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2025

smartwatch

descobri uma coisa que, se eu falasse numa mesa de bar, iam rir da minha cara. mas aqui vai, a melhor forma de fazer detox do celular é… usar um smartwatch com plano de celular. sim, parece papo de maluco, tipo aqueles caras que pregam jejum de suco verde ou que acreditam em terapia de cristal, mas segura a onda… faz sentido.

o celular sempre esteve ali, grudado em mim, como uma verruga brilhante que eu não conseguia arrancar. e, claro, eu justificava…“é pro trabalho”, “preciso estar disponível”, “e se der alguma merda?”. mas a verdade era mais suja… eu era só mais um viciado, cutucando a tela como quem coça uma ferida que nunca cicatriza. e-mails que não importam, notificações que não dizem nada, feeds intermináveis que me faziam sentir vivo por uns segundos e vazio pelo resto do dia. era como encher a cara de fast-food, satisfatório no momento, nauseante logo depois.

então eu fiz a coisa mais improvável que poderia imaginar, troquei meu retângulo brilhante por um relógio idiota no pulso. sim, um smartwatch. e não só isso, com plano de celular. como se eu tivesse dado um tapa na cara do meu eu de dez anos atrás e dito… “parabéns, campeão, você chegou ao ponto em que precisa de uma tela do tamanho de um selo postal pra não se destruir”. e, de forma absurda, funcionou.

porque o relógio não foi projetado pra ser confortável. é um exercício de tortura disfarçado de gadget. digitar nele é um pesadelo medieval, cada letra uma punição. ver vídeo? impossível. perder meia hora rolando feed? só se você tiver a paciência de um monge e a visão de uma águia. o que sobra é só o essencial. e de repente eu percebi que talvez o essencial fosse tudo o que eu precisava. atender uma ligação, mandar um “chego em dez”, pedir um uber. só isso. e isso era suficiente.

o que mais me surpreendeu não foi a praticidade. foi o silêncio. a ausência daquele zumbido constante de notificações inúteis que me faziam acreditar que o mundo inteiro precisava da minha atenção. e sem o celular, eu comecei a reparar em coisas que antes eram só pano de fundo. o cara fritando pastel na esquina. até o som idiota do metrô parecia mais nítido. era como se a vida tivesse saído do modo silencioso.

mas não se engane, não virei iluminado. não comecei a meditar, nem a postar frases motivacionais com fotos de cachoeira. continuo sendo eu, cínico, desconfiado, com uma tolerância baixa pra qualquer bullshit espiritual. a diferença é que agora, quando sinto vontade de me anestesiar com rolagem infinita, meu pulso me lembra que não vale a pena. e eu fico ali, com a inquietação crua, que é desconfortável, mas real.

foi aí que caiu a ficha… o detox não é sobre pureza, é sobre limite. é aceitar que eu não sou forte o suficiente pra largar a droga de vez, mas posso viver com uma dose homeopática sem me perder no abismo. o smartwatch virou a minha metadona digital, uma forma estranha, meio patética, mas eficaz de não sucumbir.

no fim, eu acho até engraçado. eu, que sempre achei ridículo esse papo de “tecnologia consciente”, descobri que o único jeito de me salvar foi enfiar a cara numa versão piorada dela. como se pra me libertar do vício eu precisasse de um objeto ainda mais limitado, mais frustrante, mais ridículo. e talvez seja isso mesmo… às vezes a liberdade não vem com asas, vem com uma coleira curta.

e confesso, gostei da coleira. porque, pela primeira vez em muito tempo, não sou eu quem corre atrás da tela. é ela que fica ali, pequena, contida, me lembrando que o mundo é grande demais pra caber num display de cinco polegadas.

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2025

música

música, na minha vida, nunca começou com “ah, meu pai tocava violão” ou “cresci ouvindo vinil de jazz sofisticado”. não. começou com um rádio de pilha encardido, encostado numa prateleira engordurada de cozinha, sintonizado num meio termo entre a estação am e um chiado que soava como se o universo estivesse tentando avisar alguma coisa e ninguém quisesse ouvir. ali tocava tudo… brega, samba, um bolero aleatório, propaganda de colchão. não tinha curadoria, era só barulho empurrado na sua cara.

a primeira vez que eu ouvi algo que parecia perigoso foi num vinil do deep purple… machine head, com a capa meio comida por mofo, encontrado em um baú. “smoke on the water” parecia um aviso, tipo “não volte para a escola amanhã, tem coisa mais importante acontecendo”.

depois disso, não teve volta. música passou a ser contrabando. não tinha spotify, não tinha algoritmo, tinha camelô com caixa de sapato cheia de fita pirata, tinha amigo que gravava lado a com sabbath e lado b com maiden, tinha capa mal xerocada que parecia panfleto de seita. e, de repente, eu tava no meio de um mundo onde riff era lei e solo era pregação. aquilo não era música pra deixar no fundo enquanto lava a louça, era música pra virar a mesa e quebrar o prato.

fui entrando fundo naquilo que incomodava. bandas que soavam como motor de caminhão desregulado, vozes que não tentavam ser bonitas, discos que não queriam ser perfeitos. cada álbum bom parecia uma briga de bar gravada no momento certo. aprendi rápido que rock não é pra ser “agradável”, é pra ser um soco.

e o punk… o punk me ensinou que não precisa de diploma pra ter algo a dizer. não tinha virtuosismo, não tinha maestro, tinha urgência. e eu me vi naquele barulho… direto, sem firula, sem querer provar nada pra ninguém além do fato de que você tá vivo e não quer ser deixado em paz.

no meio desse caos, o blues apareceu como um velho no canto do bar que já viu mais coisa do que você vai ver na vida. robert johnson, muddy waters, howl’n wolf… gente que não precisava inventar metáfora, falava de dor, perda e desejo como quem descreve o clima. e você acreditava, porque sentia na pele.

jazz, pra mim, nunca foi sobre “classe”. foi sobre gente que sabia fazer um instrumento soar como ameaça. coltrane, mingus, davis… cada um com o próprio veneno. não era música de elevador, era música de beco escuro.

com o tempo, percebi que as melhores bandas, as que ficaram, têm uma coisa em comum, todas soam como se estivessem prestes a desmoronar. é aquela sensação de que a música tá se segurando por um fio e é isso que mantém você ouvindo. gente que grava como se fosse a última coisa que vai fazer antes de morrer.

e eu segui colecionando esse tipo de som. não como coleciona vinil caro pra deixar na prateleira e exibir no instagram, mas como quem coleciona cicatriz, cada disco, cada show, cada noite de barulho deixou uma marca. e não é marca que eu quero que desapareça.

no fim das contas, música nunca foi trilha sonora da minha vida. foi cúmplice de tudo que eu fiz de errado, e algumas coisas que eu fiz certo, mas não me orgulho. se um dia ela acabar, eu acabo junto. até lá, deixo o volume alto o suficiente pra incomodar quem acha que o mundo deveria ser silencioso e civilizado. porque o mundo não é nada disso. e a boa música também não.

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2025

ny

nova york não é só a melhor cidade do mundo pra fotografia de rua. ela é o ringue onde você, sua câmera e a vida real entram num combate de doze rounds sem juiz, sem regra, e sem chance de você sair limpo. cada esquina é uma emboscada visual. cada rosto é um enredo inédito que vai desaparecer pra sempre se você piscar. aqui, não existe “momento decisivo” no sentido romântico-cartier-bresson da coisa, existe uma torrente ininterrupta de absurdos, contradições e microdramas acontecendo ao mesmo tempo, sem pedir sua permissão. e se você não tiver dedo rápido e olho afiado, paciência, a cidade já seguiu sem você.

ny não tem paciência pra fotógrafos que querem “a luz perfeita” ou “o enquadramento ideal”. luz perfeita? aqui ela muda a cada meio quarteirão porque um prédio de vidro espelha o sol na sua lente enquanto um ônibus passa e joga sombra e fumaça de escape na sua cara. enquadramento ideal? boa sorte enquadrando quando um vendedor de falafel resolve gritar com um taxista no meio da sua foto. e é isso que amo, porque só nesse caos a foto deixa de ser sobre estética e vira sobre sobrevivência.

andar com câmera por manhattan é como estar no epicentro de uma tempestade de histórias humanas. o executivo engravatado comendo pizza dobrada com a mão esquerda enquanto digita um e-mail com a direita. o mendigo que construiu um trono com caixas de papelão e fita silver tape. a influencer tentando a 47ª selfie do dia no soho, sem notar o gari que passa atrás dela com um olhar que grita “me tira daqui”. você está lá, capturando tudo, não porque quer, mas porque seria criminoso não registrar.

o metrô é um capítulo à parte. uma ópera subterrânea onde cada vagão é um elenco improvável… um cara tocando acordeão desafinado enquanto um grupo de adolescentes improvisa um campeonato de dança acrobática pendurado nas barras. do outro lado, uma senhora com sacolas do trader joe’s lê um livro de 900 páginas como se estivesse sozinha no planeta. e quando as portas se abrem, você sobe pra superfície e a cidade muda de gênero cinematográfico… drama urbano no brooklyn, comédia absurda no east village, noir chuvoso na times square às 3 da manhã.

o que faz nova york ser insuperável não é só a diversidade, é a intensidade. é a total ausência de filtro social. ninguém aqui tem tempo pra se importar com o que você está fazendo. eles estão ocupados vivendo suas próprias novelas de alta tensão. e isso te dá algo raro, a liberdade absoluta de observar, registrar, espiar, sem que o ato seja um evento. em qualquer outro lugar, apontar uma câmera pra alguém é pedir permissão ou brigar por atenção. aqui, você é invisível. e invisibilidade, pro fotógrafo de rua, é o superpoder definitivo.

e tem o cheiro. aquele mix que só existe aqui, pretzel queimado, gasolina, fumaça de food truck, suor de gente que corre pra não perder o metrô, perfume caro comprado na quinta avenida e maconha que alguém acendeu no beco atrás de uma delicatessen. é o aroma de uma cidade que não descansa, não pede desculpa e não se importa se você aprova.

no fim das contas, fotografar pessoas em nova york é como pescar num mar em tempestade, as histórias pulam dentro do seu barco, mas o mar tenta te derrubar o tempo todo. e você segue lá, molhado, congelado, com o obturador colado no dedo… porque sabe que, mesmo que o mundo acabe, vai ter mais uma foto esperando na próxima esquina. e só essa cidade entrega isso, sem pedir nada em troca.

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2025

decisão

decidi que, daqui até o fim do ano, eu não compro mais nada que não seja pra garantir que eu acorde no dia seguinte respirando e, de preferência, sem fungos crescendo nas paredes. acabou. se não for comida, água, sabão, café ou uma ferramenta pra impedir que o teto caia na minha cabeça, vai ficar na prateleira de quem quiser bancar o idiota no meu lugar. e não é porque eu virei um apóstolo do minimalismo, nem porque me inscrevi num retiro budista. é porque eu cansei. cansei de sustentar essa pornografia consumista onde cada clique é um gemido falso e cada caixa que chega é um orgasmo de três segundos, seguido de um silêncio constrangedor e a sensação de que você só fez papel de trouxa.

chega de comprar coisas que eu já esqueci que comprei antes mesmo da fatura fechar. chega de gadgets que prometem revolucionar minha vida e acabam servindo de peso de papel. chega de livros que nunca leio, roupas que nunca uso, canecas com frases motivacionais que nunca motivam ninguém. até o fim do ano, se algo quebrar, eu vou consertar. se não der, eu vou improvisar. se não funcionar, azar. vou aprender a viver com menos ou, pelo menos, fingir que sim.

isso não é sobre economia, é sobre vingança. vingança contra essa indústria que me trata como um ratinho dopado, correndo na rodinha por um pedaço de queijo feito na china, entregue por um motoboy exausto que quase foi atropelado pra satisfazer minha necessidade patética de ter algo novo hoje. vingança contra esse algoritmo que me conhece melhor que eu mesmo, que sabe exatamente o que me fazer querer às duas da manhã quando eu deveria estar dormindo. e, principalmente, vingança contra mim porque eu fui o cúmplice perfeito nesse crime contra meu próprio espaço vital.

talvez eu descubra que viver assim é libertador. talvez eu descubra que é um inferno. talvez, no dia 31 de dezembro, eu esteja tremendo num canto, babando, com o celular na mão e a aba da loja aberta. mas até lá, eu vou resistir. não por virtude, mas por teimosia. porque, se tem uma coisa que eu aprendi, é que nada dói mais no capitalismo do que você dizer “não, obrigado” e realmente querer dizer isso.

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2025

gpt

olha, não é só a praga do gpt, é a praga da terceirização da própria alma. antes, escrever era um ato quase indecente… você expunha suas feridas, botava o dedo no próprio umbigo e depois enfiava a mão na ferida do leitor. hoje? hoje escrever virou um serviço de buffet: “me manda um briefing e eu te entrego algo neutro, rápido, sem colesterol emocional”. é como se a humanidade tivesse descoberto uma forma de vomitar palavras sem nunca ter mastigado um pensamento.

e não me venha com aquele papo de “ah, mas é só uma ferramenta”. ferramenta, o cacete. um martelo é uma ferramenta. uma faca é uma ferramenta. gpt não é martelo, é o cozinheiro inteiro fazendo seu mise en place, cozinhando, montando o prato, servindo e ainda limpando a cozinha enquanto você fica no canto, mexendo no celular. no fim, o prato é bom, mas não tem seu suor, não tem seu erro, não tem seu tempero. e, pior, você começa a achar que nunca soube cozinhar de verdade.

a indústria adorou. claro que adorou. nunca foi tão fácil encher o mundo de conteúdo. e “conteúdo” virou exatamente isso… uma massa homogênea de frases que cabem em qualquer marca, qualquer post, qualquer legenda. e se você acha que tá sendo original usando gpt, te digo… você é só mais uma peça nessa fábrica de linguiça linguística onde cada salsicha tem o mesmo sabor genérico.

antigamente, as pessoas liam pra sentir alguém. hoje, leem pra confirmar que nada vai incomodar, que tudo vai ser mastigado e servido num tom neutro, sem arestas, sem verdade demais. gpt é perfeito pra isso, um sommelier de irrelevância.

e sabe o mais triste? não é que as pessoas não saibam mais escrever. é que elas não querem mais passar pelo desconforto de pensar. escrever exige lidar com silêncios, com o feio, com aquela frase que não sai. mas agora, quando o branco da página aparece, você corre pra pedir ajuda ao robô, como quem chama um entregador porque esqueceu como se frita um ovo. e assim, pouco a pouco, você para de cozinhar e começa a viver de comida pronta.

daqui a pouco, nem vai ser mais “escrever com gpt”. vai ser só “escrever” e pronto, porque a palavra vai perder o peso de ser um ato humano. e aí, meu amigo, o que sobra? a gente, sentado num banquinho, assistindo uma máquina contar as histórias que a gente nunca teve coragem de viver.

porque, no fim das contas, o gpt pode até escrever por você. mas ele não pode beber no seu bar sujo preferido, nem brigar com seu amigo… e são essas coisas que valem a pena contar. o resto é só mais um post bonito pra ninguém lembrar amanhã.

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2025

dexter

rever dexter é revisitar um crime já resolvido. o veredito já foi dado, as provas já foram apresentadas, todo mundo sabe quem matou e, mesmo assim, você volta pra cena. não pela revelação, mas pra olhar de perto as marcas na parede, os detalhes que ninguém percebeu na primeira perícia. é caminhar de novo por um lugar onde o sangue já secou, mas o cheiro ainda está lá.

a primeira vez é corrida. você segue o fio da trama, se perde na tensão do “quem?”, “quando?”, “como?”. na segunda, a pressa morre. sobra a frieza de examinar cada peça. é aí que aparecem as coisas que estavam escondidas à vista de todos… o figurante que olha um segundo a mais pra câmera, a pausa estratégica num diálogo aparentemente banal, o som abafado que prenuncia o desastre antes que ele chegue.

miami deixa de ser o fundo bonito. agora, ela é personagem suado, barulhento, falsamente iluminado. os prédios coloridos são maquiagem barata, o calor é tão espesso que parece pesar sobre as cenas, e cada rua tem o tipo de barulho que serve mais pra distrair do que pra acolher. é a cidade perfeita para que tudo aconteça sem alarde. não precisa esconder nada quando todo mundo finge que não vê.

os coadjuvantes ganham outro peso na releitura. não são apenas peças para mover a narrativa… são sinais. cada gesto, cada fala fora de hora, cada sorriso mal colocado é pista. a primeira vez, isso se perde no fluxo. na segunda, cada aparição vira marcação de território. a trama não é mais um suspense, é um mapa de evidências que você percorre sabendo exatamente onde vai dar.

e a violência… ela muda. perde o choque fácil, aquele que depende do elemento surpresa, e revela o que sempre esteve lá… método. as mortes deixam de ser apenas ação e se tornam assinatura. não é sobre o ato, é sobre a execução. posição, tempo, controle absoluto. não existe desperdício, não existe acidente e é impossível não notar a beleza técnica na frieza disso.

o maior impacto de rever está no fato de que não há inocência. não há desculpa. o que choca agora não é o que acontece, mas o quanto tudo é perfeitamente orquestrado. e quando o episódio termina, não há “reviravolta” para comentar. há a constatação de que cada movimento, cada fala e cada ausência de som já estava no lugar desde o início.

assistir pela segunda vez é como abrir um corpo já autopsiado e, mesmo assim, encontrar mais para examinar. é lento, é detalhado, e deixa claro que dexter nunca foi apenas sobre matar foi sempre sobre construir algo que funcionasse como uma máquina: silenciosa, precisa, e implacável.

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2025

abc

vamos direto ao que interessa.
esse filme… esse filme não é só bom.
esse filme é necessário.

e não no sentido chato, acadêmico, de “ah, é um clássico do cinema americano”. não, porra. glengarry glen ross é necessário porque ele fala a verdade que ninguém quer ouvir, muito menos os palhaços que ganham dinheiro te dizendo que tudo é mindset e que você só precisa acreditar mais em si mesmo pra transformar a sua realidade.

esse filme cospe na cara do otimismo institucional.
ele te arranca da tua zona de conforto com a delicadeza de uma marreta enferrujada.
ele desmembra, humilha, expõe e te obriga a encarar aquilo que todo mundo sabe, mas ninguém tem coragem de dizer…
o mundo do trabalho é um campo de batalha e você já perdeu. só ainda não percebeu.

dirigido por james foley e baseado na peça de david mamet, o poeta da frustração, o shakespeare dos desgraçados, glengarry glen ross é um tour de force sobre pessoas à beira do colapso, sobre o capitalismo nu e cru, sem decência, sem piedade, sem botão de “desconectar”. aqui, o sucesso é a única religião. e fracassar é mais do que uma vergonha, é uma sentença de morte profissional, emocional, existencial.

a história é simples. quase banal.
um escritório de vendas de imóveis, onde os corretores têm que vender lotes completamente irrelevantes para clientes desavisados.
a direção da empresa resolve fazer um jogo sádico… quem vender mais, ganha um carro. o segundo lugar, uma faquinha de churrasco. o resto?
é rua.

e no meio disso, os vendedores. pessoas que não acreditam mais no que estão vendendo.
alguns que nunca acreditaram.
outros que ainda fingem.
todos eles, quebrados por dentro.
cada um mais desesperado que o outro, arrastando seus ternos como soldados mutilados depois de uma batalha que ninguém ganhou.

e aí, entra a aula de atuação mais pornograficamente poderosa já filmada.
alec baldwin, com uma única cena, entra como uma entidade do inferno corporativo e redefine o que é domínio.
ele aparece feito uma tempestade de arrogância e desdém, vomitando verdades com a calma de um assassino serial motivacional…
“coffee is for closers.”
essa frase virou mantra porque é real.
no mundo real, o café… a dignidade, o respeito, o direito de existir… é só pra quem entrega resultado.
não importa como.
não importa o preço.
você não vendeu? então cale a boca.
só isso.

no meio do veneno escorrendo da boca do baldwin, nasce o bordão que virou religião, tatuagem, adesivo, slogan, discurso de gerente em evento de final de ano, ABC Always Be Closing.
uma filosofia tão brutal quanto verdadeira.
um mantra assassino que resume a lógica perversa da performance constante.
não existe “fazer o seu melhor”, não existe “dar o sangue”, não existe “processo de aprendizado”.
o que existe é fechou ou não fechou?
essa é a pergunta.
a única que importa.
e se você não tem resposta, então você é só mais um encosto na planilha.

“always be closing” virou tatuagem de vendedor, virou print em slide de palestra de gente que nunca vendeu nada além da própria ilusão.
mas ali, naquele momento, naquela cena, naquele filme, ABC…
é uma sentença.
é um soco na boca de todo funcionário que acha que um “bom esforço” merece parabéns.
não merece.
não vale nada.
não importa o quanto você tentou.
o mundo não dá medalha por tentativa.
o mundo dá demissão, dívida e gastrite.
e se você não entendeu isso… então assiste de novo.
porque o alec baldwin entendeu.
o mamet entendeu.
o filme inteiro é uma carta aberta à verdade que os coaches, os rhs, os donos de startup e os ceos que se vestem como estagiário fingem não saber…
ou você fecha, ou você tá morto.

e ninguém vai chorar no teu velório.
porque nem vão te notar.

al pacino interpreta ricky roma, o lobo vestido de lobo. um manipulador carismático, brilhante, um predador social com voz suave e discurso afiado. o cara que te convence a comprar um terreno em marte com sorriso nos lábios e desprezo nos olhos.
ele não vende. ele seduz.
e você compra… porque você quer acreditar.

jack lemmon, o velho leão ferido. o símbolo do passado engolido pelo presente. patético, trágico, desesperado. ele tenta, e tenta, e tenta… mas o mundo já decidiu que ele não serve mais.
e nada, absolutamente nada, é mais cruel do que isso.

e tem o kevin spacey, antes de cair da graça e virar lenda maldita. aqui, ele é perfeito… frio, burocrático, sem alma. o gerente que mede o valor de uma vida em leads. não tem sangue nas veias. tem café requentado e ressentimento.

e ed harris e alan arkin… dois homens encurralados, debatendo se vale ou não trapacear, se ainda dá pra ter algum senso de certo e errado num sistema onde a ética é uma piada contada por chefes rindo num campo de golfe.

mas veja bem… glengarry glen ross não é sobre personagens. é sobre nós.
é sobre o que nos tornamos quando nos dizem que temos que ser vencedores o tempo todo.
é sobre o teatro da performance.
é sobre fingir que está tudo bem enquanto a alma escorre pelo ralo junto com o resto da tua sanidade.

e por que você TEM que ver esse filme?
porque ele é uma ofensa direta a todo esse culto ridículo ao empreendedorismo tóxico, à positividade falsa, às frases de “seja seu próprio chefe” estampadas em camisetas feitas na china por pessoas que ganham menos por hora do que você gasta num pão de queijo gourmet.

esse filme é uma carta de amor ao fracasso.
e um aviso… se você não aprender a sobreviver nesse sistema, ele vai te devorar.
não com um rugido. mas com um bocejo.
porque você é só mais um.
mais um tentando parecer forte.
mais um fingindo que ama o que faz.
mais um achando que a próxima venda vai mudar tudo.

mas não vai.

e esse é o verdadeiro poder de glengarry glen ross.
ele não quer te confortar.
ele quer te acordar.

e se você ainda acha que precisa de um coach… então você não entendeu nada.
e nem vai.


e ontem, quando me perguntaram, de forma sincera, direta…. “qual papel você quer ocupar nesse projeto?”
e eu respirei fundo. porque não se trata de querer ser o melhor vendedor, o mais esperto da sala, o que fecha mais contratos ou leva o maldito cadillac do mês. já vi esse filme. já estive nessa sala. já ouvi o discurso. já vi o olhar desesperado de pessoas tentando vender qualquer coisa, até a própria dignidade… pra continuar no jogo.
e é justamente por ter visto, por ter sentido o cheiro do carpete molhado de suor e humilhação, que minha resposta veio nesse texto…
não quero ser mais um dentro da engrenagem. não quero repetir os rituais da performance cega, nem disputar faca de churrasco em troca de aceitação.
se é pra estar num projeto, que seja com olhos abertos, com sangue nas mãos e verdade no coração. ok ficou poético…. nem me reconheci agora…
não quero ser ricky roma, nem shelley levene, nem williamson, nem moss.
quero ser quem assiste tudo aquilo… e decide fazer diferente.
não por arrogância.
mas porque tô acordado.
e porque alguém, em algum momento, tem que ter a coragem de não jogar o mesmo jogo.
alguém tem que criar outro.

fim.
e, se me permite: mic drop.

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2025

o que estava tramando?

eu vou ensinar marketing e inteligência artificial.
mas não do jeito que os gurus querem. não com aquele tom de voz sussurrado de quem acha que tá revelando os segredos do universo enquanto repete o mesmo carrossel reciclado que você já viu mil vezes no instagram.

eu vou ensinar o marketing de verdade. o marketing que funciona, que converte, que vende sem prometer cura pra dor nas costas ou transformação de vida em sete dias. vou ensinar como usar ia pra construir tudo… da marca à porra da legenda do post. vou mostrar como criar, escrever, pensar, automatizar, testar, ajustar, refinar e escalar com inteligência, não com fé, choro ou workshop de final de semana num coworking com cheiro de pão de queijo requentado.

e vou fazer isso por R$ 9,99 por mês.
sim, nove e noventa e nove. preço de uma esfiha triste na lanchonete da rodoviária. e não, não tem pegadinha. não tem “grupo exclusivo” que você precisa pagar R$ 297 pra entrar. não tem curso extra, upsell, clube do networking, evento presencial num hotel com carpete fedido. tem só o que interessa… conteúdo útil, tático, mastigado e aplicado com ia no centro de tudo.

eu vou mostrar como a ia é o braço que você não tem, o funcionário que nunca reclama, o sócio que trabalha de madrugada. e mais do que isso… vou ensinar a pensar com ia. a usar ela como extensão do raciocínio, da estratégia, da porra da criatividade que o mercado já tentou te roubar com fórmula.

e ao fazer isso, eu vou cometer uma heresia.
porque os vendedores de ilusão vão me odiar. os papas do funil perpétuo vão chiar. os donos da “comunidade premium” vão me chamar de irresponsável. porque eu tô abrindo a porteira. tô entregando tudo que eles empacotam por R$ 5 mil, R$ 10 mil, R$ 20 mil, num plano mensal que custa menos que a assinatura da netflix.
e a diferença é que o meu conteúdo não é ficção.

vou cuspir na cara dessa indústria gourmetizada que enche linguiça com storytelling de infância traumática, enquanto vende um curso feito no canva. vou atropelar o script do “se valorize” e jogar a real… o que vale é saber fazer. e eu vou ensinar a fazer. com ia. com profundidade. com método. com provocação.

porque no fim das contas, não é só sobre ensinar marketing e ia.

é sobre desmontar o circo.
é sobre devolver a inteligência pra quem nunca teve acesso.
é sobre pegar essa porra toda e dizer: “toma. faz. agora você não tem mais desculpa.”

e aí eu quero ver quem vai ter coragem de continuar vendendo milagre, quando todo mundo já souber fazer mágica.

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2025

ambição

tá. vamos começar com a pergunta que ninguém tem coragem de responder sem encher de emoji e aforismo de palestra… por que você quer tanto?
não, não me venha com essa baboseira de “realização pessoal”, “deixar legado”, “inspirar os outros” esse tipo de frase só convence idiota que lê biografia de bilionário achando que é manual de iluminação espiritual. a real é que você quer porque você precisa parecer alguém. você quer porque tem medo de não ser nada. medo de não ser visto. medo de ser mais um. medo do anonimato. e aí veste esse medo, coloca no crachá, estampa no perfil e chama de “carreira”.

o nome disso é desespero com branding.

não tem nada de nobre em querer crescer se o que te move é essa sensação permanente de vazio que você herdou de uma infância sem aplauso.
mas ninguém fala disso. então você continua correndo. correndo feito um rato de laboratório numa esteira que só gira, gira, gira… e não leva a lugar nenhum além do espelho. aquele espelho que te devolve a imagem de alguém sempre cansado, sempre faminto, sempre prestes a desmoronar por dentro… mas com a porra do linkedin atualizado.

e sabe quem já sabia disso? bud schulberg. lá em what makes sammy run?, ele desenha com sangue o retrato do ambicioso profissional… sammy glick. um verme carismático que sobe pisando em tudo, mastigando os outros, cagando pra integridade, arte ou verdade. tudo que importa é a próxima escada. a próxima porta. o próximo aplauso. ele não quer fazer algo bom. ele quer que digam que ele é bom.
soou familiar?

esse é você.
sou eu.
é todo mundo que já trocou o prazer de criar pela expectativa de ser notado.

e por que isso acontece? porque você não tá ambicionando pelo topo, você tá tentando tapar um buraco. c.s. lewis, que era mais lúcido do que metade desses filósofos instagramáveis, explicava isso com clareza. tem o amor que vem da plenitude, de quem transborda e compartilha, e o amor que vem do vazio, da falta, da carência… esse que se disfarça de zelo, de dedicação, mas que na verdade é só um grito interno por validação. é o amor da tal sra. fidget… aquela que cuida de todo mundo só pra poder lembrar todo dia o quanto ela sofreu.
sabe aquela sua entrega absurda ao trabalho? aquela dedicação “irrestrita”? talvez seja só carência com crachá e reunião de alinhamento.

você tá tentando ser alguém porque tem medo de ser ninguém.

e a ambição se alimenta disso. ela se veste de propósito, mas te prende numa esteira. uma esteira que nunca para. uma esteira que te faz acreditar que excelência é o mesmo que estar à frente. e aí entra o vírus da superioridade.
você já não quer ser bom. quer ser melhor. melhor que o coleguinha, que o primo bem-sucedido, que a amiga fodona que posta no instagram direto de bali. você quer ganhar. mas nem sabe mais o que é o prêmio.

miroslav volf fala que essa busca frustrada por ser superior transforma você num mentiroso, daqueles que precisa convencer o mundo de que quem ficou pra trás não só perdeu, como merecia perder. arrogante, preguiçoso, burro, medíocre. porque se você admitir que o outro era bom, que ele só teve outro caminho… então o que te sobra é sorte. ou pior… falsidade.

e sorte, no mundo da ambição, é ofensa.

e você segue. inventa narrativa. disfarça vício de mérito. tira selfie no palco, fala de “impacto social”, abraça causas que não entende só porque elas rendem engajamento e carisma. não é autenticidade, é marketing pessoal com pretensão moral. o legado que você quer deixar é só a casca, a embalagem. o conteúdo mesmo? um grande nada.

e por trás de tudo isso, o desejo… não pelo sublime, mas pelo tangível. não pelo sagrado, mas pelo carro, o título, o post viral. os desejos altos você até finge ter, mas o que te move mesmo é a contagem de seguidores, o salário com dois dígitos antes da vírgula, o crachá que impressiona no jantar de família. santo agostinho dizia… “você se torna aquilo que ama.” e se você ama status, parabéns. virou um número. um dado de rh. uma máquina de entrega sem alma.

e talvez, lá no fundo, você até saiba disso.

talvez por isso o sono venha quebrado, a respiração curta, o fim de semana cada vez mais silencioso. talvez por isso você ache que precisa de “imersão de autoconhecimento” ou de um retiro num lugar com nome em sânscrito. mas o problema não é falta de paz. é excesso de mentira. mentira que você contou pra si mesmo quando trocou aspiração por ambição.

porque são coisas diferentes.

ambição é querer subir.
aspiração é querer ser.
a primeira te torna produto.
a segunda te obriga a ser humano.

e ser humano, hoje, é quase uma heresia.

walter kirn entendeu isso quando largou o teatro da performance e decidiu, doente e exausto, só aprender. sem tentar impressionar, sem tentar vencer. só ficar em silêncio e ser preenchido.
mas isso não vende.
não viraliza.
não dá palco.

e o mundo é um palco.

então você vai continuar correndo, cansado, faminto. vai continuar se enganando. se promovendo. se sabotando. vai continuar se chamando de “ambicioso” como se isso fosse elogio, enquanto tudo dentro de você grita por descanso, por verdade, por uma porra de um dia sem performance.

e talvez um dia você pare. talvez não.
mas se parar…
não espere aplausos.

só silêncio.
e quem sabe, pela primeira vez em muito tempo, paz.

mas só se tiver coragem de largar o palco e encarar o que sobrou nos bastidores.

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2025

a verdade está lá fora

eu cresci acreditando que a verdade estava lá fora. numa base militar secreta, num porão mal iluminado em washington, dentro de uma nave acidentada escondida no novo méxico ou, no mínimo, na mente perturbada de algum agente do governo entupido de café e paranoia. a tv me ensinou isso. e não só me ensinou, ela me treinou, como um bom cãozinho. ela apertou meu focinho contra a tigela quente da conspiração e disse “cheira isso. agora lambe.”

e eu lambi.

a verdade virou um fetiche intelectual, desses que você veste com orgulho na roda de conversa pra parecer mais esperto que os outros. a verdade nunca foi o objetivo, foi só o pretexto. o que vicia mesmo é o mistério. o suspense. o quase. aquele momento antes da cortina abrir, que nunca abre, claro… porque a graça tá justamente aí, no jogo de pistas falsas, de mensagens codificadas, de mapas com o “x” que nunca chega a lugar nenhum. um vício como outro qualquer, só que com legenda e trilha sonora atmosférica.

mas a televisão, esse oráculo moderno com botox e pós-produção, não inventou a conspiração. ela só pegou o medo ancestral, aquele medo de estar sendo enganado, manipulado, usado… e serviu em alta definição, episódio após episódio, até isso virar nossa dieta cultural básica. a dúvida virou entretenimento. a paranoia, um gênero. e nós, com o controle remoto na mão e a cabeça fervendo de suspeitas, fomos nos acostumando com essa ideia reconfortante, não existe acaso, tudo tem uma razão. e se não tem… a ausência é a prova.

e aí vem o problema. porque quando tudo parece parte de um plano secreto, qualquer explicação simples soa burra. ou pior, soa como parte do plano. então a verdade oficial virou piada. e o cidadão médio, viciado em narrativas complexas, começa a procurar lógica em cada sombra, em cada tropeço, em cada atraso no correio. a série acabou? a resposta foi frustrante? então deve ser porque alguém não queria que você soubesse. o showrunner? os estúdios? a deep web? o vaticano? tanto faz. o importante é que a conspiração continua.

e enquanto isso, políticos, bilionários e líderes de seitas vestem o figurino de antagonista perfeito. ou de mártir, dependendo do gosto do freguês. é tudo roteirizado. o vilão que diz que é vítima. o herói que fala como um personagem de reality show. o povo assistindo de camarote, dividido entre quem acredita, quem finge que não acredita e quem ganha dinheiro vendendo camiseta com slogan críptico.

e quando a realidade tenta bater à porta com dados, provas, evidência concreta… ela é ignorada. ou remixada. a negação virou feature, não bug. a refutação é só mais um episódio. “eles querem que a gente acredite nisso”, diz o novo messias de cada esquina digital. e aí lá vai você, outra vez, mergulhado em vídeos pixelados, fóruns obscuros e aquele calorzinho no estômago de quem acha que está finalmente chegando . seja lá onde for “lá”.

a verdade está lá fora, sim. só que agora ela tá soterrada sob quinze temporadas de teorias, doze canais de youtube com thumbnails gritando, e uma multidão de convertidos que juram que tudo faz sentido, se você só olhar direito.

só mais uma pista. só mais um link. só mais uma live.

e quando você se dá conta, já não lembra mais quando foi a última vez que acreditou em algo simples. porque o simples, hoje, é o novo absurdo.

parabéns. você está acordado. bem-vindo ao show.