
no dia 5 de janeiro de 2020, quando completei 39 anos, resolvi fazer uma coisa que hoje parece quase um ato de insubordinação contra a civilização moderna. comecei a escrever. não gravar vídeos com frases aparecendo na tela, não ensinar desconhecidos a alcançar a plenitude financeira, não transformar minha existência numa dessas pequenas fábricas de sabedoria instantânea que fazem tanto sucesso entre pessoas desesperadas por parecer interessantes. apenas escrever. abri um blog e deixei uma frase que, na época, parecia absolutamente despretensiosa.
“um registro dos pensamentos e devaneios de todos os dias de minha vida.”
início em 05/01/2020.
era isso. nenhum plano grandioso, nenhuma estratégia de crescimento, nenhum especialista me explicando como transformar pensamentos em engajamento. eu tinha 39 anos, algumas convicções que hoje considero profundamente embaraçosas e uma vontade quase inconveniente de registrar aquilo que observava. não fazia ideia de onde aquilo chegaria. e talvez tenha sido justamente essa ignorância que tornou tudo possível. se alguém tivesse aparecido com uma apresentação sobre metas, posicionamento de marca pessoal e frequência ideal de publicações, provavelmente teria encerrado o projeto antes do primeiro parágrafo. sempre achei fascinante a capacidade que certas pessoas têm de transformar qualquer coisa interessante numa atividade perfeitamente insuportável.
naquela época, eu nem era pai.
essa frase me atingiu hoje de um jeito que nenhum número conseguiria.
porque aquele homem de 39 anos não fazia a menor ideia do que estava prestes a viver. achava que conhecia o medo, o amor, a responsabilidade e os limites da própria paciência. uma demonstração de arrogância quase comovente. a vida ainda não havia apresentado sua melhor cartada. eu desconhecia a existência de alguém que um dia seria capaz de reorganizar absolutamente tudo dentro de mim sem apresentar um único argumento. alguém que faria minhas antigas preocupações parecerem ridículas e transformaria o futuro, essa abstração que costumamos tratar com tanta displicência, numa questão profundamente pessoal.
e então o mundo resolveu enlouquecer.
poucas semanas depois daquele primeiro texto, veio a covid. cidades vazias, hospitais lotados, famílias separadas, mortes demais e a percepção brutal de que nossa civilização tecnologicamente sofisticada era muito mais frágil do que gostávamos de imaginar. enquanto médicos tentavam salvar vidas, uma parcela admiravelmente confiante da população descobria sua vocação para a epidemiologia depois de assistir a três vídeos na internet. a humanidade havia conseguido colocar robôs em marte, mas ainda precisava discutir com adultos alfabetizados a importância de lavar as mãos. foi um período terrível. perdemos pessoas, abraços, despedidas e aquela inocência arrogante de acreditar que o mundo continuaria funcionando apenas porque estávamos acostumados a isso.
e quando começamos a imaginar que talvez tivéssemos aprendido alguma coisa, vieram mais guerras. a ucrânia, gaza, cidades destruídas, crianças soterradas, famílias tentando sobreviver ao que deveria ser absolutamente inaceitável. descobrimos que era possível acompanhar o horror em tempo real, com imagens extraordinariamente nítidas, enquanto o mesmo aparelho nos oferecia, segundos depois, uma promoção imperdível de tênis esportivos. desenvolvemos uma tecnologia capaz de transmitir o sofrimento humano para bilhões de pessoas, mas aparentemente não conseguimos desenvolver a capacidade de nos constranger diante dele por mais de quinze minutos. uma conquista civilizatória realmente espetacular.
no brasil, atravessamos eleições que transformaram encontros de família em exercícios de sobrevivência diplomática. vi a disputa de 2022 entre lula e jair bolsonaro. depois, em 2026, outra eleição, agora entre lula e flávio bolsonaro. acompanhei o medo, a tensão, as discussões e aquela interminável coleção de especialistas que conseguem prever qualquer resultado com absoluta precisão depois que ele acontece. mas desta vez havia algo completamente diferente. meu filho estava ali. participando, se envolvendo, vivendo comigo aquele momento e comemorando o resultado que tanto desejávamos. aquilo que, dentro da nossa casa, sentimos como uma vitória do bem. e confesso que, por um instante, toda a grandiosidade da política pareceu pequena diante de uma coisa muito mais importante. eu estava vendo meu filho construir uma lembrança que um dia seria apenas dele. a história já não passava somente por mim.
e durante tudo isso, escrevi.
sobre a pandemia, as guerras, as eleições, as músicas que me salvaram de dias absolutamente miseráveis, os filmes que me fizeram pensar, as pessoas que admirei e outras que me proporcionaram material suficiente para questionar seriamente o êxito da evolução humana. escrevi sobre david bowie, sobre a beleza quase obscena de certas canções, sobre pequenos acontecimentos cotidianos e sobre essa fascinante necessidade que a humanidade tem de complicar coisas que poderiam ser perfeitamente simples. algumas vezes escrevi algo inteligente. em outras, provavelmente fui um completo idiota com acesso a um teclado. faz parte. nunca pretendi construir um monumento à minha infalibilidade. seria uma obra de péssima qualidade, com enormes problemas estruturais e custos de manutenção absolutamente injustificáveis.
e hoje, aos 45 anos, cheguei ao milésimo texto.
mil.
uma quantidade considerável de palavras para alguém que, em certas ocasiões, gostaria apenas que boa parte da humanidade tivesse a gentileza de permanecer em silêncio.
e existe algo particularmente delicioso em completar mil textos numa época em que ler passou a ser tratado como uma espécie de atividade de resistência física. vivemos numa civilização que colocou praticamente toda a produção intelectual da humanidade dentro de um aparelho que cabe no bolso e, diante dessa conquista magnífica, resolveu utilizá-lo para assistir a desconhecidos dançando, discutir a vida amorosa de celebridades e ouvir empreendedores de vinte e três anos explicando o segredo definitivo da existência. cinco minutos de leitura passaram a exigir um esforço aparentemente incompatível com a fisiologia humana. já um vídeo de quarenta minutos sobre como acordar às quatro da manhã para se tornar milionário é considerado investimento em desenvolvimento pessoal.
se gutenberg pudesse ver o resultado, talvez tivesse escolhido criar uma padaria.
mas eu continuei escrevendo. textos longos, inclusive. sem pedir desculpas por exigir alguns minutos de atenção. sem oferecer cinco passos para a felicidade, sete hábitos dos vencedores ou qualquer outra dessas fórmulas maravilhosas que parecem funcionar especialmente bem para quem cobra para ensiná-las. nunca quis vender respostas. na maioria das vezes, estava interessado justamente nas perguntas. e, francamente, desconfio profundamente de pessoas que chegam aos quarenta anos convencidas de que já compreenderam tudo. normalmente são as mesmas que passaram as últimas duas décadas sem prestar atenção em absolutamente nada.
hoje resolvi olhar as estatísticas do blog.
mais de 37 milhões de acessos desde aquele janeiro de 2020.
trinta e sete milhões.
fiquei olhando para o número durante algum tempo. não porque acredite que popularidade seja evidência de inteligência. a internet já produziu exemplos suficientes para enterrar definitivamente essa teoria. também não confundo acessos com pessoas diferentes. mas existe algo profundamente desconcertante em pensar que um espaço criado para registrar meus pensamentos tenha sido visitado tantas vezes por pessoas que, em sua imensa maioria, jamais conhecerei.
e comecei a imaginar quem estava do outro lado.
talvez alguém tenha lido um texto meu numa madrugada particularmente difícil. talvez uma música que mencionei tenha trazido de volta a lembrança de alguém que já não está aqui. talvez uma frase tenha provocado uma gargalhada involuntária durante um dia miserável. talvez alguém tenha compartilhado um texto com uma pessoa querida porque encontrou nele alguma coisa que não conseguia dizer com as próprias palavras.
e certamente há quem me deteste.
aliás, seria estatisticamente escandaloso atravessar 37 milhões de acessos sem conquistar uma quantidade respeitável de pessoas que me consideram um sujeito absolutamente insuportável. imagino que algumas tenham chegado ao fim de um texto com aquela satisfação particular de confirmar que eu sou exatamente o cretino que suspeitavam. outras provavelmente desistiram na terceira linha, indignadas com minha falta de reverência diante de alguma coisa que consideram sagrada. excelente. um mundo onde todos concordam comigo seria um lugar de uma monotonia insuportável. e, sinceramente, se depois de mil textos eu não tivesse incomodado ninguém, começaria a desconfiar seriamente de que passei quase sete anos escrevendo bulas de remédio.
mas entre aqueles que me adoram, os que me toleram e os que provavelmente gostariam de me ver proibido de utilizar um teclado, existe algo que não consigo ignorar.
todos passaram por aqui.
e muitos ficaram.
pessoas que voltaram para ler outro texto. que acompanharam minhas mudanças de opinião, minhas paixões, minhas indignações e minha incapacidade quase patológica de assistir a certas demonstrações de estupidez sem fazer algum comentário. pessoas que, num mundo onde tudo compete desesperadamente por atenção, resolveram dedicar alguns minutos a palavras que não prometiam absolutamente nada em troca.
isso me emociona mais do que consigo explicar.
porque atenção não é apenas uma métrica. é um pedaço da vida de alguém.
e ninguém devolve esse tempo.
mas o que realmente me fez parar hoje não foram os 37 milhões de acessos.
foi voltar ao primeiro texto.
encontrar aquele homem de 39 anos, anterior à pandemia, anterior a tantas experiências que mudariam sua vida, anterior à paternidade. perceber que ele ainda está ali, preservado em palavras, com suas certezas, suas dúvidas e aquela arrogância típica de quem ainda não descobriu o tamanho das coisas que desconhece.
foi como encontrar alguém que conheço profundamente e que, ao mesmo tempo, já não existe.
porque nesses quase sete anos não acumulei apenas textos.
acumulei versões de mim mesmo.
o homem que escreveu em 2020 já não é o mesmo que escreveu em 2022. e nenhum dos dois compreendia completamente aquele que chegaria a 2026. algumas opiniões sobreviveram. outras morreram de maneira absolutamente merecida. houve ideias que amadureceram e convicções que hoje me provocam um constrangimento semelhante ao de encontrar uma fotografia antiga usando uma roupa que, na época, eu considerava extraordinariamente elegante.
e acho isso maravilhoso.
seria um desperdício monumental atravessar quase sete anos, uma pandemia, guerras, eleições, perdas, descobertas e a experiência de se tornar pai para chegar ao outro lado exatamente com a mesma cabeça.
mas há uma coisa que esses mil textos fizeram e que eu só compreendi agora.
eles guardaram o homem que fui antes de meu filho chegar.
pensem nisso por um instante.
um dia meu filho poderá abrir este blog e encontrar alguém que ele nunca conheceu. poderá descobrir o que seu pai pensava antes de ser pai. quais músicas o faziam chorar, quais histórias o fascinavam, quais comportamentos o deixavam furioso. encontrará um homem que ainda não sabia da sua existência e que, mesmo assim, estava vivendo todas as experiências que um dia o levariam até ele.
e talvez descubra algo que nós, adultos, raramente conseguimos explicar aos nossos filhos.
que não nascemos prontos.
que também tivemos medo. que fomos inseguros, contraditórios, ridículos, apaixonados, ingênuos. que cometemos erros lamentáveis e defendemos ideias que hoje não sobreviveriam a cinco minutos de reflexão. que houve uma vida inteira antes de alguém começar a nos chamar de pai.
e que essa vida não desaparece quando um filho nasce.
ela continua dentro de nós, transformada.
a paternidade não me tornou um homem perfeito. seria uma notícia sensacional, mas absolutamente falsa. continuo impaciente, sarcástico, razoavelmente desconfiado das grandes promessas e perfeitamente capaz de arruinar uma conversa agradável quando alguém decide defender uma estupidez com entusiasmo excessivo.
mas mudou alguma coisa fundamental.
antes eu me preocupava com o mundo em que estava vivendo.
hoje também me preocupo com o mundo que meu filho vai herdar.
e isso muda o peso de praticamente tudo.
quando vejo uma guerra, não penso apenas na monstruosidade do acontecimento. penso nas crianças. quando acompanho uma eleição, não penso apenas nos próximos quatro anos. penso nas décadas que virão. quando escuto alguma coisa profundamente idiota sendo defendida como virtude, penso na quantidade de absurdos que ainda teremos de explicar aos nossos filhos, provavelmente acompanhados daquela expressão de incredulidade que as crianças fazem quando percebem que os adultos não são tão inteligentes quanto imaginavam.
e, francamente, elas têm bons motivos.
mas também existem os momentos bonitos. aqueles em que percebo meu filho formando suas próprias opiniões, descobrindo o significado de participar, fazendo perguntas que me obrigam a pensar melhor e começando a construir suas próprias lembranças. é uma experiência tão extraordinária quanto assustadora. porque criar alguém não deveria significar produzir uma versão menor de nós mesmos. o mundo já está suficientemente povoado por pessoas incapazes de admitir que suas convicções talvez não mereçam ser herdadas.
quero que meu filho pense por conta própria.
que discorde de mim.
que encontre músicas que eu não compreenda, admire pessoas que eu desconheça e desenvolva ideias que talvez me obriguem a reconsiderar as minhas.
mas gostaria que ele preservasse uma coisa.
a curiosidade.
aquela vontade de compreender o mundo antes de sair distribuindo certezas sobre ele.
e talvez seja isso que eu tenha feito nesses mil textos.
não transmitir sabedoria, palavra que considero especialmente perigosa quando utilizada por quem está tentando vender alguma coisa.
mas exercitar a curiosidade.
prestar atenção.
porque a vida acontece de uma maneira muito mais discreta do que imaginamos. enquanto estamos ocupados planejando grandes acontecimentos, nossos filhos crescem, nossos pais envelhecem, pessoas entram e saem da nossa história, músicas adquirem novos significados e pequenas experiências se transformam em lembranças que um dia daríamos qualquer coisa para reviver.
e quase nunca percebemos o momento exato em que isso acontece.
há textos meus que hoje funcionam como pequenas cápsulas do tempo. leio uma frase e lembro onde estava, o que sentia, o que me preocupava. encontro sentimentos que havia esquecido e pessoas que permanecem vivas em determinadas palavras. descubro que algumas coisas que me pareciam insuportáveis perderam completamente a importância, enquanto pequenos detalhes que mal mencionei se tornaram enormes com a passagem dos anos.
e é aí que esses mil textos deixam de parecer uma conquista numérica.
tornam-se uma vida documentada.
imperfeita, contraditória, às vezes engraçada, às vezes triste, ocasionalmente excessiva e frequentemente escrita por alguém que deveria ter contado até dez antes de publicar.
mas minha.
e agora dividida com vocês.
confesso que não sou particularmente talentoso para agradecer sem parecer desconfortavelmente sentimental. sempre desconfiei dessas manifestações públicas de gratidão que transformam qualquer pequena conquista numa cerimônia de premiação da própria existência. há gente agradecendo ao universo por acordar cedo, encontrar uma vaga de estacionamento e conseguir uma reunião com alguém importante. imagino que o universo tenha uma equipe administrativa bastante ocupada.
mas aqui não consigo recorrer ao sarcasmo para escapar completamente da emoção.
porque 37 milhões de acessos não aconteceram sozinhos.
houve pessoas.
pessoas que leram, compartilharam, discordaram, voltaram. que acompanharam anos da minha vida sem que eu soubesse quase nada sobre a delas. que me encontraram por causa de uma música, um texto sobre cinema, uma crítica, uma provocação ou uma lembrança.
e que, por alguns minutos, estiveram comigo.
isso é imenso.
não sei quantos desses encontros realmente significaram alguma coisa. seria pretensioso imaginar que cada texto transformou a vida de alguém. provavelmente muitos foram apenas esquecidos segundos depois da leitura. outros talvez tenham produzido irritação suficiente para alimentar uma discussão desagradável. faz parte. a literatura, a música e a vida seriam profundamente desinteressantes se servissem apenas para confirmar aquilo que já pensamos.
mas gosto de imaginar que, em algum lugar, alguém tenha encontrado uma frase minha justamente quando precisava dela.
não preciso saber quem foi.
é suficiente saber que isso pode ter acontecido.
e talvez seja por isso que continuo escrevendo, mesmo depois de mil textos.
porque ainda existem músicas que me fazem chorar. histórias que me deixam sem palavras. pessoas que despertam minha admiração e outras que demonstram, com uma dedicação quase profissional, como é possível atravessar a existência inteira sem desenvolver o menor senso de ridículo.
porque ainda amo este mundo, apesar de tudo.
e talvez precisamente por isso me irrite tanto com ele.
a indiferença seria muito mais confortável.
mas também seria uma maneira miserável de envelhecer.
hoje, aos 45 anos, não tenho qualquer interesse em me tornar um daqueles sujeitos que confundem maturidade com desistência. quero continuar aprendendo, mudando de opinião, me emocionando com uma música de quarenta anos e fazendo perguntas inconvenientes. quero continuar assistindo meu filho crescer e percebendo, às vezes com orgulho, às vezes com um medo que não cabe em palavras, que a vida dele está apenas começando enquanto uma parte considerável da minha já virou memória.
e é exatamente essa consciência que torna tudo tão precioso.
porque o tempo passa.
passa com uma crueldade silenciosa.
não anuncia quando estamos vivendo a última vez de alguma coisa. não avisa quando uma conversa, um abraço, uma tarde comum ou um momento aparentemente insignificante se transformará numa lembrança irrecuperável.
simplesmente continua.
e talvez escrever seja minha maneira desajeitada de tentar segurá-lo por alguns segundos.
não para impedir que a vida aconteça.
mas para não permitir que ela desapareça completamente sem que eu tenha percebido sua beleza.
volto a pensar naquele homem de 39 anos.
5 de janeiro de 2020.
uma página em branco.
uma frase simples.
ele não sabia que viveria uma pandemia, acompanharia guerras, atravessaria duas eleições presidenciais tão marcantes e um dia veria o próprio filho participando da história ao seu lado.
não sabia que escreveria mil textos.
muito menos que seriam mais de 37 milhões de acessos.
e, principalmente, não sabia que um dia teria alguém por quem desejaria desesperadamente que o mundo fosse um lugar um pouco melhor.
se pudesse encontrá-lo, não lhe contaria nada disso.
deixaria que descobrisse.
que errasse, que mudasse de opinião, que se emocionasse, que se irritasse com as pessoas erradas e aprendesse a reconhecer as certas. que atravessasse os dias difíceis, aproveitasse os bons e chegasse até aqui sem perder aquela mania quase infantil de querer compreender o que está acontecendo ao redor.
mas talvez lhe dissesse uma única coisa.
continue escrevendo.
mesmo quando parecer inútil.
mesmo quando ninguém comentar.
mesmo quando você achar que não tem nada de especialmente importante para dizer.
continue.
porque um dia você vai olhar para trás e perceber que, enquanto tentava registrar o mundo, estava preservando pedaços de si mesmo que de outra maneira teriam desaparecido.
e talvez algum dia seu filho encontre essas palavras.
talvez abra o primeiro texto e descubra que, quando tudo começou, você ainda não era pai.
talvez leia algumas das mil páginas e encontre nelas um homem que às vezes foi ridículo, às vezes foi corajoso, muitas vezes não soube o que fazer e jamais conseguiu permanecer indiferente àquilo que amava.
talvez ria de suas provocações.
talvez discorde de metade de suas opiniões.
talvez descubra que o pai que conhece também foi um homem tentando encontrar seu lugar no mundo.
e talvez, num dia qualquer, quando eu já não souber explicar determinada lembrança com a mesma precisão, ele encontre aqui a versão que ficou escrita.
essa é uma possibilidade que me emociona muito mais do que 37 milhões de acessos.
porque, no fim, eu não preciso que o mundo inteiro se lembre de mim.
mas seria extraordinário que meu filho pudesse encontrar, entre essas palavras, algo que o fizesse reconhecer quem eu fui.
não um herói.
não um homem extraordinário.
não um desses personagens insuportavelmente perfeitos que só existem em homenagens e biografias cuidadosamente editadas.
apenas seu pai.
aquele sujeito que implicava com tudo, que amava música, que se comovia com coisas aparentemente pequenas, que tinha uma opinião sobre quase tudo e que, por trás de uma quantidade absolutamente obscena de sarcasmo, sentia as coisas com uma intensidade que nem sempre sabia demonstrar.
e talvez seja isso que eu gostaria que permanecesse.
a prova de que estive aqui.
de que me importei.
de que não atravessei a vida completamente distraído.
mil textos depois, continuo sem entender uma quantidade constrangedora de coisas. provavelmente entendo menos do que imaginava entender aos 39 anos. uma evolução intelectual bastante saudável, embora pouco recomendável para quem pretende construir uma carreira vendendo certezas.
mas hoje sei de algo que aquele homem de 2020 não sabia.
ele começou um blog para registrar os pensamentos e devaneios de sua vida.
sem imaginar que, seis anos depois, um menino que nem fazia parte daquela primeira página seria uma das razões mais bonitas para continuar escrevendo as próximas.
e pensar que tudo isso começou com uma frase.
uma página.
um aniversário.
e a absoluta ignorância sobre o que ainda estava por vir.
mil textos. 37 milhões de acessos. quase sete anos de vida.
e, se um dia meu filho ler tudo isso e concluir que seu pai era um sujeito sentimental escondido atrás de uma coleção de provocações e piadas de gosto duvidoso, terá finalmente compreendido alguma coisa importante a meu respeito.
espero apenas que também perceba o quanto fui feliz por ele ter aparecido no meio da história.
porque comecei este blog antes de ser pai.
mas não consigo mais imaginar o final dessa história sem ele.
e, porra, que sorte a minha ter continuado escrevendo até descobrir isso.