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2024

ser legal dá trabalho

ser legal dá um trabalho desgraçado, e é exatamente por isso que pessoas que conseguem ser genuinamente legais são uma raridade fascinante. essas criaturas parecem viver em um universo paralelo, onde a gratidão e a paciência são moeda corrente e o bom humor não é um esforço, mas sim um estilo de vida. para essas pessoas, não basta simplesmente existir – não, elas fazem questão de transformar o ordinário em algo ligeiramente suportável, de uma maneira que chega a ser quase desconcertante. elas encaram o mundo com um sorriso sincero e uma palavra gentil, enquanto o resto de nós só quer sobreviver ao próximo aborrecimento sem mandar ninguém ao inferno.

e sabe de uma coisa? eu realmente gosto dessas pessoas. elas não são apenas legais por conveniência, como quem tenta passar uma imagem de pureza ou de superioridade moral. não. essas pessoas estão nesse jogo de bondade porque, de alguma forma incompreensível, acreditam mesmo nisso. elas acham que cada gesto importa, que cada palavra pode fazer diferença. e, com essa crença meio ingênua, acabam criando pequenos milagres no caos diário. elas não são do tipo que oferecem gentileza esperando algo em troca, como aqueles falsos bonzinhos que na verdade só querem se sentir superiores ao resto da humanidade, disfarçando seu ego inflado atrás de uma fachada de “santidade”.

não, essas pessoas legais de verdade se levantam todos os dias e decidem que vão ser a mudança que querem ver no mundo. elas não estão aqui para nos dar uma lição, nem para jogar na cara nossa falta de paciência. elas estão simplesmente ocupadas demais tentando fazer o mundo ser menos insuportável para se importarem com o que o resto de nós pensa.

e, francamente, é por isso que eu admiro esses estranhos. ser legal requer uma energia que a maioria de nós não tem, ou simplesmente não se importa em gastar. dá trabalho. é um investimento de tempo e de sanidade que poucos estão dispostos a fazer. enquanto estamos todos à beira do colapso, ansiosos e prontos para a próxima chance de esbravejar, essas pessoas legais continuam firmes, navegando calmamente por um mar de cinismo e indiferença, sem perder o ritmo.

é um tipo de loucura admirável. o resto de nós vive na defensiva, prontos para o ataque, desconfiados de qualquer sorriso que dure mais de dois segundos. mas essas pessoas? elas estão em outro plano, ocupadas demais sendo boas para se importar com o nosso olhar de desconfiança. a verdade é que o mundo precisa delas. sem essas pessoas, estaríamos todos, sem exceção, afundados em um pântano de amargura e sarcasmo, sem um raio de esperança à vista.

então sim, que venham mais dessas almas decididamente boas. quem sabe, com o tempo, a gente até aprenda alguma coisa. ou, na pior das hipóteses, a gente acaba sendo levado de arrasto por essa onda de positividade irritantemente autêntica. porque, no final das contas, ser legal pode dar trabalho, mas é esse tipo de trabalho que faz o mundo girar de um jeito que a gente até se esquece, por um momento, do caos ao nosso redor. e se você, como eu, ainda está tentando entender por que essas pessoas são assim, talvez seja porque, lá no fundo, você sabe que precisa delas – mesmo que não admita.

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2024

crianças

ah, as crianças. o futuro da humanidade, os pequenos portadores da esperança, as bolinhas de energia descontrolada que muitas vezes parecem movidas a açúcar e determinação inabalável de destruir qualquer ambiente silencioso. mas, olha só, é aí que reside o encanto desses pequenos seres em formação. são como obras de arte ainda em rascunho, um caos de criatividade e curiosidade que, quando a gente para para observar, até faz a gente sentir uma ponta de inveja.

elas têm essa habilidade única de se encantar com o mundo de um jeito que você, adulto cínico e amargo, nem consegue mais imaginar. enquanto você só vê uma poça d’água nojenta que vai sujar o sapato caro, elas veem um oceano de possibilidades. a inocência com que elas exploram o mundo é quase um lembrete de que, uma vez, você também foi assim: sem medo de se sujar, sem vergonha de perguntar o que é óbvio, e sem o peso dessa bagagem existencial que a gente coleciona ao longo dos anos.

mas, veja bem, não são só flores. não estamos falando de anjinhos celestiais. elas são sinceras de um jeito brutal que deixa qualquer adulto desconfortável. você acha que sua roupa nova está arrasando? uma criança te diz que você parece um palhaço, e com a maior naturalidade do mundo. e no final das contas, não dá pra negar, elas são quase sempre brutalmente honestas. essa sinceridade, esse desapego com convenções sociais, é o que torna a presença delas tão revigorante. são elas que, sem querer, nos mostram o quanto a gente se leva a sério.

e sim, é verdade que crianças também são um pouco como cientistas malucos, sempre testando os limites do possível. se você diz “não toque nisso”, elas imediatamente tocam. mas, ao contrário do que muitos pais pensam, isso não é desobediência gratuita. é curiosidade pura, é essa fome de mundo que talvez a gente nunca mais recupere depois de velho. e talvez a gente precise dessas pequenas doses de caos para lembrar que a vida não é feita só de cronogramas, listas de afazeres e reuniões que poderiam ser e-mails.

o segredo, se é que existe algum, está em aprender a apreciá-las como elas são: pequenos agentes do caos, sim, mas também mestres do riso, do aprendizado e da descoberta. com elas, tudo é um experimento, tudo é um “e se?”. e, no fundo, talvez o mundo precise mesmo de mais perguntas e menos respostas definitivas. talvez todos nós devêssemos ser um pouco mais como crianças – com menos medo, mais curiosidade, e um pouquinho mais de coragem para encarar o mundo de peito aberto e olhos arregalados.

então, da próxima vez que você cruzar com uma criança, seja paciente. pode ser que ela te faça enxergar o mundo sob uma nova luz, ou pelo menos te lembre que, às vezes, tudo o que a gente precisa é de um mergulho numa poça d’água.

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2024

ler

olha, é assim: você entra numa livraria hoje e o que vê? uma parede de papel barato com os títulos de sempre, os hits de instagram, aqueles livros de autoajuda camuflados de literatura séria, e as ficções blockbuster que vêm e vão mais rápido que o café da manhã. é como se o mundo tivesse trocado “a divina comédia” por “os segredos dos milionários que acordam às cinco da manhã” e “crime e castigo” por alguma bobagem de fantasia genérica sobre um vampiro apaixonado. a moda é agora devorar romances banais de youtubers, como se fosse o auge do saber.

e antes que me acusem de saudosista, digo logo: nem todo clássico é intocável ou vai te fazer tremer. tentei ler “moby dick” três vezes. três vezes, meu caro! e tudo o que consegui foi imaginar quantos capítulos mais eu teria de aguentar sobre a bendita baleia. você já tentou encarar “ulisses” de james joyce? eu, uma vez. duas, se contar as páginas que folheei sem entender absolutamente nada, imaginando o que diabo ele estava tentando dizer. e, se estamos sendo honestos, abandonei “em busca do tempo perdido” antes de passar da página 100 – marcel proust com seu desfiar de lembranças como se fosse alguma revelação divina; uma ladainha que só me fez buscar o tempo perdido em algum outro lugar.

e a verdade é que tem muita gente presa em livros que deveriam ter largado há muito tempo, como uma amizade que já foi boa um dia, mas agora só resta um fio de paciência. mas não, insistem, empurram, se amarram nesse masoquismo literário como se fossem ser canonizados por terminar aquele volume interminável de tolstói ou aquelas frases intermináveis de faulkner. o pessoal parece achar que largar um livro é como desistir de um filho, uma ofensa pessoal ao autor, ou – deus nos livre – um sinal de que são “menos leitores”. como se existisse um ranking secreto, uma lista de onde seu nome só vai entrar se você ler até o último ponto final de “os irmãos karamazov”.

mas, sabe, é libertador saber desistir. é como abandonar uma festa chata sem dar explicações, aquela decisão sem culpa, sem remorso. é um talento subestimado, saber largar mão de um livro que só está te torturando. nada de ir até o final só porque um crítico barbudo disse que é a melhor coisa já escrita. se o livro não te pegou, larga. é simples. um livro que não te toca não merece o peso da tua atenção. ler é coisa séria demais pra ser um fardo, e a vida é curta demais pra páginas que você vai esquecer no minuto em que fechar a capa.

então, que se danem os modismos, os clássicos de pedante, e os romances descartáveis. lê-se o que se ama, e o que não faz o sangue ferver, a gente larga. e é assim que se vive, como deve ser.

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2024

o que realmente importa

engraçado como uma febre infantil faz você largar tudo e repensar a vida, como um susto no meio do caminho que te obriga a pisar no freio. um minuto antes você tá ali, imerso nas banalidades do dia a dia — trabalho, compromissos, aquele happy hour que você marcou mas nem tava com tanta vontade de ir. aí vem ele tremendo de frio com calafrios, um corpo quente, e o mundo muda num estalar de dedos. você se pega numa vigília absurda, conferindo temperatura a cada cinco minutos, como se sua própria existência dependesse disso. e, de certo modo, depende.

e não é que as prioridades mudam, elas evaporam. todo o resto vira ruído de fundo, um monte de besteira sem importância. aquele projeto no trabalho que parecia questão de vida ou morte, de repente parece risível. as contas que te atormentavam viram poeira. porque, ali, deitado no sofá com os olhos pesados e o rostinho quente, está a única coisa que realmente importa. você percebe que toda essa coisa de “vida” não faz o menor sentido sem ele bem, sem ele ali, saudável e feliz, puxando a barra da sua camisa e te pedindo atenção.

aí você percebe o quanto toda essa construção é frágil. você, que já se achou um gigante, invencível, com o mundo sob controle, descobre que basta uma febre pra te reduzir a nada. você já não passa de um figurante sem nome, o cara que faz o que pode nos bastidores, enquanto a estrela do show enfrenta o próprio pequeno apocalipse. é humilhante e, ao mesmo tempo, libertador. porque te obriga a encarar a verdade: toda essa corrida, toda essa performance que você chama de vida, se dissolve na irrelevância quando a saúde dele está em jogo.

é o tipo de epifania que só vem quando você encara a fragilidade de alguém que depende de você. é aquele tapa na cara, sem cerimônia, sem aviso prévio, que te lembra o que realmente importa, que coloca tudo em perspectiva, que faz a vida inteira fazer sentido. porque a verdade é que você tá aqui pra isso. pra cuidar, pra se preocupar, pra estar presente. e, no fim, tudo se resume a isso: a felicidade dele é a sua, a dor dele é a sua, e toda a sua vida se resume a garantir que ele possa, um dia, correr por aí sem nunca se lembrar da noite em que você ficou acordado, contando respirações e trocando compressas.

no final das contas, você se dá conta de que essa é a única coisa que vale a pena. o resto é paisagem. o resto é conversa fiada.

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2024

adivinhações

ah, as decisões cruciais da vida. aquelas que a gente é forçado a tomar no escuro, tropeçando nos próprios pés e torcendo para que, de alguma forma milagrosa, tudo dê certo. mas a verdade é que a vida adora pregar peças e exigir de nós um nível de sabedoria que, sejamos honestos, ninguém possui. a ironia é que, quando essas encruzilhadas surgem, raramente estamos equipados com o que realmente importa: informação de verdade. a gente até se ilude, busca conselhos, lê uns textos aleatórios na internet, assiste a vídeos de gente que se acha guru… mas, no fim das contas, é como montar um quebra-cabeça no escuro.

é quase como se a vida quisesse nos ver falhar, dar aquela risadinha cínica, enquanto a gente tropeça e cai de cara no chão. você se depara com essas escolhas, na maior parte das vezes, quando está vulnerável, com pressa ou simplesmente sem a mínima ideia do que fazer. e aí você escolhe – com base na intuição, na esperança, ou até no puro medo de ficar parado. e depois, bem, depois você fica anos pensando se foi o melhor caminho, se aquela escolha idiota foi o que estragou tudo ou se, na real, o erro foi nunca ter ousado mais.

mas é isso, não? a vida é um jogo de adivinhações mal-intencionado, onde a gente tem que decidir de estômago embrulhado, sem mapa, e fingir que entende alguma coisa. a verdade é que ninguém sabe porra nenhuma. e, de certa forma, isso é até um consolo. no final das contas, somos todos palhaços dançando nesse circo, tomando decisões estúpidas, sem a menor garantia de que vai dar certo. só que fingimos que está tudo bem. porque, no fundo, o que resta é o espetáculo de seguir em frente, sem olhar muito para trás, e rir do absurdo de tudo isso.

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2024

minha marca favorita

todo mundo acha que eu sou fã da apple. é fácil entender por quê – iphone no bolso, macbook na mesa, e aquele visual todo minimalista que eles vendem. mas a verdade é que a marca que realmente me fisgou, aquela que eu realmente admiro, é a patagônia. e olha, não é por causa de estilo ou status. é porque a patagônia, ao contrário do resto, não tá interessada em fazer você consumir mais. eles querem é te fazer pensar. é como um antídoto para o veneno que o capitalismo tradicional despeja em todo mundo. patagônia faz você se perguntar: será que eu realmente preciso de mais uma coisa?

essa mentalidade ficou clara na primeira vez que entrei numa loja deles. eu tava lá, pronto pra comprar um casaco novo, só mais uma peça na pilha de “necessidades” que a gente acha que tem. e o vendedor me pergunta, sem cerimônia: “pra que você quer outro casaco? o que você já tem não tá bom?” aquela foi uma lição. eles não estão ali pra fazer você gastar por gastar. eles estão ali pra te lembrar que talvez você não precise de nada. patagônia não faz só roupa, faz um convite à reflexão. é quase como se cada casaco viesse com uma pequena provocação.

o compromisso da patagônia com a durabilidade não é só marketing. eles criam produtos feitos pra durar anos, e se algo quebra, eles consertam de graça. sério, de graça. e se você tá cansado da peça, você pode devolvê-la. eles a reformam e vendem como peça usada, ou doam pra alguém que realmente precisa. eles sabem que cada item deve ter um ciclo de vida muito mais longo do que o que estamos acostumados a ver. então, ao contrário de outras marcas, a patagônia não quer te convencer de que precisa da versão nova a cada temporada. eles querem que você compre algo uma vez, e use até cansar de olhar pra ele.

mas o que realmente me fez virar fã incondicional foi a atitude do fundador, yvon chouinard, em 2022. depois de décadas à frente da empresa, ele decidiu dar um passo impensável no mundo dos negócios: doou a patagônia inteira. sim, doou. não vendeu, não passou pra uma firma de investimentos. ele entregou tudo pra um truste e uma ONG. o que isso significa? agora, cada centavo de lucro da patagônia vai para a preservação ambiental. chouinard disse que a Terra é o único acionista da patagônia. foi uma forma radical de garantir que a empresa permaneça fiel aos princípios que ele construiu ao longo de 50 anos.

essa doação não foi feita pra ele ganhar aplausos ou colher benefícios fiscais. na verdade, ele preferiu pagar impostos sobre o valor total, algo que outros bilionários evitam como praga. o objetivo era claro: ele queria que cada dólar da empresa fosse usado pra salvar o planeta, e não pra encher bolsos alheios. a estrutura criada por chouinard é única. além de garantir que a empresa nunca se desvie dos seus princípios, ela permite que a patagônia faça doações políticas. isso porque chouinard entende que, pra proteger o planeta, às vezes é preciso brigar de frente com o sistema e financiar quem tem coragem de bater de frente com os gigantes que destroem o meio ambiente.

a patagônia não começou agora com essa postura ativista. eles já estavam na luta desde 2002, quando lançaram o movimento “1% for the Planet,” que destina 1% das vendas anuais a causas ambientais. e não pararam por aí. patagônia enfrentou o governo Trump numa batalha jurídica, processando o governo quando ele reduziu o tamanho de parques nacionais protegidos. yvon chouinard foi pra guerra pra defender as terras públicas, e isso não é pouca coisa. enquanto outros CEOs se escondem atrás de discursos bonitos e promessas vazias, a patagônia age. e quando agem, eles não economizam palavras. em campanhas de marketing, eles criticam diretamente as empresas que “fingem” ser sustentáveis, chamando o setor corporativo de hipócrita. essa é a patagônia – eles não estão interessados em agradar. estão interessados em mudar as coisas.

patagônia não é só uma marca de roupa. é um manifesto contra o consumo desenfreado e a favor de um capitalismo que pode, talvez, ser menos voraz e mais humano. é por isso que, no final do dia, quando eu olho pro que tenho, eu sempre vou preferir algo da patagônia. eles não estão tentando te vender uma jaqueta. estão tentando te vender uma ideia de mundo que vai na contramão do que estamos acostumados. e é por isso que, cada vez que você veste uma peça deles, você não está só se cobrindo do frio. você veste uma postura, uma ideia, um lembrete de que existem formas melhores de fazer as coisas. é como se cada costura fosse um ponto de resistência, um desafio ao status quo. e honestamente, pra mim, nada menos que isso serve.

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2024

a razão de estar aqui

por que eu escrevo? olha, vou te dizer: não é porque eu espero mudar o mundo, e certamente não é porque acho que alguém está lá fora aguardando ansiosamente cada palavra que sai da minha cabeça. eu escrevo porque é o único jeito de manter minha sanidade em ordem. é como esvaziar a lixeira mental, colocar toda aquela porcaria que fica rodando sem parar em algum lugar que não seja a minha cabeça.

escrever é meu jeito de pegar as minhas próprias contradições, as obsessões e as frustrações, e transformar tudo em algo que ao menos pareça ter sentido. cada palavra é uma forma de domar os demônios, de dar forma ao caos e rir na cara daquilo que, se eu deixasse, acabaria comigo. eu me sento, olho para aquela página em branco, e despejo tudo ali. é como soltar a tampa de uma panela de pressão antes que tudo exploda.

e se eu estou sendo honesto, é também uma questão de controle. no papel, eu mando. a vida lá fora, nem tanto. mas quando escrevo, pelo menos por alguns minutos, sou o dono do meu universo. não há limitações, não há ordens. eu coloco as regras, eu queimo as pontes, eu invento o que bem entender. e, de alguma forma, isso dá uma sensação de poder que quase compensa toda a loucura. é um jogo de sobrevivência que só eu entendo.

mas, sabe o que é mais irônico? enquanto escrevo, algo mágico acontece. no meio desse processo egoísta, eu começo a ver as coisas de um jeito diferente. porque quando tudo está ali, impresso, sou forçado a encarar a verdade, por mais desconfortável que seja. e, de repente, o que começou como uma tentativa de exorcizar meus fantasmas vira uma forma de autoconhecimento. eu termino uma página, e o que eu ganho? um vislumbre de mim mesmo que eu nunca teria percebido se não tivesse sentado pra escrever.

então, eu escrevo. porque, no final, não importa o quão ridículo ou frustrante o mundo possa ser, sempre há algo de belo em se encarar de frente e dizer: “aqui estou eu, com todos os meus defeitos e dúvidas.” porque, de alguma forma, ao escrever, eu me descubro mais inteiro. e é isso que faz valer a pena.

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2024

o que penso de coachs e cursos on-line…

olha só, o espetáculo deprimente da vida contemporânea. tá todo mundo lá, de boca aberta, engolindo a ilusão de que dá pra hackear a vida em cinco passos e meio. de que basta pagar pra ouvir o coach do momento, aquele vendedor de fumaça com um microfone de lapela, que vai te transformar no próximo bilionário da lista da forbes. o mercado da autoajuda é o fast food da alma: prático, barato e totalmente desprovido de valor nutricional. mas, claro, pra quem tem preguiça de mastigar uma refeição de verdade, um hambúrguer gelado e meio amassado tá ótimo.

e esses cursos online, então? uma verdadeira epidemia. parece que todo mundo acordou um belo dia, olhou no espelho e pensou: “puxa, acho que vou virar especialista em alguma coisa que mal entendo e ganhar dinheiro em cima dos desesperados.” o que se vê é uma fila interminável de “mestres” do óbvio, que descobriram uma nova forma de lucrar em cima da ansiedade coletiva. é um monte de gente sem currículo, sem experiência e, em muitos casos, sem o menor talento, vendendo cursos sobre absolutamente qualquer coisa. como se o simples fato de abrir uma conta no instagram e colocar um blazer te transformasse em um guru, em um guia espiritual de bolso, pronto pra te ensinar a viver a vida que ele mesmo nunca viveu.

e o mais trágico é que funciona. porque as pessoas preferem ouvir alguém dizendo que dá pra aprender a ser fluente em francês com áudios subliminares do que ter que, sei lá, estudar de verdade. ninguém quer encarar a estrada longa, difícil e cheia de pedregulhos. preferem a promessa de uma viagem em linha reta, onde a única coisa que você precisa fazer é pagar um boleto. mas no fundo, é tudo um esquema, um grande jogo de convencimento onde, se você tá pagando pra alguém te dizer como viver, adivinha quem tá realmente ganhando?

no fim das contas, o que sobra é um exército de pessoas andando em círculos, seguindo a próxima grande moda, o próximo curso milagroso, o próximo guru que promete te tirar do buraco. e pra quê? pra acabar num buraco ainda maior, mas com a carteira mais vazia. porque enquanto você tá lá, assistindo a mais um vídeo motivacional que só te ensina a ter uma atitude “de campeão”, tá esquecendo que a vida de verdade, aquela com uma dose saudável de suor, fracasso e tentativas, continua passando.

então, quer saber? que se dane o manual, que se dane o coach, e que se dane essa ladainha de cursos online que só servem pra te manter ocupado enquanto a vida, de verdade, passa. se é pra cair, que seja de um penhasco que você escolheu subir. se é pra aprender alguma coisa, que seja o resultado das suas próprias experiências, dos seus próprios erros. e no final, quando você olhar pra trás e vir aquele rastro de caos, pelo menos vai poder dizer que foi você quem deixou. porque a única coisa que vale a pena nessa vida é isso: ter uma história que seja sua, sem precisar do selo de aprovação de um zé ninguém que decidiu que é guru da internet.

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2024

cai na real

certo, deixa eu te contar uma coisa que vai quebrar o coração de qualquer um que ainda acredita nessa ilusão de narrativa pura e objetiva: ninguém tem a menor ideia do que está fazendo. eu, você, aquele “especialista” que você vê na tv – todos nós estamos apenas tentando parecer espertos o suficiente para não sermos pegos na mentira. a ideia de que existe algum narrador onisciente e imparcial por aí é um conto de fadas criado por quem tem medo de sujar as mãos no lamaçal de preconceitos, suposições e falhas que, no fundo, compõem cada um de nós.

eu vou dizer como realmente é: ser um narrador “confiável” é um conceito ultrapassado e estéril, uma bobagem que as pessoas inventaram para se sentirem superiores. a beleza está na sujeira, nos tropeços, nos fracassos gritantes e espetaculares. porque é só quando você admite que é um ser humano ridículo e cheio de falhas que as coisas ficam realmente interessantes. o mundo já tá lotado de narradores “objetivos” e “parciais”, e, honestamente, quem se importa? estamos todos enchendo a cara com nossas próprias doses de preconceitos e inseguranças, tentando encontrar algum sentido enquanto cambaleamos de um erro para outro.

quer um conselho? estabeleça metas absurdas. não aquelas metas que te fazem parecer respeitável ou, deus me livre, “prudente”. não, eu tô falando de objetivos tão ridículos que você vai parecer um maníaco delirante só de dizer em voz alta. quer viver um pouco? então arrisca tudo. cria essas expectativas bizarras e se joga sem medo. porque é só quando você se deixa cair no abismo da idiotice que as coisas realmente interessantes acontecem. controle é coisa de gente chata, que prefere a segurança de uma vida sem graça à possibilidade de um desastre glorioso.

vamos falar a verdade: as melhores histórias nascem do desastre. do erro. do acidente. aquela vez em que você achou que sabia o que estava fazendo, só pra descobrir, de forma espetacular, que não tinha ideia. é aí que você encontra as pepitas de ouro. não nas vitórias planejadas, mas naqueles fracassos que te fazem sentar e pensar “como eu fui parar aqui?”. é esse o verdadeiro valor da vida – e não essa busca patética por um sentido, por um “significado maior”. o mundo é um caos sem ordem, e quem te diz o contrário está mentindo pra te vender alguma coisa.

sabe o que é divertido? é ser provado errado. é descobrir que você não sabe nada, e que todas aquelas ideias preconcebidas que você carregou a vida inteira são tão úteis quanto um guarda-chuva em um furacão. não há nada mais libertador do que perceber que você é um idiota e que tudo que achou que sabia é, no máximo, meia verdade. é um chute no ego, mas é um chute necessário. a humildade forçada é o melhor tempero, e, ao contrário do que muitos pensam, ela não vem com uma colherinha de açúcar.

e vou te dizer outra coisa: se você tá com medo de parecer um idiota, tá vivendo errado. não existe nada mais entediante do que alguém que passa a vida toda tentando parecer inteligente, sagaz, astuto. deixa eu te poupar do esforço: ninguém liga. de verdade. você acha que o mundo está prestando atenção em cada uma das suas decisões? acha que alguém tá anotando seus erros pra te julgar? esquece. ninguém se importa. você é livre pra ser o tolo que quiser, o palhaço que sempre tenta e, quase sempre, falha. e, ironicamente, é aí que reside a verdadeira genialidade. a melhor coisa que você pode fazer é abandonar o medo de passar vergonha. abrace a idiotice. se jogue na lama, saia dela sujo, mas rindo de orelha a orelha, porque, no fim das contas, é isso que faz a viagem valer a pena.

a vida é como um prato servido por um chef desleixado, numa espelunca sem nome. vem sem aviso, sem menu, sem garantia de que você vai gostar – ou mesmo sobreviver ao que tá comendo. e é isso que a torna tão interessante. tá tudo errado? ótimo. é amargo? melhor ainda. o doce tá lá, mas misturado com um monte de coisa que você nunca pediria de propósito. e é nessa bagunça que a beleza tá escondida, esperando pra ser descoberta por quem tiver coragem suficiente de abandonar o garfo e meter a mão no prato, de verdade.

então, esquece essa história de “seriedade”, de “objetividade”, de “confiabilidade”. a única coisa confiável é que tudo vai dar errado, cedo ou tarde. e, quando der, você vai estar lá, rindo, talvez com um dente a menos e o ego amassado, mas com uma história pra contar. e é isso que vale. se você não tá disposto a sujar as mãos, a comer o prato mais suspeito do menu, então pode pegar seu bilhete de volta e ir pra casa, porque você tá perdendo a melhor parte da viagem.

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2024

post gourmet

ah, a gourmetização da vida. agora, tudo tem que ser uma performance de ostentação cuidadosamente montada, desde o café que a gente toma até o jeito que passamos o tempo. lembra quando dava pra resolver as coisas de forma direta, sem floreios? hoje em dia, tudo é um festival de etiquetas de luxo e adjetivos desnecessários.

até o jeito que a gente relaxa foi sequestrado por essa onda. você não pode simplesmente curtir um livro ou ver um filme, tem que ser uma “experiência de leitura imersiva” ou uma “sessão de cinema premium”, cheia de aparatos que prometem uma profundidade transcendental. lembra quando você só deitava no sofá com um livro velho e deixava o mundo lá fora? agora, se o livro não vem com uma capa dura especial, impresso em papel reciclado de bambu orgânico, e autografado pelo autor num evento exclusivo, parece que nem vale a pena.

e o ar? o básico ar que a gente respira. antes, o ventilador ou o ar-condicionado davam conta do recado. hoje, somos bombardeados com “purificadores de ar com infusão de óleo essencial”, como se o nosso oxigênio precisasse passar por um spa particular antes de chegar aos nossos pulmões. tudo isso embrulhado na promessa de que você vai sentir uma paz espiritual só porque o ar agora é aromatizado com lavanda dos alpes franceses. se não te der alergia, claro.

até o sono, essa coisa tão simples, virou uma missão gourmet. lembra quando a gente se jogava na cama, puxava a coberta e boa noite? agora você tem que ter um colchão de látex com memória, lençóis de algodão egípcio e um aplicativo que monitora suas ondas cerebrais enquanto você dorme. porque, aparentemente, a gente já não sabe mais dormir. agora é preciso medir, rastrear, analisar, e acordar com gráficos e estatísticas do seu desempenho noturno.

no final, essa gourmetização é uma conspiração pra nos afastar da essência das coisas. o básico ficou marginalizado, como se o simples não valesse nada. e, na corrida por esse tal luxo de boutique, a gente vai se perdendo. porque no fundo, o que a gente quer mesmo é se jogar no sofá com um café normal, ler um livro qualquer e deixar a vida seguir seu curso. mas não – estamos presos no teatro da gourmetização, onde o trivial é pecado e o básico precisa de um upgrade. o que era simples agora é embaraçosamente sofisticado. e o básico? esse, amigo, esse está ficando cada vez mais raro.