? ter uma pilha de coisas baratas e esquecíveis ou um único item que carrega anos de história, suor e dedicação?
então, sim, talvez seja hora de revermos nossas prioridades. de pararmos de glorificar essa vida acelerada e começarmos a apreciar o valor do tempo bem gasto, seja ele em uma boa conversa, em uma refeição feita com amor, ou em algo tão simples quanto uma peça que foi criada para te acompanhar por toda a vida. porque o verdadeiro luxo, o único que realmente importa, é aquele que te faz lembrar que o tempo não é o inimigo. o inimigo somos nós, desperdiçando-o com pressa e mediocridade.
odeio o que fizeram com o café. odeio com uma intensidade quase poética, como quem observa a queda de um império antigo. o café, aquela bebida universal, o combustível da humanidade, foi sequestrado, mutilado, e transformado numa aberração moderna. não é mais sobre o sabor, o ritual, ou a necessidade de sobreviver ao dia. agora é sobre status, branding e frases idiotas como “triple shot oat milk macchiato”. sabe o que eu quero? um café que te olhe nos olhos e diga: “vai ser um dia difícil, mas aqui está minha contribuição.”
então, claro, temos o starbucks, a grande catedral dessa nova religião cafeeira. lá, o café não é uma bebida; é um espetáculo, uma identidade. você não está comprando café, está comprando a ideia de que pertence a uma tribo global, onde todos seguram aquele copinho verde com a sereia e acham que isso os torna interessantes. e o café? ah, sim, o café. uma poça de líquido carbonizado disfarçada por xarope de baunilha, montanhas de chantilly e calda de chocolate. tudo isso servido em um copo de papel que não só é desconfortável, mas parece ter sido projetado para vazar exatamente na hora em que você dá o primeiro gole. sofisticação? por favor.
mas o problema não para aí. vivemos na era da “gourmetização”, onde o café foi transformado em algo que exige um diploma em ciências sensoriais para ser apreciado. “notas de damasco com um final cítrico e corpo médio.” quem inventou essa palhaçada? café não tem corpo médio. tem corpo robusto e amargo, do tipo que te lembra que está vivo. e não, eu não quero que meu grão tenha sido “processado naturalmente por camponeses em altitude”. eu quero que ele tenha sido torrado até a alma e moído por alguém que sabe o que está fazendo. café é brutalidade líquida, não um passeio aromático por um pomar tropical.
e aí vem o show das cafeteiras. essas máquinas brilhantes, com painéis digitais que parecem saídos de um laboratório da NASA. elas prometem “a xícara perfeita” enquanto cobram o preço de uma pequena viagem internacional. ah, mas elas têm wi-fi! porque, claro, você precisa que sua cafeteira esteja conectada à internet. quem sabe ela envie uma notificação avisando que o café está pronto, como se o cheiro inconfundível não fosse suficiente. mas o que eu realmente quero é uma moka. aquela peça velha e confiável de alumínio que faz café com a mesma eficiência de um soco no estômago. simples, direta e sem nenhuma pretensão de ser mais do que é.
mas sabe o que mais me irrita? nós aceitamos isso. abraçamos o café descartável, a pressa, a superficialidade. trocamos a xícara de porcelana – sólida, aconchegante, quase sagrada – por um copo de papel que mal se segura. porque estamos sempre com pressa, sempre correndo, sempre “pra viagem”. e com isso perdemos a essência do café: o momento. o ato de sentar, respirar, e deixar o mundo desacelerar por um instante. café era um ritual. agora é só mais uma coisa que você consome enquanto responde e-mails e tenta fingir que tem controle sobre sua vida.
mas o café de verdade ainda existe. ele está escondido em cantos modestos, feito por mãos que não ligam para tendências ou grãos exóticos. está na garrafa térmica amassada de um caminhoneiro, na cozinha de uma avó, ou na xícara de quem ainda entende que café não precisa de firulas. precisa ser quente, forte e honesto. o resto? o resto é só espuma – e não, eu também não quero chantilly.
meu personagem favorito do charlie brown? fácil: linus. porque ele é o único naquela bagunça filosófica que realmente tenta fazer sentido do caos, enquanto todos os outros estão ocupados com seus próprios pequenos dramas patéticos. ele é o tipo de cara que aparece na sua festa com um cobertor de segurança e, de alguma forma, ainda sai como o mais sensato da sala. isso, claro, diz mais sobre os outros do que sobre ele.
linus é basicamente o hippie existencialista preso no meio de um sitcom de crianças neuróticas. ele carrega um cobertor – um cobertor, pelo amor de deus – como se fosse uma espécie de totem da sua sanidade. e aí você percebe: todo mundo tem seu cobertor, só que o dele é visível. snoopy tem fantasias de ser um ás de guerra (surreal e patético). lucy tem aquele senso inflado de superioridade que é basicamente uma armadilha emocional ambulante. e charlie brown… bem, charlie brown é uma ode viva ao fracasso. mas linus? ele é honesto sobre suas inseguranças, enquanto os outros fingem estar bem.
o mais brilhante em linus é que ele equilibra o ceticismo com uma boa dose de crença cega no great pumpkin. ele acredita no improvável, no impossível, como se fosse algum tipo de santo infantil. mas não é a fé que faz dele fascinante – é a coragem de manter essa crença mesmo sabendo, lá no fundo, que é tudo um grande teatro ridículo. e, claro, é um teatro. o mundo é uma piada cósmica, e linus está lá, no meio da plateia, rindo baixinho enquanto mantém seu cobertor apertado.
ele é o tipo de personagem que você olha e pensa: “esse moleque vai crescer e virar professor de filosofia em alguma universidade obscura.” ou talvez um escritor de manifestos que ninguém lê, exceto alguns poucos lunáticos que o consideram um gênio. ele é um outsider, mas não porque quer ser. ele só é esperto demais para se misturar e honesto demais para fingir que se importa.
então, sim, linus é meu personagem favorito. porque, no final das contas, ele é o mais humano de todos. cheio de contradições, esperanças absurdas e uma consciência dolorosa de que o mundo é um lugar frio e, ao mesmo tempo, cheio de possibilidades. além disso, ele tem o bom senso de carregar um cobertor para quando tudo der errado – o que, convenhamos, sempre dá.
tradições. eu as odeio e as amo com a mesma intensidade com que as pessoas comem peru seco no natal fingindo gostar. elas são ao mesmo tempo âncora e combustível, um lembrete insuportável do que já fomos e um grilhão que nos impede de seguir em frente. são como aquela cicatriz antiga: uma prova de sobrevivência, mas também uma lembrança de dor que você gostaria de esquecer. eu tento fugir delas, mas, de alguma forma, sempre volto rastejando. porque, no fundo, tradições são o que nos torna humanos. e também o que nos mantém miseravelmente presos à nossa própria estupidez.
vamos ser claros: tradições são, em sua essência, uma teimosia institucionalizada. o mundo muda, as pessoas mudam, tudo ao nosso redor está em constante transformação. mas lá estão elas, as tradições, com seus dedos ossudos agarrados ao “sempre fizemos assim”. é o grito de guerra dos medrosos, dos conformados, de quem prefere repetir o passado em vez de arriscar o desconhecido. “mas é tradição!” eles dizem, como se isso fosse uma justificativa. não é. é só a desculpa preguiçosa de quem tem medo de pensar, de evoluir, de admitir que talvez o que funciona para uns não funcione mais para outros.
e, mesmo assim, não consigo abandoná-las. porque, no fundo, tradições também têm um quê de poesia. aquele jantar de família que acontece todo ano, mesmo que seja sempre o mesmo desastre. as brigas, as risadas forçadas, o vinho barato, a comida que não sai como planejado. tudo isso é uma bagunça, mas é a nossa bagunça. é aquele momento em que, por mais torto que seja, você sente que pertence a algo maior, mesmo que esse “algo maior” seja só um grupo de pessoas malucas tentando não se matar antes da sobremesa.
mas o problema é que nem todas as tradições têm essa graça. algumas são só pesos mortos. relíquias mofadas de um passado que já devia ter sido esquecido. tradições que perpetuam preconceitos, que oprimem, que dizem às pessoas como viver, como amar, como existir. essas, eu quero ver queimadas. tradições que dizem às mulheres que lugar de respeito é longe do poder. que dizem aos homens que sentir é fraqueza. que transformam diversidade em ameaça. essas eu quero enterrar, e nem me dou ao trabalho de fazer um funeral bonito.
a verdade é que tradições são uma faca de dois gumes. elas podem nos conectar, nos dar propósito, nos lembrar de onde viemos. mas também podem nos acorrentar, nos impedir de evoluir, nos obrigar a carregar o peso de ideias que já deviam estar mortas e enterradas. a questão é simples: o que vale a pena manter e o que precisa ser destruído?
e aqui está a parte que realmente importa: tradições boas não são estáticas. elas evoluem, se adaptam, se tornam algo maior do que eram. a receita da sua avó pode ganhar novos ingredientes, novos significados. o ritual pode mudar, mas o espírito continua. é isso que faz uma tradição ser viva, relevante. o resto é só entulho emocional.
então, sim, eu odeio tradições. e as defendo. porque elas são um espelho distorcido da humanidade. mostram o melhor e o pior de nós. e talvez seja por isso que, apesar de tudo, eu não consigo largá-las. porque, no final das contas, elas são a cola que mantém tudo junto. mesmo que, às vezes, seja uma cola ruim, cheia de rachaduras.
então aqui vai meu brinde ao ano novo: que a gente saiba o que vale a pena guardar. e que tenha coragem de jogar fora todo o resto. porque o mundo muda. e nós também deveríamos.
a verdade nua e crua é que o mundo ao nosso redor, tudo o que você ama ou odeia, foi feito por pessoas comuns. não gênios, não deuses. pessoas normais. gente cheia de medos, dúvidas, dívidas e, muitas vezes, bêbada ou desesperada. o hambúrguer que você idolatra? criado por alguém que provavelmente tinha a mesma inteligência emocional de um tijolo e só queria pagar as contas. aquele filme que você acha que mudou sua vida? um chute no escuro, reescrito tantas vezes que o roteirista nem sabia mais o que estava fazendo. o prédio onde você vive? uma ideia de alguém que, com sorte, não era incompetente demais pra calcular o peso das vigas.
e ainda assim, essas pessoas fizeram. é isso que me fascina e me dá raiva ao mesmo tempo. elas fizeram. e você? você está aí, sentado, olhando para o mundo como se precisasse de uma permissão oficial pra começar algo. como se houvesse um comitê divino aprovando quem pode ou não criar algo significativo. odeio te dizer isso, mas não há comitê. não há gatekeepers. o que há são pessoas que fizeram porque decidiram fazer. ponto final.
e aqui está a coisa que realmente me dá nos nervos: você sabe disso. você sabe que ninguém que fez algo incrível começou sabendo o que estava fazendo. ninguém. todo mundo começou como um amador, tropeçando, falhando, aprendendo no processo. mas, de alguma forma, você ainda se convence de que não é o momento certo. como se o universo fosse parar de girar e alinhar todas as peças só pra você.
deixa eu ser claro. o universo não liga. ele nunca ligou. o mundo é cheio de gente tentando, falhando e, às vezes, acertando. e, enquanto isso, você fica sentado, acumulando desculpas. “não tenho tempo”. “não sou bom o suficiente”. “não tenho dinheiro”. e a minha favorita, “já tem gente fazendo isso”. claro que tem. sempre vai ter. mas quer saber? ninguém vai fazer do jeito que você faria.
o que me mata é como você consegue romantizar tanto o medo de começar. porque é isso que é, não é? medo de falhar, de parecer idiota, de descobrir que você não é tão especial assim. deixa eu quebrar essa ilusão pra você: você vai falhar. você vai parecer idiota. e, com sorte, você vai aprender alguma coisa com isso.
sabe o que é pior do que falhar? nada. absolutamente nada. a inação é o verdadeiro fracasso. ficar parado, assistindo o mundo girar, esperando por um momento mágico que nunca vai chegar. porque enquanto você está aí, sonhando com o que poderia ser, alguém está fazendo. não porque é mais talentoso ou inteligente que você, mas porque decidiu agir.
e essas promessas de ano novo? uma piada de mau gosto. “em 2025 eu vou…” vai nada. você sabe disso. promessas de ano novo são só uma maneira bonita de adiar o inevitável. é como comprar um bilhete de loteria emocional. você acha que está investindo em algo, mas no fundo sabe que nunca vai dar em nada.
seja honesto. o que realmente te impede? porque não é a falta de tempo, talento ou recursos. é você. é a sua mentalidade. é o medo paralisante de descobrir que você não é tão bom quanto achava. mas aqui está a grande ironia: ninguém é. ninguém começa bom. ninguém começa pronto. mas o que diferencia quem faz e quem não faz é simples. aqueles que fazem têm coragem de começar, mesmo sabendo que podem fracassar.
então, por que não? por que não fazer algo? algo que te assuste, que te desafie, que seja seu. porque, no final das contas, é melhor ser lembrado por algo imperfeito do que ser completamente esquecido por não ter feito nada. a vida não é um ensaio. é agora ou nunca. e a pergunta que você deveria se fazer não é “será que eu consigo?”. é “o que diabos estou esperando?”.
ah, os livros de autoajuda. esses monumentos ao pensamento fast-food. a cura de bolso para tudo o que não presta na sua vida, desde a conta no vermelho até sua incapacidade crônica de ser interessante em festas. estão sempre lá, empilhados em postos de gasolina e aeroportos, com capas berrantes e títulos que soam como a conversa fiada de um vendedor de seguros em uma happy hour.
“como convencer alguém em 90 segundos”. sério? se você precisa disso, talvez seja melhor começar aceitando que nem com 90 minutos vai rolar. ou “hábitos de milionários”. porque é claro que o segredo está em tomar banho gelado e fazer yoga às cinco da manhã. se fosse assim tão simples, o planeta estaria cheio de bilionários e vazios de idiotas. spoiler: não está.
mas o pior nem é o conteúdo; é a pretensão. “seja um líder de heróis”? a maioria das pessoas não consegue liderar um grupo no whatsapp sem virar um caos, mas aí vem esse livrinho e promete transformar qualquer zé ninguém em um cruzamento de gandalf com steve jobs. como se heróis quisessem ser liderados por alguém que comprou sabedoria a prestações em 12 vezes sem juros.
“o poder da ação nas finanças”. sério, essa frase soa como se um gerente de banco tivesse escrito num guardanapo em um bar depois de perder as esperanças com a humanidade. “desbloqueie o poder da sua mente”? vamos lá, se você está comprando isso, já está bem claro que sua mente veio com o cadeado de fábrica e sem a chave.
aí vem a cereja no bolo: “o método silva de controle mental”. o quê, é isso? você lê o livro e de repente vira um professor x dos pobres? spoiler: o único controle mental que você vai conseguir é convencer a si mesmo de que gastar dinheiro nisso foi uma boa ideia.
o problema desses livros não é só serem ruins. ruins seria um elogio. eles são a praga cultural de um mundo que prefere a promessa de uma solução instantânea ao desconforto de, sei lá, pensar de verdade. vendem a ideia de que você pode transformar sua vida antes de aterrissar em guarulhos, mas tudo o que realmente transformam é a conta bancária do autor.
e o mais maravilhoso desses livros? eles sempre têm aquela aura de “eu sei algo que você não sabe”. como se o autor, sentado em algum café hipster ou no porão da casa da mãe, tivesse descoberto o santo graal do sucesso e decidisse compartilhar com você — mas só depois de você passar o cartão, claro. eles nunca, jamais, vão te dizer algo revolucionário. são só reciclagens de clichês que fazem um powerpoint de reunião corporativa parecer um tratado filosófico.
e vamos falar da estética disso tudo. essas capas. sempre tão gritantes, tão desesperadas para chamar sua atenção, como aquele tio bêbado no churrasco tentando ser o centro das atenções. dourado metálico, tipografia gigante, frases que mais parecem gritos de guerra de um exército de idiotas. é quase poético como são feias. parecem feitas no paint por alguém que acha que design gráfico é só jogar um degradê no fundo e voilà.
e sabe o que mais me irrita? é que eles vendem. eles vendem como água no deserto. porque somos todos tão pateticamente desesperados para acreditar que existe um atalho, uma fórmula mágica, que estamos dispostos a engolir qualquer besteira. não importa que a única coisa que você aprenda seja como gastar mais dinheiro em promessas vazias. o ciclo nunca acaba.
no fundo, esses livros não são sobre melhorar ninguém. são sobre alimentar a indústria do autoengano. eles pegam a insegurança, a incerteza, o medo de falhar — e transformam isso num produto. e você, caro leitor, é o produto. parabéns. você acabou de comprar o equivalente literário de uma pirâmide financeira.
então sim, odeio esses livros. odeio o que representam. odeio o que fazem com as pessoas. mas o que mais odeio? é que eles continuarão a existir. porque enquanto houver gente disposta a acreditar em atalhos, enquanto houver aeroportos e postos de gasolina, essas pragas estarão lá, sorrindo para você, prometendo o que nunca entregarão. e você, talvez, continuará comprando.
há um momento na vida em que você olha para o seu pulso e percebe que está sendo traído. não por um amigo ou governo – isso seria previsível. mas por um pedaço de vidro brilhante, arrogante e presunçoso que pensa saber mais sobre o que acontece no seu corpo do que você mesmo. aquele pequeno tirano digital, piscando suas notificações irritantes, te lembrando de respirar, dormir, caminhar, se alongar. deus do céu, será que eu esqueci como existir sozinho? foi aí que tirei aquele monitor de condicionamento físico do meu pulso e decidi que nunca mais permitiria que meu pulso fosse palco de tamanha humilhação.
meu substituto? um relógio mecânico. sim, um relógio de verdade. aquele artefato anacrônico e glorioso que não precisa de wi-fi, bluetooth, ou atualizações de software. é só engrenagens, molas, e um tic-tac que poderia facilmente estar no pulso de um espião dos anos 60 ou do seu avô numa foto desbotada. troquei o brilho azul artificial por um mostrador clássico, limpo, onde o tempo é o que sempre deveria ser: uma abstração, não um grito de socorro.
com um fitness tracker, você não vive; você é monitorado. cada passo vira uma estatística. cada batida do coração é registrada como se você fosse uma cobaia num laboratório gigante, alimentando uma máquina que talvez te conheça melhor do que você mesmo – e, francamente, isso é assustador. o pior de tudo é que você começa a se preocupar mais com os números do que com o momento. “andei 10.000 passos hoje”, como se isso significasse que sua existência foi validada. ah, por favor, vá para o inferno com isso.
mas com um relógio mecânico? é pura liberdade. ninguém está me julgando. ninguém sabe quantos passos eu dei, e sabe de uma coisa? nem eu quero saber. talvez eu tenha caminhado pela cidade sem propósito, me perdido em ruas que nunca vi antes. talvez eu tenha ficado sentado num café, bebendo um espresso que durou horas. não importa. o tempo não é meu inimigo; é meu cúmplice. é um lembrete gentil de que eu ainda estou aqui, e não uma ordem gritante para fazer mais.
e a estética? ah, vamos falar sobre isso. um relógio mecânico é uma peça de arte funcional. enquanto os fitness trackers gritam “sou uma pessoa preocupada com calorias”, um relógio mecânico sussurra “eu aprecio as coisas boas da vida”. é um acessório que tem peso, presença, história. não é descartável como um gadget que vai parar no lixo eletrônico em dois anos. é algo que você pode passar para o seu filho, e ele ainda vai funcionar – sem precisar de uma maldita atualização de firmware.
o mais irônico de tudo? minha saúde mental melhorou. sem aquele lembrete constante de que eu deveria estar fazendo mais, percebi que posso simplesmente existir. não preciso provar nada para um aplicativo ou acumular “badges” digitais como se fosse um escoteiro desesperado por reconhecimento. minha respiração se tornou natural, e não um exercício guiado. meu sono? agora eu durmo porque estou cansado, não porque recebi uma notificação para me “preparar para o descanso”.
e sim, eu sei o que você está pensando. “mas e o controle da sua saúde?” veja bem, eu ainda sou capaz de perceber quando estou cansado, quando comi demais ou quando preciso de uma caminhada. o corpo humano é incrivelmente bom em nos dar sinais. mas é claro, ignoramos isso porque temos um brinquedo eletrônico que faz todo o trabalho por nós. é patético, não é? nos tornamos dependentes de máquinas para nos dizer como nos sentimos.
no final, trocar o fitness tracker por um relógio mecânico foi mais do que uma escolha estética ou prática. foi um ato de rebeldia. um dedo médio para a sociedade que insiste em transformar cada momento da nossa vida em uma métrica, um gráfico, uma maldita competição. o tempo não precisa ser algo para conquistar; ele é algo para ser vivido. e se você não entende isso, talvez precise de mais do que um monitor de frequência cardíaca. talvez precise de uma alma.
a forma como alguém faz um omelete não é apenas reveladora; é um raio-x completo da alma humana, um teste definitivo de caráter, habilidades sociais e, muitas vezes, sanidade mental. é o equivalente culinário de colocar a pessoa em um tribunal e pedir para que prove sua humanidade diante de um júri implacável – os ovos.
e antes que alguém venha com aquele papo de “é só um omelete, relaxa”, deixa eu te parar aí mesmo. não, não é só um omelete. é um ato puro, primal. é uma das poucas coisas na cozinha que exige tanto habilidade quanto humildade. não dá pra mentir num omelete. não dá pra esconder a falta de jeito, de paciência, ou aquela personalidade irritante que sempre acha que “mais é mais” quando, na verdade, mais é só um desastre esperando pra acontecer.
veja bem, o omelete é a tela em branco onde pintamos quem somos. e para muitos, infelizmente, essa tela vira um rabisco confuso feito por uma criança descontrolada com giz de cera. vamos aos tipos: tem aquele que acha que “quanto mais recheio, melhor” e termina com uma aberração que mais parece uma pizza dobrada. sabe o que isso me diz? insegurança. um medo desesperado de que o básico nunca será suficiente. talvez na cozinha, talvez na vida inteira.
e o que falar do apressado? o sujeito que mete tudo no fogo alto, queima os ovos, transforma o que deveria ser uma seda dourada em algo que poderia ser usado como sola de sapato. esse aí é o rei dos impacientes. um verdadeiro herói do “não tenho tempo pra isso”, sempre correndo, sempre ocupado, mas nunca fazendo nada realmente bem. provavelmente é o tipo de pessoa que termina séries pela metade ou mente sobre ter lido “dom quixote”.
mas o meu favorito – ou talvez o mais desprezível – é o revolucionário do caos. aquele que, por preguiça ou completa falta de noção, transforma o omelete em uma pilha informe de ovos mexidos com pedaços de coisa aleatória. a desculpa? “é tudo a mesma coisa”. amigo, não, não é tudo a mesma coisa. se você não consegue respeitar o processo de dobrar um omelete, como eu vou confiar em você pra, sei lá, estacionar um carro ou manter uma conversa coerente? essas pessoas vivem no completo abandono das regras. elas não dobram o omelete, porque na verdade têm medo – medo de falhar, medo de tentar, medo da vida.
aí vem o outro extremo: o artista. aquele que domina a arte de um omelete clássico. dois ovos, manteiga na medida certa, uma pitada de sal, paciência absoluta. ele não exagera. não complica. deixa o fogo trabalhar, deixa a textura brilhar, dobra com precisão cirúrgica. esse é o tipo de pessoa que você quer do seu lado numa crise. calmo, confiante, eficiente. fazer um bom omelete é, acima de tudo, uma questão de controle. e quem controla um omelete controla o mundo. ou pelo menos, deveria.
no final, um omelete não é só um prato. é um espelho. um confessionário. um manual de instruções sobre quem você realmente é. e o melhor de tudo? não dá pra mentir pros ovos. você pode posar de sofisticado, elegante ou prático, mas na frigideira, a verdade sempre vem à tona. e, pra muitos, essa verdade é bem feia.