
hoje acordei e, pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de mandar a humanidade inteira para o inferno antes do café.
isso, vindo de mim, é praticamente uma declaração de amor.
lula venceu.
escrevo essas duas palavras devagar. como quem abre uma garrafa guardada há anos para uma ocasião que já começava a parecer improvável. como quem recebe a notícia de que um velho amigo sobreviveu a uma guerra. como quem descobre, depois de uma noite interminável, que ainda existe alguma coisa do lado de fora da escuridão.
lula venceu.
e há milhões de brasileiros que hoje acordaram com aquela expressão meio idiota de quem se apaixonou aos dezessete anos. gente que passou meses engolindo a própria angústia, discutindo com parentes, evitando grupos de whatsapp, ouvindo absurdos pronunciados com a solenidade de quem acaba de descobrir a verdade definitiva sobre a civilização ocidental.
gente que teve medo.
medo de perder direitos. medo de ver o país se acostumar com a violência política. medo de que o desprezo pelo outro deixasse de ser uma vergonha e passasse a ser uma credencial para ocupar cargos públicos.
e hoje essa gente sorriu.
alguns choraram.
outros abraçaram desconhecidos.
e eu gostaria de abraçar cada um deles, embora provavelmente acabasse pedindo desculpas pelo constrangimento e oferecendo um café.
porque existe uma beleza quase insuportável numa multidão que volta a respirar.
então, coloquei david bowie para tocar.
heroes.
em 1977, bowie estava em berlim, aquela cidade onde a humanidade havia conseguido transformar sua própria estupidez em monumento de concreto.
um muro.
imaginem a arrogância necessária para construir uma parede no meio da vida das pessoas e declarar que aquilo era uma solução política.
havia soldados, armas, torres de vigilância e homens muito sérios, certamente com diplomas e famílias respeitáveis, administrando a extraordinária tarefa de impedir que seres humanos atravessassem uma rua.
sempre houve homens muito sérios encarregados de coisas monstruosas.
essa talvez seja uma das lições mais desagradáveis da história.
o mal raramente precisa de uma gargalhada cinematográfica. costuma preferir uma mesa organizada, um carimbo, uma justificativa jurídica e alguém explicando que está apenas cumprindo ordens.
e naquele cenário bowie cantou sobre duas pessoas tentando encontrar um instante de liberdade.
duas pessoas.
um beijo.
um muro.
e uma voz que cresce até parecer que vai arrancar os tijolos com os dentes.
ouçam heroes hoje. ouçam alto. prestem atenção no momento em que bowie deixa de cantar com elegância e começa praticamente a gritar contra o mundo.
aquilo é a esperança perdendo a paciência.
e, meu deus, como eu precisava ouvir aquilo nesta manhã.
o fascismo sempre teve um talento extraordinário para se apresentar como solução.
oferece ordem aos assustados. grandeza aos humilhados. inimigos aos frustrados. uma explicação simples para todas as desgraças humanas, desde o desemprego até a decadência moral que algum sujeito de televisão acaba de descobrir entre dois anúncios de colchão.
é um negócio magnífico.
você pega uma sociedade complexa, escolhe um grupo para culpar e promete devolver a felicidade nacional assim que todos aprenderem a obedecer.
os figurinos mudam.
os métodos de propaganda evoluem.
os velhos discursos ganham cortes para redes sociais, legendas coloridas e uma trilha sonora que faria qualquer ditador do século passado morrer de inveja da tecnologia disponível.
a brutalidade agora chega com excelente qualidade de imagem.
e o mais impressionante é a quantidade de gente que continua confundindo crueldade com força.
um homem humilha alguém vulnerável e recebe aplausos pela coragem.
um político ameaça instituições e ganha admiradores pela autenticidade.
um governante transforma adversários em inimigos e seus seguidores chamam aquilo de amor à pátria.
é uma ginástica moral tão espetacular que deveria ser modalidade olímpica.
e foi contra esse ambiente político, contra essa familiaridade crescente com o autoritarismo, que tantos brasileiros foram às urnas ontem.
a vitória de lula carrega, para mim, o peso de tudo isso.
carrega o cansaço de quem viu a própria família se dividir. a tristeza de quem perdeu amigos para teorias delirantes. a indignação de quem ouviu elogios à ditadura como se estivéssemos falando de um período particularmente eficiente da administração pública.
carrega também a memória dos brasileiros que enfrentaram a repressão quando discordar podia custar a liberdade, o emprego, a família, a própria vida.
e é impossível pensar nessas pessoas sem sentir alguma coisa apertar no peito.
porque muitos dos que abriram caminho para a nossa democracia morreram antes de conhecer os dias que ajudaram a tornar possíveis.
nunca viram nossos debates eleitorais. nunca reclamaram de uma pesquisa de opinião. nunca tiveram o privilégio banal de votar, voltar para casa e esperar a apuração.
deram a própria vida para que desconhecidos, décadas depois, pudessem exercer um direito que hoje alguns tratam com o entusiasmo de quem precisa renovar o documento do carro.
há uma dívida humana imensa escondida dentro de uma urna.
e agora olhem para os estados unidos.
daqui a poucos dias, em 3 de novembro, os americanos irão votar nas eleições de meio de mandato.
as pesquisas nacionais mostram os democratas à frente na disputa pelo congresso. existe uma corrente de insatisfação com o governo trump atravessando o país, e a possibilidade de uma mudança importante no equilíbrio político americano já movimenta campanhas, ruas e conversas.
imagino pessoas em nova york, chicago, atlanta, phoenix. trabalhadores saindo cedo de casa. estudantes discutindo política em bares. mulheres organizando campanhas. famílias conversando sobre o futuro de seus filhos.
pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de uma pequena cidade brasileira onde alguém também acordou hoje emocionado diante do resultado de uma eleição.
e, ainda assim, existe uma conversa acontecendo entre esses mundos.
uma conversa sem tradução necessária.
sobre medo.
sobre liberdade.
sobre o direito de continuar pertencendo ao próprio país mesmo quando o governante não gosta de você.
sobre a exaustão de viver numa época em que cada notícia parece exigir que escolhamos entre o desespero e a raiva.
a extrema direita internacional aprendeu a compartilhar estratégias, slogans, inimigos e fantasias de grandeza nacional. seus líderes se admiram, se imitam, se fotografam juntos e parecem competir para descobrir quem consegue pronunciar a palavra liberdade enquanto demonstra maior irritação diante da liberdade alheia.
é uma fraternidade curiosa.
todos prometem devolver seus países ao povo.
e todos parecem ter uma lista bastante específica de pessoas que prefeririam excluir dessa definição.
mas há outra coisa atravessando fronteiras.
a recusa.
aquela teimosia humana que aparece quando alguém decide que já ouviu ameaças suficientes para uma vida inteira.
aquela vontade de levantar, vestir uma camiseta, encontrar outras pessoas, enfrentar uma fila e participar de alguma coisa maior do que o próprio medo.
é nisso que penso quando olho para o brasil hoje e para os estados unidos às vésperas de novembro.
na possibilidade de uma geração inteira descobrir que o futuro ainda pode ser disputado.
sabe, eu conheço o cinismo.
somos velhos amigos.
ele esteve comigo em aeroportos, reuniões chatas, noites de insônia e manhãs em que bastava ler três manchetes para concluir que a evolução humana havia cometido algum erro.
o cinismo é confortável. oferece a sensação de inteligência sem exigir grandes riscos emocionais.
quem espera sempre o pior raramente se surpreende.
também raramente vive alguma coisa que preste.
e talvez seja por isso que hoje estou tão comovido.
porque alguma coisa em mim, que eu julgava definitivamente enterrada sob anos de notícias ruins e promessas políticas recicladas, resolveu aparecer.
a capacidade de acreditar.
não aquela fé infantil em homens providenciais, salvadores da pátria e outras criaturas mitológicas que costumam terminar seus dias cercadas de assessores e investigações.
falo da fé nas pessoas.
nas pessoas comuns.
na senhora que votou ontem pensando nos netos.
no rapaz que levou a mãe até a seção eleitoral.
na mulher que passou a semana inteira trabalhando e ainda encontrou disposição para conversar com os vizinhos sobre o país que gostaria de deixar aos filhos.
no cidadão que não aparece em fotografia nenhuma, não ganha entrevista, não tem seguidores, não sabe o que é engajamento e nunca será convidado para comentar o futuro da democracia numa mesa de televisão.
esse sujeito anônimo é a democracia.
não tem trilha sonora.
não tem frase de efeito.
às vezes chega atrasado, reclama do calor e esquece o número do candidato.
e carrega nas mãos um poder que reis, generais e tiranos passaram séculos tentando monopolizar.
isso deveria nos emocionar mais vezes.
bem, volto a bowie e sabe… há algo naquela música que sempre me destrói.
a voz começa contida, quase tímida, e vai ganhando uma urgência desesperada. parece alguém tentando convencer a si mesmo de que ainda existe uma saída. de que o amor pode sobreviver ao concreto. de que dois seres humanos podem desafiar, por um instante, toda a maquinaria de um mundo construído para separá-los.
e então a voz explode.
é impossível ouvir aquilo sem pensar nas pessoas que enfrentaram muros de verdade.
nas que foram perseguidas.
nas que desapareceram.
nas que morreram longe de casa.
nas que envelheceram esperando uma mudança que parecia nunca chegar.
imagino quantas vezes essas pessoas acordaram sem esperança.
quantas vezes pensaram em desistir.
quantas vezes tiveram de continuar simplesmente porque não havia alternativa moralmente suportável.
e penso que cada manhã de liberdade pertence um pouco a elas.
cada voto.
cada abraço numa praça.
cada lágrima derramada diante de um resultado eleitoral.
cada jovem que pode dizer o que pensa sem precisar olhar por cima do ombro.
há gente morta dentro dessas conquistas.
gente que jamais conheceremos.
gente que não recebeu estátua, nome de avenida ou homenagem oficial.
gente que simplesmente se recusou a aceitar que o mundo tivesse de continuar daquele jeito.
é por essas pessoas que hoje eu quero celebrar.
e é por elas que a música de bowie parece tão grande.
porque os heróis mais importantes raramente sabem que são heróis.
estão ocupados demais tentando sobreviver.
talvez estejamos vivendo um daqueles momentos em que a história abre uma fresta.
uma pequena abertura por onde entra ar.
o brasil acaba de atravessar uma eleição que mobilizou paixões, medos e esperanças profundas. os estados unidos se aproximam de outra votação decisiva para o equilíbrio de suas instituições. em diferentes países, milhões de pessoas discutem o futuro das democracias diante do crescimento de movimentos extremistas.
e eu sinto que existe alguma coisa poderosa nessa simultaneidade.
como se pessoas que nunca se encontraram estivessem, cada uma à sua maneira, tentando responder à mesma pergunta…
quanto da nossa humanidade estamos dispostos a entregar em troca da promessa de segurança?
é uma pergunta antiga.
e a história está cheia de respostas desastrosas.
hoje, porém, quero pensar nas respostas corajosas.
nas pessoas que se recusaram a denunciar um vizinho.
nos jornalistas que continuaram investigando.
nos professores que continuaram ensinando.
nos artistas que continuaram cantando.
nos cidadãos que continuaram votando.
há uma beleza imensa nessa insistência.
uma beleza que não cabe em discursos oficiais, slogans de campanha ou fotografias de políticos levantando os braços.
é a beleza de uma espécie profundamente defeituosa que, de vez em quando, encontra dentro de si uma grandeza inesperada.
e hoje eu vi um pouco dessa grandeza.
e o café acabou.
a música continua.
estou sentado aqui, pensando nos brasileiros que acordaram felizes, nos americanos que se preparam para votar, nos mortos que ajudaram a construir nossas liberdades e nos vivos que terão de carregá-las adiante.
e sinto uma vontade absurda de agradecer a pessoas que nunca conheci.
ao desconhecido que enfrentou uma ditadura.
à mulher que insistiu em votar mesmo depois de ouvir que sua voz não importava.
ao jovem que escolheu participar quando seria muito mais fácil desistir.
aos milhões de seres humanos que continuam acreditando que um país pertence a todos os que vivem nele.
hoje estou feliz por eles.
por nós.
pela possibilidade de que o mundo ainda guarde surpresas capazes de nos fazer chorar de alegria.
e, se isso arruinar definitivamente minha reputação de sujeito sarcástico e desconfiado, paciência.
já sobrevivi a humilhações piores.
vou colocar heroes mais uma vez.
vou aumentar o volume até incomodar os vizinhos.
vou tomar outro café.
e vou guardar esta manhã como quem guarda uma fotografia de alguém que ama.
porque houve um tempo em que eu pensei que jamais voltaria a sentir isso.
essa vontade de abraçar o mundo, apesar de conhecer muito bem os seus defeitos.
essa certeza momentânea de que ainda vale a pena.
essa esperança indecente, inconveniente, maravilhosa.
hoje a humanidade me fez chorar.
a desgraçada finalmente acertou alguma coisa.