
uma das coisas que mais me chamou a atenção no debate de ontem entre lula e flávio bolsonaro foi algo que aconteceu enquanto lula falava. flávio ficava atrás dele, gesticulando, balançando o dedo negativamente, fazendo expressões de ironia. e isso me lembrou imediatamente o debate de 2016 entre hillary clinton e donald trump.
e tem muita ciência por trás dessa história. principalmente quando pensamos no eleitor indeciso.
em 2016, trump circulava pelo palco e ficava parado atrás de hillary enquanto ela respondia às perguntas. aquilo foi interpretado por muita gente como uma demonstração de intimidação e domínio. hillary tentava manter a postura e falar com o público, enquanto trump disputava a atenção simplesmente ocupando o espaço ao redor dela.
ontem, flávio fez algo semelhante, mas com uma diferença importante. trump usava principalmente a presença física, a proximidade e o tamanho do corpo. flávio usou mais a expressão facial e os gestos de negação. um parecia querer demonstrar domínio sobre a adversária. o outro parecia querer desacreditar tudo o que o adversário dizia.
e olha que interessante: existe um estudo de 2005, publicado no journal of social psychology, que analisou justamente como o público reage quando um candidato fica demonstrando discordância com gestos enquanto o outro fala. o resultado é curioso. quem fazia esses gestos acabava sendo percebido como menos adequado ao debate. e, quando a discordância era constante, quem estava falando podia até sair com uma imagem melhor.
ou seja, algo que parece uma demonstração de força pode produzir exatamente o efeito contrário.
e tem outra questão que a psicologia cognitiva ajuda a explicar. nossa atenção responde a expressões faciais, movimentos e sinais de conflito. quando alguém está falando e outra pessoa aparece ao fundo fazendo gestos de deboche, passamos a receber duas mensagens ao mesmo tempo. uma verbal, com argumentos, e outra visual, sugerindo que aqueles argumentos não merecem crédito.
o curioso é que a segunda mensagem nem precisa apresentar provas. basta uma expressão de desprezo para tentar colocar em dúvida aquilo que está sendo dito. é como se alguém colocasse uma legenda emocional na fala do adversário.
mas o ponto que acho mais interessante é o eleitor indeciso.
quem já gosta do flávio provavelmente viu ali alguém corajoso, seguro, que não abaixa a cabeça. quem já gosta do lula provavelmente viu arrogância, desrespeito e imaturidade. isso tem relação com um fenômeno bastante estudado na psicologia política, nossas preferências anteriores influenciam a maneira como interpretamos o comportamento de um candidato.
só que o indeciso não tem necessariamente essa mesma convicção. e indeciso também não significa desinformado. às vezes é alguém que conhece os dois, não confia plenamente em nenhum e está tentando descobrir quem parece mais preparado para governar.
e nesse caso a linguagem corporal pode ter um peso enorme.
porque esse eleitor pode nem lembrar exatamente o argumento econômico apresentado por um ou por outro, mas pode sair do debate com uma sensação muito clara sobre o comportamento dos dois. quem demonstrou segurança? quem pareceu nervoso? quem transmitiu equilíbrio? quem parecia estar querendo resolver alguma coisa e quem parecia interessado apenas em provocar?
percebe o risco?
flávio pode conseguir chamar a atenção e agradar muito quem já votaria nele. mas também pode provocar no indeciso uma pergunta bastante desconfortável, se ele se comporta assim num debate, como vai se comportar diante de uma crise de verdade?
por outro lado, há quem interprete exatamente essa postura como sinal de força, de alguém disposto a enfrentar o sistema. e isso ajuda a entender por que a mesma cena pode despertar admiração em uma pessoa e rejeição em outra.
existe ainda uma diferença que acho fundamental entre 2016 e ontem. trump estava diante de uma mulher, e a proximidade física acrescentava uma leitura de intimidação que envolvia também expectativas sociais sobre gênero. no confronto entre flávio e lula, essa dimensão é diferente. o peso visual está muito mais na disputa entre autoridade e deboche, experiência e enfrentamento.
mas tem um outro elemento nessa comparação que acho ainda mais interessante. lula tem 80 anos e flávio 45. e isso acrescenta uma camada completamente diferente à leitura da cena. porque, culturalmente, existe uma expectativa de respeito aos mais velhos, independentemente de concordarmos com eles. quando um homem mais jovem fica atrás de um senhor de 80 anos fazendo gestos de deboche, parte do público pode interpretar aquilo não apenas como uma provocação política, mas como uma demonstração de desrespeito a alguém mais velho.
e essa questão fica ainda mais curiosa porque a própria campanha de flávio explora a idade de lula como sinal de que chegou a hora de uma mudança. no debate, inclusive, flávio chegou a dizer que o brasil iria aposentá-lo. ou seja, existe um discurso verbal que associa juventude à renovação e idade avançada ao fim de um ciclo. mas, quando esse discurso vem acompanhado de gestos que podem parecer desrespeitosos, a mensagem corre o risco de se voltar contra quem a utiliza.
e aqui entra novamente a semiótica. a mesma imagem pode comunicar duas coisas completamente diferentes. para alguns, um jovem enfrentando um político experiente e representando o novo. para outros, um homem mais jovem debochando de alguém que poderia ter a idade de seu pai ou de seu avô.
e pense no eleitor indeciso, especialmente naquele que valoriza muito o respeito aos mais velhos. ele pode até concordar que lula está velho demais para governar, mas isso não significa que ache aceitável vê-lo sendo tratado com deboche. é perfeitamente possível alguém questionar a capacidade de um político continuar no cargo e, ao mesmo tempo, sentir incômodo com a maneira como seu adversário se comporta diante dele.
aliás, essa talvez seja uma das contradições mais interessantes dessa estratégia. ao tentar representar juventude e força, flávio corre o risco de fazer lula parecer justamente aquilo que sua campanha tenta transformar em fraqueza: um senhor mais velho diante de alguém que parece não respeitá-lo.
e não estou dizendo que essa foi necessariamente a leitura das pessoas. estou dizendo que, do ponto de vista da comunicação, é uma possibilidade muito real. e que pode pesar justamente entre aqueles que ainda não escolheram um lado.
e tem algo que torna tudo isso ainda mais interessante… um debate hoje também é feito para virar corte nas redes sociais. um gesto de três segundos pode circular milhões de vezes sem que ninguém saiba exatamente o que estava sendo discutido. a imagem viaja sozinha, e cada grupo político coloca a legenda que quiser.
e isso me faz pensar numa coisa, talvez o maior desafio de quem participa de um debate não seja apenas convencer o eleitor de que está certo, mas conseguir transmitir que tem equilíbrio emocional para ocupar o cargo.
porque existe uma diferença enorme entre parecer forte e parecer preparado.
e para o eleitor indeciso, essa diferença pode ser decisiva.
no fundo, a semiótica nos mostra uma coisa fascinante, enquanto um candidato tenta convencer com palavras, o outro pode tentar desmenti-lo com o corpo. só que a interpretação final não pertence a nenhum dos dois.
pertence a quem está assistindo.
e esse talvez seja o maior perigo de transformar um debate presidencial numa competição de caretas. você pode conquistar os aplausos de quem já está do seu lado e, ao mesmo tempo, perder silenciosamente quem ainda estava disposto a te ouvir.