
quando duas pessoas se esbarram usando apple watch ou samsung galaxy watch, nada acontece. é quase administrativo. é tipo duas pessoas usando crachá da mesma empresa sem saber em qual departamento trabalham. aquilo não diz nada. é só o padrão vigente, o uniforme da vida organizada, notificável e levemente ansiosa.
ninguém olha, ninguém comenta. é o equivalente tecnológico de tênis branco, todo mundo tem, ninguém se importa.
agora, quando entram os relógios de luxo… aí aparece um silêncio estranho. um pequeno tribunal invisível. um rolex submariner cruza com um audemars piguet royal oak e, de repente, ninguém está mais casual. vira uma negociação muda.
ninguém está vendo as horas. estão vendo narrativa.
“o dele é real?”
“o meu parece real?”
“será que ele sabe que o meu não é?”
é um teatro muito sofisticado de insegurança cara. e o detalhe mais bonito, muitas vezes os dois estão mentindo. dois adultos bem vestidos, cada um sustentando uma ficção silenciosa de sucesso, fingindo que aquilo ali não é só metal tentando convencer alguém de alguma coisa.
luxo hoje em dia não é objeto. é dúvida bem vestida.
e temos as pessoas de garmin ou whoop band, e aqui as coisas mudam, porque elas não estão tentando impressionar ninguém, elas já desistiram disso. elas não querem parecer bem-sucedidas, elas querem saber por que o sono foi ruim às 3h17 da manhã e como isso afetou o treino que ninguém pediu pra elas fazerem.
é outro tipo de delírio.
não tem status social claro. não é luxo. não é tendência. é uma obsessão silenciosa disfarçada de disciplina. é gente que acorda cedo demais ou dorme tarde demais, mede tudo, rastreia tudo, e no fundo transforma o próprio corpo num relatório contínuo que ninguém lê além dela mesma.
e quando dois desses se encontram, não tem aquele teatro elegante do luxo, nem a indiferença pasteurizada do smartwatch comum.
tem um reconhecimento meio estranho, meio clínico. não é “que relógio bonito”. é “você também está nessa?”.
é quase como encontrar alguém que também decidiu voluntariamente complicar a própria existência.
ninguém fala, mas dá pra ver, sabe… ali não tem pose. tem hábito. tem uma leve obsessão. tem gente que trocou validação externa por uma versão mais silenciosa e, honestamente, não menos neurótica, só mais aceitável.
é o tipo de pessoa que não quer parecer melhor que os outros. quer parecer melhor que ontem. o que, dependendo do nível de insanidade, pode ser bem pior.
é sobre o tipo de problema que você escolhe ter. afinal, pensa comigo…
tem gente que escolhe parecer.
tem gente que escolhe provar.
e tem gente que escolhe medir, o que talvez seja a forma mais sofisticada de nunca ficar satisfeito.
e curiosamente, é a única que não precisa que ninguém esteja olhando. ou precisa, afinal muitos amam postar seus resultados… mas isso é assunto pra outro texto!